CRÔNICAS

A língua de Jesus: a necropolítica

Em: 23 de Dezembro de 2018 Visualizações: 2981
A língua de Jesus: a necropolítica

A pergunta é oportuna em pleno natal: qual a língua usada no bate-papo que a futura ministra Damares Alves teve com Jesus em cima de uma goiabeira, em Sergipe, em 1974, conforme ela revelou na semana passada? Foi a mesma das canções de ninar com que Maria há mais de dois mil anos acalentava seu bebê? Como é que o menino se comunicava com o primo João Batista ao brincarem de esconde-esconde nas montanhas de Judá? Em qual língua José ensinava ao filho seu ofício de carpinteiro? Parece que as histórias contadas pela vó Ana e o vô Joaquim ao netinho eram no mesmo idioma usado por Maria para chamá-lo a jantar, algo assim como:

- Sai do sereno, menino Jesus! Sereno pode fazer mal! Vem logo pra dentro, menino! A sopa de lentilhas com ragu de cordeiro já está esfriando.

A receita da sopa foi transmitida por Ana à sua filha Maria em qual língua? É preciso saber se essa língua da intimidade do lar, coloquial, era a mesma em que Jesus foi julgado no Sinédrio e depois por Pilatos ou a que debateu no templo com os sábios anciãos. O evangelho dá pistas quando relata a viagem da sagrada família de Nazaré a Jerusalém na Páscoa Judaica. Jesus tinha doze anos, desapareceu e só foi encontrado três dias depois entre doutores cheios de empáfia. Maria ralhou com ele e – quem dir-te-ia! - recebeu a seguinte resposta:

- “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?” (Lucas 2:49).

Jesus não falou assim nesse português pedante. Aliás, na época de Cristo a língua portuguesa nem existia, estava dormindo dentro do latim e foi despertando devagarinho ao longo dos séculos, até desabrochar como a “última flor do Lácio”. A tradução posterior ao português, que passou por diversos filtros, não só linguísticos, construiu para o leitor brasileiro um evangelho obscurecido pela variedade escolhida, aquela ostentada por Michel Temer e pelos membros do STF, que arrotam “cultura” com mesóclises e outros bichos como sinal de poder da língua escrita.

O aramaico

Afinal, qual era mesmo a língua de Cristo? O menino Jesus nasceu em Belém, mas passou a infância em Nazaré, uma pequena aldeia com 20 casas, nos confins da Galileia, a pouco mais de 100 km de Jerusalém. Foi lá, no colo de Maria, que adquiriu sua língua materna, o aramaico, que se tornou a língua administrativa e religiosa da Antiguidade. Desde o séc. XII a.C. ela se expandiu por territórios atuais da Síria, Iraque, Turquia e costa Mediterrânea e sua escrita inspirou o alfabeto árabe. Era língua de prestígio.

No entanto, aquela variedade falada por Jesus - o aramaico galileu - era discriminada por “não seguir a norma padrão”, como hoje o português popular quando faz a alternância l/r e diz que “o que a gente ‘pranta’, a gente colhe”. Os falantes de aramaico galileu usavam “l” no lugar do “n”, algo assim como “nadrão que rouba nadrão tem cem anos de perdão” se fosse para justificar o habeas-corpus de Barrabás. Todo mundo se entendia, mas os galileus que não viviam na Judeia sofriam bullying por parte de outros judeus, como os nordestinos hoje no sul do Brasil.

Guardada a distância histórica e geográfica, Jesus era “pau-de-arara”, ele e alguns apóstolos. Pedro, um deles, sentiu isso na própria pele ao abrir a boca na noite em que Cristo foi preso e levado à casa de Caifás. Uma das criadas do sumo sacerdote passa no pátio, pergunta algo a Pedro e ao ouvi-lo, acusa:

- “Tu certamente és também um deles, pois, de fato, o teu modo de falar te trai” (Mateus 26:73).

Ele negou que fizesse parte do grupo de Jesus. O galo cantou. Pedro tentou tirar o loló da seringa, digo, o “nonó”, mas foi delatado pela sua língua de identidade, o aramaico galileu. Poderia negar em hebraico, língua que dominava tanto quanto o técnico Joel Santana o inglês, mas aí sua fala soaria como um cearense exclamando: Ai dónti bélive, bichinho!  O galo cantaria a quarta vez,

As outras línguas 

- Cristo falava aramaico - confirmou recentemente o papa Francisco

- Negativo, ele falava hebraico – discordou o primeiro-ministro de Israel Benhamin Netanyahu.

Cada um puxou a brasa pro seu tambaqui. Mas os dois parecem ter razão, diz o linguista Ghil’ad Zuckermann: o aramaico era a língua de identidade de Jesus, usada em casa pelos pais e os avós, nas conversas diárias, nas brincadeiras, no mercado, nas canções e até nos sermões e pregações. Algumas frase soltas em aramaico foram conservadas na tradução do Evangelho ao grego. Na hora de morrer, que é a hora da verdade, Jesus retorna à sua querência, as últimas palavras foram em aramaico, sua língua nativa: Eloi, Eloi, lamá sabactháni (Marcos,15,34).

No entanto, segundo Harris Birkeland, em The Language of Jesus, existem indícios de que Cristo conhecia efetivamente uma segunda língua, o hebraico bíblico, idioma litúrgico judaico que se aprendia na escola da sinagoga, estudando as escrituras e que provavelmente usou na conversa com os doutores metidos a sabichões, todos eles com o currículo César devidamente atualizado. Além disso, pode ser que Jesus arranhasse o grego, língua franca que, como o inglês hoje, permitia se comunicar com pessoas de diversas línguas e de todas as regiões. É provável que seu julgamento por Pilatos tenha sido em grego.

A placa que Pilatos mandou pregar na cruz vinha com a inscrição “Jesus Nazareno, o rei dos Judeus” em três idiomas – aramaico, latim e grego (João 19: 18-20) - para não deixar qualquer dúvida. Nas sociedades multilíngues, os usos e funções de cada idioma nos diferentes espaços sociais são determinados por políticas de línguas que definem qual delas será usada na escola, no tribunal, na igreja, no lar ou em que casos deve ser usada mais de uma língua

Quando tais medidas são decididas pelo Estado autoritário e excludente, as línguas minorizadas geralmente são silenciadas em detrimento de uma língua oficial. É o que o filósofo camaronês Achille Mbembe chama de necropolítica que tem uma das vertentes na necropolítica linguística responsável, no caso do Brasil, pelo glotocídio que extinguiu criminosamente, em cinco séculos, mais de mil línguas indígenas.

A resistência

Na perspectiva da necropolítica linguística está subjacente a ideia de que a diversidade de línguas é um castigo divino, tal qual na narrativa bíblica da Torre de Babel, e não o resultado da astúcia do ser humano, como pode ser interpretado no mito Os comedores de milho e a criação das línguas dos índios Makurap, de Rondônia. Por isso, a diversidade tem que ser eliminada. Nos dois casos, estão presentes as relações de poder, conforme dissertação de Cristiane Oliveira, que trouxe para o campo das línguas a necropolítica e comparou as duas narrativas, uma registrada na Bíblia e a outra na “Terra grávida” de Betty Mindlin. 

Os falantes das línguas minorizadas no mundo todo continuam resistindo e combatendo a necropolítica. Na Síria, onde até 2011 estava proibido dar aulas em qualquer língua que não fosse o árabe, a UNESCO diagnosticou o fim próximo do antigo aramaico - o neoaramaico ou siríaco - e apoiou a criação de uma escola de formação de professores, na fronteira com a Turquia, na cidade de Qamishli, para revitalizar essa língua que passa agora por um processo de ressurreição.

Em Israel, o Ministério da Educação atendeu solicitação dos cristãos maronitas para a introdução do aramaico no curriculum de uma escola primária na cidade de Jish, Galileia, na fronteira com o Líbano, cursada por 120 alunos. Lá, as crianças assistem diariamente um canal de televisão da Suécia, onde 80.000 imigrantes falam essa língua, usada na missa e no alto do templo de Jish onde há uma inscrição do Pai Nosso em aramaico.   

No Brasil, as escolas indígenas também resistem à necropolítica e buscam revitalizar as línguas discriminadas. A celebração do amor, que parece ser o tom do Natal, passa pelo respeito à diversidade de línguas. Cristo, pau-de-arara, índio perseguido, julgado e condenado à morte numa língua que não era a sua, parece ser o símbolo dessa resistência.

P.S. – Em Belém, não de Judá, mas do Pará, Cristiane Helena Silva de Oliveira defendeu nesta segunda (17/12) sua dissertação de mestrado: “Necropolítica linguística: silenciamento e resistência da língua Tenetehara nas aldeias do Guamá”, orientada por Ivânia dos Santos Neves, que presidiu a banca da qual participaram Ângela Fabíola Alves Chagas (UFPA) e José R. Bessa Freire (UNIRIO-UERJ). Foi lá, no Grupo de Estudo Mediações, Discursos e Sociedades Amazônicas (GEDAI) da Universidade Federal do Pará, coordenado por Ivânia, que me familiarizei com o conceito de necropolítica linguística, fonte inspiradora dessa crônica.  

Ver: Dona Fiota, a letra e a palavra - http://www.taquiprati.com.br/cronica/108-dona-fiota-a-letra-e-a-palavra-version-en-espa

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18 Comentário(s)

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Jéssica lene comentou:
02/01/2019
Que texto, digno de ser compartilhado. Feliz 2019 professor!!! Que será um ano de muita resistência!!
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Hans Alfred Trein comentou:
28/12/2018
Caro Bessa, muito oportuna a sua crônica. Defender a diversidade de línguas é defender a diversidade de culturas e propostas de humanidade. A divisão das línguas, tradicionalmente interpretada como castigo de Deus, deve ser lida como uma estratégia divina para preservar a vida na terra. A descida do Espírito Santo (Atos 2) faculta a todas as pessoas a entenderem a boa notícia em sua respectiva língua, ou seja, no respeito de sua respectiva cultura. Aliás, Gênesis 11 e Atos 2 devem ser lidos e olhados em conjunto. A torre, por sinal, pelo termo hebraico utilizado significa uma torre de vigia militar. Bem a propósito. Tanto mais importante investir na diversidade. Abraços e um ano cheio de amor e resistências, Hans
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Neide Martins Siqueira (via FB) comentou:
26/12/2018
Adorei ler esse texto! Fiquei pensando nos indígenas de Mato Grosso do Sul, muitos presos e condenados por crimes que não cometeram...porque na lingua portuguesa de prestígio não conseguem provar suas inocência...
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Heliete Vaitsman comentou:
24/12/2018
É no Ribamar Bessa que me familiarizo com conceitos nunca dantes aprendidos.. E que texto!!! Viva as línguas da resistência, as línguas das terras arrasadas (onde a grama teima em nascer...)
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Susana Grillo comentou:
24/12/2018
Bessa, que crônica sensacional! Não conhecia o conceito de necropolítica. Grandes reflexões para esta noite. Bons festejos !!!
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Lincoln Höltz comentou:
24/12/2018
Olá, querido amigo! Gostei demais da crônica. Fala neste cabra macho e pra lá de bom, que foi este semita, este Jesus, Yeshua Bin-Yussef, fala no tom de amor de hoje e amanhã, coisa que, queiramos ou não, é indissociável da lembrança que temos dele, trata da opressão burra que extingue línguas, casas, cidades inteiras, raças inteiras... Mas és um antropólogo e o teu caso somos nós, quem somos - e aí se aglutinam as perguntas mais contundentes: o que? Onde? Quando? Porque? Como?... Palavras atentas, agudas, desesperadas, até, que demonstram cuidado, preocupação e correm atrás do estudo para dar vasão aos anseios do cérebro perscrutador!!! Palavras de quem ama, de quem queria que nada tivesse se perdido irremediavelmente... Coisa de quem resiste, ajuda, registra, escora daqui, escora dali, tenta manter em pé, tenta até fazer renascer, pra não ver sumir... Coisa linda!! Amor! Ah, sobre o aramaico siríaco (deves saber), temos uma cidade no Piauí, Floriano, onde (não sei se ainda hoje) há sírios vindos de Maaloula que ainda o falam.
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Lenon Braga comentou:
23/12/2018
Excelente, como tudo que faz e escreve!
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Nilda Alves comentou:
23/12/2018
Querido Bessa leitura importante - passei ao grupo de pesquisa que coordeno. Questão a discutir com força. Aproveito para te desejar boas festas e como estou dizendo aos amigos, para 2019, lembrar que mandacaru nasce em terra seca (basta uma chuvinha). O anexo é um mandacaru florido. Minha grande admiração Nilda
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Graça Helena Souza comentou:
23/12/2018
,Bessa,você já fez a transição para o Reino do Deus Menino!!Bjs mil e Feliz Natal!!??
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Welton Oda comentou:
23/12/2018
Babá, excelente texto!! Dei altas gargalhadas, principalmente quando você ironiza o português pedante usado pelos tradutores da Bíblia. No mais, extremamente oportuno a reflexão e me lembrou muito do pensamento nietzscheano esta necropolitica
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Aurora Cano comentou:
23/12/2018
A analogia do aramaico galileu discriminado com as línguas indígenas é muito esclarecedora, especialmente com o diálogo com o Mbembe.
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Luiz Rufino comentou:
23/12/2018
Mais um ótimo texto professor José Bessa. Um desdobramento importante e pouco feito na interlocução com o Mbembe, que vem ganhando muita força aqui. Muito importante a ressalva aos ataques e assassinatos a diferentes dimensões da presença. Lembrando, que em diferentes culturas, como no caso das inúmeras codificadas no trânsito e dispersão das populações negro-africanas, a palavra, a língua é corpo. Como diria o jongueiro velho, daí se empenha a palavra com o fio do bigode! Forte abraço e obrigado pelo texto
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Miryám Hess comentou:
22/12/2018
Amei o texto. Brilhante e atualissimo.
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Felipe Milanez (via Whats) comentou:
22/12/2018
Muito legal - em setembro apresentei um trabalho no Museu Nacional sobre necropolitica e uma ecologia politica do isolamento, sobre a resistência dos povos isolados. Pena que pouca gente entendeu (maioria preocupada em defender os privilégios de acesso necropolitico aos isolados, na Funai ou numa ong que grilou a area)
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Celeste Correa (via Whatz) comentou:
22/12/2018
A língua de Jesus que jamais deveria ser esquecida é a do amor, da solidariedade e do respeito. Se todos a seguissem nenhuma língua, nenhuma etnia e nenhum povo seria exterminado. Todas as escolhas seriam respeitadas, né! Bom domingo pra ti,maninho!
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Rosemary Oliveira (via FB) comentou:
22/12/2018
Para linguistas e simpatizantes... texto poético de tão lindo.
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Ivânia Neves comentou:
22/12/2018
Desde que li pela primeira vez um texto seu, a História de Dona Fiota, fiquei encantada, no sentido amazônico. Agora, atravessando com Cristiane Oliveira, os indígenas e Jesus essa narrativa, entendo ainda mais os sentidos dos encantamentos e dessa vez com direito a passado, presente e futuro.
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Ana Silva comentou:
21/12/2018
Genial, excelente texto! Interessante esse conceito de necropolitica. Feliz Natal,com diversidade linguística.
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