CRÔNICAS

A PASTORAL DA FRUTA

Em: 07 de Janeiro de 1992 Visualizações: 2910
Quem planta uma árvore, planta uma esperança.
 Lucy Larcom (1824-1893), poeta norteamericana
 
 
A árvore era pequena. Devia ter o quê? Uns quatro metros? Vá lá que seja: cinco metros. A copa era acanhada, estreita, com pouca ramificação. Normalmente não devia chamar a atenção de ninguém. Mas chamou. Todos os reitores, assombrados, pararam a caminhada para contemplar os estranhos frutos que pendiam de seus galhos: garrafas de plástico.
É. É isso mesmo que você leu: os frutos das árvores eram garrafas de plástico vazias. De álcool. Creio que da marca “Montenegro”, gravada com letras azuis.
Era a tarde de um sábado calorento do dia 7 de dezembro de 1991. Os reitores haviam interrompido a reunião do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), que se realizava no Hotel Tropical, em Manaus, para visitar o sítio de Nelson e Martha Falcão, na beira da estrada Manaus - Caracaraí. Tive a sorte de estar no grupo, convidado pelo reitor da UERJ, Ivo Barbieri, para proferir palestra aos magníficos sobre a história da Amazônia com  destaque para as culturas indígenas. E foi aí, no meio da caminhada, que encontramos os misteriosos frutos como balangandãs, penduricalhando ao vento e desafiando a lógica.
Um reitor gaúcho olhou com o rabo do olho aqueles frutos estranhos e perguntou mineiramente: - Já estão maduros?
Por que não, leitor (a)? A Amazônia é mesmo desconcertante, cheia de enigmas. Tem um peixe que é mamífero e se alimenta de capim, como um boi. Tem outro que dá choque elétrico: o poraquê. E tem o candiru, o peixe-vampiro, que morde para chupar o sangue dos cabocos anêmicos, além de penetrar naqueles buraquinhos ou em qualquer orifício do corpo humano. Tem formigas carnívoras. Tem um boto que desafia jacarés... bom, deixa pra lá.
Mas se tem tudo isso – e até mesmo um playboy de Eirunepé – por que não pode ter também um pé de garrafa de plástico? (agora tenho quase certeza: a marca era mesmo ‘Montenegro’).
O paraíso das frutas
Aí chegou dona Martha Falcão, dona do sítio e professora de Ecologia da Universidade Federal do Amazonas. Ela explicou que a árvore era um pé de graviola e que as garrafas de plástico continham mel de cana – uma armadilha artesanal colocada por ela para atrair os insetos otários. Dessa forma, ela ficava conhecendo a identidade dos insetos visitantes e sabia direitinho quem era que vinha em missão de paz – os polinizadores - e quem vinha para predar os frutos maduros, como os vereadores ressarcidos de Manaus, isto é, as pragas.
Dona Martha fiscaliza até o horário de visitas dos insetos. Ela sabe, por exemplo, que tem 21 tipos de insetos que visitam as flores do mari-mari. A maioria prefere frequentar as flores no horário da manhã, mas tem uma vespa safadinha que só vem de tarde, britanicamente, para tomar o seu chá das cinco.
De posse de tais informações, dona Martha traça as suas estratégias para o cultivo de plantas frutíferas, transformando o seu sítio num verdadeiro paraíso terrestre. Daquele solo duro que serviu de pasto para boi, ela consegue operar um milagre, produzindo as mais variadas frutas: graviola, araçá-boi, araçá-pera, cupuaçu, mari-mari, pajurá-de-racha - que era vendido nas ruas de Manaus pelo Seu Messias - goiaba, carambola, jaca, mapati – a uva da mata, pupunha, sorva, sapotilha, biriba, coco, açaí, tucumã e Jeni-passou-por-aqui-e-disse-papo.
Dona Martha vai guiando os reitores em seu passeio, pulando de árvore em árvore, saltitando seus 60 anos de vida, com a vivacidade e o entusiasmo contagiantes de uma adolescente, parando aqui e ali com exclamações de júbilo:
- Menino, olha essa aqui! Tá vendo? A casca está mudando de cor.
Ela entra em transe diante das frutas e quando maduram, fala delas com a mesma vibração autêntica do Carlos Zamith, quando narra um gol do Paulo Onety no seu (nosso) Baú Velho.
Mas na sua caminhada, ela vai, também, deplorando o atraso em uma brotação aqui, uma floração irregular ali, uma erva daninha acolá que quer competir com as fruteiras quanto a nutrientes, água e luminosidade. Arranca um ramo malformado e doente e amaldiçoa as pragas com o mesmo furor com que o leitor combate os vereadores ressarcidos, porque as pragas – ela explica didaticamente – atacam as plantas, destruindo-lhes os tecidos, inoculando-lhes toxinas e reduzindo o seu vigor e a sua produtividade.
O perfil da pesquisadora
Essa é dona Martha de Aguiar Falcão, professora da Universidade Federal do Amazonas, responsável pela disciplina Ecologia, com mais de trinta anos de magistério, pós-graduação em botânica, vários trabalhos publicados sobre espécies frutíferas da região. Recém-aposentada, ela continua trabalhando. Uma pesquisadora séria, competente e apaixonada, capaz de passar um dia inteiro debaixo de um cupuaçuzeiro só para arrancar, uma a uma, manualmente, a vassoura-de-bruxa – uma espécie de fungo que seca as folhas da planta.
Sua paixão não se contenta em produzir um saber novo numa área carente como é a do conhecimento das frutas regionais, com muitas espécies ameaçadas de extinção pelo desmatamento, sem sequer terem sido estudadas e classificadas cientificamente. Se a fruticultura é uma técnica que se baseia na ciência para orientar o cultivo racional das plantas, para dona Martha é muito mais do que isso: é também uma arte e uma religião.
Com esta convicção, ela exerce o seu apostolado na “pastoral da fruta”, tentando catequizar e ganhar novos adeptos através da socialização dos seus conhecimentos. Foi ela a autora e coordenadora do Projeto de Extensão Frutíferas, da UFAM e do projeto de recuperação de áreas verdes. Saiu como uma missionária pelos bairros de Manaus, distribuindo mudas de plantas aos seus moradores, ensinando-lhes como tratá-las com carinho e como desenvolver pomares com fruteiras vigorosas e sadias.
Mas dona Martha não parou por aí. Foi mais longe: percorreu várias sedes de municípios, entre as quais Manacapuru, Coari, Itacoatiara, brigou com prefeitos, andou de casa em casa, batendo de porta em porta, oferecendo as suas mudas e conscientizando a população sobre a importância da fruta regional como elemento vital da alimentação popular, fornecedora ao organismo de uma série de vitaminas indispensáveis à vida.
É isso aí. Dona Martha é uma defensora da vida. Provavelmente, ela não vai redimir o mundo com suas frutas, recuperando um saber fundamental da cultura regional. Mas ela nos traz uma mensagem de esperança e exerce uma ação transformadora.
Lembra da Rita Loureiro, a artista plástica que nos ensina a ver a Amazônia? Pois é, então, leitor (a), te digo que dona Martha é a Rita Loureiro das frutas, capaz de criar e recriar o cheiro, a cor, o sabor e a luz, contribuindo para melhorar a qualidade de vida, com suas frutas frescas, seu conhecimento, sua energia. Podes crer, leitor (a), dona Martha é um personagem dessa Manaus que se vai. Difícil encontrar alguém igual a ela.

P.S. – Parlamentares puxasacos concederam a dona Rosane Collor – a Quinha – o título de cidadã honorária do Amazonas por iniciativa do deputado Nonato Oliveira, cujo calibre intelectual e moral é de todos conhecido. Por iniciativa de outro deputado do mesmo porte, Ronaldo Tiradentes, o mesmo título foi dado a Egberto Podrão Batista. Os dois, apesar de terem colhido outro tipo de “fruto”, nunca plantaram uma árvore frutífera. Será que não tem um parlamentar decente para homenagear dona Martha? Não que ela faça questão disso, mas ela merece.  .

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4 Comentário(s)

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Magela Ranciaro (via FB) comentou:
10/09/2016
O bom disso tudo é que ninguém se atreve a ler algo assim, tão impecável, que não expresse um leve sorriso ao longo da leitura. Mas, há uma luta, as crônicas do TaquiPraTi nos levam: da risada à esbanjada gargalhada; do leve sorriso à discreta lágrima. Saudades da dona Martha!
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Aurelio Michiles (via FB) comentou:
08/09/2016
Movida a adrenalina, ela foi minha professora de Ciências.
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Ângela Maria Bessa Freire comentou:
08/09/2016
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Eliana Souza (via FB) comentou:
08/09/2016
Lindo texto José Bessa! Ele revela a competência, compromisso e grandiosidade da Professora Martha Falcão. Grande perda para a educação do Amazonas e do país. Meus sentimentos.
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