CRÔNICAS

A CABRA VADIA E O JACARÉ COTÓ

Em: 04 de Abril de 2004
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Desvios da coluna foram diagnosticados pelos ´ortopedistas´ Ricardo Melo, autor das charges dessa página, e Francisco Cirilo Batará Anunciação, vice-presidente do Diário do Amazonas. Por isso, ela passará por um processo gradual de reformatação, com o objetivo de ficar mais ágil e alegre. A partir de hoje, o leitor encontrará aqui entrevistas com personalidades da vida política e cultural. Manja a página dominical do Élio Gaspari? Pois é. Trata-se de algo similar, enriquecido porém com uma inovação inspirada em Nelson Rodrigues e num personagem criado por minha amiga Charufe Nasser. Eu explico.
Qualquer jornalista que quer notícias procura suas fontes, usando a entrevista como principal instrumento de abordagem. No entanto, esse procedimento técnico, explorado amplamente pela mídia, produz resultados bastante duvidosos. Acontece que diante de um microfone, de um gravador ou de uma câmera, o entrevistado se transfigura, imposta a voz, representa um personagem, deixa de ser ele mesmo para se converter numa pose. Ai, a entrevista se reduz a um exercício de autocensura. Em vez de falar verdades, o entrevistado procura ocultá-las.
A cabra vadia
Quem percebeu tudo isso com muita clareza foi o escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, o maior cronista da imprensa brasileira. Depois de trabalhar em jornais durante cinqüenta anos, ele concluiu: "Ah, como é falsa a entrevista verdadeira! Nada mais cínico, nada mais apócrifo. O entrevistado é sempre o mesmo, variando apenas de terno e feitio de nariz. O sujeito não diz uma palavra do que pensa, ou sente. E o pior é o gesto, é a ênfase, é a inflexão. Ninguém devia ser entrevistado, nem os santos, porque até eles mentiriam".
Nelson Rodrigues bolou um novo recurso técnico, "a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto". Trata-se da entrevista imaginária. Cada semana ele escolhia uma personalidade, levando-a para um terreno baldio, à meia noite, "boa hora para dizer as verdades atrozes". Admitia como testemunha apenas uma cabra vadia, porque "a cabra não trai, não sai por ai fazendo inconfidências".Aí, então, o entrevistado contava tudo, sem censura.
Cenário: o igapó
Peço licença para plagiar descaradamente a idéia de Nelson Rodrigues. No entanto, como esse diário é do Amazonas, onde a paisagem é tão rica e exuberante, me recuso a levar meu entrevistado para um prosaico terreno baldio na área urbana. Prefiro conduzi-lo, de canoa, até um chavascal - um igapó que existe próximo ao lago Saracura, na Reserva Mamirauá, freqüentado por milhares de garças e biguás que se juntam para apanhar peixes. Ficamos, então, de acordo, leitor, que esse é o cenário ideal para as nossas entrevistas dominicais.
Se o leitor me permite, mudo também o horário. Em vez de meia noite, vou conversar com o entrevistado nas primeiras horas da madrugada, quando as flores da mungubarana, que povoam o lago Saracura, abrem suas pétalas vermelhas e mostram toda sua beleza e esplendor. O silêncio da floresta e a paz aí reinante são convites para confissões sinceras. Mudo também a testemunha, substituindo a cabra vadia por um jacaré boiola, personagem criado por Charufe Nasser.
O jacaré boiola
O jacaré aparece no capítulo "Tia Chachá para crianças", do livro "A Sultana dos Seringais", em processo de redação. Nele, Charufe conta - e eu escrevo - histórias para o público infantil, cujos personagens são animais, no estilo das fábulas do grego Esopo, do romano Fedro, do francês La Fontaine e do libanês Abu Al-Faraj Nasser, tataravô da Chachá. Tem o Jaraqui Come-Quieto, a Piranha Virgem, o Pirarucu Puxa-Saco, o Professor Pacu, o Repórter Tambaqui, o Boto Onanista, o Tucunaré Leso e o Jacaré Boiola.
De todos os personagens citados, o Jacaré Boiola é o mais discreto e, portanto, o mais apropriado para testemunhar a entrevista imaginária que faremos aqui semanalmente. Ele não reclama de nada, como na fábula da tia Chachá, que resumo aqui: um dia o jacaré estava tomando banho de sol, a onça veio por trás e - crau! - começou a devorar sua cauda, sem que ele esboçasse qualquer reação. Não deu um ai, não emitiu um gemido. Ficou cotó, com o rabo amputado. Do alto de sua sabedoria, tia Chachá ensina: "Esse jacaré cotó é o popular comido-quieto".
A entrevista imaginária
Não existe jacaré fofoqueiro. Se ele fica quieto, mesmo quando comem seu rabo, ninguém melhor para gravar nossas entrevistas, sem provocar desconfianças no entrevistado. Isso não acontece na entrevista de verdade, como a que foi concedida nessa semana por Paulo Jacob, ex-secretário municipal de Obras. Perguntaram o que iria fazer como chefe de gabinete do ministro dos Transportes. Ele pigarreou, ajeitou o nó da gravata, e declarou pomposamente: - "Vou enfrentar o grande desafio de ajudar Alfredo Nascimento - um dos maiores estadistas que esse país já teve - a pavimentar as estradas do Brasil".
Quem acredita nessa resposta? Ninguém. Nem o Cabo Pereira, nem os leitores. No entanto, essa é a matéria prima que enche as páginas dos jornais. Coitado do Paulinho Jacob ou de qualquer entrevistado de verdade! Não podem ser eles mesmos. São obrigados a dissimular, mascarar, disfarçar, encobrir o que estão realmente pensando. Precisam de um lugar íntimo, onde possam liberar seu pensamento e sua alma.
Por isso, criamos esse espaço democrático, no qual o entrevistado tem liberdade de dizer aquilo que realmente pensa, de ser ele mesmo, autêntico, sem medo de soltar a franga, de botar pra fora o que sente. Trata-se de um paradoxo: na entrevista de verdade, o sujeito mente; na inventada, ele diz a verdade. Hoje, quem estréia é justamente o Paulinho Jacob.
Compare a entrevista verdadeira que ele deu com a imaginária, publicada no box ao lado. Aproveite, entre no site www.taquiprati.com.br, fale conosco e sugira nomes para as próximas entrevistas.
O entrevistado da semana: Paulinho Jacob
O ex-secretário municipal de Obras e Saneamento Básico, Paulo Jacob, estava bastante descontraído, de bermuda e chinelão. Fez um balanço de sua gestão. Lamentou o fracasso da mega operação tapa-buracos: "faltou asfalto". Reconheceu que a cidade ficou alagada, porque não foi possível fazer a desobstrução de bueiros, a dragagem, limpeza e urbanização dos igarapés. Na presença do jacaré cotó falou o que lhe deu na telha.
Paulo Jacob, estamos no igapó do lago Saracura. São três horas da madrugada. Pode falar sem medo: você considera mesmo Alfredo Nascimento um grande estadista?
Conversa fiada, rapaz! Quem nasce cabo, nunca chega a general. Você acha que é estadista quem dorme tendo a maioria absoluta na Câmara, e acorda no dia seguinte sem nenhum voto? Nenhum!!! O cara foi nomeado MI-NIS-TRO, um cargo maior que o de prefeito! Com isso, devia ampliar sua base política. No entanto, não ficou sequer com o voto do tio Raul? Do tio Raul, cara! É estadista quem não agüenta o primeiro cocoricó?
Então, por que você vive elogiando o Cabo Pereira?
Mano velho, me diz, eu tenho outra alternativa? Meu ofício é puxar saco. Sou puxa-saco, mas não sou burro. Perdi meu emprego na SEMOSB, não consegui me eleger vice-prefeito. Aí, o Sabá Reis, de olho grande no gabinete do Ministério dos Transportes, disse que carregaria a mala do Alfredo, então eu tive de apelar e chamar o Cabo de estadista.
Como você se sente puxando saco do Alfredo?
Mal. Muito mal. Nessas horas, tenho desprezo por mim mesmo.
Isto é uma autocrítica? Quer dizer que você está a fim de parar de puxar saco?
Nunca! Vivo disso. Quando digo que me desprezo, é porque meu sonho era ter um up-grade, para puxar saco do Negão ou do Eduardo Braga, mas a concorrência lá é muito grande. Lá só tem Phd em puxação.
DO FUNDO DA CUIA
PJ: O APRENDIZ DE PUXA-SACO
Jô Soares, em seu programa de televisão, tem um quadro que se chama "Do fundo da caneca". Lá, ele recupera suas antigas atuações. Com o mesmo espírito, nesse espaço vamos recuperar trechos de crônicas já publicadas. Começamos hoje com um texto sob o puxa-saquismo, publicado em 18 de julho de 1995.
"O puxa-saquismo manauara transformou-se numa religião, com seu ritual, seus acólitos e seus oficiantes. Fez escola, com seus mestres, doutores, discípulos e aprendizes. Produziu novos métodos e técnicas de adulação. Instituiu a bajulação como método de ascensão social, negando o trabalho, o esforço e o talento. Desenvolveu-se tanto que as autoridades estão todas "herniadas", sofrendo de hidrocele".
"É impressionante como no Amazonas - canta comigo, leitor - o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais!. A bajulação passou a ser o caminho mais usado pelos que querem fazer carreira política profissional. Para eles, essa frase de Ronaldo Tiradentes simboliza todo um programa de vida: - "Quando eu era menor, meu pai me dizia: ´meu filho, quem não puxa saco, acaba puxando carroça. Por isso, entre um e outro, não duvide. Escolha o saco´. Segui o conselho do velho e acabei me dando bem. Puxo o saco mermo", declarou Tiradentes, o filósofo do puxa-saquismo manauara.
"Quando Paulinho Jacob - o Pê Jotinha - andava ainda engatinhando, perguntaram dele: "O que você quer ser quando crescer?" Ele respondeu, sem pestanejar: "Eu telo tê tio Lobélio Blaga!". Efetivamente, Berinho, com coragem desassombrada, apoiou TODOS os homens que governaram o Amazonas, não apenas os vivos, mas até mesmo aqueles que já morreram há muito tempo. Em sua atividade de "historiador", conseguiu puxar saco até do governador Vitório, a quem ele chama de "administrador genial".
O FORNO DO PÃO MOLHADO
·        Meu Menino, Meu Irmão.O assassinato do adolescente José Kelson de Souza Castro, dentro de uma cela do 14º Distrito Policial, no conjunto Paulo II, é abominável. A sociedade amazonense não pode permitir que esse crime fique impune.
  • Terras Indígenas - Durante reunião no auditório do Ministério Público, na terça-feira passada, o representante da COIAB, Paulino Montejo, anunciou que o Supremo Tribunal Federal havia rejeitado, felizmente, a ação do Governo do Estado do Amazonas contra a demarcação das terras indígenas Médio Rio Negro, Rio Téa e Rio Apaporis. O governo estadual foi derrotado duas vezes: no terreno judicial e no político, porque perdeu a confiança da opinião pública na sua política indigenista.
  • O patrimônio arqueológico. O IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, através de sua representante no Amazonas, Bernadete Andrade, vem desenvolvendo uma luta acirrada em defesa da preservação dos sítios arqueológicos da Praça D. Pedro II e do bairro Nova Cidade. Conta com o apoio do Ministério Público Federal, graças à sensibilidade do procurador Eduardo Barragan. No entanto, muitos empreiteiros que constroem casas na área do Nova Cidade permanecem insensíveis e não assumem suas responsabilidades.
  • Os prefeitos eleitos de Manaus. Esse é o título do livro escrito por Carlos Zamith, depois de pesquisa feita nos arquivos da Câmara Municipal. Ele apresenta dados biográficos de cada prefeito, de Jorge Moraes (1910) ao Alfredo Nascimento (2004), incluindo a eleição indireta do Carijó. O livro, que pode servir de instrumento útil de pesquisa, não foi editado por desinteresse da Prefeitura.

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