"A música é tão necessária para os seres humanos quanto
o pão e a água. É preciso fazer o mundo inteiro cantar”.
(Villa-Lobos, 1932)
Caminhando e cantando e seguindo a canção. Por acreditarmos nas flores vencendo o canhão, que é feio, fedorento e triste, e para que não digam que não falei de música, que é bela e alegre, sigo aqui as canções cantadas antigamente nas escolas, algumas que o Google não registra e nem a Inteligência Artificial é capaz de criar.
A primeira delas foi no Jardim de Infância, no Colégio Aparecida de Manaus, em 1952 ou 1953:
Coelhinho, meu amigo / venha conversar comigo.
Ra-ra-rá, ro-ro-rô / venha conversar comigo.
A professora era freira, a irmã Cecília, que entrou no convento com seu nome de batismo, mas aceitou trocá-lo em homenagem à Santa Cecília, padroeira dos músicos, dos poetas e dos cegos.
A segunda cantarolada em minha atribulada existência foi o Bem-te-vi, acompanhada de linguagem gestual, nossos braços se movimentavam como asinhas:
Eu conheço um passarinho / que pipila no seu ninho
Bem-te-vi, bem-te-vi, cantarola ao romper da aurora
repipiupiu, repipiupiu, passarinho lá no céu se ouviu.
Muitas outras registradas na memória musical emergem da infância distante. Mas na época eu, um iletrado rebelde, gostava de música, mas não da escola, o que me valeu uma reprovação, silenciada posteriormente no meu Currículo Lattes:
- O único brasileiro que conheço reprovado no jardim de infância – dizia morta de vergonha uma das minhas irmãs.
Conto como foi a vergonha dela.

A canção das vogais
Foi assim. No recreio, a professora não dava conta de controlar todos os alunos, que eram muitos. Depois da aula de música, eu fugia por um buraco na cerca do terreno do Quartel dos Bombeiros Voluntários pertinho de casa. Gazetava as aulas de pré-alfabetização. Ninguém notava minha ausência. No final do ano, veio a equipe da Secretaria de Educação fazer a avaliação de praxe como pedia a lei da época. O teste era algo assim como: "Marque as vogais e pinte de azul o triângulo, de verde o círculo e de amarelo o quadrado". Misturei cores, confundi letras e levei bomba.
De qualquer forma, ao repetir o Jardim de Infância, fixei a canção das vogais entoada exaustivamente ao longo do ano:
A, A, A, grasna o pato quá quá quá
É, É, É, berra a ovelha mé, mé, mé.
I, I, I, canta o grilo cri-cri cri-cri.
O, O, O, canta o galo cocori-cocó
U, U, U, muge a vaca mu, mu, mu.
Naquela época, era assim que cantavam as escolas, reunindo bichos e letras. Se fosse hoje, daria meu jeito para acrescentar a sexta vogal de som gutural do alfabeto Guarani (achegety), que os jesuítas grafaram como "y". Algo assim como:
Y,Y,Y, canta o gwyrá Guarany.
Tive a sorte de cursar o primário e o ginásio antes do golpe de 1964. Por isso, convivo até hoje com as vozes canoras de minhas professoras ao longo do antigo curso primário: a fanhosa Irmã Xavier, a desafinada e risonha Irmã Dolores e as Irmãs Paula e Isabel, mais melodiosas. No ginásio, Irmã Loreta, a noviça rebelde. Com elas, a gente afinava a audição e desenvolvia o lado lúdico, a sociabilidade, a criatividade, a memória, o raciocínio. Cantigas e exercícios de canto contribuíam para a aprendizagem e o letramento.
As freiras e o canto
Essas freiras eram da Congregação do Preciosíssimo Sangue transplantada ao Amazonas, em 1947, por quatro religiosas norte-americanas - Julitta, Marciana, Georgiana e Francisca - que vieram do Kansas convidadas pelos padres redentoristas para criar escolas paroquiais mistas.
A Congregação logo incorporou jovens amazonenses, como Noemi Cinque (1913-1988), nascida em Urucurituba e moradora do nosso bairro, lá na Estação de Bonde do Plano Inclinado. Com o nome de Irmã Serafina, ela foi professora no Colégio de Aparecida antes de ser deslocada para Altamira, no Pará, em 1971, quando testemunhou e denunciou corajosamente a tragédia da abertura da Transamazônica. O Papa Francisco proclamou suas “virtudes heroicas” e lhe conferiu o título de “venerável”, que é um caminho para ser canonizada, se ela tiver algum milagre comprovado.
Tem. Uma de suas “virtudes heroicas” foi aturar meninos endiabrados, que transformou em anjos. Foi assim: um dia não deu permissão para eu fazer xixi, alegando que era pretexto para sair da sala de aula. Não era. Quando ela foi atender alguém na porta da sala, aproveitei para subir no parapeito da janela que dava para o quartel dos bombeiros e me aliviei com sonora mijada, que molhou a cabeça de um “soldado do fogo”. O comandante Ventura fez reclamação formal. Fui castigado. Acredito ser o único brasileiro a ter recebido cascudos e puxão de orelha de uma candidata à santa.
Na aula de canto, o pau também cantava. Villa-Lobos achava que qualquer um podia cantar sem necessidade de conhecer teoria musical. No ginásio, a Irmã Loreta pensava diferentemente. Ela regia com uma régua grande de madeira no lugar da batuta e dois anos após a morte de Villa-Lobos, me deu reguadas na bunda em suas aulas de Canto Orfeônico. Exigia de seus alunos o domínio de noções de música ancorado num metadiscurso.
O dó-ré-mi
Irmã Loreta preenchia parte do tempo não com a prática do canto, mas com os seus insondáveis mistérios. Tinha inefável gozo musical quando repetia na mesma pergunta o nome completo de cada um de nós:
- José Ribamar Bessa Freire (doravante JRBF para simplificar, mas ela falava por extenso), me diga JRBF, o que é uma clave de sol, JRBF? Não sabe JRBF, não sabe o que é uma clave de sol, JRBF? (reguada na bunda, passava ao seguinte)
– Me diga Júlio Celso de Lima Seixas, o que é um clave de sol, JCLS? Não sabe, JCLS. Não sabe o que é uma clave de sol JCLS? Etc etc e tal... (reguada na bunda)
Ela percorria a sala toda, nomeando um por um. Afinal, o que é uma clave de sol? Ninguém sabia. Aliás, pra falar a verdade, até hoje eu não sei. Cantar, de boa, gosto muito, embora desafine. Mas clave de sol é dose. Sou incapaz de ler partitura. A propósito, Leitor (a) me diga, Leitor (a), o que é uma clave de sol, Leitor (a)? Não sabe, Leitor(a)?
Com ou sem clave de sol ou dó-ré-mi-fá, o canto nas escolas deve muito ao maestro, compositor e pianista Heitor Villa-Lobos (1887-1959), nomeado Superintendente de Educação Musical, em 1931. Ele convenceu o presidente Vargas, que ainda não era ditador, a assinar dois decretos para a criação do ensino de Música, Canto Orfeônico ou Canto em todas as escolas do Brasil, com expressiva carga horária nos currículos do jardim de infância, primário e ginasial e ainda dos cursos de formação de professores normalistas, com diretrizes formuladas pelo Conservatório Nacional do Canto Orfeônico.
O repertório era de acordo à faixa etária dos alunos. No jardim de infância Uma pequena Aranha, Alecrim Dourado, Escravo de Jó, o Cravo brigou com a Rosa, Sapo não lava o pé, Sambalelê. No ginásio, Frère Jacques, Au Clair de la lune, o Hino Nacional e o Hino da Independência (japonês com quatro fi-ilhos, vê contente a mãe gentil-il) – no qual ou a Pátria fica livre ou a gente morre pelo Brasil. No curso pedagógico, com o maestro Nivaldo Santiago, invocávamos Tupã, Deus do Brasil e viajávamos no Trenzinho Caipira no coral do Instituto de Educação do Amazonas.
Coral em São Januário
O canto orfeônico é o canto das multidões – dizia Villa-Lobos. Ele criou o Orfeão dos Professores capacitando-os para o ensino da música, cujo repertório era ensaiado em cada sala de aula, antes dos alunos se reunirem com milhares de colegas de outras escolas. Formavam um gigantesco coral que se apresentou várias vezes, uma delas no Campo de São Bento, em São Paulo com mais de 12 mil estudantes no evento de “exortação cívica” e várias vezes no Estádio São Januário do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.
Para nossa sorte, quem participou de uma das apresentações em São Januário, no dia 7 de setembro de 1940, no meio de mais de 40 mil alunos, foi um menino de 12 ou 13 anos, José Ramos Tinhorão, que mais tarde relatou o fato em seu livro “História Social da Música Popular Brasileira”.
- De repente, chega o maestro Villa-Lobos com sua vasta cabeleira, sobe no pódio de madeira armado no meio do campo. A um sinal dele, o estádio inteiro começa a cantar. Lembro de que eram canções que falavam da natureza, do Brasil. Era uma demonstração de massa, um conjunto de coros formando um imenso coral. O maestro queria que o mundo inteiro cantasse.
Influenciado pela ópera O Guarani criada em 1867 por Carlos Gomes, Villa-Lobos harmonizou os fonogramas históricos coletados em expedições etnográficas no período de 1910-1920 pelo antropólogo Roquette Pinto, de quem era amigo. Trata-se do registro sonoro de cânticos de diferentes povos, que valoriza as línguas, as culturas e as músicas, entre outros, dos Nambikuara, dos Pareci e dos Kôkôzu. Com essa motivação, Villa-Lobos compôs o Canto do Pajé, Dança do Índio branco, Três poemas indígenas, Amazonas, Uirapuru.
Villa-Lobos, o “Índio de casaca”
Parte do seu repertório com mais de 1.000 composições pode ser consultado no Museu Villa-Lobos, em Botafogo, com destaque para canções com referências indígenas, que lhe valeram o apelido de Índio de casaca dado pelo escritor Menotti Del Picchia e que se tornou título do documentário de Roberto Feith sobre a vida e obra do maestro, “um compositor que fundia o erudito (a “casaca”) com o indígena (a tanga)”
Os temas indígenas, ele ambientou numa fusão com a temática urbana.
- O meu livro é o Brasil – dizia o “Índio de casaca”. Mas a fusão não se limitou à casaca & tanga, incorporou também o chapéu panamá e o sapato bicolor do Zé Pelintra. No Rio, subiu morros, frequentou a favela da Mangueira e a Lapa Boêmia, conviveu com os “chorões” Pixinguinha, Donga, Ernesto Nazaré. Percorreu quase todo o país e em cada lugar anotava a música local. “O tema que usa em sua obra é popular, mas o tratamento é erudito, mesmo com as deficiências técnicas de que é acusado” – sinaliza Tinhorão.
- Ele levou para os salões parisienses o cheiro da floresta amazônica – disse um dos entrevistados por R. Feith. Lá, conviveu com Stravinski, Prokofiev, Andrés Segóvia. Passou temporadas em Paris, onde morou. Na segunda vez ficou por 4 anos e na última residiu de 1952 a 1959, retornando ao Brasil para morrer. Mas sua maior obra foi fazer as escolas cantarem diariamente na sala de aula, até 1971, quando o general Garrastazu Médici sancionou a lei que praticamente baniu a música dos currículos, afogando-a no que a legislação da ditadura chamou de Educação Artística com carga horária reduzida.
A ditadura, que é feia, tortura e nos submete à barbárie, censurou a música, que é bela e nos redime e alegra, restringindo-a a um lugar secundário, às festinhas, comemorações e formaturas. Qualquer pessoa, afinada ou não, pode cantar. Ditadores, porém, não cantam, nem deixam cantar, eliminam a educação musical, que é um direito de todos, fundamental ao desenvolvimento pleno do aluno. A exceção foi Vargas, depois ditador, por influência de Villa-Lobos em um processo contraditório e polêmico.
Com o golpe militar, a música perdeu seu espaço próprio e deixou de ser curtida no cotidiano escolar como linguagem artística e prazerosa na busca do conhecimento. A educação musical foi reprimida em quase toda a América Latina conforme constatou a professora argentina de música Violeta Hemsy de Gaiza. A música perdeu seu espaço na escola. No Brasil, somente em agosto de 2008, o presidente Lula reestabeleceu o lugar do canto no currículo escolar, sancionando a Lei nº 11.769/08.
“E, no entanto, é preciso cantar / mais do que nunca é preciso cantar / É preciso cantar e alegrar a cidade”, declama Vinicius de Moraes. A música ganha forças nas escolas graças a “missionárias” abnegadas. Uma delas, Vanessa Dutkus Saurusaitis é professora de artes em Niterói. Na Orquestra Interculturalidade do Programa Aprendiz Música nas Escolas, que ela organizou, fez um arranjo de música guarani, executada por seus alunos, que leem partitura e tocam diferentes instrumentos. Essas lembranças foram ativadas em conversa com ela. Villa-Lobos não morreu.
Referências:
Tinhorão, José Ramos: História Social da Música Popular Brasileira. São Paulo. Ed. 34. 1998
Pardim de Souza, Paulo C, e Lourenço, Renata: Um breve histórico das Legislações sobre o Ensino de Música no Brasil. Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – UEMS. Editora Científica Digital. 2022.
Roberto Feith: Documentário “O Índio de casaca”- Rio. Rede Manchete. 1987. https://www.youtube.com/watch?v=gz3Ju4d3tNs
Para Vanessa Dutkus Saurusaitis, missionária da música.