CRÔNICAS

Na eleição: a família rachada, o choro de Deus

Em: 14 de Outubro de 2018 Visualizações: 2944
Na eleição: a família rachada, o choro de Deus

Um ex-petista, militante arrependido, caluniou nas redes sociais o filho de sua tia, apenas porque ambos votam em candidatos presidenciais diferentes. Não ousou aparecer, usou para isso o sobrinho que, sem querer, revelou a trama. Por que pessoas que se amavam tanto, que têm uma história comum, não podem discutir suas divergências em família, em volta da mesa, longe da privada? Por que não é possível conversar civilizadamente sobre os programas dos candidatos, o que cada um quer para o Brasil?  Só porque um dos candidatos foge ao debate, seus eleitores não são obrigados a segui-lo.

O traíra que muda de lado costuma ser ainda mais agressivo, porque quer provar aos novos cupinchas que renegou o passado. Veste camisa amarela, faz discurso na carreata e mesmo assim é vaiado. Por isso, precisa mostrar serviço para ser aceito. O pior inimigo do grão de milho não é a galinha, que quando fraca não pode atacar. O pior é o outro grão, que está no papo dela, que a está alimentando e lhe dando forças para assaltar todo o milharal. O primo caluniador é o grão de milho que já está no papo do candidato das trevas, a quem alimenta sem qualquer escrúpulo. Dane-se o afeto. Dane-se a razão. Dane-se a busca da verdade.    

Por que tanto desamor, tanta agressividade, tanta baixaria? Como a sociedade brasileira, tradicionalmente cordial, acumulou tanto ódio?  As famílias estão rachadas. Já não interessa o que cada candidato está propondo para resolver os graves problemas do país na área de saúde, educação, segurança, emprego, direitos sociais. O que interessa é desqualificar o interlocutor dentro da família para não ouvir seus argumentos. A tia é fascista, o primo é ateu e comunista. E o Brasil, cadê o Brasil? As ofensas, na realidade, tem uma função: impedir que se discuta o país.

Debate não

É como se o médico do candidato das trevas estendesse sua recomendação a todos os brasileiros, aconselhando-nos a não participar de debates e de conversas familiares sobre os problemas nacionais, porque isso faz mal à saúde. Trocar ideias não! Nem pensar! Ideia é algo perigoso. A única coisa permitida é a ofensa pessoal esvaziada de qualquer reflexão, é enxovalhar a honra alheia. O exemplo da virulência e da mentira vem de cima. Do debate, pode surgir a verdade.

As exceções são poucas. Converso bastante com uma prima querida, ardente admiradora do Bolsonaro. Ela não é fascista, embora vote num racista, misógino, xenófobo, defensor da tortura. Temos opiniões diametralmente opostas, que milagrosamente não afetam o nosso afeto. As discussões às vezes são duras, mas sempre respeitosas. Numa postagem no face, ela contou a experiência de uma amiga para justificar a ausência nos debates do candidato das trevas: 

- “O cara anda de bolsinha. Peida, faz cocô involuntariamente e fede. Tu te lembras da Suely? Ela teve câncer de intestino e usa bolsinha permanente. O som do peido é alto e o cheiro da merda que acompanha é horrível, ela fica tremendamente constrangida. Li o depoimento dos médicos do Bolsonaro, ele vai usar bolsinha durante pelo menos três meses, não pode passar por esse constrangimento. O Adélio enfiou a faca e girou. Outra coisa: o diafragma participa diretamente da fala. A pessoa tem que falar baixo o menos possível. Obs: não fiz biometria, por isso não posso votar”.

Como temos intimidade e zoamos um ao outro, respondi:

- “Três meses? Se ganhar, sobe a rampa do Palácio do Planalto soltando pum. Não precisa nem empunhar a metralhadora giratória que ele gosta tanto de exibir. Acontece que essa proibição médica é seletiva, exclusiva para a hora do confronto entre programas dos dois candidatos. No dia do debate na Band, os peidos não impediram a reunião dele, no Hotel Windsor, no Rio, com 380 deputados federais e estaduais eleitos pelo PSL e aliados. Participa de carreatas, dá entrevistas à televisão, faz reuniões, mas não pode confrontar seu programa com o do adversário. Ele só flatula nos debates? Tudo bem. Haddad quer debater, não se importa com o fedor das ideias alheias”.

Deus chora

Disse à minha prima que algo cheira mal no reino da Dinamarca, que a doença dele é outra. A Band propôs realizar o debate no Rio, residência do fujão. Fugir do debate é menosprezar o eleitor, achincalhar a democracia, não se submeter à crítica. Esse é o momento do confronto saudável de intenções e de planos. Afinal, o Brasil precisa ouvir o que cada candidato quer fazer com o país, mas um deles se recusa a expor seus projetos, com medo de ser ofuscado. Se o médico o interdita, para isso tem o vice. Se o general Mourão não pode substituí-lo agora, como fará depois caso seja eleito?

É que no debate a máscara de Bolsonaro pode cair. Ele finge que não faz parte do sistema de poder, ao qual serve há 28 anos com mandatos sucessivos por partido envolvido na corrupção. Elegeu filhos, ex-mulher e usa recursos públicos para pagar a cuidadora dos seus cachorros e receber imoralmente auxílio moradia. Votou contra os direitos das empregadas domésticas, dos fracos e desvalidos, acha que “mulher deve ganhar menos porque engravida”. No debate, isso ficaria esclarecido. Ele precisa nos dizer se efetivamente pretende cortar o 13º salário e outros direitos sociais e se vai mesmo armar a população. Até Deus chora quando ouve seu discurso.    

Aliás, “Quando Deus chora” é um belíssimo artigo da pastora e teóloga da Igreja Luterana (IELCB) Lusmarina Campos Garcia, que está bombando na internet. Vale a pena reproduzir aqui alguns trechos:

“Uma das narrativas do evangelho retrata Jesus expressando um profundo lamento ao olhar para a cidade de Jerusalém e dizer: “Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas não o quisestes” (Mateus 13:31-35).

“A violência do povo de Jerusalém feriu o coração de Jesus. Ele ensinava a paz e a não violência. Uma vez Jesus disse aos seus discípulos e às suas discípulas: ‘Bem-aventurados os pacificadores porque dos tais é o Reino dos Céus’. E outra vez, quando os soldados vieram prendê-lo e Pedro tirou a espada e cortou a orelha de um soldado, Jesus o repreendeu e ordenou-lhe que guardasse a espada. Atos de violência não são admissíveis no seguimento a Jesus. Quem o segue, precisa optar pela paz”.

“Assim sendo, não é possível que as pessoas que se consideram cristãs, apoiem um projeto de governo e escolham um candidato à Presidência da República que propaga a violência indiscriminada e o armamento da população como método de segurança pública. Jesus nos convoca para a paz, não para a guerra; ele nos chama para o amor, não para o ódio. Achar engraçado que se pergunte a uma criança se ela já sabe atirar ou ensiná-la a fazer um gesto de disparo com as mãos, é destinar nossos filhos e filhas à degeneração psicológica compulsória”.

“Jesus foi torturado; morreu depois de ser exposto a um processo de tortura. A tortura é cruel. A tortura feita a Jesus e a qualquer outra pessoa não é justificável. Não há nada de engraçado nisso. O que há é muita desumanidade. Quem aplaude a tortura perpetrada contra qualquer pessoa torna-se um escarnecedor, seja na época de Cristo ou hoje. Todo tipo de violência fere o coração de Deus. Imagino que Deus esteja chorando ao olhar para o Brasil e ver que há filhas e filhos seus dando ouvidos a um propagador de atrocidades que, em seu nome, faz aquilo que Jesus jamais faria”.

P.S. E o primo do primo? Uma das características históricas do fascismo foi justamente estimular que filhos denunciassem pais considerados comunistas, jogando irmão contra irmão. Quem explica tudo é Rafael Azzi, filósofo carioca radicado em Ouro Preto, em artigo “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada” - (https://jornalggn.com.br/noticia/sua-tia-nao-e-fascista-ela-esta-sendo-manipulada-por-rafael-azzi )

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14 Comentário(s)

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Suelem Castro (via FB) comentou:
16/10/2018
Grata. Vi também sua postagem sobre o artigo do Leo Moraes http://midianinja.org/news/as-pessoas-que-eu-amo-que-optaram-pelo-capitao/?fbclid=IwAR0_MeZ4tSlwIJyyJ2MOiMyQ1UWLUyJJFqED2QeZQ4mpgdTXg62mGEAq_Qw
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Cláudia Santamarina (via FB) comentou:
16/10/2018
Fiquei pensando sobre máscaras... Talvez saia daqui para uma releitura de Stanley Milgram - Obediência a Autoridade - que tanto me chocou ainda na faculdade dos anos 80, ou para Jung, de quem nunca fui fã. Mas, Jung, fruto de protestantes, deve ter algo a somar ao Milgram. Talvez não haja máscaras... Bolsonaro e seus eleitores são tão claros. Talvez não haja obediência cega e que isso seja apenas a futura justificativa para a omissão e para os vandalismos emocionais, depois do caos e do restabelecimento da ordem. Não sei minha tia está sendo manipulada ou se suas sombras, enfim, encontraram espaço e aprovação social para ocuparem a cena e a alma com protagonismo. Como disse o outro ou a outra, já perdemos as eleições. No mínimo, porque hoje temos mais motivos para temer os seguidores do Bolsonaro, que passam incólumes pelas vistas dos antipetistas, do que os ladrões. A frieza e a perversão balizam a opinião da maioria. O que ouço, como lâmina que corta meu coração é: "Se vão morrer uns inocentes... Que morram. Seja nas favelas, nos campos, nos quilombos, nas terras indígenas, nas universidades. PT nunca mais (entendendo como PT qualquer opinião divergente). Os diferentes e seus defensores, nunca mais também (taxando os diferentes de comunistas). Acabou a farra da humanidade e da busca por justiça social. Quem manda é a maioria. E para isso, tudo se justifica." Ótimo texto, José Bessa! ??
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Silvio Márcio comentou:
16/10/2018
Se eu puder recomendar alguma coisa sobre realidade do PTna educação dos surdos, mas não quero entrar em brigas com membros da familia do PT, mesmo que essa briga seja de ideias. Não vale a pena, sobretudo quando envolve ideologia. Se não tivermos cuidado, a ideologia vira idolatria e tira insensível crítico das pessoas. Eu já sofri algumas vezes por brigar com familiares. Não brigo mais, eles que fiquem com suas verdades e me deixem em paz. P.S. Eu acreditei na história dele sobre ditadura militar, mas ele não acreditou nas minhas palavras da realidade do PT sobre educação dos surdos. É lamentavel. Grato pela sua compreensão.
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Fernando Soares Campos (via FB) comentou:
14/10/2018
Ai vai com a ilustração Flatulence War. http://port.pravda.ru/mundo/14-10-2018/46480-eleicao_brasil-0/
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Vanessa Dutkus Saurusaitis (via FB) comentou:
14/10/2018
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Leonardo de Carvalho Augusto comentou:
14/10/2018
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Glorinha Nogueira (via FB) comentou:
13/10/2018
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Ana Artaxo (via FB) comentou:
13/10/2018
O que mais me choca é que não se trata de um caso isolado. Afora isso, para além do desprezo ao afeto, as pessoas caluniam nos bastidores, mas quando confrontadas, negam de todas as formas, invocam Deus e o diabo jurando que que não disseram nada. Chega a ser engraçada a forma como o ex-militante tenta justificar o ódio ao PT e a mudança de lado. Ainda mais fazendo isso usando terceiros ou outros subterfúgios igualmente baixos.Estou legal, agora, mas fiquei muito triste, muito mesmo com tudo isso. Queria tanto que não fosse verdade.
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Giane Lessa comentou:
13/10/2018
Na época do impeachment foi parecido. Vi muitas rupturas de amizade e dentro das famílias. Agora, tudo está elevado a não sei que potência. Ouvi alguém dizer que essa purgação na sociedade brasileira. Deus deve estar mesmo chorando..
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Francisco César Manhães (via FB) comentou:
13/10/2018
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Aparecida Freire comentou:
13/10/2018
E ainda tem gente que fala que devemos ver o outro lado da tortura, porque tudo tem dois lados. Esqueceram de falar isso pros Evangelistas que só propagaram a tortura sofrida por Cristo.
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Bolívar (via FB) comentou:
13/10/2018
Parabéns, José Bessa! O diálogo e o debate são as melhores armas para o fortalecimento de laços afetivos e da democracia.
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Ana Marília (via FB) comentou:
13/10/2018
É, eu prefiro ser chamada por alguns da familia como radical, bura, fudida, que merece pastar, mas prefiro assim mesmo votar num candidato professor, a favor dos direitos sociais, das mulheres, dos negros, dos indios, da democracia, do meio ambiente, do Brasil. Valeu tentar defender tudo isso e perder a amizade de alguns fascistas. Ao contrário da tia do artigo, a minha não está sendo enganada.
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Jacira Fernandes (via FB) comentou:
13/10/2018
Professor, acho que todas familias estão enfrentando o problema, ou quase todas. A minha virou um inferno. A gente mal se cumprimenta.
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