CRÔNICAS

III - Lalau, as certinhas e os cocorocas

Em: 01 de Junho de 2000 Visualizações: 6013
III - Lalau, as certinhas e os cocorocas

Era mais uma sessão ordinária da Câmara Municipal. Na tribuna, um vereador, em discurso inflamado, defendia um projeto original: a fabricação de fósforos com duas cabeças para, desta forma, aproveitar o palito inteiro. Lá pelas tantas, denunciou:

- É incrível! Entre o desperdício e a economia, o Brasil opíta pelo desperdício.
O líder da oposição pediu um aparte:
- Opta, nobre colega, opta.
O orador reagiu. As opiniões se dividiram. Armou-se o maior quebra-pau. Ninguém se entendia. O presidente da Câmara, na dúvida, botou as duas matérias em votação. O projeto do fósforo bicéfalo foi derrotado, mas “opíta” ganhou com a diferença de três votos, sob o argumento de que quando voce usa um apito, você apita, não apta.
Este fato, que aconteceu no município de Mafra, Santa Catarina, foi relatado, na década de 60, por Stanislaw Ponte Preta, o jornalista mais irreverente do Brasil, cuja metralhadora giratória vivia disparando contra a prepotência e a burrice triunfantes. Centenas de casos semelhantes, envolvendo juiz, bispo, deputado, senador, ministro, general e outros cocorocas graúdos, eram selecionados para o FEBEAPÁ - Festival da Besteira que Assola o País, promovido por ele, em sua coluna, no jornal Última Hora.
Stanislaw era conhecido em todo o País, do Oiapoque ao Chuí. Chegava em Manaus com atraso, aos sábados, quando raros exemplares do Última Hora eram disputados a tapas no único ponto de venda - a livraria Acadêmica, ali na rua Henrique Martins. O diretor do Instituto Christus do Amazonas, Orígenes Martins, sempre conseguia um, que circulava entre os professores do colégio. Foi aí que eu, deslumbrado, havia começado a olhar, com humor, a tragédia nacional.
Já no Rio, lia o Stanislaw, diariamente, em voz alta, antes da aula, para os colegas do curso de jornalismo da UFRJ, saboreando cada palavra. Recortava e guardava suas colunas. Por isso, não houve dúvidas, quando nosso professor Zuenir Ventura, que ministrava a disciplina Técnica de Reportagem e Entrevista, passou como exercício prático, valendo pra nota, a entrevista com alguém que mais admirássemos. A escolha já havia sido feita desde Manaus.
A primeira entrevista, a gente nunca esquece: preparativos, telefonemas, nervosismo, emoção. Stanislaw, de repente, estava ali, bem perto, ao alcance da voz, em seu apartamento, na Rua Leopoldo Miguez, em Copacabana, onde conversou descontraído durante mais de quatro horas, com o aprendiz de repórter, enquanto arrumava livros e discos de sua biblioteca, em estantes que subiam até o teto. Opinou sobre tudo: política, arte, literatura, música, futebol, mulher, televisão.
Nascido em Copacabana, batizado com o nome de Sérgio Porto, Stanislaw tinha, então, 43 anos, um casamento, dois enfartes, três filhas e quatro renúncias: abandonou o curso de arquitetura, a mulher, a casa e o emprego de mais de vinte anos no Banco do Brasil. Trabalhou em jornal, revista, rádio, televisão, teatro, cinema, compôs música, atuou em espetáculos e shows, publicou livros, enfim, era um multimídia.
O pseudônimo de Stanislaw surgiu, nos anos 50, no Diário Carioca, mas foi no Última Hora, um jornal alegre e panfletário, que sua coluna se consolidou. Era alimentada regularmente pelos próprios leitores, através da “Pretapress” - uma agência de notícias inventada por ele. Ocupava, diariamente, a última página, cheia de vinhetas, com um texto de fundo, notas soltas com comentários sobre os mais variados assuntos, além da foto de uma “certinha”, em trajes menores, que começou como gozação.
Os cronistas sociais tinham mania de escolher, anualmente, as “dez mulheres mais bem vestidas”, endeusando o ócio, a frivolidade e a vagabundagem. Bronqueado, Lalau argumentou:
- Vestir com classe é fácil, o difícil é tirar a roupa com idem. Aí, criou a lista das “mulheres mais bem despidas: as “certinhas”. Mas ele jurava que não era especialista na matéria:
- Ninguém entende de mulher, nem o diabo, se entendesse não tinha chifre.
 Quem, então, escolhia aquelas mulheres bem “encadernadas”? - “Não sou eu. É Deus. Eu apenas seleciono, sou o profeta dele”.
Pouco a pouco, Stanislaw foi construindo uma família imaginária, parentes que desfilavam por sua coluna, entre os quais Tia Zulmira, a veneranda anciã da Boca do Mato e três primos: Bonifácio Ponte Preta, o patriota; Rosamundo das Mercês, o distraído e Altamirando, o crápula. Cada um deles tinha uma função.
Tia Zulmira, 90 anos, ex-cozinheira da Coluna Prestes, vários anos de exílio na Europa, reunia experiência e sabedoria. Surgia quase sempre no final de algumas crônicas, metendo seu bedelho em tudo. No dia em que presenciou a novidade de um casal dançando o cha-cha-cha, comentou que já conhecia aquilo, apesar de que, de pé, era a primeira vez que via.
Bonifácio, o patriota, nasceu no dia 7 de setembro. A mãe, para fazê-lo dormir, ninava-o cantando “Ouviram do Ipiranga”. Morava numa casa verde-amarela. Defendia o governo militar, sem sucesso, porque “justificar a ‘Redentora’ é ainda mais complicado do que explicar bumba-meu-boi para sueco ou fazer o Duque de Windsor entender o que é ‘ponto facultativo’, convencendo-o a incluir a novidade na Inglaterra”.
A mãe do Rosamundo pariu com 10 meses, porque, aos nove, o primo distraído se esqueceu de nascer. Ele vivia dando vexame. Soprava velas e cantava parabéns em velório. Mas era diferente de Altamirando, o abominável, expulso do jardim-da-infância, porque jogou o canário da professora no liquidificador. O nefando Mirinho, responsável pela primeira plantação de maconha no Rio de Janeiro, era um trambiqueiro. Servia para Stanislaw castigar os costumes, exercitando seu senso ético e sua paixão moral.
A família de Stanislaw nos fazia rir do ridículo da condição humana. Com coragem e lucidez, ele baixava o sarrafo nos cocorocas, cutucando-os diariamente, escrevendo aquilo que ficava entalado na nossa garganta. Dizia o que a gente gostaria de dizer, mas não conseguia. Falava por nós, nos vingava da babaquice oficial, com estilo inconfundível e linguagem criativa. “O sol entrava em suas frases por todos os lados”, observou o eterno presidente da ABI, Barbosa Lima Sobrinho.
A minha primeira entrevista terminou com um lanche servido por Tonica, a empregada de Stanislaw e uma certeza: conversando com ele, comecei a ser jornalista. Dois anos depois, em setembro de 1968, o nosso Lalau, 45 anos, morria do coração. Os cocorocas ficaram aliviados e nós, leitores, perdemos um irmão mais velho que revidava as porradas que davam na gente. Apesar da chuva e do horror a velórios, compareci ao cemitério São João Batista, em Botafogo. Lá, o Barão de Itararé, com quem Stanislaw começou sua carreira de humorista, sintetizou o sentimento geral:
“Todos nós temos que morrer, apesar de que para mim a morte não existe, alguma coisa de nós permanece no mundo, transformando-se novamente em vida. E a herança deixada por Stanislaw é das mais admiráveis no Brasil de hoje”.
É verdade sim. Logo depois, o Pasquim o escolheu como patrono, dedicando-lhe seu primeiro número. E hoje, cada vez que alguém exercita seu olhar crítico, de forma independente, olhando o cenário nacional com humor, Stanislaw ressuscita, como nesse momento, leitor, em que ele está vivinho da silva em ti, em mim, entre nós.

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