CRÔNICAS

IV - O REPÓRTER DA ASAPRESS - MANAUS VAI DE BUBUIA PARA MIAMI

Em: 01 de Julho de 2000
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Na madrugada de um domingo, em julho de 1967, uma tropa de 1.500 policiais, apoiada por um helicóptero, cercou espalhafatosamente a Casa do Estudante do Brasil (CEB), no centro do Rio de Janeiro e invadiu o prédio, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Os moradores, cerca de 80 estudantes desarmados, depois de levarem muita porrada, foram desalojados e presos no quartel da Frei Caneca. Entre eles, dois amazonenses: Antônio Sanches, estudante de medicina (hoje, professor da Universidade do Amazonas) e este locutor que vos fala.
Nós dois morávamos no mesmo quarto. Cada vez que abríamos o guarda roupa, encontrávamos lá dentro, escondida, uma mulher nua. Protegida por uma cortina transparente, ela chamava um de nós, dobrando o dedo indicador em forma de anzol e fazendo um biquinho com seus lábios carnudos:"Sanches, queridinho, vem cá", era o que ela sempre dizia, na frase escrita em balão desenhado sobre sua cabeça. O poster da Playboy, já amarelecido, havia sido expropriado de uma banca de jornal. De tamanho natural, estava colado na parte interna da porta do guarda-roupa, que foi arrebentada pelo coice de um policial, durante a invasão. A patética imagem da nossa musa de papelão, estatelada no chão, coberta de cacos de espelho, deixou também em estilhaços os nossos sonhos solitários.
A polícia interrogou, fichou, fotografou e tirou a impressão digital de todo mundo. Dois dias depois nos soltou no meio da rua, proibindo-nos de retornar à Casa do Estudante, cujas portas permaneceram lacradas. A expulsão era definitiva. Não voltamos lá, nem para pegar nossos bregueços. Não pudemos sequer dar uma sepultura digna à mulher que tanto tempo manteve ocupada, entre outras coisas, a nossa imaginação.
Da prisão, levei comigo alguns gloriosos hematomas diretamente para a sede da ABI - Associação Brasileira de Imprensa, onde estava se realizando um encontro, com a presença de donos de jornais, editores e chefes de redação. O tema era imprensa e democracia. Na hora do debate, pedi a palavra. O discurso inflamado contou tudo tim-tim por tim-tim, só omitindo, é claro, a viuvez do Sanches. No final, o diretor da Asapress veio conversar. Explicou que a agência entrava numa nova fase e precisava de jornalistas jovens e aguerridos. Ofereceu-me o posto de repórter e um salário de 180 mil cruzeiros, uma fortuna para um estudante desempregado. "Se quiser, pode começar hoje", ele disse. Eu queria. Como eu queria!
Localizada numa sobreloja da rua Almirante Barroso, a Asapress era uma agência brasileira de notícias que havia acabado de ser arrendada pela CNBB - a Conferência dos Bispos. Era muito diferente de suas congêneres americanas - Associated Press e UPI. Seus equipamentos eram obsoletos: velhas máquinas de escrever, um telex asmático que resfolegava e gemia, um mimeógrafo alcoolizado e um serviço de malotes tão ágil quanto os pombos-correios que em 1840, na França, transportavam notícias para a Agência Havas. Ah! Tinha também um sofá esburacado na sala de redação, que foi o lar do novo repórter, até o pagamento do seu primeiro salário.
Mesmo com tanta precariedade, a Asapress conseguia abastecer com informações sobretudo os pequenos jornais do interior do país. Naqueles dias, por exemplo, a notícia de maior impacto nacional era uma denúncia do ex-governador do Amazonas, Arthur Reis, contra a construção de uma represa em Óbidos, que transformaria o rio Amazonas num imenso lago, inundando florestas e cidades. O projeto, formulado pelo Instituto Hudson, dos Estados Unidos, não tinha qualquer possibilidade de sair do papel. Era o delírio de um gringo sinistro de 140 quilos, chamado Hermann Kahn.[
Os militares brasileiros sabiam disso. No entanto, a gritaria nacionalisteira lhes convinha, porque desviava a atenção da opinião pública de outros problemas como, por exemplo, a falência de muitas empresas nacionais, causada pelas facilidades concedidas pela própria ditadura ao capital estrangeiro.
A Asapress, dando corda total ao discurso histérico verde-amarelo, distribuiu aos jornais a entrevista com Arthur Reis, o pronunciamento do Estado Maior das Forças Armadas e a notícia da criação da Comissão Nacional de Defesa e pelo Desenvolvimento da Amazônia (CNDDA). A pauta que encontrei, na minha estréia como repórter, mantinha a exploração do tema do grande lago, sugerindo entrevistas com diversas personalidades.
O escritor amazonense Walmiki Ramayana e Sousa de Chevalier era uma personalidade. Médico formado na Bahia, parece que nunca receitou uma aspirina. Mas havia publicado alguns livros, entre os quais Circo Sem Teto da Amazônia, o que lhe deu uma vaga cativa na Academia Amazonense de Letras.
Metido a barroco, com aspirações gongóricas, em um de seus poemas, chamava a vitória-régia de "freira anêmica do convento verde da floresta". Viveu em Manaus muitos anos e depois mudou-se de mala e cuia para o Rio, onde trabalhava como aspone (assessor de porra nenhuma) do Ministério do Interior. Vestido com meu único paletó abafa-banana, fui encontrar Ramayana no bar Amarelinho, na Cinelândia. O pai de Scarlett Moon e futuro sogro do cantor Lulu Santos, com 58 anos de idade, era um falastrão. Gostava de frases de efeito. Por elas, costuma-se sacrificar verdades.
Na entrevista, acusou russos e americanos de quererem anexar a Amazônia. Denunciou os padres redentoristas como agentes de uma extensa rede de espionagem. Não poupou nem o rio Amazonas, chamando-o de "impatriótico", porque suas águas cavam e engolem terras, que são carregadas pelo Gulf Stream para a Flórida, nos Estados Unidos:
- O rio e os padres americanos vão levar Manaus de bubuia para Miami .
O correspondente da Asapress no Amazonas, Domingos Sávio Ramos de Lima, distribuiu a entrevista em Manaus. O Jornal, da empresa Archer Pinto, sapecou a frase na manchete.
Quando dona Elisa ligou a Rádio Rio-Mar, como fazia todos os dias, para ouvir A Voz do Pastor, tomou um susto: o arcebispo de Manaus, D. João de Souza Lima, excomungava o filho dela e o Domingos - dois ex-seminaristas - como parceiros do capiroto. O bispo pediu nossa cabeça à CNBB. Quase fomos de bubuia para o olho da rua. Marinheiros de primeira viagem, não sabíamos que a opinião do entrevistado podia ser confundida com a do entrevistador.
Mais de trinta jornais, entre os quaiso Povo, de Fortaleza, A Província do Norte, de Belém, O Jornal do Comércio, de Recife, A Tarde, de Salvador e Zero Hora, de Porto Alegre publicaram a bubuia do Ramayana, bem como dezenas de outras matérias assinadas, durante os anos 1967-68.

 

Quando faliu, por incapacidade de se renovar tecnologicamente e de enfrentar o conturbado contexto político da época, a Asapress já havia formado muitos jornalistas, sobretudo ensinando-os a trabalhar em condições adversas. Entre eles, o estudante que dois anos antes, corrido da polícia, havia sido acolhido em sua redação.
 

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