CRÔNICAS

LINDBERG FARIAS: O DEPUTADO FUJÃO

Em: 04 de Julho de 2004
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.Criticamos aqui, nesta coluna do Diário do Amazonas, o relatório do deputado federal Lindberg Farias (PT/RJ), que propõe decepar 45% da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, habitada há vários séculos pelos índios de Roraima. Ele alega que parte dessa terra deve ficar com os fazendeiros e plantadores de arroz, que a invadiram muito recentemente, porque “eles são responsáveis por 60% da produção agrícola local”. Considera ainda que a posse da terra pelos índios constitui “um perigo para a soberania nacional”, copiando dessa forma o discurso dos militares na época da ditadura.

A crítica ao relatório feita em artigo anterior - “Cara pintada, cara pálida ou cara de pau?” - apresenta algumas evidências históricas e arqueológicas que comprovam a ocupação imemorial dos índios, o que lhes garante constitucionalmente o direito sobre a terra. Mostra também, apoiado em documentação recolhida por Joaquim Nabuco, como os índios defenderam o território brasileiro: "os peitos dos índios foram as muralhas dos sertões”, escreveu Nabuco. O artigo acabou repercutindo fora de Manaus, sendo republicado no Rio de Janeiro pelo ‘Jornal dos Economistas’(nº177), órgão do Conselho Regional de Economia, além de ter sido traduzido ao italiano e circulado em Roma.
O deputado Lindberg, que é candidato a prefeito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, não gostou da crítica, nem da sua repercussão. Contra-atacou no mesmo jornal (nº 178), com um artigo de título bombástico: “Guerra na Floresta: a quem interessa”? Mas em lugar de discutir a questão central - os índios têm ou não têm direito à terra? - ele fugiu do assunto e passou a discorrer sobre a pessoa que batuca essas mal traçadas linhas, me acusando de “passional”, “equivocado” e “claramente impregnado do mito do bom selvagem”.
Sem apresentar qualquer documentação ou prova de apoio à sua proposta, o deputado, parece que impregnado pelo mito do “mau selvagem”, preferiu reafirmar o preconceito grosseiro contra as universidades, desqualificando os centros de pesquisa, onde “as pessoas costumam estudar a teoria das coisas e não a sua práxis, o que é muito comum na academia frequentada por Bessa Freire”.
Em nenhum momento, Lindberg contestou os dados históricos. Aproveitou, no entanto, para me condenar, jurando que estou “protegido por milhares de quilômetros que separam a floresta da cátedra refrigerada da universidade” onde trabalho e que, por isso, não tenho noção do que está acontecendo em Roraima, onde, segundo ele, eu jamais pisei. A “acusação” é tão bobinha, que não merece qualquer comentário.
Enfim, o deputado Lindberg desviou o tema central da discussão - a demarcação das terras indígenas - usando para isso o recurso manjado do “argumentum ad personam”, isto é, sem condições de defender sua proposta com argumentos, tentou desqualificar quem o criticava. Não vou apresentar meu currículo para o depufede Lindberg. Está lá na Plataforma Lattes a quem interessar. Supondo que eu seja mesmo um estrangeiro, que desconheça Roraima, que nunca tenha visto um índio, que viva em gabinetes refrigerados, a pergunta é: em que isso diminui o direito dos índios sobre a terra?
Na realidade, não existe nenhum argumento honesto, coerente e legal – nenhum – que justifique tomar a terra dos índios. Por isso, o depufede Lindberg fugiu do assunto, preferindo tagarelar em torno de questões periféricas, ameaçando com uma “guerra na floresta”, se o presidente Lula homologar a Terra Indígena Raposa/Serra do Sol em áreas contínuas.
O jornalista Nilo Sérgio Gomes, editor do Jornal dos Economistas, responsável também pelo Programa “Manhã de Notícias”, da Rádio-MEC/AM do Rio de Janeiro, resolveu esclarecer essa questão. Fez um convite – a mim e ao deputado Lindberg - para debatermos a questão da demarcação das terras indígenas de Roraima. Lindberg disse que aceitava, mas na hora do programa entrar no ar, fugiu do pau, alegando uma emergência. Dias depois, o convite foi renovado, ele disse que aceitava, mas desapareceu pela segunda vez. Quarta-feira passada, pela terceira vez, ele jurou que estaria presente, mas também fugiu.
No artigo “Cara pintada, cara pálida ou cara de pau?” eu me perguntava por que um deputado federal, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, cujo programa defende claramente o direito dos índios sobre o seu território, mudava de lado e passava a representar o interesse dos grileiros, dos grandes fazendeiros e dos invasores das terras indígenas. O que é que ele ganha rasgando o programa do seu partido, traindo seus eleitores e prejudicando um dos setores mais frágeis e mais injustiçados da sociedade brasileira?
A resposta foi dada nos jornais cariocas da última sexta-feira, que noticiaram as alianças políticas feitas em vários municípios fluminenses. O diretório municipal do PFL (viche! viche!) de Nova Iguaçu decidiu se aliar com o PT local, apoiando assim a candidatura de Lindberg Farias para prefeito. O relatório propondo entregar as terras dos índios aos fazendeiros, elaborado pelo depufede Lindberg, tinha a finalidade de costurar uma aliança espúria, mostrando aos setores mais retrógrados do país que ele – Lindberg – era um homem confiável.
Agora, Nova Iguaçu é o palco de uma aliança inédita, que é capaz de prosperar se os oportunistas e picaretas tomarem mesmo conta do PT. Lindberg, Antônio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, José Carlos Aleluia e Pauderney Avelino, o mesmo combate! Francamente, não dá nem tesão para discutir. Dá vontade mesmo é de baixar o nível e dizer ao deputado fujão: Lindberg, vai cheirar teu pé, vai! O que mais a gente pode dizer para ele, leitor (a)?
P.S. - Talvez Lula, depois de 550 dias no Governo não tenha cumprido sua promessa eleitoral de homologar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, porque está submetido a um tipo de pressão que pode ser identificada no discurso de Lindberg.

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