CRÔNICAS

A Mãe, o Banco Master e os Filhos da Pátria

Em: 11 de Maio de 2026 Visualizações: 222
A Mãe, o Banco Master e os Filhos da Pátria

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

“Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita.” (Tim Maia)

 

No último domingo comemoramos o Dia das Mães. Data bonita. Comercialmente emocionante. Politicamente rentável. O Brasil acorda tomado por propagandas de perfume, buquês importados e filhos adultos fingindo que ligam regularmente para suas mães. O capitalismo também mama no peito da família tradicional brasileira. Mas poucas mães no mundo são tão generosas quanto o Senado Federal.

O Senado é aquela mãe que sempre dá um jeito no menino.

O garoto cresce, vira ministro, arruma problema, aparece em operação policial, mas  mamãe Senado está ali:  — “Meu filho é inocente. Isso é per-se-gui-ção.”

E quem melhor representa essa maternidade institucional do que Ciro Nogueira, senador pelo PP de Piauí?

O homem saiu da cadeira para virar ministro da Casa Civil do governo do ex-presidente agora preso e a própria mãe sentou no lugar dele. Literalmente.

Não é metáfora. Não é figura de linguagem. Não é alegoria do patrimonialismo brasileiro. É só o Brasil funcionando normalmente.

A cadeira no Senado virou quase um almoço de Dia das Mães:

— “Ciro, meu filho, vá trabalhar no Planalto. A mamãe fica aqui e segura o teu lugar.”

E segurou.

Em qualquer sociedade minimamente constrangida, isso geraria um debate moral profundo. No Brasil, gerou apenas notas de bastidores e entrevistas sorridentes na mídia hegemônica.

A República brasileira descobriu uma forma inovadora de sucessão hereditária sem precisar de monarquia. Basta trocar a coroa pelo fundo partidário.

O Senado deixou de ser Câmara Alta. Virou plano de previdência familiar.

E talvez esteja correto. Afinal, mãe é isso:

Mãe acolhe, mãe protege, mãe perdoa, e às vezes assina suplência.

Compliance Zero

A Polícia Federal batizou a investigação do Banco Master de Operação Compliance Zero. Poucas vezes na história do Brasil uma operação policial teve um nome tão sincero.

Normalmente inventam títulos pomposos: Lava Jato, Mãos Limpas, Sanguessuga, Castelo de Areia. Mas “Compliance Zero” é quase poesia concreta. É o Estado, através da Polícia Federal, olhando para o sistema financeiro e dizendo: — “Rapaz… vocês nem tentaram esconder.”

O Banco Master cresceu oferecendo rendimentos tão generosos que parecia milagre pentecostal com garantia do Fundo Garantidor de Créditos.

O brasileiro ama duas coisas: juros altos e acreditar que risco é problema dos outros.

Enquanto isso, o banco crescia como bolo de pote em Instagram de coach financeiro. Aí surgem mensagens, favores, jatinhos, viagens, supostas mesadas, emendas convenientes, amizades republicanas e aquele perfume clássico da política brasileira: o aroma suave de influência premium com notas amadeiradas de tráfico institucional.

No centro da fumaça aparece Ciro Nogueira. Não condenado. Não julgado. Mas cercado de suspeitas como fazendeiro piauiense perto de açude seco e verba federal evaporada dizendo: — “Foi Deus quem quis.”

A beleza do caso Master é que ele desmonta uma mentira nacional: a ideia de que o sistema financeiro brasileiro funciona por racionalidade técnica.

Funciona por relações. Com mesadinhas de 300 a 500 mil reais.

O Brasil é um país onde o compliance muitas vezes não serve para impedir corrupção. Serve para transformar corrupção em PowerPoint. Aliás, por que a Andréa Sadi não faz agora um PowerPoint?

O banqueiro frequenta gabinetes.

O político frequenta resorts.

O regulador frequenta o silêncio.

E o cidadão frequenta fila de aplicativo bancário perguntando por que o PIX caiu.

Enquanto isso, bilhões evaporam com elegância institucional. O mais impressionante é que sempre aparece alguém dizendo: — “Precisamos proteger a estabilidade do sistema.”

O sistema, no caso, é uma entidade espiritual que só existe para salvar os donos do problema. O correntista comum recebe apenas estabilidade emocional negativa.

Relações perigosas

Jair Bolsonaro chegou ao poder prometendo destruir o Centrão. Vocês lembram do general Heleno: “Se gritar pega ladrão, não fica um do Centrão”?

A política brasileira é maravilhosa porque ela transforma todas as frases em piadas retrospectivas. Como dizia José Simão: Brasil, o país da piada pronta.

Bolsonaro falava do Centrão como um padre medieval falando do demônio. Até descobrir que o demônio tinha votos suficientes para impedir impeachment. Então aconteceu o milagre da conversão. E ninguém foi mais importante nessa catequese parlamentar do que Ciro Nogueira.

O homem virou ministro da Casa Civil e tutor institucional do bolsonarismo adulto. Foi uma relação bonita. Bolsonaro oferecia a retórica antissistema. Ciro entregava o sistema inteiro embrulhado para presente.

A relação ficou tão íntima que Flávio Bolsonaro chegou a cogitar publicamente Ciro Nogueira como vice numa chapa presidencial. Disse que o senador piauiense “tem todas as credenciais” para a função. Tem mesmo.  E talvez tenha sido a frase mais sinceramente involuntária de toda a direita brasileira nos últimos anos.

Era quase um casamento sertanejo: um fingia que odiava o outro, mas ambos dividiam o mesmo cartão corporativo emocional.

A ala ideológica bolsonarista nunca confiou totalmente em Ciro. E talvez estivesse certa. O Centrão não acredita em ideologia. Acredita em gravidade: vai sempre para onde existe mais massa de poder.

Ciro não é de direita, nem de esquerda, nem de centro. Ciro é governista e oportunista por vocação climática. Se amanhã uma égua assumir a Presidência com maioria no Congresso, Ciro defenderá que isso não pode continuar sendo um privilégio de Calígula. Em quinze dias haverá foto sorridente e a seguinte manchete na GloboNews: — “Ciro Nogueira prestigia posse do governo Equino.” E sem pestanejar, pouco tempo depois, muitos diriam que Ciro é verdadeiramente um filho de uma égua.

Agora, com o caso Banco Master, surgiu um desconforto. Porque escândalo financeiro é ruim para qualquer político. Mas pior ainda para quem passou anos dizendo combater “o sistema”.

A extrema-direita brasileira descobriu, da forma mais brasileira possível, que tinha terceirizado sua governabilidade justamente para aquilo que chamava de velha política. E a velha política, como mãe experiente, sempre acolhe os filhos rebeldes.

No fundo, talvez o Brasil inteiro funcione como um gigantesco almoço de Dia das Mães: todo mundo briga, todo mundo acusa, todo mundo promete nunca mais voltar, mas no fim sentam juntos na mesma mesa, dividem o mesmo bolo e fingem que a família não está em investigação pela Polícia Federal.

Brasil S/A

Talvez seja esse o verdadeiro retrato institucional do Brasil contemporâneo: um país onde banqueiros falam como estadistas, políticos agem como herdeiros, partidos funcionam como cartórios de família e operações policiais ganham nomes que parecem títulos de peça de teatro do absurdo assinada por Samuel Beckett.

No fim, ninguém quer mudar realmente o sistema. Uns querem apenas mudar de cadeira na mesa do banquete.

O escândalo passa.

A indignação prescreve.

As alianças se reciclam.

Os discursos se reinventam.

E o poder continua circulando entre os mesmos sobrenomes, os mesmos gabinetes e os mesmos jantares discretos. Talvez por isso o Brasil tenha tanta dificuldade em distinguir República de reunião de condomínio familiar.

Na relação do centrão com a direita, a ideologia dura menos que uma live eleitoral. A coerência dura menos que um sigilo de cem anos. E a memória nacional dura menos que uma promoção de Dia das Mães.

Enquanto isso, o povo assiste a tudo pela televisão, pelo celular ou pelo feed das redes sociais, sempre com a estranha sensação de já ter visto esse capítulo antes.

E talvez tenha mesmo.

Porque na politicagem do sistema os escândalos nunca terminam. Apenas mudam de nome, de partido e de logomarca patrocinadora.

Mas a família continua reunida, cantando com Dudu Nobre:

Esta família é muito unida. E também muito ouriçada.

Brigam por qualquer razão, Mas acabam pedindo perdão.

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