CRÔNICAS

LEONA: NEGONA OU CABOCONA?

Em: 23 de Julho de 2006
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Quem não vê novela fica alienado, sem saber o que acontece no país. ´Cobras e Lagartos´, por exemplo, ajuda a entender a política amazonense. Basta comparar os atores com os candidatos. Vejam só: Leona, seu amante Estevão e sua mãe Milu – os malvados - assassinam o milionário Omar Pasquim. Mas quem herda a fortuna é Bel, a boazinha, órfã de pai e mãe, que vive no mundo da lua, tocando violoncelo.  
Aí, né, Leona, a vilã, arma um plano para que seu amante, o cafajeste Estevão, se case em comunhão de bens com a prima Bel, depois de separá-la de Duda, um cara bonzinho, mas bocozinho. A vilã apronta: rouba, mata, esfola, dá golpes, frauda, compra médico e enfermeiro, diz que foram os outros que compraram, engana Deus e o mundo. Vai conseguir o que quer?
Fico invocado com as novelas. Nelas, as pessoas boas são todas lesas e bobocas, se deixam enganar facilmente por pilantras e cafajestes, esses sim inteligentes e astutos. A bondade e a honestidade são apresentadas como sendo incompatíveis com a inteligência, a sagacidade e a perspicácia. O cara só é bom e honesto porque lhe faltam alguns neurônios para ser canalha.  Virtude é coisa de otário, de gente incapaz para o exercício da esperteza.  
Belezinha ou Bel lesinha?
A Bel é um anjo de candura, coração de rapadura. Uma belezinha. Mas também uma Bel lesinha. A babaquice dessa menina está me irritando. Com certeza, acende vela pra Santa Etelvina. Não é possível que não perceba as armações grosseiras preparadas nas suas barbas. Não é por falta de advertência. Todas as noites, minha sogra colombiana, sentada a meu lado, avisa: “Ojo, hija! Leona te engaña”. Não adianta. Bel não entende espanhol.
Nos capítulos que estão indo ao ar nesse momento, Leona, a vilã, procura conquistar Duda, o lesão. Mas ele recusa aquela mulher, que usa bota de salto alto e bico fino, calças justas de couro, jaquetinha de tecido aveludado, unhas pintadas com cores escuras. Ela é má. Ele está apaixonado mesmo é por Bel, que é boazinha, tem cachinhos nas pontas do cabelo, calça sandálias e usa saia rodada discreta com bordadinhos.  
Por isso, Leona (Carolina Dieckmann), a vilã, decide se transformar em Bel (Mariana Ximenes). Troca suas roupas brilhantes e estampadas de pistoleira por vestidos castos de cores claras, tecido leve e detalhes em crochê. Tira as botas e calça sandálias, se transfigura e vira um clone da ingênua Bel lesinha, de quem usa até o perfume adocicado. Mas só muda a aparência, porque o caráter continua o mesmo. É só para enrolar o trouxa do Duda.  
Eis aonde eu queria chegar. Quando vi o ex-governador Amazonino Mendes, em mangas de camisa, calçando sandálias despojadas, numa foto na primeira página do jornal A Crítica (20/07), imediatamente pensei: a vida imita a novela, Leona finge que é Bel para seduzir o eleitor bonzinho, mas trouxa. Será que vai conseguir?
Negão paz-e-amor
Ele não se chama, evidentemente, Negão Von Richthofen. Não é um assassino e até merece respeito, se não fosse por outra razão, pelo menos pelos cargos que ocupou. Mas que andou armando, andou, e não é por coincidência que traz Armando no próprio nome. Esse escriba, que sempre esteve na oposição e já foi até agredido fisicamente por causa disso, se surpreendeu com a nova figura do Negão-paz-e-amor.
Nas últimas eleições para prefeito de Manaus, o eleitor recusou o vilão, que tentou conquistá-lo. Derrotou nas urnas aquele que, quando governador, foi acusado de comprar votos de deputados, que perseguiu e pressionou jornais, que construiu a mansão do Tarumã, que – segundo a VEJA em matéria intitulada “Imprensa Selvagem” - “é acusado de desviar dinheiro público para criar um jornal”.  
Rejeitado nas urnas, Amazonino resolveu se transfigurar, trocar de identidade, virar bonzinho para conquistar o Duda-eleitor. Fantasiado com as roupas de Bel, calçando “as sandálias de pescador de votos”, o Negão declarou que é contra a reeleição, que se ganhar jura que não disputará um segundo mandato. Fez declarações de “profundo amor, carinho e admiração” pelo jornal A Crítica, confessando que o que mais aprecia num jornal é “sua independência”.
O Negão exagerou na dose. Nessa, nem a Bel lesinha, nem o Duda bocó acreditam. Basta lembrar as manchetes dos principais jornais do país em 1997. Folha de São Paulo: “Amazonino compra deputados do Acre em troca da nomeação do Superintendente da Suframa. Pauderney era o intermediário”. Estadão: “Empresa da família Camelli foi beneficiada por Amazonino”. O Globo: “Escândalo no Congresso não espanta ninguém no Amazonas”. Jornal do Brasil: “ZF é pivô da discórdia: escândalo da venda de votos”.
A cobertura nacional dos jornais – independentes – mostrou que Amazonino se envolveu pessoalmente na votação da emenda, com métodos nada ortodoxos, o que permitiu a reeleição de presidente e governador. Ele mesmo se beneficiou, recebendo um segundo mandato em 1998. Como quer que a gente acredite em suas palavras? Será que ele acha que todo mundo é leso, bocó e otário?
Acha sim. Em 1987, em sua primeira eleição ao governo do Estado, o Negão tentou impedir a circulação de uma edição do jornal A Crítica que abria uma manchete com denúncias sobre seus desmandos. A Polícia só não invadiu o jornal, porque Umberto Calderaro conseguiu uma intervenção do presidente José Sarney. Nas recentes eleições municipais de 2004, o Negão moveu várias ações contra A Crítica.
Agora, vestido com as sandálias de Bel, Amazonino quer que a gente acredite no seu amor pela independência da mídia, ele que “sempre manteve uma relação conflituosa com a imprensa”,segundo VEJA. A revista lembra que a casa do correspondente da Folha de São Paulo, em Manaus, André Muggiati, sofreu tentativa de arrombamento e ele teve que se picar da cidade. Faz apenas alguns meses, o Negão declarou em entrevista a rádio que no Amazonas se compra juiz, desembargador e a própria imprensa.
Qual é o sentimento que predomina hoje nos corações e mentes dos coleguinhas que batalham nas redações dos jornais de Manaus e que apostam na possibilidade de ser bom, sem ser palerma? É o caso, talvez, de fazer ao Negão a cobrança que Milú faz a sua filha Leona, quando ela tenta se disfarçar de boazinha: -“Você é uma vilã, com nome na praça, com curriculum vitae, com carreira consolidada. Você não pode comprometer seu nome, fingindo que é boazinha”. O (e) leitor não é trouxa.

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