CRÔNICAS

O QUE SIGNIFICA FRANKLIMBERG EM TUPI?

Em: 14 de Maio de 2017 Visualizações: 4359
O QUE SIGNIFICA FRANKLIMBERG EM TUPI?

“Os olhos levantai, vede essas Feras, (Pois serem racionais, só a forma indica)”.

Henrique João Wilkens, A Muhraida, 1785

O general Franklimberg Ribeiro de Freitas é o novo presidente da Funai, nomeado por portaria assinada nesta terça (09) pelo ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, conhecido nas planilhas de propinas da Odebrecht pelo codinome “Fodão” ou "Bicuira". Todo mundo sabe que no nome de uma pessoa está traçado o seu destino. Ou no codinome, que às vezes corrige o nome. Para os guarani, as crianças já nascem predestinadas com um nome definido pelo lugar de onde procede sua alma. É preciso, pois, recorrer à Antroponímia, à Onomástica e a Codinomística, que nos permitem fazer leitura cuidadosa do nome para identificar suas qualidades individuais e prever como será a vida do seu portador.

Quando o general Ismarth Oliveira assumiu a presidência da Funai, em 1974, em plena ditadura, um codinomista gaiato fez blague, prevenindo os índios que nas línguas tupi “is-” era sai e “-marth”, debaixo. O gracejo matou o que viu, atirando no que não viu. Não deu outra. Impiedoso com os povos para cuja defesa recebia um gordo salário, Ismarth foi chamado de genocida por Davi Kopenawa, que o responsabilizou pelas mortes de muitos Yanomami: “Eu tinha 8, 9 anos, na época. Sou contra um general na Funai”.

Portanto, para conhecer o destino dos índios sob a presidência de outro general na Funai, cabe perguntar o que Franklimberg significa em algumas línguas da família Tupi-Guarani. A resposta nos permitirá saber de onde procede sua alma e prever sua trajetória à frente do órgão. Defenderá os direitos constitucionais dos índios como manda a lei e, dessa forma, teremos um novo marechal Rondon cujo lema era “morrer, se for preciso, matar nunca”? Ou será um mero capacho do agronegócio e do grande capital, cujo lema é “matar mesmo se não for preciso”?

Sem fé e sem lei

O Departamento de Pesquisa do Taquiprati saiu em campo para iluminar os leitores. Queimamos a mufa na busca da resposta. Recorremos a dicionários e gramáticas das línguas tupis, consultamos aryons, ruths, franchettos, candinhas e carlotas. Acontece que o nome do general é cheio de “efes” e “erres” e, de acordo com o cronista português Pero de Magalhães de Gândavo, em 1574, a língua geral, falada no litoral brasileiro, “carece de três letras, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto porque assi não tem Fé, nem Lei, nem Rei”. Em compensação, não tem também franklimberg.

Objetar-se-á que o cronista lusitano, preconceituoso e glotocêntrico, considerava que os sons de sua língua são universais e deviam existir em todas as demais, além de confundir sons com letras ao transformar um dado fonético em alfabético. De qualquer forma, não será nas línguas tupis que encontraremos o caminho para destrinchar o significado de Franklimberg. Quem acabou nos dando a chave para continuar a pesquisa foi o ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB-PR vixe vixe), o “despachante do agronegócio no Planalto”, segundo Antonio Costa, presidente por ele demitido da Funai.

Serraglio, o despachante, que dias antes havia publicamente desqualificado os índios Gamela do Maranhão como “supostos indígenas”, buscou dar legitimidade ao general Franklimberg, indicado pelo mesmo PSC (tri-vixe) jurando que se tratava de alguém pertencente à etnia Mura. Foi ai que ficamos sabendo, através da matéria da Amazônia Real assinada por Elaize Farias, com a colaboração de Katia Brasil, que o general, nascido em Manaus em 1956, havia dito que era “descendente de índio, sem especificar a etnia e que sua família era de Codajás, no Amazonas”.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), em nota, repudiou a nomeação do general Franklimberg, não o reconhecendo como índio, apesar de que não é isso que importa e sim a serviço de quem ele está.  A nota acusa o governo Temer de “promover a militarização da Funai como nos tempos da ditadura militar, a fragilização total do órgão e a perspectiva de mudança nos procedimentos de demarcação de terras indígenas”.

Nena Mura

No entanto, um grupo de indígenas vinculados à bancada evangélica, que se reunia periodicamente com o PSC (vixe vixe) e com seu presidente, o pastor Everaldo Nascimento, jura que o general é índio mesmo. Até a querida Silvia Nobre Waiãpi, a quem respeito e que é oficial do Exército, assina embaixo. Desta forma talvez estejam interpretando por vias tortas o nosso grande frasista e antropólogo Viveiros de Castro: “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”. Ou seja, o general é, como todo mundo, se e quando o poder achar conveniente que seja, caso contrário, cai na rede do "exceto quem não é". Mas nas redes sociais já divulgaram, inclusive, que o nome indígena de Franklimberg é Nena Mura.  

Êpa! Nena Mura? É por isso que não conseguíamos decifrar o nome do general. Estávamos procurando por Franklimberg em línguas tupi, quando devíamos buscar Nena no idioma Mura, uma língua isolada, sem parentesco com outras, descrita pelos especialistas como “uma língua tonal, na qual significados são estabelecidos eminentemente a partir de relações de tons e até por meio de assovios”.

Foi o que fizemos. Redirecionamos nossas pesquisas, que desembocou em um enfoque interdisciplinar envolvendo, além da linguística, a antropologia, a história e a memória social, o que nos levou ao naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Ele viajou pela Amazônia no final do séc. XVIII e publicou a gravura de um índio Mura inalando paricá, com traços físicos europeus, mas com chapéu sem copa feito de fibra vegetal, flechas e enfeites nos lábios. A quinta parte de sua “Viagem filosófica ao Rio Negro” traz documentos sobre a “pacificação” dos Mura, em Airão, em 1787. Reli todo o capítulo e não aparece nem um Nena entre os Mura, antepassado do nosso general.  

Caminho tortuoso

Daí, consultamos o poema épico colonial “A Muhraida”, em seis cantos, escrito em Ega, Tefé, em 1785, pelo tenente-coronel lusitano Henrique João Wilkens, um hino que celebra o genocídio cometido de forma sistemática contra os Mura, qualificados como “abomináveis”, “ferozes”, "feras diabólicas" e “indomáveis”. O livro publicado em 1819 pela Imprensa Régia de Portugal e dedicado puxasacalmente ao governador do Pará João Pereira Caldas – o Fora Caldas daquela época– não traz qualquer indicação sobre a família Nena. Talvez porque o extermínio tenha sido tão eficaz que incluiu um nenacídio. Até onde sabíamos, não havia sobrado um Nena para contar a história.

As duas obras indicam que houve um deslocamento linguístico dos sobreviventes da aguerrida população Mura que migraram de sua língua étnica para a língua geral da Amazônia, hoje conhecida como Nheengatu. Podemos supor que em decorrência da situação de línguas em contato, o Nheengatu ficou impregnado de marcas da língua Mura. Além disso, há um fenômeno na história das línguas em que quando dois sons próximos são iguais, eles tendem a se diferenciar, num processo linguístico de dissimilação. Foi o que aparentemente aconteceu com Nena que se transformou em Nema.

Finalmente, só nos restava fazer a arqueologia do léxico. O nosso Departamento de Pesquisa nos indicou a necessidade de aprofundar as teorias da Onomástica e da Antroponímia que teorizaram sobre o assunto.  Consultamos o Dicionário Guarani de Montoya, do séc. XVII, que define “ñema” como “caminho tortuoso” (pg.676). Já Eduardo Navarro no seu “Método Moderno de Tupi Antigo” registra “nema” como “fedor” (pg.612). Restava saber se a coisa continua fedendo no tupi moderno. O Pequeno Dicionário da Língua Geral de Françoise Grenand e Epaminondas Ferreira, com dados atuais, confirma, dando um exemplo: “Remiaçuka neyuru tiará upita i nema”, cuja tradução é “Lava tua boca para não feder” (pg.122).  

As ações do general na Funai dirão se ele é Franklimberg ou Nena Mura. Independentemente de suas boas intenções, se elas existem, é difícil acreditar num Marechal Rondon nomeado por portaria assinada por alguém que tem codinome “Fodão”,  ou "Bicuíra" ( "caspento" em tupi antigo) pertencente a um ministério, cujos integrantes em sua grande parte, estão envolvidos na planilha de propinas, embora a grande mídia insista em desviar a nossa atenção em outra direção. 

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29 Comentário(s)

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Ciro Jose Sahairo comentou:
19/05/2017
Eu acho que o homem da funai não vai durar, conforme que teve a bomba contra do Temer, os Brasileiro esta reconhecendo, o que vem por trás. \" tem o movimento nas ruas nos estado FORA TEMER.\"
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Rodrigo Venzon comentou:
17/05/2017
O termo bicuíra é utilizado no Rio Grande do Sul, a maior parte das vezes de modo pejorativo (e agora, mais pejorativo ainda), como gentílico de quem habita os areais da planície costeira gaúcha (do idioma Guarani, yvykuí , areia ou literalmente terra moída; como avaxikuí, alimento produzido a partir de grãos de milho socados no pilão). Temos também o rio Ibicuí (que no idioma Guarani é Yvykuí Y - rio das areias. Atenciosamente, Rodrigo A Venzon
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Marcio Boggarim comentou:
16/05/2017
NHANDERÚ nos proteja para que estes nao apontem o dedo podre para nós......!!!!
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Sandra Benites comentou:
16/05/2017
ndoikoi are mo\'ãi jurua inhe\'en anhã ho\'u rã ma!
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Jim Tak comentou:
16/05/2017
O nome do general da FUNAI em Tupi deve ser \'pior não pode ficar\'. #ForaRuralistas #Resista
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Yaguarê Yamã Aripunãguá (via FB) comentou:
15/05/2017
General inimigo dos povos indígenas. Nao é indio. Nunca será indio. Foi forjado pelos ruralistas para destruir nossos povos
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Mary Gaspari Puri (via FB) comentou:
14/05/2017
Silvia sempre sambou do lado de lá.
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Arlete Schubert (via FB) comentou:
14/05/2017
Genial o texto! Expõe com sarcasmo, o que não é pra qualquer um! huahuahua...
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Noelia Miranda Araujo (via FB) comentou:
14/05/2017
Fantástico. As armadilhas estão à postos.
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arlete comentou:
14/05/2017
Ola professor Bessa!! Eu e Emil lemos em conjunto e com apreensão as tiradas geniais na cronica que escrevestes!! Continue nos brindando com sua genialidade. profética. Já que esses, do lado de lá, não são convencidos pela situação dos povos dos quais se arvoram dominar, esperamos que neste dia as suas mãe os repreendam com umas chineladas e os coloque na rua. Enquanto isso, do lado de cá, continuamos fazendo coro pelo #demarcaçãoJá!e pelo respeito aos povos indígenas do Brasil. Grande abraço...
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Maria Carlota Rosa comentou:
14/05/2017
A coluna está divertida e já agradeci a referência numa lista como aquela citada e em que companhia! Muito obrigada.Só por curiosidade, anexei o verbete do Dicionário Onomástico Etimologico da Língua Portuguesa do José Pedro Machado.Para Franclim.
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Eliésio Marubo (via FB) comentou:
14/05/2017
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Mariana Estela Cristina Santoro (via FB) comentou:
13/05/2017
amei o sarcasmo.........digno de uma inteligencia e conhecimento amplo
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Jorge Eremites de Oliveira (FB) comentou:
13/05/2017
Às vezes fico a pensar se uma pessoa dessas tem alma espiritual (ñe\'e) ou se é apenas mais um angue, cujo propósito é unicamente perturbar a vida dos vivos.
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Maria Celina Muniz Barreto comentou:
13/05/2017
Muito agradecida por leitura deliciosamente leve , bem humorada, além de instrutiva, neste momento pesado de vida.
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Marco comentou:
13/05/2017
Vamos aguardar para ver, claro, sempre com algum otimismo, mas certamente Franklimberg não é o general Couto de Magalhães, que dirá Rondon. Obrigado por compartilhar a fina, divertida e crítica erudição, Bessa. E vale mesmo uma palavra de reconhecimento a Antonio Costa, demitido da Funai: nem tudo está a venda.
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Tupã Mirin Mariano Tupã · (via FB) comentou:
13/05/2017
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João Paulo Ribeiro (via FB) comentou:
13/05/2017
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Marina Oliveira (via FB) comentou:
13/05/2017
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Márcio D\'Olne Campos comentou:
13/05/2017
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Caio Giulliano Paião (via FB) comentou:
13/05/2017
Essa nomeação nunca cheirou bem mesmo!
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Geraldo Sá Peixoto Pinheiro (via FB) comentou:
13/05/2017
Excelente! Aprendi muito! Lembrei os velhos tempos em que foste meu professor brilhante...
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Sandra De Almeida Figueira (via FB) comentou:
13/05/2017
Parabéns Bessa. Excelente. Os índios Mura foram exterminados em fins do século XVIII por defenderem suas plantações de cacau do furto dos espanhóis e portugueses. Não acredito que esse general tenha a coragem dos Mura e nem que vá defender os territórios dos outros grupos indígenas. Acho que vai feder sim e piorar a situação das demarcações das terras indígenas invadidas.
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Ana Stanislaw comentou:
13/05/2017
Impagável Bessa!! Que horror, voltamos ao tempo da ditadura!!! Vamos rezar para Tupã nos ajudar e proteger das ações truculentas dessa quadrilha. Parabéns pela aula e pela árdua pesquisa.
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Elena Guimarães (via FB) comentou:
13/05/2017
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Kátia Maria Soares (via FB) comentou:
13/05/2017
Parabéns pela pesquisa!!! Aprendi muito. Acredito no vaticínio dos nomes sim. Infelizmente o prognóstico não parece ser bom.
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Maria Das Graças De Carvalho Barreto (via FB) comentou:
13/05/2017
Essa quadrilha quer mesmo promover a extinção radical dos índios.
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Ronaldo De Maria Derzy (via FB) comentou:
13/05/2017
Na na nina Nena! Ou Nena que a vaca tussa.
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Benjamin Baniwa \"(via FB) comentou:
13/05/2017
Remiaçuka neyuru tiará upita i nema”. Kkkkk É rir para não chorar. Parabéns mestre pela excelente lição de linguística. Kuekuatureté.
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