CRÔNICAS

MORRER DE APARECIDA

Em: 07 de Dezembro de 2008
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E mesmo que toda a gente / fique rindo, duvidando
destas estórias que narro, / não me importo: vou contente
toscamente improvisando / na minha frauta de barro.
Luiz Bacellar (1928-2012)
 
Um dia - ploft! - ele bate as botas. Nesse dia, o Tuta, chorando a morte do irmão, entra no hospital e pergunta:
- Ele morreu de quê, doutor?
O médico sentencia:
- De Aparecida!.
Tuta se espanta:                      
- De Aparecida?
O homem vestido de branco confirma:
- É. A causa mortis é Aparecida.
O estetoscópio em volta do pescoço, como um colar, confere autoridade ao seu laudo. É isso mesmo. Morre-se de Aparecida, como quem morre de insuficiência renal, do coração ou de falência múltipla dos órgãos. E o irmão mais velho do Tuta morre de Aparecida.
Aparecida - para o leitor que está chegando agora - é um bairro tradicional de Manaus, próximo ao centro. Pequeno, porém decente, derrama charme pelas suas quinze ruas e treze becos. Suas fronteiras estão bem delimitadas. No sul, o igarapé de São Vicente, o famoso bosteiro. Ao norte, a Matinha, com nossos adorados rivais. O oeste, na verdade o faroeste, é território inimigo dos bucheiros de São Raimundo. A porta para a modernidade e para o mundo é o leste: Teatro Amazonas, Avenida Eduardo Ribeiro, Mercadão.
Os becos, de nomes sugestivos como Chora-Vintém, Pau-Não-Cessa, Saco-do-Alferes onde o antigo bairro dos Tocos se escondia, foram cantados no romanceiro suburbano pelo nosso poeta maior Luiz Bacellar, tocando sua frauta de barro:
 “Há tanta angústia antiga em cada prédio! Em cada pedra – nua e gasta”.
Bacellar, doente crônico de Aparecida, só não morre dessa enfermidade, porque se vacinou e virou imortal. O olhar atento do poeta percorre as casas velhas do bairro, os buracos nos soalhos, os beirais rebentados, as calhas entulhadas pelas folhas fermentadas das mangueiras, os alpendres corroídos, as cumeeiras caídas, as goteiras nos telhados, as fisionomias desgostosas e alquebradas:
- “Oh! Vede as rugas tristonhas das janelas dolorosas, dos batentes desbeiçados, das velhas portas cambadas de gonzos desengonçados!”.
 
Botando nos Tocos
Os becos do bairro – em muitos dos quais não entram carros – são sobras, restos do espaço urbano, transformado em lugar de residência por pessoas pobres, que estão agora colocando botox nas fachadas das casas. Os nomes mudaram, porque as funções são outras. O Beco da Bosta, por exemplo: sua única produção local era merda mesmo, com esgoto correndo a céu aberto. Mas aí, o seu Bento abriu uma fábrica de cachaça e justificou o novo nome, mais nobre, de Beco da Indústria, onde nasceu esse que batuca essas mal traçadas, sem que por isso houvesse cessado a indústria de cocô. Os meus desafetos dirão: aí está a prova.   
Nos seus “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, Cora Coralina faz uma declaração de amor à paisagem triste, ausente e suja dos becos suspeitos e mal afamados de Goiás. Lá, como aqui, eles são espaços de lazer, de festa, do rádio ou aparelho de som em alto volume, da fofoca, da briga, do jogo de dominó e das histórias de mil e um becos:
- “Versos... não. Poesia... não. Um modo diferente de contar velhas histórias”.
São essas velhas histórias que nos matam de Aparecida. Como se morre de Aparecida? O vírus ‘Bothando no Tocus” ataca especialmente quem está longe do bairro, como minha amiga Astrid Lima, que hoje mora em Roma, ou o Cláudio Nogueira, que ficou um tempo no Canadá. Quanto mais longe, mais vulnerável. Os sintomas são claros. De madrugada, você acorda, suado, assaltado por recordações do passado. Lembra – assim sem mais nem menos – que no dia 18 de dezembro é aniversário do Rubens Lima Pereira – o famoso Rubi Rola. Por que lembrou? Mistério.
Não é ataque fulminante, morte súbita. Não! O vírus vai se infiltrando lentamente, corrosivo, comendo a memória e o coração pelas bordas, em doses homeopáticas. O despertar de madrugada se torna freqüente, você não consegue mais dormir, 
os becos de Aparecida aparecem como cenário de antigas histórias, cujos personagens são seus moradores. Perguntas intrigantes surgem no meio da insônia: Por que a Leonor casou com o João Camilo e não com o Petel, seu cunhado, que a amava loucamente? Por que o Rubi Rola finge que é doido e engana os otários que acreditam nisso? Por que? Aí, você se lembra de uma frase qualquer do Zé Buchinho na banca de tacacá da dona Alvina.
 
Rastros de Ódio   
Quando, numa madrugada, você acorda e vê, numa tela imaginária, detalhes de “Rastros de Ódio” - um filme que você nunca assistiu, é porque a doença está em estado avançado. John Wayne, um soldado, passa a madrugada toda procurando a sobrinha que foi seqüestrada pelos índios Comanches. Natalie Wood está no esplendor de sua beleza. Como é que você lembra um filme que passou no Polytheama, nos anos 1950, mas que você nunca viu, porque não tinha grana para a entrada? É aqui que entram os becos de Aparecida.
Num deles, está Concon, cujo pai, seu Pimentel, tinha um pequeno açougue. Concon é um puta contador de filmes. Foi ele quem contou, numa grande roda no Beco da Carolina, esse filme que me assaltou de madrugada. John Wayne acelera o trote? Concon narra, movimentando o corpo como se estivesse montado num cavalo. Segura firmemente as rédeas imaginárias com as duas mãos – tololoc-tololoc-tololoc – fazendo a contra-regra e ainda – sempre cavalgando - olha pra trás para avaliar a distância dos comanches que o perseguem.
De vez em quando, no meio da narrativa, Concon puxa do coldre um revólver – o polegar pra cima, o indicador apontando para o interlocutor - e dispara: bang, bang. As balas passam zunindo, tirando fino de nossas orelhas. É o John Wayne matando comanches aos potes, em detalhes inventados, ali, na hora, de acordo com o público do beco. Não é qualquer um que é capaz de contar um filme, que será lembrado meio século depois por quem não o assistiu.
 - “Precisa ser artista para, sem tela cinemascope, sem imagens coloridas, sem Som Dolby Stereo, capturar a atenção de uma platéia. Não precisa nem ser bom ator, ou ter a voz bonita. Basta ter isso que poucos têm – a percepção da essência de uma narrativa, do que precisa ser contado, limando os excessos, mantendo a tensão seqüencial entre o antes, o agora e o depois”. Quem nos fala desse dom é Bráulio Tavares, escritor paraibano nascido em Campina Grande, mas cidadão honorário de Aparecida.
Concon tinha esse dom, mas só quem está doente de Aparecida pode apreciá-lo. É o meu caso. Minha mana, a doutora Elisa Meneghini, me receitou doses cavalares de uma substância química, denominada ritalina, do grupo das anfetaminas, para disciplinar a memória. Quem sabe, o metilfenidato me ajuda a esquecer que Rubi Rola faz 61 anos no dia 18 de dezembro? Quem sabe deslembro o bife acebolado que eu e o Geraldão expropriávamos da marmita do Armando da Bica? E a Barbearia do seu Luiz, pai da Raquel e da Liris Balbi, dentro dela cabia toda Aparecida, com suas histórias próximas do real maravilhoso. A filósofa Freida Bittencout, minha amiga, tem razão: Aparecida é caso de Antropologia. Um dia, eu ainda morro de Aparecida.

 

 

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7 Comentário(s)

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Mauro (via fb) comentou:
04/05/2013
Aproveitando o meu enxerimento de indicar palavras que nos tiram do lugar comum, um texto incomum, de uma universalidade literária que sai de dentro do autor e deu seu amor por sua origem para todos que têm em si a saudade de quem um dia soube o que é viver de verdade um tempo bom. Na minha opinião, um dos melhores do melhor: José Bessa. Aperte o cinto e boa viagem!
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Monica Raouf El Bayeh comentou:
04/05/2013
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ctjcdhjclc comentou:
08/12/2010
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yrdiyqwx comentou:
04/12/2010
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Walterlidia Cordeiro M.Lobato comentou:
12/10/2010
Morro mais é de saudade da Aparecida de voces todos filhos da Tia Elisa.
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Keila comentou:
10/06/2010
Longe como estou, acho que vou acabar morrendo de Aparecida tbm. Saudades enormes do Beco da Industria.
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Mr. Rossi Santos comentou:
29/04/2010
Penso que deve ser bom morrer de Aparecida. Conheço alguns que morrerão de Aparecida.
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