CRÔNICAS

UMA CRÔNICA CENSURADA

Em: 22 de Fevereiro de 2009
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""O cupim atacou a minha estante. Na hora de descupinizar, abri uma caixa de papelão e de lá de dentro caíram três folhas de papel datilografadas, com uma crônica escrita em agosto de 1984, que nunca foi publicada. Na época, o jornal achou que estava “desabusada” e “atrevida”. Quase 25 anos depois, releio o que escrevi e vejo que não tinha nada demais. Era até inocente. Mas a censura imposta pela ditadura militar aos jornais ainda produzia seus efeitos.
A ditadura agonizava. O general Figueiredo queria que o coronel Andreazza, seu ministro do Interior, o substituísse na presidência da República. O coronel havia sido ministro de Transportes nos governos Costa e Silva (196769) e Médici (1969-74), cargo que hoje é ocupado por uma patente inferior – o Cabo Pereira. Aí, Maluf, governador de São Paulo, se apresentou na Convenção e derrotou o coronel, que ficou deprimido. Existiam fortes indícios de que os dois eram corruptos.
Peço desculpas aos leitores por ressuscitar essa velharia, mas aproveito o carnaval para publicar um texto que foi desprezado até pelos cupins. Ai vai. O seu título era: “Cuidado! Andreazza quer ser professor”.
O “professor”
A Convenção Nacional do PDS escolheu ontem, dia 11 de agosto de 1984, o seu candidato a presidência da República: Paulo Maluf, aplaudido pelas “malufetes” contratadas como “recepcionistas”. O que os dois candidatos juntos gastaram em um dia de convenção daria para acabar com o analfabetismo no país. Derrotado, o coronel Mário Andreazza, logo após saber os resultados, afirmou que vai renunciar até o fim do mês ao cargo de ministro do Interior, o que não deixa de ser uma boa notícia.
No entanto, alegria de pobre dura pouco. Imediatamente, ele ameaçou o povo brasileiro e, mais particularmente, os professores e alunos, declarando que vai se dedicar agora ao magistério.
- “Eu, no passado, aprendi muita matemática, história e geografia e acho que posso dar aula disso. E posso ajudar também os deficientes físicos, pois sempre tive vontade de fazer isso”.
Talvez, a ameaça de Andreazza mereça notas de protesto dos sindicatos de professores e da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais - APAE.
Os “pobremas”
A profissão de professor está tão desmoralizada no Brasil que pessoas que fracassam em qualquer atividade – até mesmo a de candidato à presidência da República – se refugiam logo no magistério para esconder o seu insucesso. Outros colocam na frente do próprio nome o título de “professor”, como é o caso dos técnicos de futebol e até de um governador do Amazonas que nunca exerceu a profissão.
Independente da discutível competência do coronel Andreazza, podemos adiantar desde já que é mais fácil ser ministro ou candidato a presidente da República do que conseguir um lugar de professor num país de analfabetos. Andreazza vai encontrar para isso obstáculos mais difíceis do que os “pobremas” que enfrentou na Convenção do PDS. Nós nos lixamos se ele fala "pobrema", no entanto, são eles que se dizem defensores da norma padrão, mas não cumprem as regras estabelecidas.
Como o ministro não explicitou se quer ser professor universitário ou de 1º e 2º graus, temos que trabalhar com as duas hipóteses.
Primeira hipótese: o coronel Andreazza quer ser professor universitário, talvez por ser mais condizente com suas ex-funções. Aí, ele vai ser barrado logo de saída. Qualquer universidade brasileira por ele procurada responderá que as vagas estão congeladas, que nenhuma universidade tem autonomia para contratar um só professor. As verbas para o ensino superior são tão ridículas, que não estão dando nem para comprar giz.
Restaria, então, uma saída ao ministro: antes mesmo de assumir a sua condição de docente, teria de aderir à greve nacional dos 37.000 professores de todo o Brasil, que há 84 dias estão exigindo do MEC mais recursos para a Universidade, inclusive para poder ampliar o quadro de professores, o que não foi conquistado ainda. Como participar de greves não parece ser o feitio do coronel, sobra a segunda hipótese.
Mestre em subtrair
Segunda hipótese: ser professor de 1º e 2º graus. Mas aqui, no Amazonas, o coronel está ferrado. Aqui, ele não pode mostrar o que sabe, uma vez que os concursos não foram realizados até hoje. Para ser contratado, ele tem de buscar um padrinho – o que para ele não é difícil – mas em seguida deve enfrentar uma enorme fila no Palácio Rio Negro, disputando vaga com centenas de professores desempregados, para mendigar um cartãozinho do governador, o “professor” Mestrinho. .
Em outros Estados, onde são realizados concursos, surgiria fatalmente a questão da competência. Seria difícil ao coronel provar que entende de matemática, depois dos erros elementares cometidos na Convenção. Ele errou na soma dos votos dos convencionais, achando que ia ganhar. Não conseguiu multiplicar os seus votos e nem sequer dividir o PDS, uma vez que após a convenção, em vez de rachar, se pronunciou a favor de Maluf. Há quem diga que a única operação que Andreazza sabe realizar – e realiza muito bem – é a de subtrair. Mas isto não basta, porque nisso o Maluf também é mestre, tem até doutorado.
O que a Academia Brasileira de Letras, que discrimina as inovações criativas da linguagem popular, diria dos verdadeiros atentados terroristas que o coronel Andreazza comete diariamente contra a sintaxe, assassinando impiedosamente a gramática cada vez que aparece na TV?
Este “pobrema” da linguagem dificultaria uma exposição clara dentro da chamada “norma culta” da língua portuguesa, num concurso de História ou Geografia, disciplinas que Andreazza parece não dominar tão bem, se levarmos em conta os desastres ecológicos da Transamazônica, que não respeitou a experiência histórica milenar dos povos indígenas e arrebentou com o ecossistema da floresta amazônica.
Supondo que o ministro conseguisse vencer todos esses obstáculos, ele teria de sobreviver com salário de fome. Os jornais informaram que Maluf pagou a cada “malufete”, por apenas um dia de trabalho na Convenção do PDS, o equivalente a três meses de salário de um professor. Dessa forma, a remuneração de uma “malufete” é noventa vezes mais compensadora, com a vantagem adicional de que, ao contrário de professor, “malufete” não precisa estudar, preparar aulas, corrigir provas e exercícios, não precisa sequer pensar, o que dá muito trabalho.

 

Esta parecer ser a alternativa de Andreazza: bater palmas para Maluf, até o dia 15 de janeiro de 1985, quando o próprio Maluf decidirá – quem sabe? – ele também ser professor ou se transformar em “tancredete”. 

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