CRÔNICAS

Meu amigo Roberto Luís

Em: 21 de Julho de 2019 Visualizações: 3013
Meu amigo Roberto Luís

"Quando um cachorro morde um homem, não é notícia,

mas se um homem morde um cachorro, isso é notícia".

(Charles Dana, redator do New York Tribune, 1862)

Será que chorar aqui a morte do meu amigo Roberto Luís pode ser reprovável? Afinal, ele nunca foi mordido por um homem para assim virar notícia, conforme lição controversa ensinada outrora nos cursos de jornalismo, que exaltavam o “inusitado” e o “fantástico”. Diariamente morrem milhares de indivíduos, mas as páginas dos jornais não estão abertas para questão pessoal e corriqueira, ainda mais quando há assuntos atuais de interesse coletivo: agressões contra as conquistas sociais, os índios, o meio ambiente, o movimento LGBT, as universidades, a justiça, a saúde pública, a vida.

O que é uma morte anônima diante de fatos recentes como o incêndio criminoso da Casa de Reza dos Kaiowá em Dourados (MS) e a reforma da previdência? Sem contar os diálogos indecentes do ministro da Justiça ou a provável nomeação do fritador de hambúrguer como embaixador nos Estados Unidos: the right man in the right place.

Apesar de Roberto Luís ser um ilustre desconhecido, peço licença ao respeitável público para prantear nesta crônica a morte de alguém sem renome, que viveu sua vida pacata no anonimato, longe das luzes da ribalta, ao contrário do genial cantor e compositor João Gilberto que até “era uma pessoa conhecida”, como descobriu o presidente, que fala em nome do Brasil, para orgulho - imagino - dos seus 57 milhões de eleitores e vergonha da outra metade do país.

Lembro que a crônica, como gênero textual, independe dos fatos que são notícia e não deve ser necessariamente opinativa, o que dá certa liberdade temática ao cronista. Situada assim entre o jornalismo e a literatura, a crônica abre um espaço para o poesia.

Procura da poesia

Carlos Drummond de Andrade, em 1945, já nos alertava em A procura da poesia:

- “Não faças versos sobre acontecimentos. Nem me reveles teus sentimentos. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”.

Para o poeta, a morte de um ser querido e os esqueletos de família são imprestáveis e desaparecem na curva do tempo. Ele nos aconselha a penetrar surdamente no reino das palavras onde “estão os poemas que esperam ser escritos”.

Incapaz disso, permaneço nesse entre-lugar, na fronteira entre o jornalismo e a literatura, para comentar a morte de Roberto Luís e relatar um pouco a vida de quem não conheceu sua mãe e foi abandonado ainda bebê no portão da PUC de Petrópolis, onde nunca entrou. Lá não havia sistema de cotas. Ele era preto. Ao ser recolhido, tremia de frio, de fome, muito assustado, traumatizado pelo enjeitamento. Foi aí que o adotamos.

Desamparado, nos primeiros dias se encolhia debaixo de uma cadeira de embalo, como se fosse o útero materno. Foi preciso muita conversa e muito carinho para que se sentisse em casa, naquela que seria para sempre sua morada, onde conviveu harmoniosamente com um gato, que uma ou outra vez o esbofeteou, sem revide de sua parte.

Quando chegou, trazia uma pulseirinha com o nome com o qual o batizaram: Neco. Mudamos para “Patife”, um paralelo com seu antecessor, o finado “Canalha”, mas não colou, ele foi "Patife" apenas por algumas semanas. Ele era demasiado pacífico e dócil, incapaz de qualquer agressão. Aí, por causa das enormes orelhas e de um prognatismo superior, que segundo as más línguas lhe conferiam um ar de bobinho, começou a ser chamado apenas de Bob para não ofender a quem já era cheio de complexos.

Em geral, é o nome de batismo que gera o apelido como todo Francisco que acaba sendo Chico. Com ele ocorreu o inverso. De Bob virou Roberto. Depois, passamos a usar um apelido composto - Bob Lucho - em homenagem a um amigo colombiano que um dia se hospedou em casa e por ele se acarinhou. Foi assim que se originou o nome pomposo de Roberto Luís pelo qual raramente era chamado, apenas em momentos especiais:

- Corre, Roberto Luís - gritei quando três marmanjos tentaram me assaltar numa noitinha em que fazíamos nosso passeio habitual pelo parque. Segui o exemplo de minha mãe que me chamava sempre pelo apelido, mas na hora de me dar um esporro, usava meu nome completo com todos os “ff” e “rr”.

Epitáfio para um cão

Quando chegou, ainda pequeno, Roberto Luís encarou uma dieta vegana, aceitava comer arroz com feijão alternado com ração. Depois foi se empoderando e ficou exigente, sem ser abusivo, separando o que não gostava no prato. Assumiu que era carnívoro.

Socialmente sempre foi visto como filho da Elvira-lata, até que recentemente uma senhora bonita se acercou no parque, lhe fez carinhos, avaliou suas orelhas grandes – uma delas caída - suas patas curtas e seus pelos grossos, constatou sua mansidão, seu temperamento amigável e brincalhão e concluiu, então, com ar de especialista, que embora mestiço, ele tinha traços da raça Corgi, a mesma de um dos cachorros da rainha da Inglaterra, conhecido por guiar os rebanhos no País de Gales. Mas Bob Lucho vagou e andou para essa pretensa origem aristocrática. Continuou sendo o humilde de sempre.

Na época do golpe contra a presidenta Dilma Roussef quando uma parte do Brasil saía às ruas para atender o apelo do pato da FIESP e a outra parte manifestava-se contra, Bob Lucho cumpria seu dever cívico, desfilando pelo menos em duas edições da "Cãominhada no Campo de São Bento", realizada sempre em outubro, em Niterói. Ele confraternizou com seus colegas e chegou a ser atendido gratuitamente numa barraca da Universidade Federal Fluminense instalada no percurso da manifestação. 

Foram 16 anos de convivência diária. Durante a vida fui seu melhor amigo, o seu humano de estimação, mais ainda do que o gato León que ficou solitário e triste com sua partida. Aprendemos um com o outro a fidelidade e a gratidão, que ele sabia manifestar com o gesto de um irresistível olhar, terno e doce, o rabinho balançando de alegria, mesmo quando as forças já o abandonavam. Ele era manso e humilde de coração. Talvez a poesia resida aí: na ternura, em todas as línguas, em todas as culturas, em todas as espécies.

Nesta segunda (17), Roberto Luís, o Bob Lucho, morreu do coração em minha casa, chamando atenção para a finitude da existência. A dedicação do veterinário Daniel Faustino prolongou sua vida além do possível. Aqui estou agora com a dor da perda, reverenciando a sua memória por seu legado de ternura e alegria de viver, contaminado por sua lealdade e fidelidade que nem sempre pautam a conduta humana. 

Lembrei do poeta Lord Byron, representante do romantismo britânico, que escreveu “Epitáfio para um cão”, poema gravado na lápide do monumento onde sepultou seu cachorro Boatswain, em 1808. Parodiando uma frase a ele atribuída, confesso que quanto mais conheço a trajetória de homens como Bolsonaro, Dias Toffoli et caterva, mais estimo os animais.

P.S. - Nesta terça (16), na Livraria Timbre, no Shopping da Gavea (RJ), o escritor Márcio Souza autografou durante três horas o seu livro "História da Amazônia. Do período pré-colombiano aos desafios do século XXI" (Editora Record. Rio. SP. 2019. 391 pgs). A ideia do livro começou na Universidade da Califórnia, Berkeley, quando Márcio foi convidado para ministrar duas disciplinas: O moderno romance brasileiro, em português e Images of the Amazon, em inglês. Trata-se de uma ampliação de um texto anterior a "Breve História da Amazônia". O prefácio é de Brigitte Thiérion - Maître de conférences da Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3, que se refere a "uma história sombria por muitos aspectos, que diz muito das capacidades predatórias da civilização norteada pela ideia do progresso a todo custo e pelo gosto imoderado do poder".

 

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22 Comentário(s)

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Renato da Silva Brizola comentou:
27/07/2019
Nunca tinha lido suas crônicas, gostei muito.. Li recente a carta do Jo Soares. Interessante.. Este pais só tende a piorar com o bolsonarismo do povo. Sou pouco e péssimo leitor, herança brasileira, mas cronicas gosto muito. Quando estudei na infanto juventude no PR., pesquisava os assuntos que gostava em livros numa biblioteca municipal. Tudo era escrito a mão. Hoje fico triste de ver os jovens com todas as informações nas mãos no cebolar. Mas infelizmente abreviam tudo no watsface e o que vão aprender de "pourtugueis. Serão o futuro do pais. Parabéns José Bessa.
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Décio Adams comentou:
25/07/2019
O Taquiprati é sensacional. Sempre tem uma história ou poderíamos dizer uma parábola (verdadeira) para ilustrar todas as situações, principalmente aquelas mais esdrúxulas que aparecem em nosso cenário político diariamente. O Bozo é o campeão de afirmações sem fundamento. Mente mais depressa do que a água escorre pelos rios. Saudações
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Leneide Duarte-Plon comentou:
23/07/2019
Que prazer sempre renovado ler uma crônica do José Bessa !
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Socorro Calhau comentou:
22/07/2019
Que linda homenagem!!! Aceite meu abraço mais apertado Bessa!!
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Ricardo comentou:
22/07/2019
As palavras demonstram que ele foi um grande companheiro!
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elias salgado comentou:
22/07/2019
Roberto Luís, o Bob Lucho, que sua alma esteja eternamente atada à corrente da vida eterna.
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Eliane Camargo comentou:
21/07/2019
Meus sinceros pêsames pelo Bob Lucho que, pelo o que descreve, te fara' muita falta. Muita gente diz que animal não fala, mas por convivio com um gato= eles se expressam de maneira incrível e apenas a convivência permite-nos de entender sua linguagem geralmente clara, ao contrário, como vc diz da linguagem de "pessoas" que não sabem o que dizem. Abraços.
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Valter Xeu comentou:
21/07/2019
Publicado em Pátria Latina - http://www.patrialatina.com.br/meu-amigo-roberto-luis/
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Bruno Villela comentou:
21/07/2019
Grande Roberto Luís, servo da ternura, numa sociedade onde Eros agoniza.
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Juliana Lucinda comentou:
21/07/2019
Ô Bessa! Meus sentimentos! Perdeu um grande companheiro né?!?
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Mariah Kokai comentou:
21/07/2019
Poxa vida, sinto muito muito. Agora é lembrar das coisas boas que ele proporcionou pra vocês. E saber que ele foi muito feliz todos esses anos. Adorei o texto! Ri das mudanças de nome e como um nome foi levando ao outro, rs.
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Rodrigo Martins comentou:
21/07/2019
professor, Nossa solidariedade. Achei uma linda e merecidíssima homenagem. Fiquei triste em saber do passamento dele. Sinto muito pelo falecimento do Bob. Fiquei preocupado quando o senhor havia me dito que o veterinario ia na casa dos senhor para examiná-lo. É muito triste perder um amigo fiel, companheiro de todas as horas (achei muito linda a foto dele com o gatinho), lembro quando o meu outro gatinho o Tilbert (irmao do Alex) morreu em 2014, no dia 5 de marco numa quarta de cinzas, foi uma tristeza muito grande, ficamos arrasados. Lembro que quando acordava 5:15 para ir para uerj para pegar o metrô ele acordava junto comigo sempre e me fazia companhia e depois que saía ele voltava para dormir.
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Elias comentou:
21/07/2019
Cada semana quando leio suas crônicas sinto que tenho muito a aprender com a vida..parece que me transporto a outro mundo.muito obrigado por nos proporcionar estes momentos..parabéns sou seu fã...este país está carente de pessoas como o Sr...
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Aurora Cano (via FB) comentou:
20/07/2019
"Se como dizem alguns / Existe o céu dos cachorros/ Por lá andará Bob Lucho / deambulando, deambulando"
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Marlene Silva comentou:
20/07/2019
Linda homenagem a um grande amigo, ele era muito amoroso.
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Auxiliadora Farias comentou:
20/07/2019
Adorei tua crônica! Talvez por ter tido o prazer de conhecer o finado Bob. Mas foi escrita com muita emoção, como uma justa homenagem ao seu fiel e dócil amigo! Imagino a lacuna que ele deixou na tua casa, no Campo de São Bento, e muito mais: no teu coração! Carlos Drummond, com todo respeito, que me perdoe! Tudo que evoca a lembrança de um ser amado, para esta ignorante de jornalismo e literatura, é poesia. Pena que os caninos, como tu, sejam todos ateus. Do contrário, eu estaria te dizendo, fica em Paz, Beibe, pois Bob está bem. Sendo recebido no céu, com alegria, já encontrou Manchinha, Pipoca e o Canalha
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Pedro Custódio comentou:
20/07/2019
Lindo texto. e cheio de curvas. Abraços pelo dia do Amigo.
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AnaSuelly Arruda Câmara Cabral comentou:
20/07/2019
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Ana Silva comentou:
20/07/2019
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Gunter Zibell comentou:
20/07/2019
Sinto muito, Bessa. E foi tão perto do seu aniversário... Não sou frio com cães e gatos, mas tem uma desconexão entre o ciclo de vida deles e o dos humanos. Devemos ser serenos com isso.
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Ceane Simões comentou:
20/07/2019
Olga e Xoinha, as caninas aqui de casa, enviam um fraterno abraço
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Gabriel Kelly comentou:
20/07/2019
muito lindo! parabéns e meus pêsames pelo doguinho
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