CRÔNICAS

Domingo da Ressurreição: a greve de professores

Em: 01 de Março de 2018 Visualizações: 5071
Domingo da Ressurreição: a greve de professores

Resurrexit sicut dixit, Aleluia, Aleluia!

Peixe no prato, farinha na cuia!

O movimento dos professores do Amazonas ressuscita com todo vigor deflagrando greve que já dura dez dias e se espalha por todo estado. Grevistas atravessam ponte de madeira em São Paulo de Olivença e panfletam de casa em casa, explicando à população que querem melhoria na qualidade de ensino. Outros desfilam em motos e bicicletas em passeata pelas ruas de Eirunepé. Pipocam manifestações em Parintins, Manaus, Tabatinga, São Gabriel, Manacapuru e outros municípios. Vigílias ocupam praças públicas dando aulas de civismo. O domingo é, simbolicamente, o da Ressurreição.

Mas este domingo cai num primeiro de abril, conhecido entre nós como o Dia do Amazonino (PDT vixe vixe). No meio de tanta mentira e pegadinha, a greve emerge como a única verdade e acende, enfim, uma luz de esperança, comprovando que nem tudo está perdido, que tem gente reivindicando, lutando, protestando. Em visita a Boa Vista do Ramos e Parintins, o governador Amazonino tentou desmobilizar a paralisação e foi vaiado estrondosamente. Revidou com truculência chamando os professores de “imbecis”. Vídeo que circula nas redes sociais recria o episódio com canções improvisadas e bastante humor. 

São 15 mil professores de 599 escolas em 62 municípios com 435.291 alunos. O movimento Educadores na Luta, que reúne cinco coletivos, estima que estão sem aulas mais de 80% das escolas no interior e 90% na capital, incluindo as militarizadas. O rumo da luta será decidido em assembleia convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SINTEAM), nesta segunda (2), às 15h30, na Praça do Congresso, na capital, e em assembleias setoriais no interior, quando informes sobre as negociações definirão as estratégias de luta diante da contraproposta do governo.

Peixe no prato

Os professores da rede estadual de ensino querem oferecer a seus alunos educação de qualidade, o que é impossível nas condições atuais em que vigora salário de fome. Por isso, a pauta inicial reivindica peixe no prato e farinha na cuia, com 35% de reajuste salarial e correção do vale-alimentação, o que, se concedido, é um salário ainda inferior apenas ao auxílio-moradia que juízes recebem mesmo sendo proprietários de vários imóveis. Juiz é mais importante do que professor?

Sobre os proventos dos juízes do Amazonas, o governador Amazonino Mendes disse o que pensava há mais de dez anos em entrevista à Rádio Nova Olinda. Sobre a negociação com os professores, ele inicialmente fez jogo duro, mas acabou recuando. Na reunião quarta-feira (28) com os dirigentes do Sinteam e da Oposição/Base, representantes da Secretaria de Educação fizeram uma contraproposta de 14.57%, com 4,57% pagos imediatamente e os 10% restantes escalonados ao longo do ano. Ela foi, em princípio, rejeitada e deve ser discutida nas assembleias.

- Se o Governo conceder um reajuste maior que 14,57% aos professores estará cometendo crime de responsabilidade fiscal – declarou o secretário de educação Lourenço Braga.

Imagina! Quem conhece a história de Amazonino sabe muito bem que ele sempre se pautou rigorosamente dentro da lei, jamais cometeria qualquer crime de responsabilidade, de irresponsabilidade ou qualquer outro que envolvesse compra de votos. Não desviaria um centavo dos cofres públicos.

O crime de responsabilidade abrange ainda outros pontos da pauta em discussão que envolvem plano de saúde, transporte integral sem o desconto no contracheque, reajuste do auxílio localidade, progressões horizontais e verticais e revisão do Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração.

Os professores amazonenses, indignados, romperam anos de imobilismo, desconfiança e ceticismo e foram às ruas nesta Campanha Salarial de 2018, que conseguiu unir na ação, apesar da diversidade de enfoque, a direção do Sindicato e a oposição sindical em torno de alguns pontos, entre os quais a composição do Comando de Greve, a organização de calendários de ações como arrastão cultural, rodas de conversa,  atividades com estudantes e pais, aulas públicas, além da formação de comissões para tarefas específicas como Imprensa e Divulgação destinada a alimentar a mídia e as redes sociais.  

Farinha na cuia

Houve um salto qualitativo do movimento em relação ao iniciado há quase 40 anos, do qual tive o privilégio de participar ativamente. Foi no 12 de abril de 1979, uma quinta-feira santa.  Fazia um mês que José Lindoso, o novo governador do Amazonas eleito pelo voto indireto, havia tomado posse. A situação salarial do magistério se degradava. A ditadura começava a descer ladeira abaixo. Em São Paulo, os metalúrgicos faziam greve com grandes manifestações, dando exemplo aos trabalhadores em todo o Brasil. 

Um grupo pequeno de professores decidiu ressuscitar a velha APPM – Associação Profissional dos Professores de Manaus, então presidida por Flaviano Guimarães tendo Freida Bittencourt como vice-presidente.  Editamos no mimeógrafo mais de mil exemplares do Boletim da APPM e distribuímos nas escolas de Manaus convocando os professores para uma reunião em plena semana santa, no salão paroquial da igreja de Educandos cedido pelo vigário Francisco Pinto. Compareceram 20 gatos pingados.

Teria sido um fracasso se, entre os presentes, não estivesse dona Waldenora, professora do Grupo Escolar Cônego Azevedo, responsável por alfabetizar centenas de crianças e adultos. Embora jamais pronunciasse um palavrão dentro da sala para não dar mal exemplo, fora da escola era uma senhora respeitável, mas saudavelmente desbocada, capaz de mandar o governador tomar no pescoço francês. Com um discurso vigoroso, ela deu uma injeção de ânimo, nos indicou o caminho, recomendando persistir.  

Fizemos novas edições semanais do boletim e continuamos a distribuir nas escolas. Começaram a chegar outras pessoas às inúmeras reuniões de organização, inclusive na Casa do Trabalhador, na rua Marcilio Dias. O número de participantes crescia de uma reunião à outra.  Alguns meses depois reuníamos mais de 5 mil professores numa enorme assembleia na Quadra do Olímpico. Dona Waldenora estava lá, ela e sua indignação. Naquele ano, o movimento obteve vitórias importantes, conseguindo dialogar com o governo Lindoso que foi mais flexível que Amazonino ou Gilberto Mestrinho.

Apesar de ostentar o título de “professor”, Mestrinho reprimiu com violência os seus “colegas”, na tristemente célebre “batalha do igarapé de Manaus”, numa operação que deixa o Amazonino babando de inveja. Cerca de 3.500 homens da Polícia Militar sentaram a porrada nos professores que tentavam entregar no Palácio Rio Negro a pauta com as reivindicações. O governador demitiu 80 líderes do movimento que só foram reintegrados graças a uma greve de fome dentro da igreja de São José.  O movimento foi parcialmente vitorioso. A atual greve dos professores é herdeira dessa história que foi amplamente documentada por fotos do saudoso Rogélio Casado.

P.S. – Agradeço as fotos recentes enviadas por professores do interior para a historiadora Gleice Antônia de Oliveira, líder do movimento Educadores na Luta e elo de ligação com a memória daqueles tempos em que ainda se jogava bola no Estádio General Osório, com as irmãs Spener assistindo da janela de sua casa na avenida Epaminondas, como se fosse uma arquibancada.  

Ver também:

1)Dona Waldenora, Zé Melo merenda e outros bichos: 

http://www.taquiprati.com.br/cronica/434-dona-waldenora-ze-melo-merenda-e-outros-bichos

2) A batalha do igarapé de Manaus - http://www.taquiprati.com.br/cronica/724-a-batalha-do-igarape-de-manaus

3)Dona Elisa existe  http://www.taquiprati.com.br/cronica/657-dona-elisa-existe

  

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17 Comentário(s)

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Fred Spinoza (via FB) comentou:
02/04/2018
8º dia de paralisação As aulas continuam: Cidadania, Justiça, Liberdade, Solidariedade, Democracia. O rumo da luta será decidido em assembleia convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SINTEAM), nesta segunda (2), às 15h30, na Praça do Congresso, Manaus, e em assembleias setoriais no Alto Solimões.
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Delcirio comentou:
01/04/2018
O meu entendimento é que um jornalista precisa conhecer os fatos antes de escrever,para que a notícia seja de fato notícia e não apenas uma opinião parcial.
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Taquiprati (FB) comentou:
01/04/2018
Oi Delciro, o seu entendimento está correto e vale não apenas para o jornalista, mas para o sindicalista quando comenta o que não entende. Você está confundindo alhos com bugalhos, noticia com artigo de opinião e ainda acredita que existe "noticia que seja de fato noticia", como se fosse possivel relatar um fato tal como aconteceu. Um livro dos anos 1980 que usavamos nas aulas de jornalismo da UFAM, quando eu era professor, era o da Cremilda Medina - Notícia - um produto à venda. Se você puder ler, vai entender que a notícia não existe FORA do relato e que toda noticia é uma construção. É um debate interessante. Leia e a gente volta a discutir, se voce tiver interesse. Abs.
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Lambert Melo comentou:
01/04/2018
Caro Babá! O Sindicato dos Professores de Manaus-ASPROM sindical está a sua disposição para prestar quaisquer esclarecimentos sobre o histórico e os objetivos desta greve , que foi deflagrada pela categoria no dia 16/03/18. Temos página no Facebook e portal na Internet. Parabéns por mais um brilhante artigo da sua lavra. Obrigado.
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Taquiprati (FB) comentou:
01/04/2018
Oi Lambert, obrigado pela informação. Vou visitar a pagina para me informar.
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Delciro comentou:
31/03/2018
Espero que o senhor cite o papel do ASPROM sindical nessa greve.Nao conte a verdade do Sinteam domesticado pelo governo ,esse sindicato que nunca quis essa greve é que sempre segurou a base em favor dos governos.Gracas aos guerreiros do Asprom sindical ainda temos esperança.Porque quem início de fato essa greve foi o Asprom,essas fotos da reportagem são das assembleias do Asprom e não do Sinteam.Por favor fale as verdades dos fatos e não só a verdade do Sinteam e governo.
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Taquiprati comentou:
01/04/2018
Caro Delciro, parece que a hora é de união e não de divisão, vc não acha? Ficar atacando quem está na luta só enfraquece o movimento e fortalece o adversário e isso vale também para quem ataca a ASPROM com cuja história, confesso, não estou familiarizado
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Vera Nilce Cordeiro Correa (via FB) comentou:
31/03/2018
O Facebook não me deixa curtir. Amei a História contada e saber que os professores amazonenses estão cheios de brios em luta por seus direitos
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João Crispim Victorio (via FB) comentou:
31/03/2018
Bravo, prof Bessa!!! Que essa ressurreição se espalhe por todo o país.
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Rita Buriti (via FB) comentou:
31/03/2018
Prezado Professor Bessa, Não fique aborrecido comigo. Sou uma pesquisadora e poetisa anciã estrangeira. E avise aos seus próximos para não me perseguirem por uma simples opinião. Nos anos 70, meu marido era pesquisador convidado do INPA e eu estava em Manaus. O senhor não lembra que o Governador Lindoso, da ditadura brasileira, mandou a policia espancar os estudantes que estavam no Movimento da Meia-Passagem na Praça São Sebastião? Eram mais de três mil PMs que invadiram a igreja e atiraram em estudantes dentro dela... Por que o senhor diz que um governador nomeado pela ditadura, que mandou espancar estudantes adolescentes, é melhor que um governador eleito que mandou espancar professores adultos? Qual seu critério? Foi por este mesmo critério que o curso de história da UFAM homenageou Arthur Reis , outro governador nomeado pela ditadura? O senhor critica a “justiça seletiva” do Moro. O senhor não acha que faz “história seletiva”? O senhor não acha que ao dizer que teve ditador bom o senhor se aproxima do discurso do Bolsonaro? O senhor diz no texto que dez coletivos de professores comandam uma greve de fato maravilhosa. Então por que nomear uma heroína “comandante – geral “ da greve? O velho stalinismo criando heróis românticos superiores aos normais? E o senhor não acha que mesmo sem contato direto com seu “objeto” não está se “escalando” como o “ teórico” do movimento? Não se aborreça. É uma apenas um debate. E estou em outro país. Olhando de longe. Da sua fã crítica Rita
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Astrid Lima (via FB) comentou:
04/04/2018
Salve Rita Buriti, fiquei curiosa de conhecer o seu trabalho literário, o período que viveu no Amazonas influenciou as suas obras? É possível obter um link com a sua bibliografia? Quais livros voce escreveu? Ah, muito apreciável a sua homenagem à escritora premio Nobel Alice Munro na foto do seu perfil. No mais, o professor José Bessa não pretende exaltar Lindoso em relação ao Mestrinho ou Amazonino e sim sublinhar que enquanto o movimento dos professores teve um "salto qualitativo" nas últimas quatro décadas, o mesmo não aconteceu em relação à dialética democrática entre movimentos sociais e políticas/governos institucionais. Além disso existem - infelizmente - muitos resíduos stalinistas na história dos movimentos sociais mas citar uma liderança, no caso, creio, se refira à professora Gleice Antonia de Oliveira, não é uma evocação do stalinismo e sim um registro histórico e um reconhecimento objetivo. Até mais.
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Taquiprati (FB) comentou:
01/04/2018
Prezada Ana Clara, obrigado por escrever. e por oferecer informação. mas por enquanto o importante é abrir espaço aqui para o debate,, não importa se o personagem é fake ou não. O leitor é inteligente e tira suas conclusões. O importante é não perder o humor, que, aliás, você tem de sobra ao escolher o nome de Açai,.. Abs.
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Ana Clara Açai (via FB) comentou:
01/04/2018
José Bessa, meu nome é mesmo Ana Clara, mas o Açai é gozação com a tal Buriti. Posso te enviar por inbox meu nome completo e meu RG e o nome de quem se esconde por trás de Rita Buriti. Vc está respondendo para quem não existe. Não existe nenhuma Rita Buriti. É fake. Eu sei quem cria esses personagens, é um ex-professor meu na Faculdade de Direito, que faltava aula e quando vinha enrolava. Ele cria personagens, quase sempre mulheres, que dizem que ele é um gênio e ataca qualquer pessoa que sobressaia. . Posso mandar por inbox o nome do cara se assim vc quiser.
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Taquiprati (FB) comentou:
31/03/2018
Rita nao fique chateada ou aborrecida, mas que tal aprender a ler em português? Qualquer um dos professores grevistas pode ensinar. Você efetivamente está olhando de muito loooooooooooooonge.
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Armando Barrella (via FB) comentou:
31/03/2018
José Bessa , a situacao do governador e dos seus baba-ovo nao esta nada bom, juntos estao mais enrolados do que cobra em galho de arvore em cheia do Rio Negro. Nino e sua ninhada de cobrinhas, cobreiros estao vendo a arvore em que estao trepados serem tomados pela cheia do Rio Negro. Logo, logo vai sair dos galhos e pular no Rio, cheio de cardumes de piranhas para exterminar essa gente imunda da politicagem amazonense.
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Ana Silva comentou:
31/03/2018
"primeiro de abril, conhecido entre nós como o Dia do Amazonino (PDT vixe vixe)" kkkkkk Muito boa! Viva os professores de Manaus e a sua luta!
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