Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Nunca faças aposta. Se sabes que vais ganhar és um patife, e se não sabes és um tolo.” (Confúcio)
Confesso, caboco, que comecei essa história animado.
Depois de tantos anos vendo o futebol embalado no plástico brilhante da mídia tradicional — aquela que sempre parece transmitir o jogo com a mesma emoção de quem anuncia reajuste de tarifa bancária — achei que finalmente teria uma experiência diferente. A Copa estava chegando e eu estava genuinamente feliz porque iria acompanhar parte dela por outro caminho: a CaséTV.
Não era pouca coisa.
Havia algo simbolicamente bonito naquele projeto. Um sujeito que nasceu fora das estruturas tradicionais, falando uma linguagem popular, aproximando gente jovem do esporte, furando o bloqueio da mídia hegemônica e provando que talvez existisse espaço para outra forma de narrar o mundo. Não era apenas futebol; existia ali uma sensação quase política: a de que alguém tinha conseguido entrar pela porta dos fundos do castelo e sentar na mesa principal.
E talvez tenha sido justamente por isso que a decepção veio com tanta força. Porque eu descobri que a educação da CaséTV não foi libertadora. Ela foi bancária.
E aqui, peço licença para misturar um pouco as referências e cometer uma pequena heresia intelectual.
Existe uma frase atribuída ao pensador e educador Paulo Freire que costuma aparecer resumida de várias formas, mas cuja ideia central continua poderosa: quando o oprimido não desenvolve consciência crítica, seu maior desejo não é acabar com a opressão — é ocupar o lugar do opressor. Foi o que aconteceu com o escravizado Prudêncio, personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o clássico escrito por Machado de Assis. Quando ambos eram crianças, o negro Prudêncio servia de “cavalo” para Brás Cubas, que colocava freios na boca dele e o chicoteava para brincar de montaria. Já adulto, Prudêncio alforriado, comprou seu próprio escravo a quem maltratava, reproduzindo a violência por ele sofrida.
Caboco, a literatura nos ajuda a ver o mundo. O genial Machado viu isso no século XIX. Mas não quero exagerar nem transformar transmissão esportiva em luta revolucionária. Calma. Não é isso.
Mas não consegui deixar de sentir um desconforto curioso ao perceber que aquilo que parecia uma ruptura talvez fosse apenas uma atualização estética do mesmo mecanismo.
As bets
Sai o estúdio engomado. Entra o cenário descolado. Sai o comentarista com cara de quem declara imposto. Entra a linguagem de amigos. Sai o marketing de gravata. Entra o marketing de chinelo.
E, no meio disso tudo, aparece a bet. Não a Bet da minha infância, a vizinha da minha avó, que disputava concurso de boneca do arraial do bairro Aparecida.
Primeiro A Bet entra igual a minha tia Dile, visita educada: “imagina só, sem compromisso”. Depois senta no sofá, pega a senha do Wi-Fi e quando você percebe, já está dando opinião sobre a decoração da casa.
Sem perceber, eu já não estava só assistindo futebol. Estava atravessando um corredor polonês de estímulos cuidadosamente montado para transformar escanteio em expectativa e expectativa em boleto emocional.
Saudades da publicidade antiga que era igual a vendedor de pamonha no sinal: interrompia, gritava, você ignorava e seguia a vida.
A publicidade nova não interrompe. Ela se fantasia de amiga.
Antes existia o jogo e existia o intervalo. Agora parece que o intervalo fez concurso público e virou parte da transmissão.
A odd aparece como estatística. O comentário vira “curiosidade”. A brincadeira vira oportunidade. E a oportunidade vira aquele tio que nem sabe o que é odd, mas chega dizendo: Tenho um esquema aqui sem risco.
A aposta moderna não entra pela porta dizendo: “Quer perder dinheiro?”
Ela entra perguntando: “Você entende de futebol, né?”
E aí mora a malandragem. Porque ninguém acha que está apostando. A pessoa acha que está demonstrando conhecimento tático. É quase uma pós-graduação em arrogância estatística: o sujeito assiste três cortes no TikTok e sai convencido de que não está apostando, mas fazendo investimento esportivo de alta performance.
Só que o sistema não precisa que você ganhe. Precisa que você volte.
As bets cresceram vendendo uma ideia elegante: entretenimento. Mas entretenimento, nesse caso, às vezes funciona como aqueles restaurantes que cobram couvert artístico sem perguntar. Você entrou para comer, saiu financiando uma banda de Boi-Bumbá e ainda agradeceu.
O sistema vende autonomia enquanto produz repetição. Vende estratégia enquanto depende do retorno constante. E o futebol, que sempre foi catarse coletiva, passa a ser atravessado por uma pergunta silenciosa: a emoção ainda basta ou agora ela precisa render alguma coisa?
No limite, não se trata apenas de publicidade invasiva. Trata-se de um modelo econômico que aprendeu a se disfarçar de escolha individual — o que, historicamente, sempre foi a forma mais eficiente de não parecer problema social. Porque se tudo é decisão pessoal, ninguém é responsável por nada. Nem o algoritmo. Nem a plataforma. Nem o patrocinador. Nem o comentarista empolgado.
E sobra sempre alguém muito livre… e muito endividado.
Opinião alheia
A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) chamou atenção para algo que muita gente preferiu ignorar: o problema não é simplesmente existir anúncio de aposta. O futebol brasileiro inteiro está atravessado por dinheiro de bet. Clubes, campeonatos, influenciadores, transmissões. Fingir surpresa seria teatro.
A questão é outra.
Em que momento assistir futebol deixa de ser assistir futebol e passa a ser participar de um ambiente desenhado para manter você apostando?
Essa pergunta me pareceu honesta. Não porque exista uma resposta simples, mas porque aponta para algo mais profundo que moralismo.
Quem foi ainda mais precisa, na minha opinião, foi a jornalista Flávia Tavares, ao deslocar o debate da legalidade para o impacto social. Porque existe um truque muito eficiente no nosso tempo: transformar toda crítica social numa acusação de censura.
Questionou? Quer proibir.
Criticou? É contra liberdade.
Mas existem produtos cuja discussão nunca foi apenas individual. Ninguém fala de cigarro apenas como escolha privada. Ninguém fala de álcool apenas como autonomia. Porque determinados mercados produzem custos coletivos. E talvez esteja acontecendo exatamente isso com as bets.
Marx talvez tivesse dado uma risada amarga diante disso. Ele dizia que o capitalismo possui uma tendência de transformar todas as relações humanas em relações mercantis. O mercado não se contenta em vender objetos; ele aprende a colonizar experiências.
Primeiro se vende produto. Depois se vende estilo de vida. Depois se vende identidade. E, quando fica realmente eficiente, começa a vender modelos de existência.
Sem perceber, a gente para de perguntar apenas quem joga melhor, quem narra melhor ou quem ganha mais. Começa a perguntar — ainda que em silêncio — quem vale a pena ser.
Talvez por isso certas declarações aparentemente banais me chamem atenção.
Porque existe algo revelador quando uma pessoa que já alcançou dinheiro, reconhecimento e prestígio ainda olha para outra e diz: “na próxima vida, eu queria ser esse sujeito”.
Nesse ponto, a conversa deixa de ser sobre futebol. E passa a ser sobre régua.
Reencarnar em Neymar
Quando vi a declaração de Tiago Leifert dizendo que gostaria de reencarnar em Neymar, confesso que senti um certo alívio intelectual. Finalmente alguém tratando reencarnação como ela talvez mereça no século XXI: não como mistério espiritual, mas como espécie de programa de upgrade existencial.
Só que, pelo menos na leitura espírita mais tradicional — que no Brasil circula quase como idioma paralelo — a lógica não funciona bem assim.
A reencarnação não seria troca de avatar nem upgrade de carreira. A ideia é mais inconveniente: cada existência seria compatível com aquilo que ainda precisa ser aprendido.
Você não volta para mudar de cenário; volta para trabalhar a si mesmo. Não no sentido de prestígio ou conforto, mas de necessidade pedagógica. O espírito não encarna onde deseja, encarna onde precisa.
Isso já torna a frase curiosa, porque Tiago Leifert não é alguém projetando ascensão social. Ele já está do outro lado da vitrine: dinheiro, fama, reconhecimento, carreira consolidada. Não é desejo de “subir na vida”. É outra coisa.
Então a pergunta passa a ser: o que exatamente se deseja quando se diz “queria ser Neymar”?
Porque Neymar ocupa um lugar ambíguo no imaginário brasileiro. Quase ninguém discute seriamente o talento — ele é evidente demais para debate. O que sempre esteve em jogo é o entorno: maturidade, escolhas, disciplina, exposição constante, e a sensação recorrente de que havia ali uma potência esportiva maior do que a trajetória acabou consolidando.
É quase uma figura de excesso: talento em abundância, narrativa em disputa.
E aí, quando alguém já “bem-sucedido” diz que gostaria de reencarnar justamente nisso, a frase deixa de ser sobre Neymar e começa a dizer algo sobre a régua de quem fala.
Porque, dentro da lógica espírita, se cada vida é uma etapa de evolução, o elogio involuntário vira ambíguo: o que exatamente está sendo tomado como “próximo nível”?
E talvez o mais interessante seja isso: a frase não revela muito sobre Neymar. Mas pode revelar bastante sobre como certos lugares já consolidados no topo passam a olhar para o próprio horizonte — e para o que consideram avanço.
No fim, talvez tenha sido só uma metáfora mal calibrada de admiração. Mas metáforas também escorregam. E às vezes escorregam exatamente para onde a pessoa não estava olhando.
Por fim...
Terminei aquela transmissão com a leve sensação de quem entrou para assistir futebol e saiu com um pequeno curso involuntário de sociologia aplicada, marketing emocional e filosofia de boteco com atualização em tempo real.
Eu tinha começado achando que estava escapando da TV tradicional. Mas descobri que a mudança não era exatamente de mundo — era de roupa. A CaséTV trocou a gravata pelo moletom, mas o algoritmo continua bem alinhado, obrigado. E o futebol, que sempre foi um pouco espetáculo e um pouco bagunça, agora também é vitrine de atenção disputada em tempo integral.
Em algum momento, entre uma narração empolgada e outra, percebi que o jogo já não estava sozinho em campo. Tinha sempre uma segunda camada comentando junto, sugerindo possibilidades, abrindo caminhos paralelos de emoção — alguns deles bem mais rápidos que o próprio lance.
E talvez por isso a frase sobre “reencarnar em Neymar” tenha soado tão natural no meio disso tudo. Como se a vida também pudesse ser narrada em rankings discretos e versões alternativas de sucesso.
Não é que tudo esteja conectado de forma explícita. É só que certas peças parecem aprender rápido demais umas com as outras.
Mas o futebol ainda resiste. De vez em quando ele ignora algoritmo, desmonta previsão, humilha especialista e lembra que emoção não precisa virar planilha para existir.
Caboco, entrei para assistir futebol. Saí com a sensação desconfortável de que, em algum momento, o jogo continuou em campo — e quem começou a ser observado fui eu.
