Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“O patriotismo é o último refúgio de um canalha.” (Samuel Johnson)
“No Brasil, é o primeiro." (Millôr Fernandes)
Caboco, a Copa do Mundo de 2026 vem aí. E, enquanto Carlo Ancelotti tenta descobrir quem marca o Mbappé, eu aqui fiquei pensando noutra coisa: se o Brasil resolvesse montar uma seleção política para disputar o campeonato mundial da malandragem institucional, da contradição olímpica e do drible ético… meu amigo… será que alguém tomava essa taça da gente?
Porque elenco nós temos. E não é elenco pequeno, não. É seleção completa, com banco forte, comissão técnica experiente em CPI, patrocinador investigado, influencer no camarote e torcida organizada em frente ao quartel pedindo prorrogação da democracia.
O problema do Brasil nunca foi falta de craque. O problema é que nossos jogadores confundem democracia com pelada de condomínio: ninguém respeita regra, o juiz apita com medo e sempre aparece um primo do dono da bola querendo mandar no jogo. Aqui o árbitro consulta o VAR já pensando na nota de repúdio, o bandeirinha trabalha sob ameaça de live e parte da torcida dominada pelas fake news acredita que impedimento é conspiração globalista.
E o mais impressionante, caboco, é que nosso futebol político consegue unir características que pareciam incompatíveis: patriotismo de fachada, lobby de bastidor, pregação religiosa, orçamento secreto, discurso antissistema financiado pelo próprio sistema e empresário investigado posando de salvador da pátria. É como se Brasília tivesse decidido transformar o Código Penal em regulamento esportivo.
E antes que algum torcedor partidário reclame do juiz, vale lembrar: Brasília troca de camisa com facilidade. O uniforme muda; o esquema tático do poder quase sempre permanece. O fisiologismo nacional joga em qualquer governo, com impressionante capacidade de adaptação tática.
Então resolvi escalar nossa verdadeira seleção nacional. Não a da FIFA. A da FIAsca.
Porque, convenhamos, se corrupção, escândalo, cinismo institucional e teatro patriótico valessem pontos no placar… o Brasil já teria levantado a taça em umas cinco Copas seguidas.
A escalação
No gol, claro, Jair Bolsonaro. Não porque defenda bem, mas porque vive dizendo que sofreu ataque. Todo lance ele cai no chão, mais do que o Neymar, olha para o árbitro, reclama do sistema e jura que a urna estava impedida. É o único goleiro do mundo que toma gol e culpa o VAR venezuelano.
Na zaga vêm Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro. Uma dupla sólida. Um frequentemente associado, segundo investigações e reportagens, ao escândalo das rachadinhas; o outro acusado por críticos de operar uma espécie de gabinete digital de ataques políticos, o gabinete do ódio. Não marcam atacante nenhum, mas vigiam ministro do STF até no aquecimento.
Pela lateral direita entra Eduardo Bolsonaro, nosso especialista em relações internacionais. Está passando uma temporada na gringa para ver se aprende inglês direito: já sabe dizer “fake news”, “deep state” e “God bless America” com sotaque da Flórida. Sonha jogar na Champions League do trumpismo.
Pela direita vem Paulo Bilynskyj. Aquele jogador que entra duro em qualquer dividida ideológica. Não importa se a jogada é sobre educação, cultura ou vacina: ele chega de coturno, voadora e live no Instagram. Desfalque mesmo só na lateral esquerda. Afinal, ninguém da extrema direita sonharia jogar na esquerda.
No meio-campo temos Ciro Nogueira e Davi Alcolumbre, os verdadeiros maestros da seleção. Não correm muito, mas distribuem orçamento com precisão de lançamento do Zico. Jogam em qualquer governo. Se amanhã Fidel Castro voltasse montado num unicórnio, eles negociariam a presidência da comissão técnica até o intervalo.
Mais avançado vem Sergio Moro conhecido como Marreco. Começou a carreira como árbitro, depois vestiu a camisa de um time, expulsou metade do campeonato e acabou virando comentarista da própria partida. É o único volante do mundo que prende o centroavante e depois aceita emprego no clube adversário — pelo menos segundo a torcida rival.
Na armação entra Nikolas Ferreira. Um jogador moderno: corre pouco, mas viraliza muito. Não precisa tocar na bola. Aliás, ele nem sabe onde fica o gol do adversário. Basta uma frase de efeito, um corte para o TikTok e pronto: metade do estádio acredita que o escanteio comunista ameaça a família brasileira.
Pela ponta temos Mario Frias, ex-galã de novela transformado em atacante do patriotismo performático. Corre olhando para a câmera. Joga para o algoritmo. Se pudesse, pediria replay cinematográfico até de lateral.
No ataque, Michelle Bolsonaro aparece como aquela jogadora que sorri na propaganda da seleção enquanto o resto do time briga no vestiário. Reza antes do jogo, cita Deus no pós-partida e tenta convencer a torcida de que tudo aquilo ali é missão divina — inclusive episódios envolvendo depósitos e cheques atribuídos por investigações ao entorno bolsonarista.
E no banco? Ah, meu amigo… no banco está o verdadeiro perigo. Valdemar Costa Neto organiza o campeonato paralelo. Silas Malafaia faz a preleção espiritual e ameaça o juiz com o Apocalipse. Allan dos Santos transmite tudo clandestinamente da Flórida. Carla Zambelli foi escalada, mas fugiu — jogo passado, ela correu armada atrás do bandeirinha. Daniel Silveira quer substituir o regulamento pelo AI-5. Roberto Jefferson já entrou expulso antes mesmo do hino nacional.
E Renan Bolsonaro é o mascote influencer da seleção: não joga, não treina, mas aparece no camarote vendendo acesso VIP ao vestiário. Enquanto isso, Mauro Cid é o roupeiro arrependido que conhece todos os esquemas do time. Sabe quem adulterou cartão, quem desviou uniforme e quem tentou esconder a taça saudita dentro da chuteira — pelo menos segundo os depoimentos, investigações e delações divulgados até aqui.
Agora, o verdadeiro gênio da administração esportiva brasileira atende pelo nome de Daniel Vorcaro. Porque toda grande seleção precisa de patrocinador. E a nossa, naturalmente, é patrocinada pelo Banco Master.
Nada combina mais com o futebol político nacional do que um banco investigado por suspeitas de irregularidades patrocinando uma seleção especialista em inflar narrativas. O uniforme já vem pronto: número nas costas, bandeira no peito e cláusula de delação premiada no contrato.
Dizem, inclusive, que o slogan da campanha será:
“Banco Master — financiando sonhos, campanhas e versões oficiais.”
O jogo
O estádio está lotado. Bandeira para todo lado. Camisa amarela, oração coletiva, influencer vendendo patriotismo parcelado em doze vezes sem juros e tio do churrasco jurando que agora vai. A Seleção da FIAsca entra em campo ovacionada.
Do outro lado não há exatamente um adversário. Há vários. A Polícia Federal faz marcação cerrada. O STF joga fechado. A imprensa investigativa troca passes rápidos. E o fantasma da delação premiada ronda a grande área como centroavante argentino em final de Libertadores.
A bola começa com Jair Bolsonaro. Ele domina, olha para um lado, olha para o outro e imediatamente recua. Não para a defesa. Para o passado. Tenta devolver a jogada para 1964, mas o lance é interceptado pela realidade.
Carlos Bolsonaro aparece pela ponta gritando que o juiz está roubando desde o aquecimento. Abre uma live no meio da partida, convoca a torcida contra o sistema e acusa o gandula de militância esquerdista.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tabela descaradamente com o Banco Master. Daniel Vorcaro aparece elegante na tribuna de honra, distribuindo patrocínio, promessa de investimento e cafezinho gourmet para dirigente nervoso.
O locutor anuncia:
— Oferecimento oficial desta partida: Banco Master. Porque, no Brasil, até o escândalo tem naming rights.
A torcida aplaude sem entender direito.
No meio-campo, Ciro Nogueira e Davi Alcolumbre fazem o jogo clássico de Brasília: não atacam, não defendem, apenas sobrevivem. Parecem aqueles jogadores veteranos que caminham o campo inteiro sem suar a camisa, mas terminam toda partida com três cargos, quatro emendas e uma estatal no bolso.
É quando o árbitro resolve endurecer a partida. Ciro Nogueira leva cartão amarelo depois que a súmula da Polícia Federal registra suspeitas envolvendo mesadas, viagens internacionais, hospedagens de luxo e supostas gentilezas financeiras associadas a Daniel Vorcaro. Ciro reclama com o juiz, diz que aquilo era apenas “apoio logístico para o futebol nacional”.
Nikolas Ferreira recebe a bola, não dribla ninguém, mas aponta para a arquibancada, faz cara de indignado e, em cinco minutos, transforma um lateral banal numa guerra santa contra o comunismo intermunicipal.
Mario Frias pede câmera lenta até para cobrança de escanteio. Joga como quem espera virar trailer de documentário patriótico no streaming.
Na lateral, Paulo Bilynskyj arranja confusão com a arbitragem depois de descobrir que a árbitra era trans. Interrompe o jogo, esquece completamente a bola e transforma a partida num espetáculo grotesco de preconceito televisionado em horário nobre. A torcida extremista aplaude. O resto do estádio sente vergonha alheia. Cartão amarelo para Bilynskyj.
Flávio Bolsonaro também acaba advertido. O VAR encontrou encontros, áudios, patrocínios milionários e proximidade demais com Daniel Vorcaro para quem jurava nem conhecer o banqueiro direito. Cartão amarelo para Flavinho. O narrador tenta aliviar:
— Foi só uma tabelinha financeira patriótica.
Mas a torcida percebe que o atacante já estava jogando de uniforme patrocinado pelo Banco Master fazia tempo.
E então acontece o lance decisivo. Mauro Cid, o roupeiro da equipe, resolve abrir o armário. Cai de tudo: cartão de vacina adulterado, minuta golpista amassada, joia saudita sem nota fiscal, pendrive, grupo de WhatsApp, rascunho de discurso contra urna eletrônica. Até um pen drive chamado “patriotismo_final_AGORA_valendo.pptx”.
O estádio congela. Bolsonaro levanta os braços pedindo impedimento. Eduardo tenta ligação internacional para Washington. Michelle começa corrente de oração no banco.
Silas Malafaia declara que Satanás assumiu o VAR, e escalado e entra de sola, como o Carrascal no último jogo Flamengo x Palmeiras.
Mas o jogo já virou.
E Carla Zambelli? Zambelli acompanha tudo da Itália, agora protegida por uma disputa judicial internacional envolvendo pedidos de extradição. Circula por Roma como quem venceu a Champions League do vitimismo internacional. Diz que sofreu perseguição globalista enquanto promete continuar sua “missão” patriótica em solo europeu. A torcida bolsonarista comemora como se habeas corpus internacional valesse título mundial.
Expulso! Daniel Vorcaro, patrocinador-master da seleção, tenta argumentar com a arbitragem, mas recebe cartão vermelho direto após operação da Polícia Federal. Sai escoltado do gramado enquanto assessores apagam mensagens, aliados fingem que nunca o conheceram e metade da comissão técnica descobre, subitamente, que sempre foi contra o Banco Master.
O locutor encerra em tom solene:
— Banco Master: patrocinando o espetáculo… até a chegada da PF.
Daniel Silveira invade o gramado querendo prender o árbitro. Roberto Jefferson, do lado de fora, ameaça atirar na transmissão.
E a taça?
E o mais impressionante, caboco, é que, mesmo assim, parte da torcida continua acreditando que aquilo tudo é perseguição contra a seleção verde-amarela. Porque, no Brasil, o escândalo nunca entra em campo sozinho. Ele entra enrolado na bandeira nacional.
No fim da partida, o placar eletrônico trava. Ninguém sabe mais quem ganhou. Mas todo mundo sabe quem pagou o estádio.
Caboco, olhando bem, talvez o Brasil finalmente tenha encontrado sua verdadeira vocação internacional. Não somos o país do futebol. Somos o país da coletiva de imprensa depois do escândalo.
Aqui o craque não levanta taça. Levanta sigilo de cem anos.
E talvez seja por isso que continuamos apaixonados por Copa do Mundo: durante noventa minutos ainda fingimos que existe juiz imparcial, regra clara e mérito esportivo.
Mas basta desligar a televisão para descobrir que nossa seleção política continua em campo. E, convenhamos, roubando resultado com muito mais experiência.
