CRÔNICAS

Dos imigrantes de ontem aos invasores de hoje

Em: 10 de Agosto de 2026 Visualizações: 17
Dos imigrantes de ontem aos invasores de hoje

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

"Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça sempre glorificarão o caçador."(Provérbio Igbo da África)

Caboco, nesta semana, a mídia voltou a mostrar cenas que já se tornaram quase rotina na fronteira entre Marrocos e Ceuta, território espanhol encravado no continente africano. Homens nadando para alcançar a praia, jovens escalando cercas, famílias inteiras tentando atravessar uma fronteira em busca da promessa de uma vida menos dura do outro lado do mar. As imagens se repetem; mudam apenas os rostos. Logo aparecem os comentaristas discutindo segurança, imigração ilegal, proteção das fronteiras, identidade nacional e os riscos que aquela gente representa para a Europa. Não consegui chegar ao fim da reportagem, não por falta de interesse, mas porque a memória resolveu mudar de canal.

Fiquei imaginando outra praia, também vista do mar, mas 526 anos antes. Algumas embarcações se aproximavam lentamente da costa, carregando homens que não falavam a língua dos habitantes daquele lugar, não conheciam seus costumes, não tinham autorização para desembarcar, não possuíam visto de permanência e tampouco haviam sido convidados. Imaginei, então, um agente da Polícia Federal dos Povos Originários caminhando até a areia para abordar os recém-chegados.

— Boa tarde. Documentos, por favor.

O capitão branco, homem cis, coçou a barba e respondeu que não tinha.

— Qual o motivo da viagem?

— Viemos “descobrir” estas terras.

A autoridade indígena certamente franziria a testa.

— Descobrir o quê, cara-pálida?

A entrevista terminaria antes mesmo do pôr do sol. Entrada negada. Voltem pelo mesmo caminho por onde vieram.

Mas a História não costuma trabalhar com guichê de imigração. Ela prefere canhões, espadas e tratados escritos sempre pelo lado vencedor. Aqueles homens desembarcaram, fincaram bandeiras, levantaram cruzes, rebatizaram rios, montanhas e povos inteiros. Não perguntaram qual era a religião praticada; impuseram a sua. Não perguntaram qual língua deveria ser falada; enfiaram a deles goela abaixo. Não perguntaram quem era o dono da terra; providenciaram escrituras em nome da Coroa e dos capitães hereditários.

Chamaram essa invasão de “descobrimento”, “civilização” e expansão marítima. Curiosamente, ninguém escreveu nos livros escolares que a Europa enfrentava uma grave crise migratória no século XVI.

Fronteiras

É claro que os tempos são outros, Caboco. Todo país tem o direito — e o dever — de administrar suas fronteiras. Uma nação sem regras para entrada e permanência de pessoas dificilmente consegue organizar sua própria vida econômica, social e cultural. O problema não está na existência das fronteiras. Está na memória seletiva sobre quem teve, ao longo da História, autorização para atravessá-las e quem sempre foi tratado como ameaça ao tentar fazer o mesmo caminho.

Porque fronteiras nunca foram apenas linhas desenhadas em mapas. Elas também são linhas desenhadas pelo poder. Algumas foram construídas para proteger povos e territórios; outras foram erguidas depois que esses mesmos territórios já haviam sido ocupados por quem chegou de fora. Durante séculos, navios cruzaram oceanos levando soldados, comerciantes, missionários e colonizadores. Atravessaram mares, derrubaram fronteiras existentes, criaram novas fronteiras e reorganizaram continentes inteiros. Quase sempre, porém, a palavra usada não era invasão. Era expansão.

Quando milhões de europeus atravessaram mares para ocupar territórios na América, na África e na Ásia, aquilo foi apresentado como uma aventura civilizatória. Curioso é que a Europa discute, todos os dias, quem pode entrar em seu território. Pouco se fala, porém, dos pedaços da própria Europa que continuam espalhados pela América do Sul, pela África e pelo Oceano Índico.

A França continua presente na Amazônia por meio da Guiana Francesa. O Reino Unido continua presente no Atlântico Sul. Parece que, quando o europeu atravessa oceanos, nasce um território ultramarino; quando o africano faz a mesma travessia, nasce uma crise migratória. As palavras, Caboco, costumam atravessar a História no mesmo navio dos vencedores, os historiadores oficiais olham a terra de dentro do barco, enquanto existe a versão de quem estava na terra.

A contradição aparece justamente aí. O mundo parece funcionar sem fronteiras quando circulam dinheiro, mercadorias, informações e investimentos. Empresas atravessam oceanos em busca de lucro, capitais mudam de país em segundos e produtos percorrem milhares de quilômetros antes de chegar às nossas casas. Mas, quando é um ser humano que atravessa a mesma distância carregando apenas a esperança de sobreviver, a fronteira volta a ser uma muralha.

Veja o ICE nos Estados Unidos, expulsando imigrantes em nome da defesa das fronteiras. Mas basta olhar para alguns estrangeiros que vivem ou viveram confortavelmente naquele país para perceber que talvez a questão não seja simplesmente imigração. Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, brasileiros; Marco Rúbio, filho de imigrantes cubanos; Elon Musk, nascido em Pretória, na África do Sul. Para alguns estrangeiros, parece haver portas de entrada. Para outros, apenas portas de saída. Talvez a palavra “imigrante” também tenha passaporte.

Quando africanos atravessam o Mediterrâneo ou tentam alcançar Ceuta carregando nas costas pouco mais que a esperança, a palavra mais usada é invasão. Quando os navios vinham do Norte para o Sul, levavam progresso. Quando os barcos fazem o caminho inverso, trazem ameaça. Parece que o verbo migrar muda de significado conforme a nacionalidade de quem segura o leme.

Talvez por isso eu desconfie tanto das palavras. Descobrimento, conquista, colonização, expansão, imigração, invasão... nenhuma delas é inocente. Cada uma carrega a visão de quem escreveu o dicionário. Talvez seja por isso que o velho provérbio africano continue tão atual. Durante séculos, ouvimos a versão dos caçadores. Agora que alguns leões começam a atravessar o mar para contar a própria história, há quem queira construir cercas cada vez mais altas para impedir que ela seja ouvida.

Imagine

Caboco, talvez uma das maiores dificuldades da humanidade seja imaginar um mundo diferente daquele que conhecemos. Não por acaso, uma das músicas mais conhecidas de John Lennon começa justamente com um convite: imaginar um mundo sem tantas divisões, sem tantas barreiras criadas por homens contra outros homens. “Imagine” não é um manual de governo, nem uma proposta pronta para resolver todos os conflitos do planeta. É uma provocação. Uma pergunta incômoda sobre por que aceitamos como natural um mundo onde alguns nascem com portas abertas e outros passam a vida tentando encontrar uma fresta.

Lembrei também de Cristovam Buarque, professor, ex-governador do Distrito Federal, ex-ministro da Educação e ex-senador brasileiro. No ano 2000, durante um debate em uma universidade nos Estados Unidos, ele foi questionado sobre o que pensava da ideia de internacionalização da Amazônia. O estudante disse que esperava uma resposta de um humanista, não apenas de um brasileiro. A provocação parecia simples: se a Amazônia pertence à humanidade, por que deveria estar limitada às fronteiras de um país?

A resposta de Cristovam seguiu justamente pelo caminho da provocação. Disse que, como brasileiro, defenderia a soberania sobre a Amazônia, mas que, sob uma perspectiva humanista, se a floresta deveria ser internacionalizada por sua importância para a humanidade, então outros patrimônios essenciais também deveriam seguir a mesma lógica. Por que não internacionalizar as reservas de petróleo? Os grandes recursos financeiros? Os patrimônios culturais? A pergunta deixava de ser sobre a Amazônia e passava a ser sobre coerência.

Penso que o desafio do nosso tempo não seja escolher entre um mundo sem fronteiras e um mundo cercado por muros. Talvez seja construir um mundo em que menos pessoas precisem abandonar sua própria terra para continuar vivendo. Porque ninguém enfrenta o mar por aventura quando a própria casa deixou de oferecer futuro.

Caboco, pensando nisso tudo, me veio à mente Darcy Ribeiro. O velho antropólogo talvez perguntasse uma coisa simples: quem são os verdadeiros estrangeiros nessa história? Porque, antes de muitos dos povos que hoje atravessam mares tentando encontrar um lugar para viver, outros povos já haviam atravessado oceanos carregando mapas, bandeiras e a certeza de que tinham o direito de ocupar o território dos outros.

Darcy Ribeiro dedicou sua vida a compreender como indígenas, europeus e africanos formaram esse povo brasileiro, mas nunca esqueceu que essa mistura nasceu também de conflitos, violências e desigualdades. O Brasil, por exemplo, não nasceu de um encontro entre iguais. Nasceu de um choque entre mundos diferentes, onde alguns chegaram com armas de fogo e canhões, enquanto outros tiveram que lutar com arco e flecha para não desaparecer.

Talvez por isso a questão migratória de hoje precise ser olhada com mais humanidade. Não porque as fronteiras não tenham importância, mas porque nenhum muro consegue apagar uma pergunta antiga: quem teve o direito de viajar pelo mundo e quem foi obrigado a permanecer onde nasceu? Quem escreveu a história dos descobrimentos? Quem escreveu a história dos deslocados?

No fundo, Caboco, a humanidade sempre foi uma espécie migrante. A diferença é que alguns atravessaram oceanos para conquistar terras; outros atravessam fronteiras apenas tentando conquistar um amanhã.

Acredito que a grande diferença não esteja em quem atravessa o mar. Esteja em quem tem o direito de contar a história depois que chega à outra margem. E é justamente por isso que, às vezes, seja preciso devolver a palavra a quem passou séculos sem direito de contar a própria história.

 

PS: Como texto de apoio e contraponto à reflexão acima, deixo para vossa leitura o irônico “Discurso sobre la verdadera deuda externa”, de Luis Britto García, publicado em El Nacional, em Caracas, em 18 de outubro de 1990:

 

 

Discurso sobre la verdadera deuda externa

 

Aquí pues yo, Guaicaipuro Cuautémoc, he venido a encontrar a los que celebran el Encuentro. Aquí pues yo, descendiente de quienes poblaron América hace cuarenta mil años, he venido a encontrar a los que se la encontraron hace quinientos. Aquí pues nos encontramos todos: sabemos lo que somos, y es bastante. Nunca tendremos otra cosa.

El hermano aduanero europeo me pide papel escrito con visa para poder descubrir a los que me Descubrieron. El hermano usurero europeo me pide pago de una Deuda contraída por Judas a quienes nunca autoricé a venderme. El hermano leguleyo europeo me explica que toda Deuda se paga con intereses, aunque sea vendiendo seres humanos y países enteros sin pedirles consentimiento. Ya los voy descubriendo.

También yo puedo reclamar pago. También puedo reclamar intereses. Consta en el Archivo de Indias, papel sobre papel, recibo sobre recibo, firma sobre firma, que sólo entre el año de 1503 y el de 1660 llegaron a Sanlúcar de Barrameda 185 mil kilos de oro y 16 millones de kilos de plata provenientes de América. ¿Saqueo? No lo creyera yo, porque es pensar que los hermanos cristianos faltan a su séptimo mandamiento. ¿Expoliación? Guárdeme Tonantzin de figurarme que los europeos, igual que Caín, matan y después niegan la sangre del hermano. ¿Genocidio? Eso sería dar crédito a calumniadores como Bartolomé de las Casas, que califican al Encuentro de Destruición de las Indias, o a ultrosos como el doctor Arturo Uslar Pietri, quienes afirman que el arranque del capitalismo y de la actual civilización europea se debió a esa inundación de metales preciosos.

No: esos 185 mil kilos de oro y 16 millones de kilos de plata deben ser considerados como el primero de varios préstamos amigables de América para el desarrollo de Europa. Lo contrario sería presuponer crímenes de guerra, lo cual daría derecho, no sólo a exigir devolución inmediata, sino a indemnización por daños y perjuicios. Yo, Guaicaipuro Cuautémoc, prefiero creer en la menos ofensiva de las hipótesis. Tan fabulosas exportaciones de capital no fueron más que el inicio de un Plan Marshalltzuma para garantizar la reconstrucción de la bárbara Europa, arruinada por sus deplorables guerras contra los musulmanes, cultores del álgebra, la poligamia, el baño cotidiano y otros logros superiores de la civilización.

Por ello, al acercarnos al Quinto Centenario del Empréstito, podemos preguntarnos: ¿han hecho los hermanos europeos un uso racional, responsable, o por lo menos productivo de los recursos tan generosamente adelantados por nuestro Fondo Indoamericano Internacional?

Deploramos decir que no. En lo estratégico, los dilapidaron en batallas de Lepanto, Armadas Invencibles, Terceros Reichs y otras formas de exterminio mutuo, sin más resultado que acabar ocupados por las tropas gringas de la OTAN, como Panamá (pero sin canal). En lo financiero, han sido incapaces -después de una moratoria de 500 años- tanto de cancelar capital o intereses, como de independizarse de las rentas líquidas, las materias primas y la energía barata que les exporta el Tercer Mundo.

Este deplorable cuadro corrobora la afirmación de Milton Friedman según la cual una economía subsidiada jamás podrá funcionar. Y nos obliga a reclamarles -por su propio bien- el pago del capital e intereses que tan generosamente hemos demorado todos estos siglos. Al decir esto, aclaramos que no nos rebajaremos a cobrarles a los hermanos europeos las viles y sanguinarias tasas flotantes de interés de un 20% y hasta un 30% que ellos le cobran a los pueblos del Tercer Mundo. Nos limitaremos a exigir la devolución de los metales preciosos adelantados, más el módico interés fijo de un 10% anual acumulado durante los últimos trescientos años.

Sobre esta base, y aplicando la europea fórmula del interés compuesto, informamos a los Descubridores que sólo nos deben, como primer pago de su Deuda, una masa de 185 mil kilos de oro y otra de dieciséis millones de kilos de plata, ambas elevadas a la potencia de trescientos. Es decir: un número para cuya expresión total serían necesarias más de trescientas cifras, y que supera ampliamente el peso de la tierra. Muy pesadas son estas moles de oro y de plata. ¿Cuánto pesarían, calculadas en sangre?

¿Cuánto pesa la sangre de ochenta millones de víctimas? ¿Cuánto pesa el olvido de diez millares de culturas? ¿Cuánto pesa el silencio de veinte millares de lenguas?

Aducir que Europa en medio milenio no ha podido generar riquezas suficientes para cancelar este módico interés, sería tanto como admitir su absoluto fracaso financiero y/o la demencial irracionalidad de los supuestos del capitalismo. Tales cuestiones metafísicas, desde luego, no nos inquietan a los indoamericanos. Pero sí exigimos la inmediata firma de una Carta de Intención que discipline a los pueblos deudores del Viejo Continente, y los obligue a cumplirnos sus compromisos mediante una pronta Privatización o Reconversión de Europa, que les permita entregárnosla entera como primer pago de su Deuda histórica. Dicen los pesimistas del Viejo Mundo que su civilización está en una bancarrota que le impide cumplir sus compromisos financieros o morales. En tal caso, nos contentaríamos con que nos pagaran entregándonos la bala con la que mataron al poeta. Pero no podrán: porque esa bala, es el corazón de Europa.

 ¿Y tú por qué no te callas, Guaicaipuro Cuautemoc?

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário