CRÔNICAS

RESISTE, JOÃO!

Em: 04 de Novembro de 2007 Visualizações: 5096
RESISTE, JOÃO!

Meu querido João de barba grisalha,

 

Saudações!

 

Escrevo essa carta para pedir notícias. De vida recatada, você sempre viveu longe das fofocas, é verdade, mas de vez em quando alguém te via todo serelepe, cantando, alegre e saudável. Agora, você anda totalmente sumido. Li nos jornais que uma bióloga ouviu outro dia teu grito de dor. Aí, ela descobriu que tiveste tuas terras invadidas, tua casa queimada, teus mantimentos saqueados e, envenenado, o rio que mata tua sede. Ah, meu amigo, põe as barbas grisalhas de molho, pois tua vida corre sério perigo!

Chamo-te pelo apelido, porque ninguém sabe quem é Synallaxis Kollari. No entanto, qualquer carteiro sabe onde fica a morada do joão-de-barba-grisalha, em Roraima. É bem ali, no meio das matas de galeria, no lavrado, naquela faixa de floresta ao longo dos rios, onde tem buritizais, banhados e árvores de folhas grossas e galhos retorcidos que não existem em nenhum outro lugar do mundo, só lá. O operário construtor dessa floresta é você, João, que transporta sementes pequeninas, que fecunda fruteiras, que protege as árvores, catando minhoca, caçando formiga, eliminando insetos nocivos.

É lá, na floresta erguida por tua família – e somente lá – que você se reproduz e cria os filhos. Teus outros parentes furnarídeos, com nomes deliciosos como maria-com-a-vovó’ e ‘espanta-porco’,vivem em diversas regiões do Brasil, onde são conhecidos, em geral, pelo nome de joão: joão-de-barro, joão-teneném, joão-baiano, joão-grilo, joão-do-pantanal, todos eles arquitetos, que desenham ninhos parecidos a uma fogueira-de-são-joão em miniatura. Por isso há quem diga que o Oscar é também um João, joão-niemeyer, porque ele se inspira  na tua obra-prima para criar seus projetos.

Parece que estou te vendo, João, miudinho, vestido de marrom, a penugem grisalha na garganta, saltitando laboriosamente de uma árvore a outra, entre galhos e cipós, em busca de ‘erva-de-passarinho’, uma trepadeira com cujos ramos edificas teu ninho, pertinho do solo. Na entrada dele, depositas feixes de gravetos, impedindo que cobras entrem para comer os ovos e os filhotes. 

O acesso é feito por um túnel inclinado a 45º, num cálculo perfeito. Lá dentro, uma câmara interna de 11 cm. de profundidade proporciona conforto e segurança à família-grisalha. Dessa forma, honras a estirpe de arquitetos e engenheiros a qual pertences.

Eu passarinho

Teus avós, João, foram vistos em 1856, voando com suas asas curtas pela região do Forte de São Joaquim, próximo a Boa Vista (RR). Depois, eles tomaram um chá-de-sumiço. Ficariam meio escondidos. Tua espécie, declarada como vulnerável, despertou recentemente a atenção de vários pesquisadores, entre eles, a bióloga Mariana Vale, que faz doutorado na Duke University, Carolina do Norte (EUA), o ornitólogo Marcos Pérsio Dantas Silva, da Universidade Federal do Piauí, e Mário Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Quando fazia seu doutorado, Marcos atraiu um casal de barbas-grisalhas com um playback, debaixo da ponte da BR-174, que atravessa o rio Uraricoera, no caminho de Boa Vista a Venezuela. Meses depois, Mariana, de 32 anos, filha de um paraense com uma francesa, fez três viagens à região, percorrendo 500 km de rio em 200 dias. Usou também um playback com o canto do passarinho macho e encontrou um ninho à margem direita do rio:

- “Não vi os filhotes. Acho que o ninho foi abandonado pelo casal”.

Esses estudiosos acham que você, João, deixou de ser vulnerável para entrar na categoria de ameaçado de extinção, podendo ser varrido do mapa do Brasil a qualquer instante, porque o teu habitat, o lugar onde você vive, respira, canta, voa e constrói o ninho corre o risco de desaparecer. O agronegócio está devastando tudo, com a voracidade de uma aracruz celulose. Os fazendeiros que plantam arroz abateram as árvores, cujas sementes você transportava, João, e acabaram com os insetos e larvas que você comia. Você não pode mais caçar formiga nem catar minhoca, João, porque o agrotóxico dos arrozeiros envenenou os rios, acabando com a vida.

Para onde fugir, João? Pedir asilo aos ingleses da Guiana? Vida de exilado é fogo, João, vai por mim. Além do mais, você não sabe dar um pio em inglês. Você vai ficar que nem aqueles passarinhos em plena Avenida Brasil, que vivem pulando nos fios de alta tensão, sem ter um verdinho onde por os pés. Como construir ninhos com arame farpado, asfalto e cimento? Você vai ficar que nem buritizal sem água, que nem índio tentando sobreviver na cidade, sem roça, sem a sabedoria dos velhos, sem as narrativas míticas, sem os rituais, discriminado pela ignorância do homem branco.

Os fazendeiros de soja, milho e arroz, invasores das terras indígenas, estufam o peito com patriotadas, dizendo que representam o Brasil moderno, o crescimento econômico, a geração de empregos, a circulação de riquezas, os interesses nacionais. Conversa fiada! O emprego que eles criam é de trabalho escravo. Esses pilantróides estão se lixando pra nação brasileira. Ignoram que o futuro do Brasil depende cada vez mais da biodiversidade e do respeito às diferenças. Só pensam no bolso deles e no lucro imediato. Não olham pra frente. Estão acabando com o planeta. O Brasil não precisa deles. Mas de ti nós precisamos, João. O papo deles é retórica pra boi dormir! Parodiando Mário Quintana, eles passarão, nós passarinho.

Com 10 cm. de tamanho, sozinho, você faz mais pela vida do que toda essa cambada de exploradores. Apesar disso, você só continua vivo, João, porque conseguiu encontrar o único lugar onde tem chances de sobreviver, seu último refúgio, que são as reservas indígenas de Roraima. A Terra Indígena Raposa Serra do Sol, homologada há dois anos, abriga 15 mil índios das etnias Macuxi, Ingaricó, Wapixana e Taurepangue. O teu destino, João, assim como o destino de todos nós, está ligado à sina desses índios. Se os fazendeiros arautos da morte que ainda permanecem lá forem expulsos, você vive e nós respiramos. Caso contrário vamos todos, incluindo eles, pro beleléu.

Te dou um conselho: por enquanto, não sai da área indígena. Te segura por lá, João. Lá estás protegido, porque lá a vida – e não o lucro - é um valor supremo. Lá tens um lugar certo onde ficar, nas matas de galeria e no coração dos índios. Ouve o que disse o macuxi Gecimar Morais Malheiro: “Antes muitos pássaros voavam por aqui, agora não. Pensei que eles estavam desaparecendo e ninguém ia ver mais. Mas a gente vai preservar tanto os passarinhos quanto os animais aquáticos. Essa intenção não é só minha, mas de todos os índios”.

Tão minúsculo, tão manso, tão frágil, de vôo tão curto, você, João, é a imagem da bondade, da concórdia e da beleza, semelhante à borboleta cantada no poema guarani, quase um hai-kai:

“Borboleta amarela 

no céu azul  

infinita beleza.

Não fazer mal  

a ninguém /

infinita beleza” .  

Peço licença para trocar, no poema, ‘borboleta’ por ‘barba grisalha’ e te rendo homenagem, dizendo: você é um belo argumento para reforçar a defesa da terra indígena. Resiste, João e, por favor, manda-nos notícias boas sobre a Raposa/Serra do Sol. Do teu admirador. Taquiprati.

P.S. Segundo a Folha de São Paulo, a bióloga Mariana Vale vai trabalhar, a partir de janeiro de 2008, no Laboratório de Ecologia de Aves da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) por dois anos, para fazer um estudo sobre a redistribuição das aves endêmicas da mata atlântica devido ao aquecimento global. Mas continua na luta pela vida do barba-grisalha.

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4 Comentário(s)

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sidleide tenorio comentou:
16/08/2011
minha filha esta fazendo um trabalho na escola falando sobre este passaro.e incrivel,pois esta historia e comovente de mais,quando ela leu ficou emocionada.ela e louca pela a natureza pelos os animais.seu nome ANA GISELE TENORIO MELO,8 ANOS.BEIJOS
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uhgpqjq comentou:
08/12/2010
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thjifwxqjj comentou:
04/12/2010
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paula comentou:
19/07/2010
achei bem interessante
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