CRÔNICAS

CRIVELLA, O PIMBINHA, A FREIRA E A FERA

Em: 08 de Outubro de 2017 Visualizações: 4114
CRIVELLA, O PIMBINHA, A FREIRA E A FERA

Já te contei, leitor (a), que meu irmão é artista plástico? Não? Então conto agora. O Tuta tinha nove anos, em 1958, quando participou do concurso infantil “Desenhe seu bairro” promovido pelo Colégio Aparecida, em Manaus. As melhores obras seriam expostas no salão do Clube do Luso e receberiam prêmios do então candidato a governador, Gilberto Mestrinho, que morava na rua Alexandre Amorim, quase ao lado da escola. Tuta foi desclassificado por escandalizar a diretora, irmã Anunciata, que chamou dona Elisa na sala da diretoria:

- Olhe só a obra do seu filho!

Mamãe olhou. Era uma “obra” mesmo, que refletia o talento do rebento. Lá figurava, pintada com lápis de cor, uma moça de pescoço alongado à la Modigliani, sentada num penico transparente, obrando, com o bundão exposto, observada pela imagem de um menino seminu. Tal qual a carta de Pero Vaz de Caminha, tudo muito natural. Os personagens foram logo identificados. Não havia dúvidas: a pescoçuda era nossa vizinha Vera, mais conhecida como “Fera”, espreitada por seu sobrinho, Heraldo Pimbinha, reconhecido pelo tamanho diminuto da dita cuja que deu origem ao apelido.

- Tuta, tu já me viste defecando para me fotografar assim – reclamou a Fera ferida, que confundia desenho com foto. Não entendeu que se tratava de uma forma de abordar cenas do cotidiano. Se fosse hoje, Tuta responderia:

- Ceci n´est pas une “pimbe” (une petite bite). Mas na época, meu prendado irmão apenas balbuciou candidamente:

- É somente um desenho.

E era. Inocente. Ele havia se inspirado no óleo sobre tela – A Primeira Missa no Brasil - de Victor Meirelles, com índios seminus, reproduzida no livro didático “Infância Brasileira” do Ariosto Espinheira. Mas a freira projetou ali pornografia, indecência, pecado. Vetou a obra por seu conteúdo impróprio.

- A arte não pode estimular a perversão” – disse irmã Anunciata, conhecida como “Roxinha”. Sugeriu que Tuta usasse seu inegável dom para retratar celebridades, por exemplo, o ilustre vizinho candidato a governador. Nesse caso, a freira pintou como eu pinto um futuro glorioso para meu mano, com galeria em Miami, vendendo sua arte para a Disney, a Pepsi, a General Motors. Um dia seria o Thutta ou o Tutta, qual Romero Britto que nem nascido era, mas já circulava por lá, carregando dois "t".

Obra Aberta

Eis o que eu queria dizer: o Brasil inteiro cabe no tempo mítico do bairro de Aparecida, que já vivenciou tudo aquilo que acontece e ainda vai acontecer no planeta. Assim é que, sessenta anos depois, Marcelo Crivella (PRB, vixe vixe), com a máscara de irmã Anunciata, reedita as palavras dela em entrevista na qual vetou a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, com 270 obras de 90 artistas, por considerar seu “conteúdo impróprio”. O prefeito, que reencarnou a freira, ainda debochou:

- Aqui no Rio a gente não quer essa exposição. Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar, porque no Museu de Arte do Rio nããão!  Zoofilia, pedofilia, ninguém quer saber disso”.

“A gente” que ele diz é sua corriola. “Ninguém” somos nós.  O bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, em censura prévia, determina o que “ninguém” pode ver, para dessa forma “banir o pecado” potencial da heroica cidade de São Sebastião que ele desgoverna. O pecado, porém, não reside nas 270 obras, se aceitamos o modelo teórico para entender a arte contemporânea criado por Umberto Eco em sua Obra Aberta.  Onde mora então o pecado?

Toda obra de arte, por definição, é aberta, permite diferentes interpretações – escreve Eco, que chama a atenção para a pluralidade de sentidos. Qualquer criação artística que implica linguagem – texto literário, música, obra pictórica, escultura – é um enunciado, cujos sentidos vão se “materializando” na leitura, isto é, nas múltiplas interpretações que lhe atribuem significados. O leitor é um coenunciador responsável por criar sentidos a partir delas, com seus próprios valores que, ao contrário da igreja de Crivella, não são “universais”. Portanto, não há leitura única que monopolize a significação.  

Mente suja

Livros e autores foram queimados em períodos obscurantistas da História, na Santa Inquisição ou mais recentemente durante o nazi-fascismo. Quem detinha o poder fazia uma leitura única, doentia, que negava a possibilidade de múltiplas interpretações por considerá-las contrárias aos dogmas religiosos e políticos. Mas se Umberto Eco tem razão – e ele tem - considerar uma criação artística como pecaminosa revela muito mais sobre quem a interpreta do que sobre a obra em questão. O pecado, então, mora ao lado, está na mente pervertida de quem faz tal leitura.

Nesse caso, a obra aberta encontra a mente fechada. Como admitir que 90 artistas brasileiros, dos mais expressivos, defendem a pedofilia e a zoofilia, apenas porque discutem a diversidade sexual? Como o prefeito de uma metrópole toma decisão, em pleno século XXI, baseado em uma bobagem dessas? Crivella não é crítico de arte e sequer viu a exposição, que aliás só deve ser visitada pelos que pretendem massagear a inteligência e procuram a fruição e o gozo – epa! – estético. Não é o caso do prefeito.

Dezenas de diretores de museus e de gestores de centros culturais assinaram carta aberta contra a tentativa de “proibir as legítimas atividades artísticas que se desenvolvem no Brasil, construídas responsavelmente pelas instituições culturais”. Consideram falsas as delirantes “alegações de incitação à pedofilia e de apologia ao sexo”, já descartadas pelo promotor da Infância, de Porto Alegre, de onde a exposição foi escorraçada por covardia do banco Santander, o patrocinador. 

O Conselho do Museu de Arte do Rio (CONMAR) também rejeitou a censura e se pronunciou favorável à realização da mostra e da liberdade de expressão. Mas quem decide, em última instância, é o bispo-prefeito de mente poluída.

- Cada um deve ter a liberdade de escolher se quer ou não ver as obras – declarou a atriz Fernanda Montenegro. Quem quer ver, veja. Quem não quer, não veja. O que não pode – completou o jurista Gutavo Binenbojm – é permitir que uma confissão religiosa colonize as decisões dos governantes, quando a Constituição garante a separação entre a igreja e o estado.

O cerco parece estar se fechando contra a liberdade de expressão. Zé Celso, que está remontando “O Rei da Vela”, garante que “jogada às traças, a população reflete, deseja, quer mandar tudo às picas. Mas uma esquerda presa ao passado não saberá articular a revolta”. Será?  De qualquer forma, o Rio está sendo tratado como o quintal de Crivella que se arvora em defensor da honra do Pimbinha e da Fera que não está sendo atacada. Devemos protestar enquanto ainda podemos. Até quando? 

FOTO MONTAGEM - José Amaro Jr. UGAGOGO.

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21 Comentário(s)

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Marcelo Perdigao comentou:
22/10/2017
A arte cumpriu seu objetivo que é nos fazer tomar posição. A arte assim como a religião, a literatura, a filosofia, a ciência é mais um caminho para entendermos a realidade, o cotidiano. Abaixo à censura. Parabéns.
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Alex comentou:
09/10/2017
Todos que descordavam de Hitler eram seus inimigos, não concordo com nada o que vc escreveu mas respeito sua opinião e ao tomar ciência dela sim me faz refletir e pensar sobre o assunto, e pensar tendo base um pensamento antagonico ao meu me faz melhorar!
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Susana Grillo comentou:
08/10/2017
Que desgoverno!!! Viva a Arte !!! Viva Umberto Eco!! Viva José Bessa !!!
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Vera Nilce Cordeiro Correa (via FB) comentou:
07/10/2017
José Bessa, está muito bom o texto. O que está acontecendo no país é de um obscurantismo que não tem como não se indignar. Pra mim imoral foi a bispa da igreja do Crivella, aquela que foi presa com dinheiro acima do permitido em viagem, ter se apresentado no TEatro Municipal, sabe se lá se pagando ou não pagando
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Clovis Brighenti comentou:
07/10/2017
Brilhante amigo Bessa. Mais do que nunca precisamos de mentes brilhante para evitar que toda sociedade brasileira seja engolida ou queimada pelo obscurantismo.
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José Seráfico comentou:
07/10/2017
Caro amigo Babá, o episódio apenas revela quanto estamos próximos do Estado policial denunciado por alguns. Também nos diz que a escalada do nazi-fascismo extravasou de alguns países da Europa e ronda nosso continente. Trump não nos deixa iludir, nem Crivela esconde a que veio. O que se pode esperar, quando a sociedade é vista como pequena parte do universo chamado mercado? Se Fausto vendeu a alma ao diabo, por que os diabos com os quais somos obrigados a conviver não podem vender-se aos "pastores" de hienas? (Que as hienas me perdoem!).
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Paulo Figueiredo comentou:
07/10/2017
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Preta comentou:
07/10/2017
É......... O orkut proibiu a foto do Silvinho ao lado da estátua de David de Michelangelo dizendo que era por pornografia. E aí? .
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Preta comentou:
08/10/2017
Na verdade não foi o Okurt e sim o Facebook que proibiu
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Alessandra Marques comentou:
07/10/2017
Rio tá virando a capital cultural gospel (e tome sarau gospel da bispa Sônia no Teatro Municipal!). O carioca terá que vir para Niterói (hahahahahahahaha) para manter alguma vida cultural que valha a pena. Nunca pensei que a cidade careta se tornaria avant-garde, ou melhor, como é provinciana é prafrentex.
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fernando limberger comentou:
07/10/2017
grande texto! ótima reflexão!
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Danielle Bastos comentou:
07/10/2017
hahhahahhahahhaha morri. Amei !!
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Isa Silveira comentou:
07/10/2017
Kkkkkkk só com a foto ja gargalhei
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João Bosco Seabra da Silva comentou:
07/10/2017
Veja Elpaís/Cássio Oliveira : P. Na sua opinião, o que houve foi censura ou boicote como alegam os movimentos contrários à exposição? R. O resultado de toda essa polêmica e da decisão final foi censura. Não foi simplesmente um boicote. Ainda que a censura não tenha sido assumida como objetivo pelos que disseram que a mostra não deveria existir, isso já está implícito no simples fato de haver um salto entre afirmar que as obras são ruins ou que são criminosas e a ideia que você não deve exibir isso. O argumento possível é: essas obras são criminosas então não devem ser exibidas. No momento que esse argumento é desconstruído, porque é falacioso, a única coisa que resta é: essas obras me desagradam porque são provocativas, porque elas ferem valores meus, logo não deve ser exibida. Esse raciocínio, para mim, é um pensamento de censor. E ele só foi praticado porque nós temos um contexto de pouco apreço à liberdade de expressão. Particularmente não acho que o artista tenha a obrigação de falar com o grande público. Acho que ele pode esperar que o grande público procure decifrar as sutilezas da obra sem que ele tenha que render às formas expressivas muito comuns. Não acho que seja uma obrigação do artista fazer concessão ao público para que a obra seja mais acessível. Acho, no entanto, que movimentos organizados a partir do liberalismo deveriam ter a obrigação de atender à liberdade de expressão.
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Jose Ribamar Mitoso comentou:
07/10/2017
O SHOPPING DO DEUS MERCADO E A ALMA DO NEGÓCIO _ Além do fundamentalismo religioso , há um outro fundamentalismo gêmeo igualmente obscurantista, excludente , intolerante, truculento e primário. É o fundamentalismo de mercado da indústria cultural. E não se trata apenas da mais-valia sobre o objeto artístico, com 50% do lucro para a empresa industrializadora da obra de arte, 40% para a distribuidora /comercializadora e 10% para o artista/criador. É muito pior_ esta indústria quer impor seu mau-gosto estético padronizado e alienante e ainda legitimá-lo academicamente. É o caso da indústria editorial. Os livros dos catálogos destas editoras, sabe-se lá por qual mecanismo, são utilizados nas universidades como a "verdade estética única" e com isto legitimados academicamente para agregar valor ao produto na sua comercialização. Qualquer outra expressão que não o "passadismo romântico pós-moderno" ou a "venda da salvação" pela auto-ajuda não apenas é excluída do debate estético acadêmico e da mídia , mas reprimida e insultada. Toda ficção realista, que trata do presente e do agora, seja na versão crítica, ou fantástica, ou mágica, está excluída do mercado editorial monopolista e das academias desletradas. Minha obra teatral e literária desglobalizadora, anti-globalização e pós-globalização, mesmo com vários prêmios nacionais e internacionais, foi varrida dos currículos acadêmicos e censurada na mídia com uma perversidade tal que até na UFAM , onde leciono, é proibida. E , neste ciclo de sadismo inquisitorial, que no fundo é parte de uma disputa por reserva de mercado, a regra do jogo é a carnificina vale-tudo dos Fight da UFC. Desculpe o "alongamento da conversa", mas minha experiência como presidente do Sindicato dos Escritores me forneceu um ângulo de análise que preciso revelar! Abração!
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João Bosco Seabra da Silva comentou:
07/10/2017
Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela. George Bernard Shaw
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Tarcisio Lage comentou:
07/10/2017
Nem no tempo do Pio XII, quando minha bunda estava sempre vermelha de chineladas, vi tanta putaria. Epa, pera aí, desculpem-me as as putas e os putos que ganham a vida com o corpo que é deles e de mais ninguém, essa putaria aí é no sentindo figurado onde qualquer censor ocupa lugar de destaque. Nesse sentido, a putaria está solta com esses evangélicos nos fazendo ter saudade até da igreja católica dos tempos da concordata. Credo! O Crivela não devia estar retratado com cara de freira, mas de puta do bordel do desrespeito ao indivíduo. Se eu fosse religioso até diria deus me livre e guarde!
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Maria Das Graças De Carvalho Barreto comentou:
07/10/2017
A Universidade do Estado do Amazonas - UEA está abrindo a Semana de Letras que tem como tem A linguagem, arte autoritarismo. O texto de Bessa cabe bem na semana. Leia e divulgue
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Juarez Silva (Manaus) comentou:
07/10/2017
Amo a "Aparecidologia" ????. Muito bom.
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Ana Silva comentou:
07/10/2017
Bingo, professor! Até quando teremos direito de protestar? É isso aí. Temos que protestar contra esses gestores e representantes da sociedade que usam do poder para aprovar leis contra a diversidade, em favor de suas ideias, crenças. Temos que ficar atentos e não apoiarmos o ódio, a discriminação, o preconceito. Voltamos ao colonialismo? Será que saímos dele? Tolir a diversidade,a diferença não é o caminho. Vamos protestar, especialmente nas urnas (se ainda tivermos essa chance), contra governos, candidatos, partidos que estão aprovando leis contra os povos indígenas, contra liberdade de pensamento, de expressão, de credos, jeitos de ser e viver. Não sou muito especialista, mas o mandamento fundamental não é "Amai ao teu próximo como a ti mesmo"? Quem é que ama? Afinal, em quem essas pessoas acreditam? Crivella, íwo ti se tan! Na língua yorubá. Deves entender. Afinal, ficastes alguns anos na África como missionário, não é mesmo?
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Sandra Albernaz de Medeiros comentou:
07/10/2017
José Bessa atualmente você é um dos poucos que me tiram risada!!!
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