CRÔNICAS

Quem era Camões no bairro de Aparecida?

Quem era Camões no bairro de Aparecida?

“E mesmo que toda a gente / fique rindo, duvidando / destas estórias que narro / Não me importo: vou contente / toscamente improvisando / na minha frauta de barro”. (Luiz Bacellar. Frauta de barro. 1963)

Dois poetas e um bairro. Talvez até por dever de ofício, Luiz Bacellar (1928-2012) fosse o único morador do popular bairro dos Tocos, em Manaus, que nos anos 1950 sabia quem era Luiz Vaz de Camões, seu xará, nascido em Portugal no séc. XVI. Mas "todo o mundo é composto de mudança". Com a criação da paróquia, o bairro trocou o nome para Aparecida. E Bacellar? Ficou conhecido nacionalmente ao ganhar, em 1959, o Prêmio Olavo Bilac de poesia com o voto encomiástico do poeta Manuel Bandeira. Quanto a Camões, o príncipe dos poetas, tema de aulas de literatura do Colégio Estadual do Amazonas, seu nome passou a designar a mais importante distinção literária da língua portuguesa.

Luiz, o português, inspirava Luiz, o amazonense que, sempre no final da tarde, costumava sentar-se em pijamas numa cadeira de balanço na calçada de sua casa na rua Xavier de Mendonça para ler um livro diante de frondosa mangueira. Era Os Lusíadas. Lido e relido. Um dia, levantou os olhos e observou moleques que, depois de jogarem bola na rua, se lambuzavam com mangas maduras caídas da árvore. Leu para nós um trecho do Canto V, com voz que tremia levemente, num tom carregado do peso da história ali contida. Ouvimos em silêncio respeitoso e vibramos com os versos:

Vasco da Gama, o forte Capitão, / Que a tamanhas empresas se oferece /

De soberbo e de altivo coração, / a quem Fortuna sempre favorece.

- Vocês entenderam? – perguntou Bacellar, autor de Frauta de Barro, “uma das mais importantes obras da poesia brasileira de todos os tempos e toda escrita em Manaus”, segundo Thiago de Mello. Quem respondeu foi o Ivan Boca-de-sentina, apelido do mais escolarizado da turma:

- Entendi. Ele está dizendo que a sorte sempre favorece o Vasco, o time da virada.

Prosseguiu fazendo referência ao noticiário dias antes da Rádio Baré, quando o Real Madrid, que disputava com o Vasco a taça do Torneio de Paris, começou ganhando com gol do Di Stéfano, mas o Cruzmaltino virou o jogo com a vitória final de 4 x 3. Citou os craques Sabará, Vavá e Pinga, cuja atuação em campo repercutiu ali em frente na banca de tacacá da dona Alvina.

Bacellar esclareceu didaticamente que o Vasco da Gama do verso era uma homenagem ao grande navegador português e que o nome do Clube de futebol do Rio era uma homenagem a ele, que descobriu o caminho marítimo para a Índia, sem o qual não estaríamos comendo mangas. A mangueira. desconhecida no Brasil, foi trazida de lá e se aclimatou muito bem aqui.

- Mas então porque ele menciona Bellini, “o forte capitão” do Vasco? - indagou Ivan abrindo bem a boca.

- Não! Não! Bellini é o capitão do time, mas o “forte capitão” do verso é o próprio Vasco da Gama. Sua história está aqui – dizia Bacellar dando tapinhas com a mão na capa marrom do livro. Mostrou um mapa e nos aconselhou a ler Os Lusíadas para conhecer mais a história de quem inspirou o nosso time.

As ruas do bairro

Os vascaínos roíamos as unhas de curiosidade, mas era difícil entender o que estava escrito. O livro, que usa linguagem do séc. XVI, cantava - segundo Bacellar - a coragem do povo lusitano que, por sinal, se fazia presente nos nomes das ruas do bairro, a começar por Xavier de Mendonça, irmão do Marquês de Pombal, que governou o Estado do Grão-Pará no séc. XVIII.  Portugal estava encravado em cada paralelepípedo da outra principal artéria, batizada com nome de Alexandre Amorim, cônsul de Portugal, que criou no séc. XIX a Companhia de Navegação do Alto Amazonas.

Os logradouros glorificam o colonizador: militares, políticos, comerciantes, administradores com título nobiliárquico, como Wilkens de Matos, o barão de Maruiá, descendente de lusitanos. E os poetas? Nada. Nem morta, filha. Ou “nem fal´cida, cachopa”, na tradução de Márcio Souza ao português lusitano, uma das tantas línguas faladas em nosso idioma. Inexiste em Aparecida uma rua Camões ou Sá de Miranda. Sequer um beco Ajuricaba a celebrar a resistência indígena. Por que não trocar agora o nome da Xavier por rua Luiz Bacellar, descendente de portugueses?

Bacellar jurava que sua família vinha lá da “terrinha” desde tempos imemoriais, daí seu amor pela cultura portuguesa. Tudo teria começado no séc. XIII, com o Conde de Barcelos, filho bastardo de D. Dinis, o “Rei Trovador”, autor de “cantigas de amor, cantigas de amigo e cantigas de escárnio e maldizer”. Bacellar garantia, portanto, que sua origem era nobre e que descendia do rei poeta. Quem foi verificar essa história in loco foi o pintor Moacir Andrade, morador na rua Alexandre Amorim. Em 1969, sob o patrocínio do Itamaraty, ele realizou uma exposição individual de seus quadros em Portugal, alguns deles hoje no acervo do Museu de Arte Moderna de Lisboa.

Depois de ser empossado como membro da Academia de Artes de Lisboa, Moacir aproveitou para visitar o Paço do Conde, no distrito de Braga. Lá encontrou no topo de um morro de granito o castelo em ruínas, que começou a se desmilinguir com o terremoto de 1755. Foi aí que o pintor desconstruiu a nobreza do nosso poeta, exibindo fotos. Inventou, de pura sacanagem, que Bacellar descendia de um plebeu, cuidador dos cavalos, das carruagens e da estrebaria. Diariamente o Conde de Barcelos gritava para o seu cavalariço anônimo:  

- Ô M´nino, ba selar o cavalo.

Por causa disso, de tanto o Conde repetir a ordem ba selar, ba selar, todo mundo começou a chamar o m´nimo sem nome de Bacelar – dizia Moacir zoando seu amigo poeta.

Tripa de vitela

Mas os portugueses vivos, de carne e osso, não cessavam de chegar a Manaus, especialmente na época áurea da borracha. Mais recentemente, a longa noite tenebrosa da ditadura de Salazar (1932-1968) fez com que muitos deles emigrassem para o Brasil por razões políticas, econômicas ou familiares. Foram acolhidos no Bairro dos Tocos, onde a colônia lusa se tornou numerosa. Abriram comércios de secos e molhados, mercearias, padarias, açougues, tabernas e bares.

Talvez o bairro de Aparecida fosse mesmo o lugar mais interessante, nos anos 40 e 50, para um portuga recomeçar sua vida em Manaus. Havia um clima receptivo, lusófilo, gerado pelo saudoso comandante Ventura, criador do Corpo de Bombeiros Voluntários de Manaus e fundador do Grupo Musical de Danças Folclóricas Lusas formado por meninas do bairro, entre elas quatro irmãs minhas. O quartel dos Bombeiros ficava na Alexandre Amorim, rua que abrigava vários comerciantes nascidos em Portugal.

Nesta rua, lá no Plano Inclinado, se instalou o Mário Soeiro com um bar. Duas quadras acima a taberna de seu irmão Cassiano na esquina com a Coronel Salgado, além do armazém de secos e molhados do seu Armindo da Casa Dias já na confluência com a Dez de Julho, rua onde ficava o Bar Brasil do seu Antônio e a Loja Cabacense de Antônio Gonçalves Pureza, que vendia ferramentas, produtos importados e miudezas.

Os portugueses se espalharam pelas 15 ruas e 13 becos do bairro. O comércio do Fernando português ocupava um imóvel na esquina da Xavier com a Gustavo Sampaio, bem em frente à taberna do seu Júlio, natural de Viana do Castelo. Ainda na Xavier, a padaria do seu Armando fazia pão em forno de lenha, tendo como vizinhos seu Porfírio Afonso e dona Amália do Distrito de Leiria, além das lusitanas Alzira, Balula e Armanda.

Carolina Neves conhecida doceira, célebre por seus saborosos pastéis de nata, depois de morta, virou nome de um beco, onde se estabeleceu, em 1953, o Armando da Bica, recém-chegado de Coimbra, então com 17 anos de idade. Com ajuda do seu tio Armindo, dono da Casa Dias, arrendou a taberna da Dona Bati na esquina da Xavier de Mendonça. No mesmo beco, morava dona Vera Margarida numa casa com quintal onde plantava uvas. Bem em frente, o seu Leopoldino e dona Generosa que, justificando o nome, me fez saborear a primeira rabanada e o primeiro pastel de Belém, cujo cheiro de casca de limão e canela guardo na memória afetiva e olfativa.

A dona Carolina Neves era mãe do Zé Buchinho e avó da Fátima Buchinho, a grande estrela do grupo folclórico criado pelo comandante Ventura. Vestida com trajes coloridos típicos da terrinha, com um xale sobre os ombros, Fátima “acabava com o açaí” ao cantar Maria Papoula. Ela era a nossa Amália Rodrigues de igarapé, da mesma forma que o fadista Alfredo Marceneiro do bairro de Aparecida era o Maravalhas.

Nascido em Póvoa de Varzim, José Fernandes Gomes Novo, o Maravalhas, morava na Bandeira Branca e trabalhava com o pai, responsável pela atracação dos navios no porto de Manaus. No fim de semana, porém, ele era poeta, cantor e artista. Cantava fados na Rádio Baré e no Luso Sporting Club, do qual foi diretor e onde, aos domingos, preparava tripa de vitela com chouriço e toucinho. Era vascaíno, como todos os patrícios, nunca perguntei, mas suspeito que não havia lido Os Lusíadas.

Ferida que dói

A maioria dos migrantes portugueses, com letramento precário, não conhecia Camões, que só reapareceu em minha vida quando entrei, aos 16 anos, no Curso Clássico do Colégio Estadual do Amazonas. Lá tive aulas de Literatura Portuguesa com o professor Farias de Carvalho, poeta, fundador do Clube da Madrugada. Aula é um modo de dizer. Ele não dava aula. Declamava. Era ator performático, usava os recursos corporais, as bochechas infladas, as mãos fartas, o olhar penetrante, o riso sardônico. Parecia Orson Welles, no físico e no espírito: um clown charmoso e provocador, corpulento, carismático.

Autor de Pássaro de Cinza (1957) e Cartilha do Bem Sofrer com Lições de Bem Amar (1965), o poeta Farias de Carvalho focou três nomes no programa da disciplina: Gil Vicente no teatro, Sá de Miranda na poesia e Camões na narrativa da história por meio de versos. Por ínvios caminhos, o professor nos fez apreciar esses autores, o que muito me ajudaria nos dois vestibulares que fiz depois na UFRJ: Jornalismo e Direito.

No dia em que ditava um ponto sobre Os Lusíadas, Farias de Carvalho estava com a macaca solta. Baixou nele o espírito de Falstaff, personagem burlesco e farsante de Shakespeare recriado por Welles. Enquanto reverenciava, trovejante, "as armas e os barões assinalados" e velejava, endiabrado, "por mares nunca de antes navegados", viu que nenhum aluno estava interessado, alguns copiavam mecanicamente a aula ditada com repetidos bocejos. Outro confessou que não compreendia aquela linguagem arcaica. Mesmo assim, Farias continuou:

 - ... Os Lusíadas é a epopeia de uma raça, poema épico humanista, com dez cantos, 1.102 estrofes num total de 8.816 versos decassílabos...

Foi interrompido por um aluno menos tímido:

- Desculpa, professor, mas o senhor já leu TUDO ISSO?

- Eu vou lá perder o meu tempo com essa meeeerda - vociferou Farias para estupefação geral. Advertiu para não copiarmos aquela frase no caderno. Fechou parêntese, mudou de personagem e retomou o papel de ator-professor, como se nada houvesse ocorrido. Foi um discutível “tratamento de choque pedagógico” para fazer com que alunos do séc. XX, no Amazonas, pudessem admirar a genialidade de um escritor português do séc. XVI. Com voz impostada e total domínio de cena voltou a exaltar o poema:

- Vocês acham que é uma merda, mas o cara é genial.

Farias recitou de memória o famoso soneto 81 de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver”, foi ao quadro negro e o copiou na íntegra. “Amor é ferida que dói, e não se sente”? Começamos a perceber que sentimentos e problemas registrados por Camões eram os mesmos de hoje, embora a linguagem inicialmente pudesse parecer chata e difícil, criando enorme distância entre a língua que falávamos e a escrita poética que, para sua época, foi ousada e inovadora, com um domínio dos recursos da arte da versificação.

- Com um olho só, Camões viu mais longe do que qualquer homem do seu tempo – ensinava Farias de Carvalho, revelando que o poeta perdera o olho direito numa batalha no Marrocos. A aula não havia ainda terminado e um papelzinho já circulava de uma carteira à outra, com uma caricatura, batizando de Camões nosso colega Flávio Farias, que tinha a córnea opaca e era cego de um olho. Aí foi bullying mesmo.

O Belo Adormecido

Terminamos o curso convencidos de que Camões, que atravessara cinco séculos, era eterno. Ele continua presente no cenário da literatura em língua portuguesa com a criação do Prêmio Camões, em 1988, pelo Ministério da Cultura de Portugal em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional do Brasil. Seu valor é de 100.000 euros, o equivalente a mais de R$ 585.000,00, custeado pelos governos do Brasil e de Portugal. Anualmente, um escritor é escolhido por um jurado composto por 6 especialistas – dois de Portugal, dois do Brasil e dois da África de língua portuguesa. 

Desde sua criação há mais de três décadas, a concessão do Prêmio Camões reflete o peso demográfico e editorial das duas nações lusófonas de forte tradição escrita, com aberturas crescentes para a África. As laureadas foram em 2025 a poeta angolana Ana Paula Tavares e em 2024 a brasileira Adélia Prado.  Agora, em 2026, o jurado do qual tive a honra de fazer parte, seguiu o equilíbrio habitual do rodízio e, por unanimidade, escolheu a escritora portuguesa Lídia Jorge, autora de 13 romances, 7 contos, 3 livros de literatura infantil, 2 de teatro, 1 de poesia e outro de crônicas. A pajé do Marajó, Zeneida Lima, autora de O Mundo Místico dos Caruanas. foi uma das indicadas.

O romance de Lídia Jorge que mais me impactou foi Misericórdia, pela forma de abordar a velhice, a urgência da vida e a resistência até o último suspiro. É um apelo que pede “misericórdia” e compaixão com os mais velhos e trata a velhice não como uma doença, mas como o apogeu da experiência humana.  Sua escrita, marcada por uma prosa poética densa, aborda a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida cotidiana com críticas ao passado colonial de Portugal,

No conto O Belo Adormecido, Lídia Jorge subverte os contos de fadas tradicionais com um enredo focado no desejo, na identidade e em encontros inesperados. No outro livro Marido, publicado com outros contos, a protagonista é uma mulher mais católica que o papa, que trabalha como porteira de um prédio e é oprimida pela violência doméstica do marido alcoólatra.   

De longe, acompanhei pela mídia sua trajetória política em defesa dos Direitos Humanos, contra o racismo, no discurso feito em junho de 2025 como presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal. É cada dia mais atual seus alertas contra o risco de loucos atingirem o poder e sobre a cultura da mediocridades nas redes sociais com as ondas de fake news. Que o digam Trump, Milei e Bolsonaro.  

- Se eu não fosse escritora, possivelmente seria uma agitadora ou sindicalista – ela declarou, ressaltando, contudo, que prefere atuar na sociedade através da literatura, em vez do ativismo direto.

- Lídia Jorge é uma das maiores glórias da nossa língua, sua escrita opera com uma “consciência vigilante” que habita o coração do presente – declarou ao O Globo o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Prêmio polêmico

O Prêmio Camões gerou alguma polêmica em versões anteriores. Três delas merecem registro. O escritor angolano José Luandino Vieira, um dos maiores renovadores da prosa em língua portuguesa, foi laureado em 2006, mas recusou a honraria e não embolsou o valor de 100 mil euros, justificando que aceitar a premiação contrariava toda a sua conduta ética e sua trajetória de vida. Ele permaneceu preso por mais de uma década pelo regime colonial português, que reprimiu sua militância na luta pela independência de Angola. Sua decisão pode ser controversa, mas é digna de respeito e admiração.

O segundo bafafá ocorreu dez anos depois, em 2016, na cerimônia de entrega do Prêmio ao escritor paulista Raduan Nassar, filho de imigrantes libaneses. Em seu discurso, ele chutou o pau da barraca, classificando o governo do então presidente Michel Temer como “um governo ilegítimo nascido de um golpe de Estado”. O ministro da Cultura ali presente, Roberto Freire, coveiro do PCB, bateu boca publicamente com o autor premiado, gerando mal-estar na comitiva portuguesa que assistia à cena.

O terceiro babado – todo mundo recorda - ocorreu com o prêmio concedido a Chico Buarque, em 2019, que gerou um escândalo. Quem assina o diploma, independentemente da nacionalidade do vencedor, é o presidente do Brasil e o ministro da Cultura de Portugal, mas Bolsonaro se recusou a colocar sua assinatura, por considerar Chico um “esquerdista”. A entrega oficial do troféu só ocorreu em 2023, em uma cerimônia solene em Sintra, já no mandato de Lula. Chico agradeceu ao Coiso:

- Valeu a pena esperar. O ex-presidente teve a rara delicadeza de não sujar o meu diploma.

Lídia Jorge não precisa esperar. E certamente vai ficar feliz por ser Lula quem colocará seu jamegão no documento para que ele tenha validade oficial: um diploma limpíssimo.

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