CRÔNICAS

Os eleitores do Jair: será a Benedita?

Em: 15 de Setembro de 2019 Visualizações: 2020
Os eleitores do Jair: será a Benedita?

- Alô! Professor Bessa?

- Sim.

- Aqui é o Nilomar... Não sei se você ainda se lembra de mim...

Ninguém lembra nem do próprio nome, quando acordado abruptamente por um telefonema inesperado às 9h30 da madrugada, como aconteceu naquele domingo, num final de inverno de 1996. Cliquei rapidamente: “Localizar arquivo”. Procurei “Nilomar Doc” na minha memória. Ai veio de bubuia a minha infância e os aniversários na casa da vovó Marelisa, Rua Monsenhor Coutinho, 380, em Manaus. Do outro lado, bem em frente, morava um Nilomar que paquerava uma de minhas primas, a Vânia ou a Ceíta, estava perdidamente apaixonado por uma delas.

- Claro que lembro. Comi muito os brigadeiros da senhora sua mãe.

Efetivamente, o único Nilomar que conheço é o filho da competente e virtuosa funcionária aposentada da Secretaria de Interior e Justiça do Estado do Amazonas, Benedita Lopes de Souza, um doce de pessoa, não sei se continuou fazendo os mesmos brigadeiros saborosos que costumava oferecer nos aniversários familiares. No entanto, a voz do outro lado do telefone desconfirmou:

- Ninguém jamais comeu da minha mãe os brigadeiros. Deve haver um engano.

- Não é o Nilomar de Manaus?

- Não. Não. Sou o Nildomar, com “d”. “D” de “dever”, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), amigo da Maria Eulália.  Estou ligando aqui da Rodoviária Novo Rio.

Cliquei outra vez “Localizar Arquivos”: não havia qualquer Nildomar. Cliquei “UFJF”: só estava registrado a participação que tive em evento, em 1992, comemorando os 500 anos da viagem do Colombo, no qual palestrei sobre “A tradição oral nas crônicas”. Nada de Nildomar, nem de Eulália. Minha memória podia estar me traindo. Por isso, não perdi o rebolado:

- O que você manda, Nildomar?

Maria Eulália

Ele estava desesperado. Com voz aflita, quase chorosa, explicou-me que tinha ido ao casamento de um sobrinho em Florianópolis. Voltava de carro com a mulher e a filha de dois anos. De madrugada, ao atravessar a fronteira de São Paulo com o Rio de Janeiro, logo depois de Queluz, viu que o tanque de gasolina estava quase zerado. Quando chegou ao posto para abastecer, descobriu que havia perdido – ou lhe haviam furtado – documentos, cheques, cartões, dinheiro, identidade, tudo. Lembrou-se de mim, a única pessoa que conhecia no Rio:

- Deixei mulher e filha no carro, estacionado no posto. Peguei carona num ônibus. Viajei mais de duas horas até a Rodoviária. Uma funcionária, com pena, me permitiu que usasse o telefone. Pensei em chamar a Maria Eulália – lembra da nossa amiga Maria Eulália? – lá em Juiz de Fora, para pegar com ela o seu endereço. Antes, arrisquei e disquei para a UERJ, aqui no Rio. Uma funcionária, de nome Ivanita, me deu suas coordenadas. Estou precisando que me empreste 200 reais para sair desse sufoco.

Perplexo, eu não sabia quem era a tal Maria Eulália.A única que vi no Google era ironicamente a candidata do PSL, Maria Eulália do Emprestimo, lá de Miranda (MS). Expliquei que estava acamado, com febre, mas que se ele pudesse chegar até aqui em casa, em Niterói, podíamos resolver o problema. Veio. De carona. Simpático. Cara de honesto. Abraçou-me com um quê de sinceridade. Fez carinho no “Canalha”, meu cachorro. Juro que nunca o vi mais gordo. Mas sei lá! Nesses congressos acadêmicos e sindicais, numa noite de porre, trocamos endereços, tecemos amizades que depois caem no olvido.

Solidário, adiantei 100 paus, dizendo que era tudo o que tinha em casa. Ele agradeceu e pediu o número da minha conta no banco, garantiu que me enviaria o dinheiro assim que chegasse em Juiz de Fora. Para me tranquilizar, rabiscou o seu endereço: Rua Halfeld, 283. E o número de seu telefone. 

- Quando for a Juiz de Fora, faço questão de hospedá-lo na minha casa. A Shirley, minha mulher, faz um feijão tropeiro com torresmo e uma canjiquinha com carne de porco. Imbatíveis.

Ao se despedir, ainda perguntou se eu queria mandar alguma coisa para Maria Eulália.

Nessas circunstâncias, o que mandar para um fantasma? Gaguejei:

- Um abraço. Diz que não esqueço dela.

- Ela vai ficar muito feliz quando souber que estive com você.

Bom bife

Nildomar não se manifestou nunca. Telefonei várias vezes. Chama, chama, ninguém atende. Pedi a uma irmã que reside em Juiz de Fora, ela conferiu o endereço. Lá funciona o Açougue Bom Bife e ninguém sabe quem é Nildomar no jogo do bicho. Ele esfarelou-se no ar, misteriosamente. Depois, alguém me contou ter sido vítima de golpe semelhante. Um golpezinho, mas golpe. Nada comparável com o estelionato eleitoral do qual somos vítimas.  Fiquei com cara de égua, me sentindo como se fosse um eleitor honesto de Jair Bolsonaro.

Existe isso? Sim, no meio dos 57 milhões de votos em Bolsonaro, como em qualquer outro candidato, tem machistas truculentos, mal intencionados, homofóbicos, racistas, milicianos, golpistas, toupeiras, corruptos, fascistas, preconceituosos, ingênuos, desinformados, mas existe muita gente inteligente e honesta que acreditou no discurso da luta contra a corrupção, hiper badalado pela mídia, mesmo depois de Collor de Mello enganar a maioria do Brasil com o “conto do caçador de marajás”.

Na falta de um programa de governo, com o apoio da mídia e de igrejas evangélicas que não pagam impostos e com o uso esperto das redes sociais, convenceu-se eleitores que acreditaram na bandeira da moralidade. No entanto, pouco a pouco, os fatos estão mostrando que essas pessoas foram vítimas de outro estelionato eleitoral, que a luta não era contra a corrupção como sistema, mas contra os adversários políticos perseguidos com um discurso moralista para afastá-los do caminho ao poder. Ao contrário, a nação acompanha hoje, estarrecida, o desmonte dos órgãos no combate à corrupção e a desmoralização do ministro da Justiça, o lavajatista Sérgio Moro.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) revela o enriquecimento do senador Flávio Bolsonaro, proprietário de 37 imóveis registrados nos cartórios do Rio? O pai intervém no Coaf. A Polícia Federal quer levar adiante o caso de Fabrício Queiroz e as maracutaias no Porto de Itaguaí? Ele neutraliza a PF. O Ministério Público do Rio de Janeiro investiga o vereador Carlos Bolsonaro sobre a prática da “rachadinha”? Ele nomeia Procurador Geral da República alguém que reza por sua cartilha e que sequer constava na lista tríplice eleita pela categoria.

Aos eleitores, para disfarçar, só resta mandar um abraço para Maria Eulália, desistir do feijão tropeiro da Shirley, comprar, se puder, linguiça e bacon no Açougue Bom Bife para preparar um tutu à mineira e se perguntar: Será a Benedita?

 

 

 

 

 

 

 

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22 Comentário(s)

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Múcio Medeiros comentou:
20/09/2019
Caro mestre uma conversa "franca" seduz facilmente quem trabalha no "ajeitamento" das ideias no papel. Sua generosidade com um "desconhecido" pode ser compensado pela possibilidade de uma boa historia!
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Rodrigo Wallace comentou:
16/09/2019
Muito bom texto, professor. Mando um abraço pro "Canalha".
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Vera Nilce Cordeiro Correa (via FB) comentou:
16/09/2019
Não acredito que vc caiu nesta? Rss em Curitiba há uns 15 anos soube de um caso parecido mas pior pq o cara ia na igreja em missa ou novena , de noite, e dizia do carro no prego lá adiante com mulher e filho dentro. Se a pessoa dava dinheiro legal mas se resolvia ir conferir seria assaltado sem dó nem piedade. Tem esperto pra tudo e há os que caem rssss
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Rodrigo Martins comentou:
16/09/2019
Bom dia professor Bessa! Muito boa a crônica, adorei a parte do 9h 30 da madrugada kkkkk Infelizmente, existem muitos políticos que gem como esse moço Nildomar, prometendo acabar com a corrupção, “mamata”,mas felizmente muitos eleitores já perceberam (embora tardiamente) que foram enganados nessa eleição. Muito triste ver o Brasil nessa situação vexaminosa! Um abraço querido professor.
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Maria das Dores Andrade (via FB) comentou:
15/09/2019
Veja o que foi publicado (25/08/2019 - Folha Impacto – Revista Isto é) CORRUPÇÃO Para proteger Flávio, Bolsonaro trai 57 milhões de brasileiros Presidente deixa o discurso de ser contra a corrupção de lado e passa a intervir em órgãos que investigam o filho Flávio Bolsonaro. Jair Bolsonaro foi eleito prometendo mudar o Brasil. Mais de 57 milhões de brasileiros acreditaram nessa balela. Não foi preciso mais do que poucos meses para ele mostrar a real faceta de seu governo. Disse que acabaria com a corrupção, mas não fica nem um pouco vermelho ao ver o filho senador Flávio fazer o milagre da multiplicação dos imóveis no Rio de Janeiro. E, pior, não se incomoda que esse mesmo filho seja o pivô de uma inexplicável ligação com seu ex-motorista, Fabrício Queiroz, que enriqueceu de forma suspeita e até depositou dinheiro na conta da primeira-dama.
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edineia aparecida isidoro comentou:
15/09/2019
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Gerusa Pontes de Moura comentou:
14/09/2019
Sim, verdade, me sinto num grande golpe, disfarçado, mas um grande golpe. Diferentemente de Maria Eulália, que de fato não se conhece, o presidente bolsonaro (com letra minúscula mesmo), nós conhecemos bem, pelo menos menos no que diz respeito à Ética e cidadania, muito parecido com o Nildomar de Juiz de Fora.
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Francy Litaiff (via FB) comentou:
14/09/2019
José Bessa,entendi. No passado,eu também já me identifiquei mais pra esquerda. Hoje,depois de tanta roubalheira,considero-me liberta dessa esquerda que ainda domina o país. Sou uma pessoa conservadora em vários sentidos,mas absolutamente mente aberta em termos de política. Se não corresponder ao que espero,vou pra ruas protestar novamente. Não tenho apego a nenhum político. Isso,nunca mais!
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Marcia Livia Gomes (via FB) comentou:
14/09/2019
Azambuja, Abominável essa sua forma de discordar do pensamento de outros. Respeito e conhecimento e o mínimo aceitável. José Bessa , professor querido e necessário. Agora eu vi, esse governo fundamentalista evangélico e seus eleitores não aceitam oposição. Credo.
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Bruno Oliveira (via FB) comentou:
14/09/2019
Azambuja, você acha que a juventude não tem cérebro? Acha que qualquer coisa que falam entra na cabeça e fica? Não subestime a juventude, meu caro. Nunca
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Luiz Azambuja (via FB) comentou:
14/09/2019
Puro lixo! Compartilha essas nojeiras com a sua família! Para de querer alienar a juventude compartilhando sua diarreia mental em grupos de universidades. Cara nojento!
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Taquiprati comentou:
14/09/2019
Oi Azambuja, não precisa ficar zangado. Contra-argumenta. Apresenta dados. Dessa forma, a discussão pode fluir e vc pode ajudar a esclarecer teus pontos de vista. Só ofensas não iluminam. Escreve. Manifesta teu ponto de vista. Aqui é um lugar de debate.
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Vera Sami comentou:
14/09/2019
Que é isso gente . parece que aconteceu algo parecido com um, amigo nosso, diretor de um museu, sofreu este golpe,depois pergunta a ele
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Celeste Correa comentou:
14/09/2019
É... Juiz de Fora a cidade que me acolheu com tanto carinho há 45 anos atrás tem sido ao longo da sua história protagonista de fatos dos quais não nos orgulhamos nem um pouco. Daqui saiu o golpe de 64 com as tropas do General Mourão (o outro)... aqui a Presidenta Dilma Rousseff esteve presa e foi interrogada no período ditatorial. Dima foi interrogada e chegou a ficar presa na penitenciária de Linhares, no início dos anos 70, onde tbm foram presos Fernando Pimentel, Márcio Lacerda e Nilmário Miranda. No seu depoimento dado à comissão mineira, a presidenta contou que levou vários socos no maxilar durante as sessões de tortura em Juiz de Fora no início dos anos 70... Aqui aconteceu a facada fake e todo aquele teatro que culminou na eleição do Jair e até o golpezinho chulé aplicado pelo "Nildomar". É... já não comemos os brigadeiros gostosos feitos pela mãe do Nilomar( o que não é fake), mas juiz de fora e todo o Brasil está comendo o pão de queijo que o diabo amassou com o desmonte de todos os instrumentos democráticos do país feito por esse (des) governo
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Regininha Freire comentou:
14/09/2019
Conheci o Nilomar, irmão da Neila. Os dois já morreram. O Nilomar era um cara alegre, cantava as pedras do Bingo nos fins de semana num balneário de uma cachoeira no município de Presidente Figueiredo. A Neila morreu de Aids, contraída do marido dela, o Candinho, ambos foram internados no Hospital Tropical, ele alguns meses antes dela. Neila morreu dois meses depois dele. Foi triste. O pessoal da Paróquia de Aparecida gostava da Neila, que tocava órgão na Missa da Igreja de Aparecida.
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Francy Litaiff (via FB) comentou:
14/09/2019
Sou tua fã de carteirinha. Sempre fui. Mas,pergunto:e os políticos que Bolsonaro quis simplesmente afastar do poder,eram bons? O que me dizes deles? E seus partidos?
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Taquiprati comentou:
14/09/2019
Francy, a luta é contra quem está no poder, criticar, criticar sempre o poder. Tenho mais de 20 cronicas criticando o Lula, outras tantas criticando a Dilma, embora me localize, é claro, mais perto desse campo do que do outro. De qualquer forma: Hay gobierno? Soy contra.
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Vera Rodrigues comentou:
14/09/2019
aquele abraço pra Maria Eulália ! Haha que ótimo , Bessa !
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Maria Claudia Badan Ribeiro (via FB) comentou:
14/09/2019
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Ana Silva comentou:
14/09/2019
Boa, Bessa, muito boa. Será a Benedita mesmo! Horror, não temos presente e tão pouco futuro com esse desgoverno. Horror, horror!!
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Bolivar Carvalho (via FB) comentou:
14/09/2019
Rua Halfed, onde houve a tal fackada.
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