CRÔNICAS

JUJU: NO SINGULAR, NO PLURAL

Em: 03 de Julho de 1997
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. “Dançando a quadrilha / lembrei de aulas de francês - / onde a professora?

Aníbal Beça (1946-2009), poeta amazonense, Folhas da Selva haicais
 
Quem foi a primeira amazonense que usou uma garrafa térmica? Se essa pergunta cair numa prova do vestibular, marque com um “x” a resposta certa: Cleomar dos Anjos Feitosa. Isso mesmo! Foi a Cleomar. Ninguém me contou. Eu vi. Não apenas vi. Usufrui. Aconteceu em outubro de 1955, num piquenique no balneário das Pedreiras, no igarapé do Mindu, em Manaus. Era uma garrafa alaranjada, de um litro, marca Alladin, made in USA, recém­-trazida dos Estados Unidos pelo padre redentorista Thomé Morrissey.
Consciente do momento histórico, Cleomar ergueu o recipiente tér­mico como um troféu, num gesto que Bellini repetiria anos depois com a taça Jules Rimet. Sua mão direita ligeiramente aberta com o dedo mindinho sepa­rado, flutuando no ar, exibia uma unha pintada de vermelho vivo. Confesso que jamais presenciei nada tão chique em minha vida. Diante de um público embasbacado, ela desenroscou a tampa de rolha de cortiça, serviu um suco de taperebá que eu, menino de oito anos, bebi, e declarou à posteridade:
- É impressionante! Conserva o café quente e o suco gelado. O que é quente fica quente, o que é frio, fica frio.
Kalu, Kalu
Parece banal, mas não é. O Brasil, até então, não produzia garrafa tér­mica e ninguém sabia que diabo era aquilo. Era novidade, raridade. Seu uso constituía prova de refinamento e sofisticação. Nonato Garcia em sua coluna social Nogar Tudo Vê Tudo Informa chegou a registrar a existência de algu­mas delas, importadas, em várias mansões manauaras. A geladeira Gelomatic gelava, o fogão Rey esquentava, mas uma geringonça portátil que tinha a dupla função, só mesmo vendo pra crer. Tinha de ser coisa dos States. Era a modernidade nos tocando de perto.
Nem sei se a própria protagonista lembra o fato. Mas eu lembro in­clusive a data por causa de duas mulheres – uma miss e uma cantora - para quem o ano de 1955 foi decisivo. Acontece que nesse dia, nas Pedreiras, todo mundo só falava da renhida disputa na qual Anette Stone fora eleita Miss Amazonas, derrotando Auxiliadora Câmara. Além disso, as irmãs Feitosa passaram o piquenique cantando músicas da Carmen Miranda, falecida em agosto daquele ano, duas delas inesquecíveis. Uma era:
- Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim.
A outra:
- Kalu, Kalu, tira o verde desses óio de riba deu.
Portanto, indubitavelmente, o ano foi 1955. Quanto ao mês era, in­dubitavelmente, outubro, mês das missões, quando o pessoal da Quermesse de Aparecida realizava seu piquenique anual. O uso duas vezes de “indubi­tavelmente” é para não deixar qualquer dúvida aos incrédulos. Testemunha­ram o fato: Jiddu Rebouças, Rosa Magaly, Angélica Arruda, Maria do Carmo Toledo, Odaísa Braga, Amazonina, Graciema, Georgina, Edina Soares e Glória Nogueira, entre outros.
Sempre a Glória aparece em minha memória, quando recordo da pri­meira garrafa térmica usada em Manaus, que me remete inexoravelmente ao concurso de miss e, por extensão, a um episódio que provocou a minha pri­meira grande angústia existencial ocorrido nessa mesma época, envolvendo minha prima Juju. Eis o que eu queria dizer: todo mundo devia ter uma irmã Glória e uma prima Juju.
Juju, Jujus
- Qual é o plural de Juju? A primeira vez que tia Lucinda me fez essa pergunta, há várias décadas, não pude responder. Achei esquisito. Juju, para mim, só havia uma: era Juliana, mais que uma prima, uma irmã. Alguns anos mais vividos do que eu – ela nasceu em 1940 - exercia, na infância, uma in­fluência tão grande sobre nós, que fazia a gente “virar casaca” em questões transcendentais, de vida ou morte, como foi o caso do concorrido concurso de miss Amazonas.
A disputa acirrada entre Anete Stone e Auxiliadora pelo título da mais bela amazonense rachou Manaus ao meio. As torcidas se agrediam a tapas, pontapés, puxões-de-cabelo e dentadas. Apesar disso, troquei de can­didata para ficar do mesmo lado de minha prima. Ela era, sem sombra de dúvida, nossa mentora intelectual.
Por isso, quando tia Lucinda insistiu: “Como se faz o plural de Juju”, eu pensei: “E Juju lá tem plural! Juju é singular. É única”.
Foi nessa época que Juju andou botando minhocas metafísicas na minha cabeça, provocando inquietações e angústias existenciais das quais jamais me libertaria. Conto o caso como o caso foi.
Uma bela manhã, ela chegou em casa. Veio “passar o dia”. “Passar o dia” era um costume, hoje em extinção, muito usado no tempo em que as pessoas ainda se visitavam. Com uma muda de roupa, você ia de manhã cedo para a casa de um tio, brincava com os primos, merendava, almoçava, reme­rendava, tomava banho e jantava por lá, só retornando quando começava a escurecer.
Neste dia, na hora da despedida, olhando o céu estrelado, perguntei:
- Se pegar um avião, quanto tempo levo pra chegar no telhado do céu?
- Nunca. O espaço celeste é infinito. Nem toda a eternidade basta para encontrar seu começo ou seu fim. Ele não tem fim - falou Juju.
Foi um soco seco e direto na minha inteligência. Fiquei arrasado com a re­velação. A ideia de um buraco sem fundo deixou-me deprimido. O peso da eternidade e do infinito oprimiu o meu coração. Se conviver com esses dois conceitos, hoje, já é complicado, imagine só quando criança! Senti-me um bosta, uma merdinha de nada, um cisco de pó. Filosoficamente, acabava de ser desvirginado.
No entanto, tia Lucinda insistia que para fazer o plural correto de Juju bastava seguir a mesma regra aplicada às palavras joia, pedra, joelho, coruja e pulga. Mas afinal, quem era tia Lucinda?
Tia, de verdade, de sangue, ela não era. Nós é que a chamávamos as­sim. Morava com sua irmã, a tia Lili, num palacete da Rua Alexandre Amorim, construído pelo pai, o velho Félix Azevedo, rico exportador de borracha. As duas irmãs falavam o francês como língua materna, tocavam piano, visitaram os museus da Europa, e chamavam, na maior intimidade, o pintor Gauguin, de Gô. O preço da borracha caiu assustadoramente, o velho Azevedo morreu e as duas irmãs, solteironas, tiveram que dar aula particular de francês para sobreviver na mansão herdada.
Com elas aprendemos que Juju - em francês se escreve joujou - sig­nifica brinquedo, na linguagem infantil. Que se faz o plural das palavras bijou, caillou, genou, hibou, pou e joujou acrescentando apenas um “x”, no final da palavra.
Agora, no dia 29, quando o mês agosto se despedia, abrindo espaço para a revoada dos cupins de setembro, Juliana, minha prima singular, mor­reu. No seu enterro, no Cemitério Parque da Colina, em Niterói, descobri o plural de Juju ao ver sua filha de 17 anos, bela e inteligente, também Juliana, talvez a Juliana que a Juju gostaria de ter sido, eterna, infinita.
Uma Juju fenece, outra floresce. A vida continua. Ninguém morre no plural.
P.S. – Deixo aqui um belo poema da irmã da Juju, Elisa Souto Bessa.
 
 
Retrato         
Juliana na varanda
 fumava e andava
 de costas pro caos
 sufocando as samambaias
 e sua dor de nascença
 
                        Um dia
                        cansada de seu horizonte
                        tão breve
                         fez-se leve
                        e se pôs
                        de bubuia no azul
                         Repousou no álbum de família

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