CRÔNICAS

Encontro de escritores do Norte do Brasil

Em: 08 de Setembro de 1995 Visualizações: 771
Encontro de escritores do Norte do Brasil

Todo povo necessita de literatura. Mesmo os povos denominados de ágrafos, sem escrita alfabética, produzem e consomem literatura oral e em outros tipos de registros como aqueles chamados de “narrativas gráficas” por Berta Ribeiro.  No mundo andino, os “cuentos pintados”, os “huacos mochicas” ou ainda os desenhos em cabaças servem de suporte físico para narrar e transmitir conhecimentos.

Escreve-se também nas pulseiras, nos braceletes, nos colares, nas redes, nos cestos, na cerâmica, no corpo. Todas essas escritas, que são formas de ver o mundo, de compreendê-lo e habitá-lo, se traduzem em palavras; palavras que lhe dão vida como o barro ao pensamento, à imaginação e à curiosidade – dizem os índios colombianos.

A poesia é tão indispensável à sobrevivência quanto o pão nosso de cada dia. É verdade que milhões de brasileiros nascem, crescem e morrem sem haver provado o gosto do pão da poesia. Mas esses famintos e subnutridos, que passam pela vida excluídos do banquete ao qual todos deveriam ter acesso, só fazem reforçar a constatação de que a arte é necessária.

A criação literária pressupõe a existência de um corpo – de uma elite – de especialistas que, além de produzir literatura, exerce forte influência normativa sobre os demais usuários da língua. São os escritores, que também contribuem para que o povo se identifique com a língua que fala e sinta orgulho dela.

Na Amazônia, desapareceu grande parte da literatura oral veiculada pelas línguas indígenas, muitas das quais foram exterminadas com os povos que as falavam, mas as que resistem continuam circulando. A escrita só conseguiu se firmar em um passado muito recente com a hegemonia da língua portuguesa, ocorrida tardiamente na segunda metade do séc. XIX, condicionando o comportamento da própria elite de escritores.

A forma violenta como a língua portuguesa foi imposta na região fez com que não se registrasse uma identificação da população e até mesmo de sua elite com o idioma luso, dentro daquela concepção poetizada por Fernando Pessoa e cantada por Caetano Veloso: “Minha pátria é minha língua”.

Um exemplo típico pode ser encontrado no escritor paraense Frederico José de Sant’Anna Nery, mais conhecido pelo título de barão com que foi agraciado pelo Papa Leão XIII. Nascido em Belém do Pará, em 1848, o Barão de Sant’Anna Nery falava como língua materna o português e o nheengatu. Enviado ainda jovem ao seminário de Saint Sulpice, em Paris, ele aprendeu as duas línguas faladas na Amazônia. Mas na hora de escrever, escolheu o francês.

A relação da elite literária com a identidade coletiva de um povo permite avaliar a importância do II Encontro de Escritores do Norte do Brasil, que será realizado nos dias 19 e 20 de outubro de 1995 em Boa Vista, Roraima, sob a coordenação do poeta Eliakim Rufino.

Poetas, romancistas, cronistas, contistas, dramaturgos, roteiristas, ensaístas e articulistas de todos os estados da Região Norte do Brasil se reunirão para discutir os problemas do ofício de escritor na Amazônia. Na programação constam muitas atividades como palestras, lançamentos de livros, varais, exposições, recitais, rodas de poesia, sessões de autógrafos e leituras de textos.

Alguns escritores conhecidos nacional e internacionalmente como o poeta Thiago de Mello e o romancista Márcio Souza, já confirmaram a presença, o quer por si só assegura o sucesso do evento. Estão sendo aguardados o poeta Anibal Beça, cuja obra começa a ter projeção nacional e outros poetas  como Luis Bacellar, Alcides Werk, Aldisio Filgueiras.

Até mesmo aqueles autores que não tiveram ainda seus livros publicados terão um espaço no II Encontro, conforme assegura o coordenador Eliakim Rufino. As fichas de inscrição devem ser enviadas em seu nome para a Caixa Postal 229, CEP 69.301-970. Boa Vista, Roraima. Maiores informações podem ser obtidas através do telefone (95) 224.7637.

Oxalá este Encontro de Escritores possa contribuir para o encontro dos povos da Amazônia com sua identidade, com a sua língua e com sua literatura.

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