Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Fui perseguido por fazer oposição, mas era preciso mostrar resistência ao regime militar para acelerar o processo democrático. O futebol sempre foi um meio reacionário.” (Reinaldo, ídolo do Atlético Mineiro)
Caboco, essa semana, meu sobrinho me perguntou na lata:
— E aí, tio, já tá pronto pra torcer pelo Brasil na Copa?
A pergunta veio assim, retórica, despretensiosa, dessas que a gente responde no automático, quase como quem confirma presença numa festa de família. Era pra eu dizer “tô sim, bora!”, puxar assunto de escalação, discutir se o técnico presta, se o atacante tá em fase boa. Mas não saiu. Travou na garganta. Porque, dessa vez, torcer não é tão simples quanto parece.
A Copa de 2026 não vai acontecer em qualquer lugar. Vai acontecer, em grande parte, nos Estados Unidos. E isso, por si só, já muda o jogo. Não o jogo dentro das quatro linhas — esse continua com onze de cada lado, bola rolando e juiz apitando errado — mas o jogo maior, o jogo que cerca o futebol e que muita gente finge não ver.
E aí a memória puxa 2022 como quem puxa uma fita antiga pra conferir se não está ficando louco. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a FIFA não hesitou: suspensão, exclusão, fora das competições. A seleção russa ficou fora da Copa, os clubes foram afastados, e o discurso era claro — o futebol não pode se dissociar de certos atos. Claro que havia fatores diplomáticos, questões de segurança e até seleções se recusando a entrar em campo contra os russos. Mas, para o público, a mensagem vendida era outra: existem circunstâncias em que princípios morais devem falar mais alto do que a neutralidade esportiva. E, naquele momento, eu concordei com isso.
E, para ser justo, eu concordo com esse princípio.
Nunca comprei essa conversa de que esporte vive numa dimensão paralela, imune ao que acontece do lado de fora do estádio. Futebol movimenta bilhões, mobiliza países inteiros, ocupa espaço nos jornais, nas conversas de bar e na imaginação coletiva. Um fenômeno desse tamanho não pode fingir que guerras, fome, autoritarismo, racismo, desigualdade ou violações de direitos humanos são assuntos de outros departamentos.
Quem está no centro desse palco também não deveria fingir. Jogadores, técnicos, dirigentes e entidades esportivas não são obrigados a concordar entre si, mas têm a responsabilidade de participar do debate público. Quando milhões de pessoas escutam o que você diz — ou percebem o que você escolhe não dizer — o silêncio também vira posicionamento.
Meu problema nunca foi misturar futebol e política. Futebol sempre foi político. Meu problema é decidir quais tragédias merecem indignação e quais podem ser ignoradas sem constrangimento.
Pois bem. Avança o tempo, muda o cenário, e a coerência… essa parece ter ficado no vestiário.
Os Estados Unidos, hoje, seguem envolvidos em ações militares no Oriente Médio, incluindo ataques contra alvos civis ligados ao Irã, bombardearam uma escola de meninas de 7 a 12 anos e mataram 170 crianças. Mantêm há décadas um embargo severo contra Cuba, que pesa muito mais sobre o povo do que sobre qualquer governo. Apoiam militar e diplomaticamente Israel em conflitos que geram críticas no mundo inteiro. E continuam exercendo influência e intervenções diretas ou indiretas em outros países, levantando debates sérios sobre soberania e autodeterminação. E a FIFA, hein, criou um Premío FIFA da Paz e entregou o troféu ao Trump. Cinismo maior não existe.
E a política nem sequer está do lado de fora dos estádios. Ela já entrou pela porta da frente da Copa.
Veja o caso do Irã. Segundo reportagens divulgadas nas últimas semanas, dirigentes e autoridades ligadas à seleção iraniana demonstraram preocupação com possíveis restrições migratórias impostas pelos Estados Unidos, o que levou inclusive à discussão sobre a possibilidade de estabelecer uma base no México durante a Copa.
Imagine a reação internacional se algo semelhante estivesse acontecendo em outro país considerado adversário do Ocidente. Imagine a quantidade de editoriais, notas oficiais, pronunciamentos e debates sobre discriminação, direitos esportivos e espírito da competição.
Mas, quando acontece aqui, o assunto parece tratado como mero detalhe logístico. Uma nota de rodapé. Uma curiosidade administrativa.
Curioso como certas interferências políticas no futebol viram escândalo global e outras viram burocracia.
E o futebol? Nada.
Nenhuma sanção. Nenhuma ameaça. Nenhuma reunião de emergência. Nenhuma federação dizendo que “não dá pra fingir normalidade”. O jogo segue. A bola rola. O espetáculo está garantido.
Dois pesos. Duas medidas.
Oh! Que saudades que tenho...
Saudade de quando jogador não precisava pedir autorização pra ter consciência. De quando o gol não era só replay em câmera lenta pra vender chuteira — era mensagem, era cutucão, era afronta.
Saudade de ver Reinaldo meter gol e sair com o punho cerrado, não pra lacrar em rede social, mas pra lembrar que tinha gente apanhando, sendo calada, sendo apagada. Aquilo não era comemoração — era denúncia em forma de gesto.
Saudade de Casagrande e Sócrates, líderes da Democracia Corinthiana, que lutaram juntos contra a Ditadura Militar e pela campanha das Diretas Já. Sócrates parecia jogar de chuteira e pensamento. Entrava em campo como quem entra numa assembleia e saía dele deixando mais dúvida do que certeza. Enquanto hoje tem jogador que não sabe nem o nome do ministro da própria área, ele discutia democracia no intervalo do jogo.
Saudade de Diego Maradona, que falava o que vinha na cabeça — às vezes errado, às vezes exagerado — mas sempre vivo. Não tinha filtro, não tinha media training, não tinha medo de perder contrato. Hoje tem jogador que pesa cada palavra como se estivesse assinando cheque.
Saudade de Didier Drogba, que mostrou que jogador de futebol – diferente do baixinho Romário - não precisa virar político para ter responsabilidade pública. Em 2005, no auge da guerra civil da Costa do Marfim, usou a classificação de sua seleção para a Copa do Mundo para fazer um apelo nacional pela paz. Não acabou sozinho com a guerra, como às vezes contam por aí, mas ajudou a transformar o futebol em instrumento de reconciliação num país dividido. Enquanto muita gente hoje teme perder patrocinador por qualquer frase minimamente controversa, Drogba usou o momento mais importante da sua carreira para falar de algo maior do que ele mesmo.
Saudade de Carlos Caszely, que fez o gesto mais simples e mais raro do futebol: disse “não”. Não apertou a mão do ditador chileno Augusto Pinochet, não fez cara de paisagem, não fingiu que era só protocolo. Hoje, com mil câmeras e zero risco real, tem gente que não tem coragem nem de franzir a testa.
E não adianta dourar a pílula, não. Não é sobre ser contra um ou a favor de outro. É sobre coerência. Se o critério é moral, ele deveria valer pra todos. Se não vale, então não é moral — é político. E se é político, que se diga logo, sem esse verniz de neutralidade que ninguém mais compra.
Nesse cenário, eu olho para o campo e sinto falta. Não só de futebol bem jogado — isso até aparece de vez em quando — mas de algo que parece ter sido terceirizado: consciência.
Cadê os jogadores que pensavam o mundo enquanto jogavam bola? Cadê os que entendiam que o campo também é tribuna? Hoje, o jogador é uma marca ambulante. É contrato, é patrocínio, é imagem cuidadosamente administrada. Tem equipe de comunicação, análise de risco, roteiro até pra entrevista pós-jogo. Tudo muito bem calculado para não desagradar ninguém — e, no fim, não dizer absolutamente nada.
Eles não fazem falta só pelo talento. Fazem falta porque incomodavam. Fazem falta porque arriscavam. Fazem falta porque não eram domesticados.
Seleção atual
E aí vem a pergunta inevitável: quem é hoje o rosto da Seleção Brasileira?
A resposta continua sendo Neymar. E talvez isso explique tanta frustração.
Porque Neymar não é só o principal jogador dessa geração. Ele é também o retrato perfeito de um futebol cada vez mais vazio de qualquer compromisso coletivo que vá além do próprio espelho.
Enquanto antigos craques usavam a visibilidade para confrontar ditaduras, denunciar injustiças ou ao menos demonstrar alguma inquietação com o mundo ao redor, Neymar parece existir numa bolha feita de patrocínio, cassino online, festa privada e postagem patrocinada. Um universo onde tudo vira publicidade — menos consciência.
E não, não é obrigação de jogador virar filósofo ou militante profissional. O problema não é esse.
O problema é que Neymar ocupa o maior palco do esporte brasileiro há mais de uma década sem jamais demonstrar interesse consistente por qualquer debate social que não envolva a própria imagem.
Quando fala, normalmente é sobre ele.
Quando aparece, normalmente é para vender algo.
Quando se posiciona, quase sempre é em defesa dos próprios privilégios.
Virou especialista em transformar a própria vida em espetáculo permanente. Helicóptero, corrente de ouro, poker, streaming, mansão, festa, publi, ostentação calculada. Tudo cuidadosamente exposto numa era em que parecer relevante muitas vezes importa mais do que ser relevante.
Dentro de campo, um jogador muito habilidoso, embora tentando fazer mutreta com seguidas quedas fingidas para descolar uma falta.
Fora dele, um símbolo do esvaziamento moral do futebol moderno.
E talvez seja justamente isso que incomode tanta gente.
Porque o Brasil já teve jogadores contraditórios, problemáticos, excessivos, mas havia neles alguma pulsação humana, alguma conexão com o sofrimento real das pessoas comuns. Havia risco, indignação, posicionamento, defeito verdadeiro.
Neymar parece produto demais. Blindado demais. Artificial demais.
Até suas rebeldias soam publicitárias.
E como se não bastasse o vazio político e social dessa geração, a Seleção ainda convive com outro sintoma bastante revelador do futebol moderno: a normalização da relação promíscua entre jogadores e o universo das apostas esportivas.
Lucas Paquetá, convocado por Carlo Ancelotti, passou os últimos anos no centro de uma investigação da Federação Inglesa envolvendo suspeitas de manipulação relacionada ao mercado de apostas, acusações que ele nega. O caso investigava cartões amarelos recebidos em partidas da Premier League que teriam beneficiado apostadores.
E veja o tamanho da distorção: virou algo quase banal que um jogador da Seleção Brasileira tenha o nome associado a investigação sobre bets justamente num momento em que o futebol mundial está completamente tomado por casas de apostas, publicidade agressiva e patrocínios que transformaram o esporte numa espécie de cassino gourmetizado.
O mais assustador nem é apenas o caso em si. É o fato de quase ninguém mais se espantar. Hoje, camisa de clube virou outdoor de bet. Programa esportivo parece intervalo de cassino online. Influenciador dá “palpite”. Ex-jogador faz propaganda. Jogador posta publi.
E o torcedor, principalmente o mais pobre, vai sendo empurrado para a ilusão de enriquecimento fácil enquanto o futebol vende emoção e vício no mesmo pacote.
E Paquetá não aparece sozinho nesse retrato.
Tem líder da Seleção que escolheu o silêncio absoluto como modelo de carreira. Jogadores extremamente influentes, milionários, com alcance global, mas que raramente demonstram qualquer preocupação pública consistente com temas sociais, desigualdade, guerras, racismo estrutural ou exploração no próprio futebol.
Salvam-se poucas exceções, como Danilo e Vinícius Júnior, que ao menos em alguns momentos demonstraram preocupação pública com racismo, desigualdade ou questões sociais mais amplas.
Mas, no geral, a sensação é outra.
Aí você olha para a Seleção e percebe que ela acabou virando o retrato perfeito dessa era: menos consciência, menos posicionamento, menos povo, e muito mais mercado.
O futebol que antes vendia sonho coletivo agora também vende odd, bônus de cadastro e aposta ao vivo aos 47 do segundo tempo. E talvez seja impossível separar essa transformação da postura dos próprios ídolos dessa geração — jogadores que parecem muito mais confortáveis em contratos publicitários milionários do que em qualquer conversa minimamente séria sobre responsabilidade social.
E aí alguém pode dizer: “ah, mas futebol é só entretenimento”. É aí que mora o golpe. Porque pode ser — e muitas vezes é — uma anestesia coletiva bem embalada. Um “ópio do povo versão camisa 10”, como outro dia escrevi por aqui. A gente grita gol, vibra, se abraça… e, enquanto isso, o mundo segue pegando fogo — com transmissão em alta definição e patrocínio master.
Mas o futebol não precisa ser isso. Nunca precisou. Só ficou mais conveniente que fosse.
Utopia?
Eu, por exemplo, não torço de qualquer jeito. Sou vascaíno. E não é só por causa de vitória — até porque o Club de Regatas Vasco da Gama já me ensinou a amar mais na derrota do que na glória. Eu torço pelo Vasco porque ele carrega uma história que vai além do campo. Um clube que enfrentou racismo, que abriu espaço para quem era excluído, que nasceu do lado do povo quando isso não dava lucro nem status.
Sou vascaíno sim, mas antes disso, sou brasileiro. Torcer, pra mim, sempre teve um pouco de escolha moral nisso.
E é por isso que a pergunta inicial não é tão simples. Porque sim, eu sou patriota. Quero ver o Brasil ganhar, quero sentir aquela alegria coletiva que só a Copa traz. Mas antes de ser brasileiro, eu sou humano. E isso muda tudo.
Porque, como já disseram por aí, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. E a Copa do Mundo é, talvez, o maior palco que existe. Bilhões de olhos voltados para o mesmo lugar. Uma oportunidade rara de dizer algo que o mundo inteiro pode ouvir.
E o que a gente faz com isso? Nada? Segue o jogo? Finge que não está acontecendo nada?
Num cenário como esse, o silêncio deixa de ser neutro. Ele vira escolha. E talvez fosse justamente o momento de fazer diferente. De ver seleções se posicionando, jogadores falando, camisas carregando mensagens, gestos que rompam a normalidade confortável. Até boicotes, se fosse o caso. Não por espetáculo, mas por coerência mínima.
Porque não dá pra exigir consciência do torcedor e aceitar silêncio absoluto de quem está no centro do palco.
Então, respondendo à pergunta:
Estou pronto pra torcer?
Estou. Mas não do jeito automático, não do jeito anestesiado.
Vou torcer com alegria, sim. Mas também com inquietação. Com um olho no campo e outro no mundo. Porque, no fim das contas, o problema nunca foi o futebol.
O problema é quando ele serve pra gente esquecer de tudo o que está fora dele.
E se essa Copa for só festa, só marketing, só distração bem produzida… então, meu amigo, não foi nenhum time que venceu.
Foi o silêncio. E hoje, aquele barbudo alemão do sec. XIX deixaria a religião de lado e diria que “o futebol é o ópio do povo”.
