CRÔNICAS

Luíza Ugarte Pinheiro: a mulher nos jornais do Amazonas

Luíza Ugarte Pinheiro: a mulher nos jornais do Amazonas

“Quiero escribir, pero me sale espuma. Quiero decir muchísimo y me atollo”.

(César Vallejo. Poemas Humanos. 1937).

Quando soube da morte precoce da historiadora Maria Luíza Ugarte Pinheiro, aos 67 anos, no último 6 de fevereiro, tentei dizer por escrito que ela, com quem muito aprendi, foi daquelas alunas que um professor jamais esquece. Queria escrever, mas como no poema de Vallejo só me saía espuma, devido ao sentimento de impotência diante da constante perda de pessoas queridas em tão curto espaço de tempo. O momento coincidiu ainda com meu estado de saúde e a suspensão temporária do blog Taquiprati.

Sabe aquele meme em movimento com Jesus, que vai descendo da cruz e diz: “Prá mim chega”? Pois é. Como dizer à Luíza que sua partida doeu? Com a escrita travada, limitei-me a enviar curta mensagem solidária para Luís Balkar, seu companheiro de vida, de história, de pesquisas. O berço do namoro dos dois foi a sala de aula. Na disciplina História da Amazônia, testemunhei a troca de olhares ardentes e sorrisos amorosos. Luís Felipe, fruto daquele amor, já existia como projeto de sonho querençoso. Era tão real que podia até imaginá-lo criança, correndo alegremente entre as carteiras.  

No entanto, do oceano de sentimentos para “decir muchísimo”, só me caíam gotinhas salgadas. As palavras se embaralhavam. Foi então que li dois artigos primorosos sobre a Luíza, que gostaria tanto de ter escrito: um, do seu colega César Augusto Queirós, coordenador do Laboratório de Estudos sobre História Política e do Trabalho na Amazônia (Labuhta). O outro, do aluno Leonardo Bentes Rodrigues, orientado por ela desde a graduação até a conclusão do mestrado com dissertação sobre a colônia espanhola no Amazonas e a imprensa de imigrantes.

Deu vontade de copiar os dois e colar com um Ctrl+C e Ctrl+V. Num certo sentido, é o que vou fazer.

Saudade sobre ombros

A saudade sobre os ombros: razão e sensibilidade na trajetória de Maria Luíza Ugarte Pinheiro (1959-2026) é o artigo de César, que parafraseou A Cidade sobre os ombros, dissertação de mestrado dela sobre a luta dos estivadores de Manaus no período de 1899 a 1925. A inversão cidade/saudade evidencia que “também nós carregamos sobre os ombros a saudade de sua presença generosa, de sua escuta atenta, de sua inteligência sensível aplicada aos arquivos, às salas de aula aos espaços coletivos de pesquisa e de seu carinho e afeto terno com amigos, alunos e orientandos”.

César, que não é amazonense, aprendeu a ler Manaus com a Luíza. Escreveu que ela teve “atuação central tanto na graduação quanto na pós-graduação em História, sendo responsável pela formação de gerações de historiadores, orientando trabalhos de iniciação científica, monografias, dissertações e teses, reunindo as qualidades de orientadora exigente, mas profundamente generosa”. Suas pesquisas fizeram dela uma “referência nacional nos estudos sobre a história do trabalho urbano na Amazônia”, trazendo à nossa memória as esquecidas greves dos estivadores no alvorecer do séc. XX.

Um dos resultados das pesquisas de Luiza e Balkar foi a organização do livro “Imprensa Operária no Amazonas”, com transcrições e fac-símiles de jornais produzidos por associações de trabalhadores, por tipógrafos e militantes sindicais.  O objetivo – escrevem os dois organizadores – é “iluminar os estudos de História Operária recém-iniciados no contexto historiográfico do Norte do país”.

Essa paixão pelo jornais como fonte histórica desaguou na criação do Laboratório de História da Imprensa no Amazonas (LHIA), que reuniu na UFAM acervos documentais, visuais e bibliográficos. Eles constataram que “a História da Imprensa no Brasil e, principalmente no Amazonas, está ainda em estágio embrionário, exigindo esforços coletivos e estudos sistemáticos”.

Foi assim que ambos vasculharam hemerotecas e arquivos e, no caso do jornalismo recente, criaram até novos documentos, gravando entrevistas com jornalistas: Arlindo Porto, Almir Diniz, Benedito Azedo, Flaviano Limongi e Carlos Zamith, entre outros. Em novembro de 2010, foi minha vez de dar um depoimento. A partir da experiência em jornais de Manaus e do Rio onde trabalhei, avaliei as relações das empresas com os profissionais da imprensa, com as diferentes instâncias do Poder, com os leitores, com as fontes e os fatos, com a verdade e com a honra de quem se sente ferido pela mídia.

Quem também enfatizou as qualidades de Luísa foi Leonardo, mestre em História Social pela UFAM, que não exagera quando diz que sua orientadora é “a maior historiadora do Amazonas”. Seu compromisso era com a “história vista de baixo” desenvolvida na Inglaterra por Thompson e Hobsbawm, que focaram o olhar nas experiências de trabalhadores, de excluídos e de grupos subalternos, deixando de lado “heróis’ montados em cavalos nos monumentos em praça pública. Foi assim que ela “mapeou aqueles que carregaram a cidade sobre os ombros: os estivadores”, até então ignorados pela academia.

Tanto Leonardo quanto César destacaram a última devoção de Luíza: a historiografia das mulheres no Amazonas. Ela consultou “registros alternativos como as fontes literárias, as narrativas de viagens e principalmente a crônica jornalística cotidiana”, para retratar a imagem da mulher, “suas conquistas e seus papéis sociais, tal como projetada pelos jornais de Manaus”. Destacou posições conflituosas e contraditórias ditadas pelas experiências femininas e pelas forças sociais com as quais se relacionavam.

Caminhos da mulher

Dessa forma, consolidou a história das mulheres na Amazônia, em diálogo permanente com estudos nacionais e internacionais.  Para as mulheres que a viam fazer história – escreve Leonardo - Luíza era, mais do que uma inspiração, uma potente historiadora na luta contra o machismo. No seio do Departamento de História da UFAM, sedimentou um fecundo espaço de discussão sobre Gênero ao oferecer a disciplina de História e Historiografia das Mulheres, tomada de coragem diante de um país que se afundava num reacionarismo misógino.

Luísa traçou os Caminhos da História das Mulheres no Amazonas (2020) num texto sobre os avanços dos estudos de gênero, no qual constata que “nos últimos anos têm surgido novos trabalhos graças aos cursos de pós-graduação”, mas modestamente não dimensiona sua decisiva contribuição.

Sua tese de doutorado defendida em 2001 na PUC-SP, orientada por Heloísa de Faria Cruz, resultou no livro Folhas do Norte, dedicado pela autora “à luta dos trabalhadores amazonenses”, com a intenção de que recuperem “as experiências vivenciadas por seus antecessores, centelhas de coragem, esperanças e lutas que ficaram no caminho”.

Por isso, além de debater sua produção em eventos acadêmicos, compartilhou suas descobertas com o movimento sindical, como ocorreu em março de 2010, na Casa do Trabalhador, na homenagem póstuma ao jornalista e tipógrafo anarquista Tércio Miranda, que atuou em Manaus no período da borracha. Houve então o lançamento da edição especial comemorativa dos 96 anos do jornal que ele criou em 1914 – A Lucta Social. Na ocasião, ela destacou sua tese doutoral sobre o periodismo no Amazonas.

Tive a honra de ser convidado pela autora para escrever o prefácio do livro “Folhas do Norte” fruto da tese, que li vorazmente de uma só tacada antes de sua publicação. Destaquei que a autora encontrou muitos jornais manuscritos ou impressos nos arquivos em uma das pesquisas mais completas já feitas sobre a história da imprensa no Amazonas, com consultas a fontes até então desconhecidas e análise fina e acurada dos dados, além de abrir largas avenidas para futuros estudos.

Mas o que me interessou mesmo foi seu último capítulo - A mulher no periodismo – que combina de forma inovadora três questões: a imagem da mulher nos jornais, a mulher leitora e o nascer da imprensa feminina. "Chega a ser inquietante" - escreve a autora - "o descaso com o tema, que não foi sequer mencionado pela historiografia local".

Os jornais reacionários, que apontavam escandalosamente a emancipação feminina como um dos males dos "tempos modernos", vinculavam preconceituosamente a mulher a assuntos triviais e fúteis do cotidiano, consideradas incapazes de compreender política, economia, literatura e ciência. Circunscritas ao espaço da leitura, eram assediadas pela imprensa machista que buscava ganhar o público feminino de leitoras, em plena expansão no início do século XX.

Excluídas do processo de produção de jornais, as mulheres começaram a aparecer - nos conta Luíza - em algumas seções como "cartas das leitoras", assim como nas páginas literárias e de variedades e com a publicação aqui e ali de poemas, crônicas e contos. Numa sociedade sem tradição de leitura, os pequenos jornais, incluindo a imprensa feminina, recorrem à linguagem visual reproduzindo uma série de ilustrações, com charges, caricaturas, desenhos, tiras cômicas, que aparecem como reforço do texto.

Precursores de fake news

Confesso que a forma abjeta como os jornais retrataram a imagem da mulher me fez priorizar no prefácio esse capítulo, com muita indignação. Na Manaus de 1912, circulava de mão em mão por becos e vielas do bairro dos Tocos, hoje Aparecida, um pequeno jornal manuscrito - Raio - escrito com letra de garrancho e linguagem chula, numa ortografia que feria a norma padrão e a honra alheia. Trovejava ameaças anônimas a moças namoradoras e invadia suas intimidades amorosas dentro de suas casas que, infelizmente, não tinham para-raios.

O jornal bisbilhotava, fofocava, fazia mexericos. Um exemplo:

"O Vicente é muito besta cachorro sem vergonha. FALA-SE PORHAI que o VC está com um namoro cabuloso com a IA e está allegre porque ell’a vem hoje aqui em casa cuidado se vosser continuar, eu publico seu nome" (Raio, Manaus, 08 dez. 1912).

Outros jornais não hesitaram em publicar nomes e, embora cheios de pecados, atiraram a primeira pedra contra as madalenas de Manaus. Um deles, em nota editorial, exigia “que se proíbam essas marafonas de andarem passeando e de morarem em ruas freqüentadas por famílias" (O Martello, nº 4. Manaus, 13/09/1911). Outro sugeria "como medida sanitária" que fossem "depositadas ao forno crematório as syphiliticas para salvação da mocidade esperançosa". Identificava nominalmente a lista de prostitutas que deviam ser eliminadas (A Marreta, nº 2. Manaus, 8/04/1917). Só faltaram dizer que “não as estupravam porque elas não mereciam”. Mas o estupro verbal ocorreu.

Numa coluna intitulada "Leilões", com tratamento desrespeitoso, o mesmo jornal indicava o preço de cada uma das meretrizes:

"Pelo agente Fanchini, foram vendidas em leilão, as ratuínas, catraias e esbrogues abaixo discriminadas: Barata Descascada 1$700; Peito de aço 1$600; Rosa Tartaruga 1$550; Maria dos Prazeres 1$400; Maria Biju 1$350; Bucho Quebrado 1$200; Adélia Garage 1$150; Íris Pescoço de Ganso 1$100; Áurea 1$000" (A Marreta, nº 2, idem).

Essa é uma pequena amostra desse tipo de "órgão crítico e recreativo", repleto de fake news, preconceitos, calúnias, difamações e injúrias produzidos pela escória da sociedade, que destruía reputações, de fazer inveja às atuais postagens no face book. De circulação e tiragem modestas, mas exitosas, proliferaram dezenas deles com nomes sugestivos como A Farpa, O Coió, A Lanceta, A Marreta, Matraca, Pimenta, Tesouras, Cricri, O Chicote, O Esfola, Martello, O Pau, O Mucuim, O Perequeté, KCT.

I Love You

No entanto, havia resistência. A autora registra o aparecimento, em 1884, em Manaus, do Abolicionista do Amazonas - primeiro jornal escrito inteiramente por mulheres - que luta pela emancipação dos escravizados na Província. Mas o fenômeno não ficou restrito à capital. Codajás, pequena vila do Solimões, então com 700 habitantes, cultivou em 1897 A Rosa, cujo número 4 foi encontrado pela autora no acervo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA). Apresentava-se como "Órgão do Partido Cor de Rosa", era todo manuscrito, com caligrafia exemplar.

A mesma Codajás veria esvoaçar, anos depois, outro jornal feminino - Borboleta - cujo primeiro número data de 11 de abril de 1909. Outros títulos se acrescentam à lista como o "Amôr - mimoso jornalzinho das alumnas da nossa Escola Normal", fundado em 1909, que conseguiu se manter por mais de um ano.

O mérito dessa imprensa era expressar a opinião das mulheres numa sociedade em que a palavra pública era atributo exclusivo dos homens, além de traduzir sensações proibidas acobertadas pelo anonimato garantido pelo fato de ser manuscrito - escreve Luíza.

Após analisar o rico material encontrado, a autora concluiu com propriedade: "A presença das mulheres nos jornais do Amazonas tendeu a refletir o desconforto com que uma sociedade - que se queria moderna e atualizada com o mundo europeizado burguês - lida com os limites de sua capacidade em assimilar certas facetas dessa modernidade alardeada". Porto de lenha tu nunca serás Liverpool?

Na sua pesquisa, a historiadora consultou cerca de 200 títulos de jornais, destacando os mais representativos. Trabalhou com o acervo do IGHA e da Biblioteca Pública Estadual, além dos jornais microfilmados pelo "Plano Nacional de Periódicos Brasileiros" da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Acabou produzindo o embrião de um guia de fontes para a história da imprensa no Amazonas, comprovando a relevância do jornal como fonte para a pesquisa histórica.

O Taquiprati, em nome da parte sadia da sociedade amazonense, pede desculpas póstumas à Julieta C. de saúba e a suas amigas “mulheres da vida” pelo tratamento sórdido e injurioso que receberam. Rende homenagem à autora Luiza Pinheiro por sua condição de mulher pesquisadora, por sua inteligência, por sua militância, assim como pela sua contribuição para incorporarmos o olhar feminino em nossa visão de mundo.

Para a Luíza, bisneta do historiador português Serafim Leite, declaro com absoluta sinceridade o que o insincero Trump disse pro Lula:

- Luiza, I love you.

“Tanto amor y no poder nada contra la muerte”.  Essa frase do poema “Masa” de César Vallejo fecha o texto, que ele iniciou na epígrafe. E para relativizar a nossa impotência diante da morte, vai aqui O Canto Chorado dos Originais do Samba:

O que dá pra rir, dá pra chorar. Questão só de peso e medida.
Problema de hora e lugar. Mas tudo são coisas da vida.

Referências:

César Augusto B. Queirós: A saudade sobre os ombros: razão e sensibilidade na trajetória de Maria Luíza Ugarte Pinheiro (1959-2026). Portal de Periódicos da Universidade Federal de Santa Catarina. https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/view/111418

Leonardo B. Rodrigues. Historiografia de Maria Luiza Pinheiro. São Leopoldo (RS). Unisinos. 2026. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/662601-historiografia-de-maria-luiza-pinheiro-artigo-de-leonardo-bentes-rodrigues

José R. Bessa Freire. A mulher nos jornais do Amazonas: quem era a Ia? Manaus. Diário do Amazonas. 2015. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1132-a-mulher-nos-jornais-do-amazonas-quem-era-a-ia

Maria Luíza Ugarte Pinheiro: Folhas do Norte. Letramento e periodismo no Amazonas (1880-1920). Manaus. EDUA. 2015 prefaciado por José R. Bessa: Jornais do Amazonas: em busca do Vicente.

Maria Luíza Ugarte Pinheiro: A Cidade sobre os ombros. Trabalho e conflito no Porto de Manaus (1899-1925). Manaus. EDUA. 2015.

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