Quando o leitor estiver lendo esta coluna, este locutor que vos fala deve estar se deslocando de trem de Frankfurt para Freiburg na Alemanha, convidado pela Universidade Albert-Ludwigs, para apresentar um trabalho sobre a história da Amazônia brasileira e peruana, em um Colóquio Internacional intitulado: "As Américas do Sul: o Brasil no Contexto Latino-Americano".
O Colóquio será aberto pelo cônsul-geral do Brasil em Berlim, Sérgio Paulo Rouanet. Contará com a participação de quinze pesquisadores alemães, especializados em temas relacionados à literatura e à história do Brasil e com alguns estudiosos brasileiros como Ivo Barbieri, ex-reitor da UERJ, Luís Costa Lima e o escritor Márcio Souza, que encerrará o encontro discutindo o papel do escritor nas Américas.
Por essa razão, não divulgaremos agora, como foi anunciado na semana passada, a bomba com a divulgação dos documentos enviados por Pedro Paz, que alerta o Ministério Público do Amazonas sobre crimes cometidos. Sua explosão fica adiada, porque necessita de um investimento de tempo para decodificar e checar as informações. Peço desculpas ao leitor, mas pode esperar tranquilo, que na volta da Alemanha para o Brasil, os fatos virão à tona.
Em compensação, enviarei da Europa, por fax, os meus dois artigos semanais, esperando que o deputado Joaquim Corado, acusado de fraudar eleições, não me condene por não escrever da praia do Leblon. Segundo informações confiáveis do João Bosco Araújo e do Frânio Lima, editores de A Crítica, nada melhor para arejar as ideias que um bom prato de chucrute com salsicha e cerveja.
Aviso também a vereadora Conceição Lins (PFL - vichel, viche!), que estou comendo muito chucrute, sem tucupi, me preparando para debater no meu retorno o seu projeto, em tramitação na Câmara Municipal de Manaus, que obriga todos os estudantes da rede municipal de ensino a fazer exames de urina, fezes e sangue no ato da matrícula.
E aí, prezado leitor, com toda essa confusão, fiquei sem tempo para deixar escrita a crônica de hoje. Resolvi, então, "colar" um texto difundido a partir de Portugal pela Rede Lusonet e captado pelos usuários que a acessam através do Bulletin Board System (BBSs). Quem me passou a cola foi o ex-presidente da Copeve, Heyrton Bessa, professor aposentado da Universidade Federal do Amazonas. Eis o texto, intitulado "Acidente de Trabalho":
"Exmos. Senhores,
Meu nome é Pedro, mas me chamam de Manoel Joaquim. Saí de Póvoa do Varzim e fui para Manaus trabalhar na construção civil. Sou pedreiro, especializado em assentar tijolos. No dia 8 do mês passado, estava trabalhando sozinho no telhado de um edifício de seis andares no centro da cidade. Quando acabei a jornada, verifiquei que tinham sobrado uns 150 quilos de tijolos. Decidi colocá-los dentro de um latão e fazê-los descer com a ajuda de uma roldana, a qual felizmente estava fixada num dos lados do edifício, no sexto andar.
O latão estava lá embaixo. Desci e atei o latão à corda que envolvia a roldana. Subi e puxando a outra ponta, icei-o até o sexto andar. Amarrei a corda fortemente, fui para o telhado e coloquei os tijolos dentro do latão. Voltei para baixo, desatei a corda e segurei-a com força de modo que os 150 quilos de tijolos descessem devagar.
Como eu só peso 80 quilos, qual a minha surpresa quando repentinamente me faltou o chão, perdi a minha presença de espírito e me esqueci de largar a corda. Foi tudo muito rápido. Fui puxado para cima em grande velocidade. Nas proximidades do terceiro andar, bati no latão que vinha descendo com os tijolos. Fraturei o crânio e quebrei a clavícula.
Mas a minha tragédia não termina aí. Continuei subindo em uma velocidade ligeiramente menor, não tendo parado até os meus dedos estarem entalados na roldana, quebrando a falange, a falanginha e a falangeta de todos eles. Felizmente já tinha recuperado a minha presença de espírito e consegui, apesar das dores, continuar agarrado à corda.
Neste momento, o latão com os tijolos caiu no chão e o fundo partiu-se. Sem os tijolos, o latão pesava mais ou menos 25 quilos. Como podem imaginar, comecei a descer rapidamente. Próximo ao terceiro andar, encontrei outra vez o latão que vinha subindo, o que explica a fratura dos tornozelos e as lacerações nas pernas, bem como na parte inferior do corpo. O encontro com o latão diminuiu a velocidade da minha descida o suficiente para minimizar os meus sofrimentos quando caí em cima dos tijolos. Tive sorte. Felizmente, só fraturei três vértebras, mas continuei segurando a corda do latão.
Lamento, no entanto, informar que enquanto me encontrava caído em cima dos tijolos com dores, incapacitado de me levantar, perdi novamente a presença de espírito, esqueci o latão e larguei a corda. Como o latão pesava mais do que a corda, ele desceu e caiu em cima das minhas pernas, partindo-as imediatamente.
Para completar a minha desgraça, acabaram me levando para o Pronto Atendimento Médico (PAM) da rua Codajás, onde passei quatro dias e quatro noites, todo quebrado, esperando na fila para ser atendido.
O referido é verdade e dou fé.
Escrito na fila do PAM da Rua Codajás, em 6 de junho de 1995
Assinado: Pedro Pedreiro ou Manoel Joaquim”
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