CRÔNICAS

Luzia, Boechat e a Hora do Xibé

Em: 16 de Fevereiro de 2019 Visualizações: 1562
Luzia, Boechat e a Hora do Xibé

Nem mesmo o Geraldão, que se gaba de conhecer a idade de todos os moradores do bairro de Aparecida, em Manaus, sabia quantos anos a Luzia Vieira dos Santos tinha quando morreu. O tempo, que passa e vai semeando rugas e cabelos brancos, não tocou em Luzia, franzina, prestativa, solidária. Diariamente, às 6h00 da manhã, lá estava ela, sentadinha no batente de sua porta, com um rádio portátil marca Tecsun, de manivela, cor cinza patauá comprado no Sukatão do Jumbinho, ligado em alto volume para compartilhar a programação com os vizinhos.

Tantos anos depois, lembrei da Luzia porque nesta quarta (13) a UNESCO comemorou o Dia Mundial do Rádio, com merecida homenagem no Brasil a Ricardo Boechat, apresentador da BandNews FM, falecido dois dias antes em acidente de helicóptero. Muitos ouvidos ficaram órfãos da voz do “jornalista que fez do rádio sua maior vocação”, segundo a UNESCO, em cuja celebração se enfatizou o papel na democratização das informações das empresas radiofônicas, mas também das rádios comunitárias.  

Entre esses programas alternativos ouvidos hoje por tantas Luzias estão dois que sigo fielmente. O primeiro é A Hora do Xibé, um projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), hospedado na Rádio Rural de Santarém. Lá ouço a música de Nilson Chaves e Verequete. Lá  foi lançado, no dia 13, o livro “Pajés, benzedores, puxadores e parteiras: os imprescindíveis sacerdotes do povo na Amazônia”, organizado por Florêncio Almeida Vaz, que traz reflexão antropológica sobre o xamanismo e dá voz a pessoas humildes e sábias sobre suas crenças, saberes e ofícios.         

O segundo é a Rádio Yandê (“Nós” em línguas Tupi), criada em 2013, no Rio de Janeiro, para difundir as culturas indígenas, usando as novas tecnologias como uma “flecha digital” no combate ao preconceito e à desinformação. Esta web rádio, com mais de 180 correspondentes indígenas, conta em sua programação com músicas, entrevistas, depoimentos, poesias, denúncias e notícias. Pode ser acessada no site ou por aplicativo para celular e já ultrapassou os 2 milhões de ouvintes espalhados por todos esses brasis.

Manivela

Entre esses ouvintes, se viva fosse, poderia estar Luzia, embora seu rádio tivesse uma propriedade singular: funcionava com uma bateria que não gastava nunca e que, além de alimentar o próprio som, ainda servia para dar luz a uma lanterna colocada em uma de suas extremidades. Era um aparelho multifacético, que produzia som e luz ao mesmo tempo.

Luzia usava uma “manica”, nome dado antigamente pelos mecânicos de Manaus à manícula, uma manivela que fazia o papel do motor de arranque dos carros das décadas de 1940, provocando uma faísca para dar início à combustão. Depois da guerra, pararam de fabricar essas “fubicas”, cuja partida fez meu tio Nelson Cunha suar muita camisa girando repetidas vezes até pegar, no tranco, o motor do seu velho studebaker.

Com o rádio era parecido. Luzia ligava o aparelho e enquanto a música tocava, ela ia virando manualmente a manivela para carregar a bateria. Trata-se, segundo os entendidos, de um mecanismo banal. Talvez devido à ignorância nesses assuntos, confesso meu fascínio diante de tal engenhoca. Há muitos anos, numa passagem por Manaus, ao ver o rádio lanterna nas mãos da vizinha, não me contive:

- Luzinha, maninha, me empresta um instantinho?

A rádio estava sintonizada no programa do radialista Marcos Santos. Enquanto eu rodava a manivela, tinha a ilusão de que ele só conseguia falar porque eu estava girando a “manica” e que eu tinha o controle de sua fala, porque se parasse de carregar a bateria, ele se calava. 

E daí? O que é que a rádio da Luzia tem a ver com a atual realidade brasileira?  

Dona Mercedes                                                                                       

Tudo a ver. Podemos “filosofar” um pouco, aproveitando a metáfora do rádio que produz luz e som para seus ouvintes. Nesses tempos bicudos do circo de horrores instalado no país pela família Bolsonaro que trata a questão pública  como privada, e seus ministros e laranjas: Queiroz, Damares, Moro, Bebianno, Ernesto Araújo, Ricardo Vélez, Ricardo Salles, Tereza Cristina e tantos outros, temos que seguir o exemplo da Luzia e girar continuamente a manivela, para carregar as baterias dos parlamentares, comunicadores, professores e ativistas sociais que combatem criticamente os descaminhos do país.

As águas do rio Negro subiram e desceram dezenas de vezes. Folhas dos benjaminzeiros e dos oitis-cagões da rua Xavier de Mendonça secaram e caíram anos após ano. Seus troncos apodreceram ou foram decepados. Luzia, no entanto, permanecia inalterável, acrônica, usando diariamente a manivela para que seu rádio não parasse de funcionar. Por isso, ela não envelhecia. Esse é o segredo da eterna juventude da Luzia: era ela que fazia seu rádio falar.

Nós também precisamos reabastecer as baterias da Rádio Yandé, da Hora do Xibé e de jornalistas como Boechat, que ouvia e reproduzia a voz de quem carecia ser escutado e por isso foi tão pranteado por gente como Marlene, hoje aposentada, mas com quem convivi mais de 30 anos saboreando o imbatível feijão nosso de cada dia que ela fazia com muita arte.  Sua mensagem enviada pelo whatsApp, dizia:

- Gostaria de ler alguma coisa escrita por você sobre Ricardo Boechat.

Remeti a ela entrevista, que circulava nas redes sociais, de dona Mercedes Carrascal, 86 anos, que enfrentou altaneira o pior dos destinos, invertendo a ordem ‘natural’ das coisas ao enterrar o filho, “um homem honesto, correto, sincero que falava com o faxineiro ou com o mendigo de rua com o mesmo carinho” porque sabia “que todos somos todos iguais, não há raça superior, tem tanto valor um porteiro como um médico porque a sociedade necessita do trabalho de cada um. Não vamos acabar com os problemas sociais se não mudarmos as cabeças e se não exigirmos hospitais equipados, escolas públicas, trânsito ordenado. Não é caridade, é respeito” – ela disse.

- Ah, agora sabemos de onde veio Boechat. Está tudo explicado – respondeu Marlene.

Efetivamente, quem saiu de um útero como o da dona Mercedes, quem foi amamentado por ela e embalado no seu colo tinha de ser alguém capaz de se indignar com a injustiça. São Luzias e Marlenes desse Brasil que reabastecem baterias criadas por tantas Mercedes.

P.S. - Sobre a Luzia ver também SIMPLESMENTE LUZIA (12/12/1995) - http://www.taquiprati.com.br/cronica/479-simplesmente-luzia

e O RADIO DA LUZIA (29/03/1994) - http://www.taquiprati.com.br/cronica/520-o-radio-da-luzia

 

 

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8 Comentário(s)

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Haroldo Werneck comentou:
22/02/2019
E o governo atual criminalizando as rádios comunitárias...
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Hora do Xibé comentou:
22/02/2019
Lembrando da perda de Ricardo Boechat e de como o rádio exerce grande influência na vida das pessoas, desde as trivialidades do cotidiano até em como ele agrega informação, responsabilidade e saberes aos seus ouvintes, a crônica do professor José Bessa fala sobre a importância do rádio na vida das pessoas vem destacando nosso programa que vai ao ar todo sábado pelas ondas da Rádio Rural!!!
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Josaé Seráfico comentou:
19/02/2019
Meu irmão, até quando nossos braços terão força para girar a manica? Para que fazer contas? Temos mesmo é que continuar a girá-la. Como vimos fazendo - e jamais deixaremos de fazer, enquanto correr sangue nas nossas veias e artérias. Promessa de escoteiro! Não, mais que isso: promessa de cidadão! Um abraço fraterno e amigo.
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Tadeu Veiga comentou:
19/02/2019
José Bessa gira a manivela!
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Marlene Silva comentou:
19/02/2019
Bom dia! Eu não sabia que há uns anos atrás existia esse tipo de rádio, é como vc disse a nossa vida é movida como essa. O Boechat tinha um programa no rádio que eu escutava na parte da manhã, ele um locutor que eu adorava escutar, falava tudo que nós gostaríamos de falar e ouvir. Obrigado bjs a todos.
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Rodrigo Martins Chagas comentou:
18/02/2019
Boa noite, professor Bessa. Adorei conhecer a história da dona Luzia. Eu particularmente sou fã do rádio, pois ele é lúdico, informativo e assim como a dona Luzia ele não envelhece nunca. Ao ler a parte que o senhor que diz que pensava poder controlar o radialista Marcos Santos pela "manica",me lembrei que quando eu era criança eu também pensava que podia controlar os locutores de rádio durante as transmissões kkkkkk. Por isso eu sempre ficava com medo de aumentar muito o volume, pois tinha medo que o Luis Carlos Araújo ou o Apolinho ficassem sem voz. Ao ver tantas tragédias (muitas delas por negligência das autoridades e que poderiam ter sido evitadas) que ocorreram nesse início de ano, penso: como seria incrível se pudéssemos girar a "manica" do tempo para trás para evitarmos esses tristes acontecimentos. E ao falar do tempo, me recordei de um comercial do videocassete Sharp, em que o artista Chico Anysio dizia o quão bom seria se pudéssemos voltar no tempo para revivermos antigos sentimentos, consertar ou mesmo confirmar os fatos. Nesse cenário o homem nasceria com 80 anos e morreria de infância. Professor, crônica nota 10, irei compartilhar imediatamente no meu whatsapp. Um abraço querido professor! Link do comercial da Sharp: https://www.youtube.com/watch?v=4gleWtmMIq4
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Hans Alfred Trein comentou:
18/02/2019
Caro Bessa, meus ouvidos também ficaram órfãos com a morte prematura do Boechat. Reproduzo abaixo um texto de um colega pastor de Ipanema RJ que bate bem com o meu carinho e respeito por este jornalista raiz. Abraço, Hans O ATEU MAIS CRENTE QUE CONHECI Mozart Noronha Ricardo Boechat, hoje passei no espaço da Creche Bom Samaritano, da Igreja Luterana, e vi o seu rosto em cada criança brincando, abrigada da chuva e do sol, pela obra que você financiou e que foi cuidadosamente coberta pelas mãos de operários, sob a orientação do seu irmão, o Engenheiro Carlos Boechat. Vi a tristeza nas faces das funcionárias que o conheceram e puderam conviver com o sorriso da sua alma amorosa e libertária, numa dedicação e saudação de corpo inteiro. Vi-o, da alma para alma, conversando com Veruska, o grande amor da sua vida, nos momentos em que preparavam as festas de aniversários de vossas filhas, batizadas por mim, na Paróquia Bom Samaritano da Igreja Luterana (IECLB). Você e Veruska desejaram que as vossas filhas celebrassem seus aniversários abraçando e sendo abraçadas por crianças pobres das favelas do Cantagalo, Pavão, Pavãozinho, Vidigal e Rocinha. Naquelas festas vocês providenciavam alimentação, brincadeiras e todo espetáculo que crianças de famílias empobrecidas jamais tiveram direito nem de sonhar. Ricardo Boechat, você dizia-se ateu. Com toda honestidade afirmava isto publicamente. Você era um homem honesto e transparente. Deus também é ateu, meu amigo. Jesus Cristo nunca foi cristão e todas as crianças nascem agnósticas. Eu nunca lhe perguntei sobre o Deus em quem você não acreditava. Não lhe perguntei porque, possivelmente, o Deus em quem você não acreditava, um ser vagando na estratosfera da transcendência, moralista, vingativo e ansioso para botar uma grande parte da humanidade no fogo do inferno, eu também não acredito. Esse deus é criado conforme a imagem e semelhança de pessoas raivosas e perversas. O Deus em quem eu acredito, Ricardo Boechat, é AMOR E MISERICÓRDIA. É o Deus que na agonia da cruz orava pelos seus inimigos dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que estão fazendo!” Você era um reflexo do amor de Deus. Tinha um coração maior do que o seu corpo franzino. Ricardo Boechat, você foi um profeta. O profeta é aquela pessoa que fala contra as injustiças e se torna defensora das pessoas oprimidas que não têm vez e nem voz. No céu, amigo, fale com Deus que tenha misericórdia deste nosso país e que Ele envie outros profetas para falarem em defesa das vítimas de Mariana, de Brumadinho; por todas as vítimas de tragédias, pelos índios e por todas as pessoas injustiçadas e deserdadas da terra.
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Ana Silva comentou:
16/02/2019
Que lindo texto! Viva dona Luiza e dona Mercedes. O nosso país seria outro se o atual presidente tivesse vindo de úteros como esses. Ainda bem que o autor dessa crônica veio! Talentoso e sensível como ele só. Rsrs
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