CRÔNICAS

TÁ PIRANDO, PIRADO, PIROU!

Em: 03 de Fevereiro de 2008
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No carnaval, tem gente que samba, caindo na gandaia: são os ‘pecadores’. Mas tem gente que reza, fazendo retiro espiritual: são os ‘santos’. Não peco com a maioria, como bem gostaria, por pura incompetência: sou um anti-folião, desengonçado, que não sabe sacudir o esqueleto. Mas também não rezo com a minoria, porque sou um caipira-pira-pora, sem maiores intimidades com Deus. Aí, no carnaval, fico lesando. Só me resta uma saída: ler. Aproveito, então, a folia para atualizar minhas leituras.
 
Foi sempre assim até 1994. Perdão, minto, até 1995. Lembro bem porque, naquele ano, a Universidade me programou pra dar aulas de ‘Cultura Brasileira’. Embora incapaz de curtir o carnaval, tinha consciência da importância dessa manifestação popular para a cultura e a identidade nacional. “Não preciso brincar, mas tenho de entender o carnaval” – pensei. Por isso, naquela ocasião selecionei alguns livros, entre eles o clássico ‘Carnaval, Malandros e Heróis’ de Roberto da Matta, e ‘Carnaval Carioca: dos bastidores ao desfile’ de Maria Laura Viveiros de Castro.
 
Começo, então, a ler Maria Laura, com quem aprendo que o conhecimento etnográfico sobre o carnaval é uma chave, um fio condutor, para entender a cultura brasileira. E tome leitura! A televisão transmitindo, nas minhas barbas, o desfile das escolas de samba: isquitibum, isquitibum! E eu nem-te-ligo, lendo-que-lendo. Da Matta me ensina que o carnaval é uma manifestação cultural que nos liberta, colocando no mundo da rua as relações espontâneas e afetivas. E tome leitura! Debaixo da minha janela, passa um bloco: bumbum praticumbum prucurundum. Nada vi, porque estava lendo.
 
Foi aí que desconfiei. Havia algo de epistemologicamente podre no reino da Dinamarca, uma deformação intelectualóide no processo de busca do conhecimento. Procurava o carnaval nos livros, ele estava nas ruas. Descobri que a leitura de textos escritos por dois bons antropólogos, embora indispensável para o tipo de saber que eu precisava, não substituía a experiência pessoal. Fechei, então, os livros e fui pra avenida.
 
No sambódromo, a Portela desfilava com o enredo ‘Gosto que me enrosco’, cantando: ‘Abram alas, deixem a Portela passar’. Deixei. Fui ver os blocos de rua. Gostei. Me perdi. Agora, leitura, só ‘antes’ ou ‘depois’ da festa, nunca ‘durante’.
 
Madame Bondão
 
De lá pra cá, todos os anos, vou de telecoteco no balacobaco, surfando na onda da revitalização do carnaval de rua, que na última década pariu blocos por toda a cidade do Rio. Um deles é o ‘Tá Pirando, Pirado, Pirou’, criado em 2005 por usuários e funcionários dos serviços de saúde mental do Instituto Pinel e do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Foi nesse bloco que desfilei domingo passado, acompanhado da Beatriz, minha netarana, de três anos. Numa hora, olhei ao redor, todo mundo de bermuda. Desajeitado, eu era o único de calça e camisa. Fantasia de professor? Pode ser.  
 
“Não podemos fazer um carnaval apenas para quem já está pirado, vamos para a rua festejar com que está pirando”, diz um de seus fundadores, Gilson Secundino, do Pinel. Acertou em cheio. Desfilamos detrás do abre-alas, um boneco gigante de molemba.  O carro de som - a ‘Nave dos Loucos’ – vinha fantasiado com as cores laranja, azul turquesa e verde-limão, e com o logotipo composto por dois desenhos feitos por um paciente: um malandro de pandeiro na mão e a Madame ‘Bondão’ - uma mulata, cuja bunda farta e generosa representa o morro do Pão-de-Açucar.
 
Durante o desfile, animado pela bateria solidária da ‘Império Serrano’, dois grafiteiros pintaram um painel, inspirados no bloco, que seguiu pela Pasteur. Havia o quê? Mil pessoas? Talvez nem tanto. Eram usuários e funcionários dos serviços de saúde mental, moradores do bairro, familiares e simpatizantes da luta pela integração social dos portadores de sofrimento psíquico e alguns, como nós, bichos da fronteira, com um pé lá e outro cá. Senti como se estivesse em casa. Das janelas dos prédios algumas pessoas, solidárias, acenavam.
 
A ala mais animada era a dos usuários, conhecidos antigamente como “internos de longa permanência”, todos fantasiados. O enredo - “Viva o Choro! Viva a nobreza popular brasileira” - é uma homenagem a um gênero musical nascido no Rio de Janeiro em meados do século XIX, o chorinho, a primeira música urbana brasileira. O samba-enredo celebra Pixiguinha, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga. Termina citando Carinhoso: “Vem, vem sentir o calor dos braços meus”.
 
Bia e a mordomia
 
O Bloco seguiu pela Avenida Pasteur, passou pelo Instituto Benjamin Constant e pela UNI-Rio e parou próximo à estação do bondinho do Pão-de-Açucar, atravessando logo depois a Praça do Circulo Militar. Naquele momento, como se tivesse sido programado sob encomenda, um enorme transatlântico cruzou bem em frente à Praia Vermelha, deslumbrando a todos, como no filme de Fellini. Motorizada, acompanhando o carro de som onde sua filha Luana cantava, vinha Beth Carvalho. Fazia um sol lindo, ao contrário do ano passado, quando choveu muito.
 
Juro ter visto desfilando algumas pessoas dadas como mortas. Estava lá, fantasiada, a boquinha pintada com um batonzinho vermelho, dona Nise da Silveira, viva e bela, sambando alegre, ela que revolucionou os métodos de atendimento aos portadores de transtornos mentais. O escritor Lima Barreto, ex-interno do Hospital dos Alienados, autor de ‘Diário do Hospício – o Cemitério dos Vivos’ – vestia o uniforme padronizado dos pacientes. E Raul Seixas, o maluco-beleza, se esgoelava em cima do carro de som.
 
Mas havia também alguns nortistas, vivos, dentro do nosso coração. Silvério Tundis, o nosso Sissica, responsável com Rogelio Casado pela implantação da Reforma Psiquiátrica no Amazonas, vinha vestido de baiana, revirando os olhos, de pura sacanagem. Humberto Mendonça, o Beto, um paulista que foi residente no Hospital Colônia Eduardo Ribeiro, em Manaus, e que lutou em defesa dos pacientes psiquiátricos, carregava placa onde se lia: III Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Ceará, 1976. Todos eles foram clicados por Rogelio Casado, em cujo blog aparecem as fotos.      
 
A lembrança do Hospital Eduardo Ribeiro me remeteu ao bloco “Unidos do Eduardinho”, formado por portadores de sofrimento mental de Manaus, sob a coordenação da Associação Chico Inácio. Cadê o bloco? Em algum momento, eles também resolveram misturar sua própria loucura com a doideira geral da cidade, transformando-se num instrumento poderoso de promoção da saúde mental.
 
O psicólogo Alexandre Wanderley, do IMPP, lembrou que no ano passado os foliões do ‘Tá pirando’, que não tinham fantasia, usaram como adorno caixas de psicotrópicos distribuídas durante o desfile. “Ei, você aí, me dá um remédio aí”, alguém gritou.  No final, quando parou a música, um paciente puxou o coro: “Você pirou? Pirou por quê? Por que pirou?”. Minha netarana correu, caiu e ralou o joelho na Praia Vermelha. Começou a chorar. Eu disse: “Bia, acabou a mordomia”. Voltei com ela pra casa, já pensando no enredo de 2009 do ‘Tá pirado’.

 

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