CRÔNICAS

A VINGANÇA DOS CATARRENTOS

Em: 30 de Setembro de 2007
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Catarrenta! Não estaria mentindo se afirmasse que Teresinha era catarrenta, como aliás todo mundo no bairro, inclusive eu. Já faz mais de meio século, eu era guri, mas lembro muito bem. O seu belo nariz de Cleópatra, que encantaria alguns anos depois o Brasil e o mundo, naquela época era uma fábrica de secreção. Dele escorria catarro, às vezes branco, às vezes amarelo, às vezes da cor de seus olhos esverdeados, mas sempre de forma permanente, embora sobre isso haja controvérsias.

Minha prima Dodora jura que não lembra, porque – ela diz – nessa época ainda estava engatinhando. Mas minhas duas irmãs, colegas da Teresinha no Grupo Escolar Cônego Azevedo, no bairro de Aparecida, em Manaus, não esqueceram. No entanto, as duas divergem no detalhe. A Helena diz que o aumento da mucosidade ocorria apenas no período de chuvas, enquanto a Gina afirma que era no ano inteiro.

De qualquer forma, isso não é nenhum demérito. Os irmãos da Teresinha - Manuelzinho, Marieta e Antonieta - sofriam do mesmo mal. Gina, Helena, Dile, Teca e Rose também eram catarrentas. E daí, açaí? Naquela época, todas as crianças de Manaus eram catarrentas. Mas, porém, todavia, contudo, senão, havia uma diferença. Enquanto o nosso catarro curava em alguns dias, sem deixar seqüelas, o da Teresinha era crônico, parecia atacada pelos 200 tipos dos germens rinovirus, que se revezam durante o ano.  

Dona Emir tratou sua filha com vários remédios comprados no Mercadão: mel com eucalipto e babosa, garrafada de romã, corama e quixabeira, lambedor de angico, aroeira e hortelã. Sei disso, porque éramos vizinhos dos Morango. Eles moravam nos fundos de um quiosque que o seu Manoel tinha, bem ali, na rua Alexandre Amorim, ao lado da casa dos padres, onde hoje funciona a Faculdade de Farmácia. A garrafada curou Teresinha que, ao ser eleita Miss Amazonas, em março de 1957, já tinha o nariz seco.

Teve, contudo, um porém. No dia do concurso de Miss Amazonas, ela desfilou com sapato de bico fino e salto de dez centímetros. Não tinha hábito. Sobrecarregou o dedão, cujo osso entrou em atrito com o sapato, produzindo joanetes e dores articulares. Foi aí que a Chachá Nasser, ainda menina, ensinou Teresinha a andar com sapato de salto alto, treinando em cima do colchão da Carmendes, cuja irmã Suely arrendou o quiosque do Manoel Morango. Tem testemunha: a dona Geny Bandeira, ex-diretora do Cônego Azevedo, que ontem foi homenageada na festa do centenário daquele grupo escolar.

Teresinha Morango foi pro Rio disputar o título de Miss Brasil. Graças à Chachá e ao colchão da Carmendes, ela desfilou, chique de doer, na passarela do Hotel Quitandinha, em Petrópolis. Era a noite do dia 23 de junho de 1957. A Rádio Baré transmitia ao vivo. Os moradores do bairro se concentraram na taberna em frente ao Cônego, na esquina da Xavier de Mendonça com o Beco da Bosta, que pertencia ao Armando português, hoje dono do bar da Bica. Ele instalou um rádio de válvulas, que chiava mais do que o peito do seu Santino, pai do Quinha, dono de uma tosse crônica.

Já era de madrugada, quando o júri anunciou o resultado final. O bairro explodiu de orgulho, sabendo que uma de suas filhas, ex-catarrenta, havia sido escolhida como a mulher mais bela do Brasil. O Armando mandou servir bebida de graça. A batucada, comandada pelo Edílson, filho do Marcolino e da Pequenina, orquestrou a festa até de manhã. O Petel, filho da dona Geraldina, aproveitou para fazer uma declaração de amor à sua cunhada Leonor. Nós, todos, catarrentos, estávamos vingados.

Mas ainda faltava um título: o de Miss Universo. O bairro de Aparecida ia lavar a égua, internacionalmente. Agora a torcida não era só de Manaus e do Amazonas. Era do Brasil inteiro. Todos nós viajamos com Teresinha e estávamos com ela, naquele 19 de julho de 1957, no hotel Hilton, em Long Beach, na Califórnia. O jurado, porém, composto por alguns juizes ladrões ou cegos, preferiu dar o título de mulher mais bela do mundo à peruana Gladys Zender.  Essas peruanas, metidinhas, sempre passando a perna nas amazonenses. Eu que o diga.

Para nós, Teresinha Morango era a mulher mais bela do mundo. Acontece que ela foi vítima da Síndrome de Omar Aziz, o atual vice-governador do Amazonas, ex-vice-prefeito de Manaus, ex-vice presidente do Centro Acadêmico, ex-vice de qualquer coisa, sempre ex-vice de alguma coisa. A mesma síndrome já havia atacado em 1954 a baiana Marta Rocha, que ficou no segundo lugar por causa de duas polegadas a mais nos quadris. Vitimou também, em 1958, a Adalgisa Colombo. Aliás, não sei se eram elas que tinham a síndrome de Omar, ou se é ele que tem a síndrome de ex-vice-miss.

Não importa. Teresinha Gonçalves Morango, filha de Manoel e Emir Morango, ex-catarrenta do bairro de Aparecida, Miss Amazonas, Miss Brasil e quase Miss Universo 1957, ganhou uma nota preta, posando como modelo para grifes de roupa “prêt-a-porter” e até mesmo como garota propaganda da Fábrica de Cinzano, patrocinadora oficial do concurso. Creio mesmo que ela chegou a cantar a musiquinha:

Sim, sim, Cinzano! Cinzano sempre faz bem, muito beeeem! Cinzano agrada ao paladaaaar. Em se tratando de vermute, eu não me engano, eu peço Cinzano, eu bebo Cinzano”.

Por causa dela, deixei de escrever sobre o final moralista da novela ‘Paraíso Tropical’. O Gilberto Braga não sabe que existe divórcio no Brasil. Todos os casais que haviam se separado – TODOS - voltaram a se juntar: Heitor e Nelly, Gustavo e Dinorah, Antenor e Lúcia, Camila e Fred, Rodrigo e Tiago, Cássio e Joana. Até o amor do porteiro Pacífico pela síndica Iracema permaneceu clandestino. E o mais patético foi a Alice aparecer com um modelinho de uniforme de gari produzido pelo Christian Dior da Baixada Fluminense.  

Em vez de roteiro de novela, Gilberto Braga devia mesmo era escrever a história do Brasil. Dessa forma, acabariam presos todos os trapaceiros e corruptos desse país: Renan Calheiros e suas mutretas, Romero Jucá e suas sete fazendas inexistentes dadas como garantia ao Banco da Amazônia, Jader Barbalho e o desvio de verbas públicas e tantos outros que posam de heróis da pátria. E todas as prisões sem muito gastos para o Erário, porque feitas por apenas um policial, o delegado Hélio, que corre atrás dos ladrões, com seus próprios pés.

P.S. 1 Essa coluna vai dedicada às ex-diretoras do Grupo Escolar Cônego Azevedo, Geny Bandeira e Maria Lúcia Vieira da Rocha, que educaram várias gerações de alunos, assim como ao Tuta e ao Rubem Rola, que morrem de amores pelo bairro de Aparecida. Ontem os moradores comemoram o centenário do ‘Cônego’ numa festa com mais de dez mil salgadinhos, segundo informou Lucinha Lopes de Souza.   

P.S. 2 – Cometemos apenas um pequeno deslize histórico. A Rose Cabral entrou na crônica como Pilatos no Credo. Ela nunca morou no bairro de Aparecida. Acontece que ela me mata se a Dodora aparece aqui e o nome dela, Rose, é omitido.

 

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3 Comentário(s)

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camila comentou:
16/02/2012
morri de rir, que mentalidade fértlil,desse jeito tá mais pra comediante ,fica a dica.eentrei nesse blog so pra saber a respeito da naturalidade da mãe da teresinhae tive uma aula de historia dos povos da amazonia e dramaturgia .adorei rsrsrsrsrsrsr
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qmfdkhmxvn comentou:
08/12/2010
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alpoodsazof comentou:
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