CRÔNICAS

DONA MERCEDES

Em: 25 de Fevereiro de 2001 Visualizações: 7382
DONA MERCEDES
Podia chamar-se Raimunda Silva, Juracilda Soares, Tibúrcia Pereira - e daí? Na pia batismal, no entanto, recebeu um nome nobre, de condessa espanhola: Mercedes Ribeiro Ponce de Leão. Esse foi, também, o nome escolhido por um grupo de professores para denominar o laboratório de matemática do Instituto de Educação do Amazonas (IEA), recentemente inaugurado. O critério da escolha foi, não a linhagem genealógica, mas a qualidade da pessoa - uma professora, já aposentada, que durante mais de 50 anos formou gerações e gerações de professores, ensinando-os a amar a matemática e a sair pelo mundo pregando sua beleza.
 
- "Ainda bem! Ainda bem que ela se chama Mercedes Ribeiro Ponce de Leão" - exulta um ou outro leitor desavisado. "Imagina! Nenhum aluno poderia aprender como elevar uma fração a uma potência, dentro de um espaço pedagógico denominado, por exemplo, Laboratório de Matemática Tibúrcia Silva, porque esse nome é demasiado plebeu para atividade tão nobre".

Preconceito bobo! Dona Mercedes, a homenageada, é nome de laboratório, justamente porque provou o contrário. Com seu jeito de ensinar, demonstrou por a + b, que qualquer pessoa sadia é capaz de aprender matemática em qualquer lugar, independente do bairro onde mora, da profissão do pai, da classe social ou da renda familiar.


Um jeito de ensinar

Durante décadas, diariamente, ela seguiu o mesmo ritual. Podemos acompanhá-la num dia qualquer dos anos 60. Nesse momento, está saindo de sua casa, na rua Luís Antony, ali naquela calçada alta, detrás do Colégio Dom Bosco e caminha em direção ao Instituto de Educação. Ela é aquela ali, miudinha, de sandálias, vestindo, com elegância discreta, uma saia justa de linho abaixo do joelho e blusa de lingerie, de mangas bordadas.
 
- Bonita, graciosa, bem desenhadinha - comenta sua ex-aluna, Stella Freire Alencar, orgulhosa porque - justifica - "todo mundo gosta de ter professora bonita, em todos os aspectos, inclusive o físico".

Agora, dona Mercedes está entrando na sala de aula e aí sua beleza física e sua elegância se prolongam no jeito de ensinar. Em primeiro lugar, ela é muito exigente. Não dá refresco, não passa a mão na cabeça de ninguém, não alisa. Os cadernos grossos dos alunos estão repletos de exercícios, todos eles corrigidos cuidadosamente. Ela cobra de cada um ordem, asseio, elegância, disciplina, hábitos de estudo, atitudes, postura.

O seu grau de exigência vem aliado a uma extrema delicadeza, demonstrando respeito a todo e qualquer aluno. São centenas e centenas em cada semestre, mas sua memória treinada permite-lhe que chame cada um pelo nome e sobrenome. Nenhum aluno, para ela, é um número abstrato. Todos têm identidade. Ela é incansável no acompanhamento individual. Não tem, nunca teve, qualquer problema disciplinar. Possui total domínio de classe.

- Dona Mercedes, hoje não vou pra aula porque estou com catapora.
- Suas colegas já tiveram catapora, Maria Helena Freire de Souza?
- Já!
- Então, não há perigo de contágio. Se conseguir ficar em pé, venha, porque eu vou dar prova.

 
Os professores, em geral, ou são "oba-oba", populistas que vivem puxando o saco dos alunos ou são "carrascos", malvados e tiranos. Dona Mercedes não é uma coisa nem outra. Ela é firme, decidida, mas é delicada, incapaz de uma grosseria. Nunca tripudiou sobre a ignorância de ninguém.
 
- A palavra mais apropriada para defini-la é equilíbrio. Ela é um modelo para mim, é o tipo de professora que eu queria ser - comenta sua ex-aluna Regina Coeli, num texto que foi lido na inauguração do Laboratório de Matemática Mercedes Ribeiro Ponce de Leão.

Aliás, Dona Mercedes não sabe, mas ela vai sempre para a berlinda, quando seus ex-alunos - vários deles já aposentados - se reúnem na hora da saudade. Suas orelhas devem ficar ardendo, porque o papo rola daqui prali e vai acabar nela, tema recorrente das nossas conversas. Lembrada com muito carinho, sua influência tem uma abrangência que ela sequer pode imaginar, dentro de sua modéstia e simplicidade.
 
- O seu exemplo foi muito forte e se espalhou em progressão geométrica, pois muitos de seus alunos foram agentes multiplicadores de seus ensinamentos - evoca, emocionada, Regina Nakamura.
 
Matemática: um trauma

Outro dia, numa festa animada de aniversário, conversando, descobrimos porque dona Mercedes nos marcou tanto. Acontece que quase todo mundo tem trauma com a matemática e com as suas filhas: a álgebra e a geometria. Basta falar em equações algébricas para a cabeça de muita gente começar a expelir fumacinha, preta, de óleo diesel, anunciando uma explosão. Tem caboquinho cujas pernas tremem quando ouve falar em catetos, hipotenusas, senos e co-senos. A simples menção da palavra "logaritmo" já produziu mais desmaios que a própria fome, o que pode ser comprovado estatísticamente.

Francamente, leitor (a), entendo essas pessoas, porque eu mesmo sou uma delas. Ainda hoje, posso encarar de frente um monômio, se ele vier assim, sozinho e desarmado, mas - pelo amor de Deus - quando eles atacam em bando como binômios, trinômios e polinômios, considero uma covardia; afinal, sou apenas um e eles, muitos. Potenciação de uma fração, então, nem falar, é como um soco do Popó no cérebro: nocauteia. Minhas notas de matemática, no ginásio, foram sofríveis. Por isso, para fazer o exame de admissão ao curso pedagógico, tive de buscar reforço. Dona Mercedes dava aula particular, no nosso caso, inteiramente grátis, levando para o recesso do seu lar o ensino público, gratuito e de qualidade. Segui a trilha das minhas irmãs: procurei, chorando, a casa da calçada alta, pedindo socorro. Ela me recebeu:

- Você vai aprender, porque você PODE.

Aí, aconteceu o milagre. Foi um deslumbramento. A matemática, que no ginásio parecia um bicho de sete cabeças, começou a ficar inteligível com dona Mercedes, no curso pedagógico do IEA. Seu método de ensino explorava dois aspectos que lhe garantia o sucesso: de um lado, tinha aquela coisa do desafio de vencer as próprias dificuldades, a competição sadia, a disputa, a incitação à luta, a perspectiva de vencer o que era difícil. De outro lado, ela explorava o caráter lúdico: solucionar uma equação era como matar uma charada ou resolver palavras cruzadas. Era uma brincadeira gostosa, um jogo divertido.


A matemática de dona Mercedes não se limita ao decoreba de tabuadas e fórmulas. É uma ciência e uma arte. Com ela, aprendemos a pensar matematicamente, isto é, a pensar logicamente, fazer deduções, além de elaborar hipóteses, avaliar variáveis. Ela nos forneceu ferramentas para buscar a coerência do raciocínio, apreciar a beleza de uma argumentação muito bem estruturada, enfim, para organizar o pensamento de forma sistemática e articulada. Na medida em que a matemática é também uma linguagem, ela nos ensinou a escrever.

Sua matemática, com raízes na vida diária, despertou nossa curiosidade intelectual, sem a qual ninguém estuda, pesquisa ou age. Desta forma, mesmo por via indireta, ela acabou nos mostrando, ainda, as formas diferentes de ver e interpretar o mundo. Li, em algum lugar, que o autor da teoria dos conjuntos, no final do século XIX - um matemático chamado Cantor - dizia que "a essência da matemática é a liberdade". Se assim for, então, com a professora da calçada alta aprendemos a pensar livremente, sem medo.

Li também em algum outro lugar que o pesquisador britânico Paul Dirac, prêmio Nobel de Física, depois de prever a existência do pósitron - seja lá o que isso signifique - concluiu que "se Deus existe, ele é um grande matemático". É que como sabe a nossa vizinha Leonor, lá no bairro de Aparecida, no seu quiosque de verdura, ninguém pode criar nem um um picolé, nem um dindim, sem a matemática.
 
Dona Mercedes continua dando aula particular até hoje, na mesma casa da calçada alta, depois de haver lecionado mais de 50 anos, primeiro como professora primária, no ensino básico e depois, no curso pedagógico do Instituto de Educação do Amazonas. Com essa crônica, sei que estou cometendo uma violência, porque ela não gosta da ribalta, do palco, do foco de luz centrado sobre sua pessoa. Mas não tinha outra alternativa.

Nesses últimos trinta anos, me senti o próprio leproso do Evangelho. Você se lembra? Um dia, Jesus entrou numa aldeia lá nos confins da Galiléia. Encontrou lá dez leprosos, que choraram: "Mestre, cura-nos". Jesus mandou que fossem buscar o sacerdote. No caminho, eles ficaram curados. Mas só um deles voltou para agradecer. "Onde é que estão os outros nove", perguntou Jesus. Pois é, dona Mercedes, voltei, com procuração dos outros nove, para lhe agradecer, publicamente, pelo milagre.
 
P.S (20/05/2017) - Passei por Manaus em fevereiro de 2001, convidado para um evento no Colégio Dom Bosco. Aproveitei um dos intervalos, dei uma fugidinha e subi os degraus da calçada alta. Fui visitar minha amada mestra, já com a marca dos anos. Não me reconheceu de imediato, mas quando me apresentei, ela recordou aquele dia longínguo em que eu a busquei pedindo socorro. Lembrou nominalmente de cada irmã minha e pediu notícias delas. Carinhosa, solícita, linda, me convidou um cafezinho. Hoje, dia 20 de maio de 2017, sou informado do seu falecimento. Que descanse em paz. Fica viva em nossa memória e em nosso coração, ela que marcou várias gerações e nos ensinou, além da matemática, como um professor deve se relacionar com seus alunos, como uma pessoa deve tratar outra pessoa. O resto é silêncio.
 
 

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18 Comentário(s)

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Márcio Luiz Araújo Ponce de Leão comentou:
21/05/2017
Gratidão é o meu sentimento com sobrinho, aluno e como um filho também, pois em família era assim que minha tia considera seus sobrinhos. Além de todos os ensinamentos científicos da matemática e educadora com era na postura e condução das relações pessoais, tia Mercedes era uma Matriarca da família, lembrava e ligava para parabenizar todos da família do dia do aniversário de cada. Hoje a despedida final, ficará na lembrança e no nosso coração. Obrigado tia Mercedes e descanse em paz na morada do Senhor. AMÉM.
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Marion Araujo Araujo comentou:
21/05/2017
Pessoa fina educada e dedicada na sua profissão..já está no braços do pai
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Antonio Diniz De Carvalho comentou:
21/05/2017
Meus sentimentos aos familiares, sempre que podia ia visitá-la, conversávamos sobre essa educação falida de hoje.
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Graciemiliadossantosbarbosa Barbosa comentou:
21/05/2017
Bessa, nós, com muito orgulho, fazemos parte dessa penca de alunos saudosos da GRANDE PROFESSORA MERCEDES. Voltei no tempo e me senti, no IEA, assistindo à aula dessa maravilhosa professora de Matemática. Fui muito privilegiada, ela também era minha professora particular lá na calçada alta. SAUDADES, MESTRA!
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Rejane Ponce de Leão Vasconcelos (via FB) comentou:
21/05/2017
Sinto Muito Orgulho de ter tido uma tia como ela e ver q minha mãe, eu e meu filho tivemos a oportunidade de receber os ensinamentos da matéria tão complicada q ela vinha e tirava agente do sufoco...fora os valores que ela nos ensinava educando com seu carinho e amor .Obrigada tia,obrigada a todos pelo reconhecimento e carinho que todos deram e ela e a nossa familia.
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Milton Grana comentou:
21/05/2017
Uma pessoa maravilhosa! Um ser humano sem comparação. Me orgulho de ter sido seu aluno.
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João Ponce De Leão Júnior comentou:
21/05/2017
Obrigado José Bessa, tia Mercedes em algumas oportunidades lhe citava pelos artigos e tinha orgulho de ter sido sua professora, nós lhe agradecemos a homenagem.
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Graça Pinheiro comentou:
21/05/2017
a família toda passou na calçada alta da luis Anthony. D. Mercedes foi nossa mestre em aulas de matemática para \"desenburrar\" como se dizia naqueles tempos.
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Luís Balkar Pinheiro comentou:
21/05/2017
Também fui aluno dela. Deixa saudades
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Carla Rodrigues comentou:
21/05/2017
Profa. Mercedes nunca irei esquecer essa educadora que me ensinou com muita disciplina Matemática à época cursava o ensino médio. Deixo aqui meus sinceros sentimentos de pesar para toda família e amigos!!!
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Harald Pinheiro comentou:
20/05/2017
Fui seu aluno na Luis Antony, onde dava aulas particulares tb....deixa saudades!
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Jair Jacqmont comentou:
20/05/2017
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Socorro Lages comentou:
20/05/2017
Perda triste ela foi minha professora
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ALBERTO EDUARDO DE MIRANDA COSTA comentou:
04/04/2013
Estou emocionado em ler esta crônica e relembrar da minha querida Professora Mercedes Ponce de Leão. Embora esteja a vários quilômetros de distância, no Recife, jamais esquecerei dos valiosos ensinamentos recebidos pela querida Professora Mercedes, que me permitiram aprender Matemática e somente tirar notas boas no Colégio Brasileiro, entre os anos de 1966 e 1969. Que JESUS CRISTO e NOSSA SENHORA protejam muito a Professora Mercedes, com votos de saúde, paz, harmonia, felicidades e prosperidade. Agradeço, com muita gratidão, por ter aprendido Matemática com ela, de uma forma simplificada e ter absorvido uma didática jamais vista em qualquer professor. José Ribamar Bessa, parabéns pela bela crônica, mais do que merecida à Professora Mercedes.
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Lucineia Monteiro Marinho comentou:
11/01/2013
Sua cronica me emocionou demais.Subitamente,fui transportada para os anos 60 no pedagogico,descobrindo o tempo que havia perdido por nao ter conhecido dona Mercedes muito antes!Quando tive filhos na idade escolar, durante a qual a Matematica quer nos assustar,pois nem todos os professores tem a habilidade da Mestra na transmissao dessa materia,nao deixei que eles conhecessem dificuldades,apresentei-os a dona Mercedes que como uma mestra generosa,lhes dirimiu as duvidas e receios.Daniel,meu filho,foi um dos seus alunos mais queridos e que deve a ela ter reconhecido muito cedo que seu caminho seria a Engenharia.Quando colou grau,eu o acompanhei ate a casa da Luis Antony,onde ele foi levar-lhe um convite ao qual ela agradeceu com os olhos marejados que no! comoveu muito.Muito obrigada,dona Mercedes!Professoras como a senhora e Miss Isabel me dao orgulho de ter sido aluna numa epoca em que os professores eram pessoas do mais alto gabarito!
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Rodrigo comentou:
15/09/2011
Assim como D. Mercedes, rendo homenagens para a minha querida e não menos maravilhosa Professora de matamática que também dava aulas particulares em sua casa, na Xavier de Mendonça, no bairro de Aparecida: Suzeny Carmem Simões . Filha da admirável senhora Dona Maria Amália Simões, que também lá morava, e irmã de Marcus Vinicius, Suely Simões, do brilhante advogado trabalhista Paulo Ney Simões e do Ricardo Vandini, mãe do Adolfo e do João, meus amigos. Graças a sua paciência, dedicação e amor à
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Marcelo Brito comentou:
13/06/2012
Realmente, graças as aulas que frequentei da querida professora de matemática Suzeni, consegui por fim ao mosntro que era essa matéria para mim. Sua paciência e se método muito me ajudou. Homenagem para minha inesquecível professora Suzeni.
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Hellen Porto Pinheiro comentou:
28/04/2011
Realmente a professora Mercedes ou melhor, a "Tia Mercedes" nunca saiu de cena... Estudei com ela a tão temida matemática e faço parte do rol de fãs. Hellen
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