CRÔNICAS

O foro ou o furo íntimo do capitão?

Em: 24 de Fevereiro de 2019 Visualizações: 1126
O foro ou o furo íntimo do capitão?

Peço ajuda aos universitários. Alguém aí sabe me explicar o que é “foro íntimo”? O porta-voz da Presidência da República, general Otávio do Rêgo Barros, visivelmente constrangido, pagou o maior mico quando, cumprindo ordens do capitão, anunciou que a exoneração do ministro Gustavo Bebianno foi uma “decisão de foro íntimo” do presidente Jair Bolsonaro. Aconteceu nesta segunda (18). Sei que a notícia envelhece rapidamente, mas quem tem coluna dominical não pode deixar de comentar fato ocorrido dias antes, embora isso possa ser interpretado como desvio de coluna.  

A gente ouviu bem a voz do porta-voz? Ele falou “foro íntimo” ou “furo íntimo”? Se foi o furo, não queremos penetrar na intimidade do capitão, por respeito, para evitar mais constrangimentos. A coluna é pudibunda. Nada de indecências. Mas se foi o foro, merece críticas. De qualquer forma, ambas as possibilidades serão aqui examinadas perfunctoriamente na acepção que dá ao termo perfunctório o  jurista amazonense Bernardo Cabral. Primeiro o foro e depois o furo.

As intimidades

Os universitários me informam que “foro íntimo” significa motivos de ordem pessoal, que não podem ser revelados publicamente. Trata-se de um direito individual à intimidade. Ou seja, quando o presidente invoca esse direito, ele quer se eximir de explicar ao país as razões pelas quais descartou um ministro que, minutos depois de exonerado, foi por ele elogiado em mensagem televisiva: “Continuo acreditando na sua seriedade e qualidade do seu trabalho. Reconheço também sua dedicação e esforço durante o período em que esteve no governo”.  

Epa! Peralá! Por que então demitir um ministro com tais qualidades em um ministério já tão damaresmente capenga? O presidente tirou o próprio loló da seringa, obrigando seu porta-voz a “usar em público a indecente explicação”, quando “o general deveria saber perfeitamente que interesse público prevalece, sempre, sobre qualquer questão de foro íntimo” – escreveu Clóvis Rossi na Folha de SP (19/02).

Reconhecemos que não é fácil portar a voz do presidente Jair Bolsonaro, tá ok? Se o capitão rejeitasse um prato de feijão com brócolis, couve-flor e cebola, aí sim, para não falar nas flatulências provocadas por aquela gororoba, podia alegar “foro íntimo”. Na vida privada, na intimidade do lar, Jair goza de foro íntimo, mas não assim o presidente no exercício do seu mandato, cujo dever é explicar ao país os motivos da demissão, porque aqui “o único critério que vale é o interesse público” – como defende Clóvis Rossi, que é uma espécie de Ricardo Boechat da palavra impressa:

- “Ao esconder-se atrás do “foro íntimo”, o presidente continua devendo explicações sobre as suspeitas de trambiques em que estão envolvidos seu filho Flávio, seu ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio e seu ex-ministro Bebianno”.

Se a moda pega, o motorista Fabrício Queiroz e o senador Flávio Bolsonaro também podem alegar “foro íntimo” para ocultarem da Polícia Federal o destino do dinheiro público no depoimento que até hoje inexplicavelmente não deram, produzindo fedor de enxofre e de impunidade. Aí já não é mais foro, é furo íntimo, como sinalizam os universitários com o gráfico do triângulo vocálico no qual uma vogal se transforma na outra.

O furico

Os linguistas denominam de alçamento vocálico ou abaixamento vocálico ao processo de mudança do grau de abertura de vogais: a escrita registra coruja, governo, Pernambuco, mas em muitas regiões do Brasil, devido ao tal alçamento, se fala curuja, guverno, Pernambucu. No entanto, o significado não muda. A curuja continua filosofando e o guverno continua governando (ainda que em se tratando de Bolsonaro... não sei não).

Trata-se de um fenômeno presente na formação da própria língua portuguesa desde a época da província romana da Lusitânia. O “abaixamento vocálico” do latim bucca deu boca em português, embora a higiene da dita cuja continue sendo bucal. Gil Vicente, no Auto das Ciganas, em 1526, se refere a asno e rosa, grafando aznu e ruza. Esse fenômeno nos permite conjecturar que Bolsonaro pronunciou “foro” e essa versão oral foi tomada ao pé da voz pelo porta-voz, natural de Recife, que não percebeu que o capitão baixou suas vogais para tirar o seu Pernambucu da reta e exibir o furo íntimo.

Essa é uma das especificidades das línguas românicas, incluindo o português, na trajetória documentada da língua, como nos mostra a gramática histórica ao analisar aspectos morfológicos e fonéticos. Um processo similar já havia sido descrito por Joseph Oversea Toomuch no prefácio da tese de Mary Helen Look Understanding phonology – the phonological constituents in Pernambouc Portuguese defendida em Harvard University. Sua colega Joy Reboll chamou a atenção para o fato de que, em alguns casos, essa alternância da altura das vogais pode mudar o sentido da palavra. Foi o caso de foro para designar furo.

Ficamos então combinados assim: as alegações de Bolsonaro foram de furo íntimo ou talvez, considerando a pequenez da coisa, de furico íntimo.

Na realidade, furo aqui tem várias leituras, todas elas igualmente indecentes. Pode ser furo jornalístico que ele deu com a rasteira despudorada no ministro. Ou furo como “roubada”, no sentido da canoa furada em que ele entrou. Ou ainda de furo como na expressão “ele furou”, não cumpriu o que prometeu. Ou ainda como papo furado, algo que engana os trouxas.  Ou qualquer outro sentido que o deputado e ator Alexandre Frota queira atribuir (cartas para a redação). Pode ser tudo, menos foro íntimo.

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11 Comentário(s)

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Mauricio Gama comentou:
26/02/2019
Bessa Freire exigindo fluidez verbal demais, de quem não sustenta sete minutos sem WhatsApp.
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Tibério comentou:
25/02/2019
Melhor do que esta só aquela em que o Amazonino passava a carroça de sena ao parceiro presa entre os dedos do pé.
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Rodrigo Martins Chagas comentou:
25/02/2019
Bom dia, professor Bessa! Mais uma ótima crônica que o senhor nos presenteia. Com relação ao capitão, é uma bagunça total esse governo, uma verdadeira vergonha. Professor, eu morri de rir na parte "o presidente tirou o próprio loló das seringa" ahhahhaha muito bom!
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Letícia Cao Ponso comentou:
24/02/2019
Ahahahahah, furico íntimo! Pô, Bessa, depois vais reclamar que te censuram no facebook, hahahah...
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Sandra Silva comentou:
23/02/2019
Meu brilhante professor,depois dessa reflexão sobre os recentes fatos /"furos" de nosso infelizmente capitão,fico preocupada e pensando até quando conseguiremos passar por tantos "foros íntimos " desse desgoverno. Enquanto espero que tudo passe ,creio ser melhor termos cuidado com os nossos "furicos".A caminhada está preocupante.Forte abraço e meu muito obrigada !
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Claudio NogueirA comentou:
23/02/2019
Interessante. . E quanto a linguística, acabaste dando uma explicação sobre a falar dos portugueses. Aqui muitas palavras com "o" são pronunciadas com "u": curação, uremos, culégio (como falam alguns cariocas), etc.
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Arari Maria F. de Souza comentou:
23/02/2019
Não dá para acreditar no que estamos vivendo. Precisamos pensar sobre como chegamos a esse ponto e buscar uma saída para essa situação .
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Celeste Correa comentou:
23/02/2019
Aff! As questões de foro íntimo do capitão não são diferentes das do seu furo intimo. Ambas são compostas de material pestilento.
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Joy Rebollo comentou:
23/02/2019
Eu li. Morreremos de rir. Nunca vi um uso tão apropriado da fonética.
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Maria José Alfaro comentou:
23/02/2019
Maravilhosa crônica. Estás com a macaca solta!!kkkk
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Ana Silva comentou:
23/02/2019
Maravilha! Bessa sempre muito atento aos detalhes. Rsrsrs Excelente texto! Baixaria total, o Brasil,com esses amadores, está indo para o furo do poço. Digo fundo, mas essa é uma questão de "foto íntimo" do atual desgoverno. Eu fico me perguntando onde está a galera das panelas. Certamente, estão todos se escondendo no furo do Bozo.
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