CRÔNICAS

O COMPANHEIRO CABO PEREIRA: A MONA LISA DE IGARAPÉ

Em: 21 de Março de 2004 Visualizações: 3744
O COMPANHEIRO CABO PEREIRA: A MONA LISA DE IGARAPÉ

.Cara da Mona Lisa, jiboiando, depois de haver comido uma buchada de bode à beira de um igarapé: esse é o retrato de Alfredo Pereira Nascimento, ex-prefeito de Manaus, quando tomou posse como novo ministro dos Transportes, no início da semana, em Brasília. Durante toda a solenidade, o Cabo Pereira - nome pelo qual ficou conhecido no quartel - exibia um sorriso tão estranho, tão insistente e tão enigmático, que cada um desses três adjetivos merece explicações.

O sorriso era estranho: a dentadura do Cabo - pelo menos na imagem que se via no noticiário da televisão - tinha uma alvura singular, parecia com aquelas dentaduras feitas de casca de macaxeira, usadas nas brincadeiras infantis dos anos cinqüenta. Era insistente: os dentes arreganhados não desapareceram sequer no momento mais dramático da fala de Lula, não houve revezamento de expressões, o semblante não mostrou outras emoções, permanecendo rígido como uma máscara. Era enigmático: ninguém sabia por que o Cabo, afinal, estava rindo e, sobretudo, de quem ele estava rindo?

É preciso ter uma razão qualquer para ficar se abrindo como uma gaveta velha, ainda que seja para exibir um sorriso quase profissional. O Neguinho da Beija-Flor, por exemplo, mantém três carreiras de dentes permanentemente à mostra, mas ele canta. O Carlinhos de Jesus vive expondo os ossos todos da mandíbula, mas ele dança. Agora, o que é que o Cabo Pereira faz que justifique ficar mostrando o sorriso de aeromoça? Será que ele quer promover o Lupércio, que em cada eleição distribui pererecas aos desdentados?

A PIADA DOS ÔNIBUS

A primeira hipótese é a de que o Cabo estava rindo dos usuários de ônibus de Manaus. Só pode ser. Na campanha eleitoral, ele prometeu transporte coletivo bom, barato e confortável. E ai? Depois de ter governado a cidade durante mais de sete anos, isto é, um curto, médio e longo prazo, ele cumpriu o seu programa? Ou pelo menos se esforçou para isso? O que vimos foi que começou a implantar o sistema Expresso, mas não terminou.

Hoje, a cidade precisa de mais 600 ônibus para poder atender as necessidades mínimas da população. No entanto, nada foi feito para ampliar a frota, e o que é pior: os ônibus que existem são retirados criminosamente de circulação pelos empresários; não há regras para determinar horários e freqüências. Sem fiscalização, a população enfrenta demora excessiva, filas quilométricas, superlotação, medo de assalto, insegurança, arrastões e ameaça de aumento no preço das passagens. Enfim, o sistema é, com o perdão da palavra, uma merda.

Cansados de viajar como sardinha em lata, com caboquinho pendurado nas portas dos ônibus, os usuários ficaram enfurecidos, constatando que o Cabo não cumpriu suas promessas. Duas mil pessoas protestaram violentamente na semana passada, no terminal da Cidade Nova (T3), zona Norte, contra a demora dos ônibus, promovendo um quebra-quebra, reprimido por mais de 200 policiais. Um leitor contou o que viu naquele "dia de cão", quando os empresários retiraram de circulação parte dos ônibus. Fala, Luís Cláudio:

"Passei pelo terminal 3 da Cidade Nova, entre oito e nove horas da noite, depois do tumulto e do quebra-quebra. A impressão era de que ali estava concentrado todo o efetivo policial da cidade. Era tanto carro de polícia, que se tivessem usado todas aquelas viaturas para transportar o povo para casa teriam resolvido o problema. Uma colega de trabalho me contou que antigamente costumava sair da empresa às 17h:30 e chegar em casa o mais tardar às 18h:15, mas agora ela chega em casa às 20h:30, mesmo saindo do trabalho às 17h:30. Os ônibus não param mais nos pontos de tão lotados que estão".

Luis Cláudio faz uma avaliação contundente: "As concessionárias do serviço de transporte coletivo não estão atendendo às necessidades da população. E o chefe do poder concedente desse serviço público, como prêmio, é alçado ao cargo de ministro, e logo ministro dos Transportes! Não conseguiu durante sete anos resolver o problema em Manaus, como é que vai consertar a malha viária do Brasil? Parece piada!". Realmente, é uma piada. É dessa piada que o nosso Cabo pode estar rindo.

A Recauchutadora

Mas, o Cabo Pereira podia também estar rindo do Tribunal de Justiça do Amazonas, que na véspera de sua indicação para titular do ministério dos Transportes arquivou seis denúncias contra ele, inclusive uma de improbidade administrativa, denunciada pelo Ministério Público Estadual no dia cinco de fevereiro. Segundo a ação, o Cabo escondeu do Tribunal Regional Eleitoral, a sua empresa Vulcanização Tarumã Ltda., o que contrariou a lei 8.730, que estabelece a obrigatoriedade da declaração. A empresa, que já foi prestadora de serviços de recauchutagem de pneus para os ônibus de Manaus, formalmente pertence à esposa e ao cunhado do Cabo.

Essa segunda hipótese tem muitas chances de ser confirmada. O Cabo Pereira, nesse caso, tem efetivamente motivos para rir, porque agora, como ministro dos Transportes, em vez de recauchutar os pneus da frota de ônibus de uma cidade de médio porte, tem a possibilidade de ampliar o negócio para todo o Brasil. Com as estradas esburacadas, a Vulcanização Tarumã deixará de ser Ltda., para se tornar ilimitada. O cunhadinho vai faturar.

Uma terceira hipótese é que o Cabo não parava de rir, porque estava pensando nas disputas puxa-sacais entre o Paulinho Jacob - o Pê Jotinha - e o Sabá Reis, ex-secretário municipal de Assistência Social e Cidadania. Sabá jurou que recebeu um convite do Cabo Pereira para assumir o cargo de chefe de gabinete do Ministério dos Transportes: "Não tenho como recusar um chamado do Alfredo, seja para o que for, até para carregar a pasta dele", declarou. Quando Paulinho Jacob - o Pê Jotinha - tomou conhecimento da declaração do Sabá, achou que a concorrência era desleal.

Companheiro Cabo

A quarta hipótese é de que o Cabo Pereira está rindo de nós todos que lutamos para eleger Lula desde a primeira tentativa, quando ele - Cabo - estava do outro lado, metido em esquemas políticos no mínimo conservadores. Nós lutávamos por mudanças. O Cabo brigava para manter o status quo. Agora, ele se torna ministro do governo que elegemos e somos obrigados - que ironia do destino - a chamá-lo de companheiro Cabo Pereira. Realmente, isso é motivo para boas gargalhadas.

Temos que admitir que todas essas hipóteses podem estar equivocadas. O Cabo, todo empavonado, sentado na sua cadeira de ministro, pode estar rindo da confusão que armou com sua renúncia, estimulando a disputa entre Aluizio Braga, Paulo Jacob, Carijó e companhia limitada para tampar o buraco político que ele deixou. Pode ser também, como na piada do japonês, que o Cabo Pereira tenha o couro curto e quando aperta embaixo, estica lá em cima. Por isso, ele ria. Quem tem tu, tem medo. E se a Policia Federal começar a investigar de verdade? 

Como é páreo duro, a coluna Taquiprati convida seus leitores - que são poucos, mas fiéis - para ajudar a resolver esse enigma. A grande pergunta é: por que o Cabo não parou de rir durante a sua posse? O vencedor ganha uma semana de passagem grátis na linha 446 da União Cascavel, saindo do Terminal 3 da Cidade Nova. Enviar cartas através do site: www.taquiprati.com.br

P.S. - Na sua despedida em Manaus, em cerimônia realizada na Secretaria Municipal de Educação, o Cabo Pereira discursou, demonstrando extraordinária lucidez e profundo senso auto-crítico: "Eu tenho certeza que nem mereço este lugar que eu vou ocupar. Deus tem me dado muito mais do que eu preciso em todos os segmentos da minha vida". O Pão Molhado comentou: "É. Pelo menos desta vez ele tem razão".

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