CRÔNICAS

BRASÍLIA: A SODOMA E GOMORRA DE PINDORAMA

Em: 02 de Julho de 2017 Visualizações: 2243
BRASÍLIA: A SODOMA E GOMORRA DE PINDORAMA

No mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) soltou o deputado Rocha Loures (PMDB, vixe vixe) e negou o pedido de prisão do senador Aécio Neves (PSDB vixe vixe), o Criador do Universo, escoltado por um querubim e um serafim, apareceu a Dom Pedro Casaldáliga, de 89 anos. O bispo emérito de São Félix do Araguaia descansava às margens do rio Xingu, na área alagada da Cachoeira do Limão, debaixo da última árvore que sobreviveu ao desmatamento da Hidrelétrica de Belo Monte. Levantou os olhos e prostrou-se descalço sobre a terra vermelha diante da face divina:

- Vou buscar um pouco de água para lavar vossos pés – disse o bispo, debilitado pelo mal de Parkinson. Deslocou-se em sua cadeira de rodas e pediu ao padre agostiniano José de Jesus Saraiva, que é seu enfermeiro:

- Traz água. Prepara farinha de mandioca, beiju e aquela quinhapira do Tiquié, lá do Rio Negro, aquela feita pela sogra do Nazareno.

Ofereceu aos visitantes peixe e vinho de buriti. O serafim pediu pimenta murupi. O querubim, malagueta. Enquanto os dois “seguranças” angelicais saboreavam a quinhapira dos deuses, Dom Pedro indagou:  

- Senhor, o presidente Michel Temer declarou em cadeia nacional de televisão: “Não sei como Deus me colocou aqui”. Senhor, está é a pergunta que fazem 200 milhões de brasileiros e a primeira-ministra Erna Solberg, da Noruega (ou será da Suécia?). Por que, Senhor, Vós lá o colocastes, envergonhando-nos diante de nós mesmos e do mundo? Além de corrupto, ele é medíocre.

Foi aí que o Senhor Deus dos Exércitos abriu o jogo:

- Pedro, me inclui fora dessa. Isso não é obra minha, mas de Lúcifer, o capiroto, que confessou em delação premiada ter agido em conluio com o pato da Fiesp. Por isso, estou aqui. Acaso poderei ocultar-te o que vou fazer? Tal qual Sodoma e Gomorra, é imenso o clamor que se eleva do Brasil. O pecado é grande. Muita corrupção: gente embolsando recursos da saúde, da educação, da cultura, da merenda escolar. Uma quadrilha, que tomou de assalto os poderes de Estado, comete crimes que bradam aos céus e pedem a Deus vingança.  

- E o que ide vós fazer contra esses crimes sem castigo? – perguntou o bispo.

- Eis que é chegada a hora do ajuste de contas. Estou mandando os anjos conferirem. Se for verdade, ai de ti, Brasil! Os quatro cavaleiros do Apocalipse trarão fome, desemprego, doenças e morte. Fogo e enxofre cairão do céu. A lama da Mineradora Samarco que jorrou com o rompimento da barragem de Mariana e destruiu casas, árvores, pássaros, peixes, envenenou os rios, matou gente e animais, na maior catástrofe ambiental do Brasil, vai parecer café pequeno.

O bispo do Araguaia, com seu chapéu de palha e seu anel de tucum que substituíram a mitra e o ouro, implorou:

- Senhor, não destruais o Brasil. Os inocentes não podem pagar pelos pecadores. Castigai apenas os ímpios. Preservai os justos: são milhões de brasileiros conscientes e honestos. Fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis o país em atenção a essas pessoas?

O Senhor respondeu:

- Ego accípior. Se encontrares em Brasília 50 homens justos, eleitos pelo povo, incluindo aí juízes do Supremo Tribunal Federal, ministros e ocupantes do Palácio do Jaburu, em atenção a eles, pouparei o país da destruição.

Dom Pedro fez as contas nos dedos, calculando, excluiu Jucá, Renan, Gilmar Mendes, Toffoli, Marco Aurélio, Alexandre de Moraes, Temer. O bispo tremeu nas bases e negociou:

-  Excelência, não me leveis a mal, se ainda ouso falar-Vos, embora seja eu pó e cinza. Se porventura faltar dez aos 50 justos, fareis perecer todo o país por causa desses dez?

O Senhor respondeu, tratando com a maior intimidade o bispo a quem muito amava:
- Fica frio, Pedro. Não destruirei o Brasil, se em Brasília forem encontrados 40 homens justos hoje no poder.

Dom Pedro voltou a contar. Foi excluindo um a um: deputados, senadores, juízes, ministros. Barganhou como um camelô da rua Uruguaiana:

- Rogo-vos, Senhor, que não vos irriteis se eu insisto ainda! Talvez só se encontrem 30 justos.

Deus, que não é besta, contou também nos seus dedos e desafiou:
- Se encontrarmos 30 políticos ou juízes incorruptíveis em Brasília, salvo o país inteiro.

Dom Pedro, que também não é leso, pediu as pastas do arquivo do Centro de Defesa dos Direitos Humanos para ali pesquisar os recortes de jornais e ponderou:

- Desculpai, se ouso continuar enchendo – com todo respeito - o Vosso divinal saco e torrando Vossa celestial paciência. Pode ser que só se encontrem 20, um deles já está em nossa lista, é o juiz Herman Benjamin.

- Tudo bem, Pedro.  Me diz quais são os outros e em atenção à tua coragem e aos 20 homens públicos honrados, não destruirei o Brasil.

Dom Pedro buscava os nomes, mas só encontrou Aécio, “o Mineirinho”, jamais preso apesar de ter suas trapaças fartamente documentadas; Rocha Loures, o homem da mala de dinheiro do Temer, agora solto; as falcatruas do Moreira Franco, o “Angorá”, e do Cunha; o cinismo de Gilmar Mendes libertando Eike Batista e de Marco Aurélio devolvendo o mandato a Aécio; visualizou - ai! - José Serra e - ai, ai -  Geraldo Alckmin, absolutamente impunes. O bispo pediu, então, à CNBB verificar na sessão plenária da Câmara dos Deputados do dia 30 de julho. Às 9h30, o único parlamentar solitário que lá estava era Celso Jacob (PMDB-RJ), preso por falsificação de documentos e dispensa indevida de licitação e autorizado a sair da prisão e a ela retornar depois de poder votar medidas sobre o destino dos brasileiros. Dom Pedro, derrotado, replicou:

- Senhorzinho de minh'alma. Não se irrite se falo ainda uma última vez! Que será se forem encontrados apenas 10 homens públicos honrados?

Deus respondeu sem pestanejar:

- Negócio fechado. Ainda assim não destruirei o Brasil por causa desses dez.

Nesse exato momento, os anjos, a quem tentaram subornar com propinas, já haviam feito suas contas. Chamaram o povo para as ruas e disseram a todas as pessoas decentes:

- Levantai-vos. É preciso sair de vossa apatia e desânimo, porque do contrário o Senhor vai destruir o Brasil. Ganhai as ruas. Manifestai vosso protesto e batei panelas. Panelas não são monopólio do pato da Fiesp. Batei panelas. Nada de olhar para trás, para não virar estátua de sal.

Foi aí, então, que a população descobriu, enfim, que quem colocou Temer no Jaburu e lá o mantém não foi Deus, mas nossa própria inércia política. E que ele só sai de lá se for retirado pela mobilização popular.

De todos os rincões do Brasil, ouviu-se um coro de vozes:
- Assim seja. Amém, Jesus! Aleluia, peixe no prato, farinha na cuia. 

Houve queda na Bolsa de Nova York com repercussão na Sacola de Brasília. Siempre es posible la utopia. 

 

P.S. Autoplágio de uma crônica publicada pelo autor, em 1997, no contexto do Amazonas. http://www.taquiprati.com.br/cronica/733-quem-e-afinal-el-nino

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11 Comentário(s)

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Carmen Lins comentou:
20/08/2017
Perfeito o texto, satirico e irônico. Vou levar.
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Olga Gomes de Paiva comentou:
04/07/2017
Agassiz andou pelo Ceará. Pesquisando gelo na serra dá Pacatuba...
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Vince Aggeler comentou:
04/07/2017
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Marco comentou:
02/07/2017
Viva D. Pedro Casaldáliga!
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VANIA NOVOA TADROS comentou:
02/07/2017
BESSA, QUEM COLOCOU O TEMER NO GOVERNO FOI O FALIDO PT QUANDO PRECISAVA DOS VOTOS DO PMDB PARA ELEGER A MULHER MAIS CORRUPTA E BURRA DO MUNDO DILMA VANA ROUSSEF E TODOS OS QUE VOTARAM NESSA MALDITA CHAPA. LEMBRO-TE QUE, COMO ALGUÉM, LIGADO A ANTROPOLOGIA TU NÃO PODES FALAR DESRESPEITOSAMENTE DO DEUS JUDAICO- CRISTÃO PORQUE NÃO SÃO SÓ OS DEUSES INDÍGENAS OU AFRICANOS QUE MERECEM RESPEITO. COM DEUS E SEU NOME NÃO SE BRINCA.
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Rosane Bastos comentou:
02/07/2017
Prezada, acho que não lemos o mesmo artigo. Lembre-se: Deus é humor.
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Rute Cunha comentou:
01/07/2017
Pedro, não desiste da luta
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Maria Celeste Freire Corrêa comentou:
01/07/2017
Maravilhosa!!! .\"... quem colocou Temer no Jaburu e lá o mantém não foi Deus, mas nossa própria inércia política. E que ele só sai de lá se for retirado pela mobilização popular.\" É,Deus disse: Faz a tua parte, que eu te ajudarei. Se as pessoas não tomarem consciência de que precisam ir à luta,o texto bíblico para Aécio,Temer e sua corja,será: \"Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.\".
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Vera Nilce Cordeiro Correa (via FB) comentou:
01/07/2017
Não meteria minha mão no fogo por Herman Benjamin, como também não colocaria todos os políticos no mesmo saco.
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comentou:
01/07/2017
A MORTE DE UMA JUSTA Morreu ontem (30.06.2017) em Paris, uma pessoa rara, raríssima: uma mulher política, justa, corajosa, lutadora. Alguém que nos faz dizer, contra todas as evidências que a midia despeja sobre nossas cabeças diariamente: \"Isso é possível\". Simone Veil nasceu em 1927 de uma família de classe média judia. Os pais tiveram quatro filhos. Chegou a guerra e, como milhões de judeus, ela foi presa aos 16 anos e deportada com toda sua família para os campos da morte. Ela foi a única sobrevivente, viu sua mãe morrer nos seus braços. Quando o campo foi libertado em 1945, ainda teve ainda que caminhar, com os sobreviventes, 70 quilômetros para chegar a um ponto de acolhida. Muitos morreram nesta caminhada. A memória de Auschwitz nuca a deixou, ela a marcou para o resto da vida, como o número que teve tatuado no braço. Ela podia ter ficado com ódio, desejo de vingança contra os alemães, os franceses que, em sua maioria, não defenderam os judeus. Seria mais do que compreensível. Ela foi uma das mais ardorosas militantes dos movimentos de reconciliação franco-alemã. Participei na minha juventude de um deles os \"Compagnons bâtisseurs\" (\"Companheiros da Reconstrução\"). Grupos de jovens franceses e alemães cruzavam a fronteira durante as férias e iam participar, junto com jovens do outro pais, de canteiros de reconstrução nos dois países, devastados pela guerra. Não esquecerei nunca a cidadezinha alemã onde fiquei, encontrei jovens como eu, crianças que aprendiam a ler, pais que me diziam candidamente: \"conheço a França, estive em Paris\" e todos nós sabíamos em que circunstâncias. Gente normal, em fim, gente como a gente. Como foi que chegamos a tanta barbárie? Foi graças a pessoas como Simone Veil que a reconciliação foi possível, que pudemos rapidamente fazer as pazes sem permitir no entanto o esquecimento. Foi graças a gente como ela que a construção da Europa apareceu como uma evidência, uma urgência inadiável, o sonho do \"Nunca mais isso\". Ela foi uma grande lutadora pelo surgimento da comunidade europeia da qual chegou a ser presidente. Rapidamente, a luta política a levou para a política, mas ela nunca se comprometeu, sempre defendeu contra todos, contra o ódio que chegava a suscitar, as causas que considerava justas. Uma delas, que ela venceu, foi a legalização do aborto em 1974. Como ministra da saúde, ela enfrentou as piores ofensas no parlamento. Foi chamada de nazista. Sei que é um tema ainda hoje controverso e respeito quem pensa diferente, mas por ter visto há muitos anos, em Aracaju, uma mulher pobre, uma mãe de 5 filhos, uma prostituta morrer de um aborto mal feito, mudei minha opinião diante da evidência de que milhares de mulheres o praticam todos os anos no Brasil, que muitas morrem e que se trata, na imensa maioria dos casos de mulheres pobres. Não posso considerar a questão resolvida com a formulação de uma lei. Como dizia Simone Veil, nenhuma mulher pratica o aborto alegremente. Todas ficam marcadas por este ato, e para o resto da vida. A coragem de enfrentar questões polémicas em favor de quem sofre, assumindo o risco do erro e do ódio. É isso, a meu ver que caracteriza um político. Dom Pedro Casaldaliga não encontrou nenhum, mas quem sabe, eles existem e não sabemos vê-los?
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Ana Silva comentou:
01/07/2017
Excelente!!! Supimpa. Os jornalões deveriam publicar esse primor de texto, crítico, irônico, satírico. Bem no estilo desse querido cronista. Muito atual!! rsrs
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