CRÔNICAS

BRINCANDO DE FOTOGRAFAR NAS ALDEIAS GUARANI

Em: 12 de Fevereiro de 2017 Visualizações: 2858
BRINCANDO DE FOTOGRAFAR NAS ALDEIAS GUARANI

Mesmo atravessando a maior crise de sua história, dando checho nos salários de docentes e funcionários, a UERJ realizou um curso de fotografia para professores e jovens guarani do Rio, entre 28 de janeiro a 4 de fevereiro. Durante 60 horas, os guarani aprenderam a fotografar e tiraram centenas de fotos mostrando o cotidiano de suas aldeias, a família, a moradia, a paisagem, as crianças e suas brincadeiras, as mulheres e seus filhos. Essas imagens serão empregadas em materiais didáticos elaborados por professores indígenas para as escolas bilíngues.

O curso, coordenado por Ana Paula da Silva, foi ministrado pelo fotógrafo documentarista João Roberto Ripper e sua equipe - Elisângela Leite, Adriano Rodrigues e Fernanda Garcia, do Cine Ostra. Aconteceu na aldeia Itaxi, em Paraty Mirim (RJ), numa atividade do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (Proindio) da Faculdade de Educação da UERJ, no projeto Ação Saberes Indígenas na Escola (SIE/RJ) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Bem-me-quer

“Bem Querer” - assim é denominado o curso fotográfico - propõe uma reflexão sobre a fotografia documental humanista, discutindo a importância da comunicação e dos direitos humanos.  João Ripper acumulou experiência na formação de fotógrafos populares, com o exercício da fotografia compartilhada, cujos antecedentes são, entre outros, a Escola de Fotógrafos Populares na Maré. Agora levou o curso da favela para a aldeia.

Nos dois primeiros dias,  os 15 participantes guarani se apropriaram das técnicas fotográficas, conheceram os tipos de câmeras e de lentes, assistiram a exibição de alguns ensaios fotográficos de renomados fotógrafos, além de discutirem o papel da fotografia na luta pela afirmação dos direitos humanos, entre os quais se incluem os direitos indígenas.

A partir daí, passaram a atuar em equipes. Depois de reflexões teóricas, capturaram imagens relacionadas a oito temas: natureza, mulher guarani, cultura e religião, esporte e lazer moradia, crianças, direitos e flores no território Itaxi. O olhar guarani, através da câmera, documentou o amanhecer e o anoitecer na aldeia, as plantas, as flores, as montanhas, a floresta, a cachoeira, além de registrar a relação das mulheres com os filhos, o jeito de ser, o trabalho, as danças e festas, o artesanato, as diferentes brincadeiras das crianças e até problemas que enfrentam  hoje.

Os exercícios de prática e aperfeiçoamento eram realizados na parte da manhã e à tarde  e a  seleção e o tratamento das fotos à noite. Eles aprenderam a fotografar de forma lúdica, rindo e brincando, confundindo-se os adultos com as crianças. O professor Algemiro, com mais de 50 anos, que nunca havia usado uma câmera, se divertiu, quando deitou no chão para tirar fotos de crianças num ângulo sugerido por Ripper. Todo o material produzido no curso, depois de devidamente tratado, passou a integrar o acervo visual dos guarani.

Troca de olhares

A experiência na oficina com os guarani foi uma troca de saberes e de olhares. "Foi um curso muito bom que deixará saudades”, como disse o professor Algemiro da Silva, apoiado por Ivanildes P. da Silva. Entusiasmados definiram esses momentos como "troca de afetos" ou na língua materna Oma’ẽ oayu akanhymba’ia re.

Os Guarani perceberam que a fotografia, assim como as novas tecnologias e entre elas o vídeo, é uma ferramenta útil para garantia dos direitos e para a denúncia quando são pisoteados. Essa foi a síntese de Genilson da Silva, jovem guarani que mantém presença atuante nas redes sociais. Ele entendeu que através de imagens fotográficas é possível se expressar, mostrar a riqueza poética e os conhecimentos dos guarani, mas também denunciar preconceitos, discriminações e violências sofridas.

Os guarani aprenderam rapidamente que a fotografia é uma técnica, uma linguagem, que documenta, que narra histórias, registra saberes e pode ser um importante recurso na construção de metodologias de ensino-pesquisa.

O outro Brasil

- O Brasil pegando fogo e você me escreve um texto sobre um curso de fotos para índios! Quem se interessa por isso? -  pode perguntar um dos raros leitores.

É verdade. Quase ninguém está interessado, por isso essa notícia geralmente está ausente dos jornais, o que aumenta a importância de registrá-la. Já sobre o incêndio político que consome o país, tem muita gente escrevendo. Alguns excepcionalmente bons, como Wladimir Safatle na Folha de SP (10/02) com o artigo "Talvez até desse um romance"  ou Vinicius Torres Freire, no mesmo dia, com o "Acordão avança, povo bestificado". A leitura de ambos contribuem para que não sejamos tratados como babacas.

Vladimir esfrega os olhos por entender que é difícil admitir que é verdade o que nós estamos vendo no Brasil. Trata-se de um enredo que não daria sequer um bom romance policial por ser muito óbvio e muito primário.

- "Ninguém iria acreditar ser possível algo assim nos dias de hoje - ele afirma. O vice-presidente conspira e com ajuda da mídia derruba a presidente em cuja chapa foi eleito, dizendo que era para acabar com a corrupção. Assume, é citado 43 vezes nas delações, junto com vários de seus ministros, senadores e deputados. Um deles - isso foi gravado - diz que é preciso "estancar a sangria" produzida por denúncias de corrupção.

Foi aí que aconteceu um "terrível acidente", que matou o juiz do STF responsável por homologar as delações. Para sua vaga, o presidente indica o seu próprio ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, filiado ao PSDB, ex-advogado de Eduardo Cunha e do PCC, suspeito de ter plagiado tese de autor espanhol. Ele será sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, cujo presidente eleito é Edison Lobão, investigado na Operação Lava-Jato. Membros do Senado que decidirão sobre a indicação estão envolvidos até o tucupi com a corrupção. Os caras perderam toda a vergonha, se é que um dia tiveram, e agem impunemente como se fossem donos do país.

Além disso, o presidente recém-eleito da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, é denunciado na Lava-Jato. Se gritar "pega-ladrâo", não fica um meu irmão. O país está sem reserva moral. Sinceramente, é melhor deixar outros escreverem sobre a bandidagem. Prefiro registrar o que estão fazendo os Guarani, que me injetam a esperança de que é possível um novo Brasil, que está se construindo nas aldeias, nas favelas, nas comunidades quilombolas. Bendito Ripper!

P.S. - A UERJ, a UFMG  e todos os parceiros agradecem dona Maria, o cacique Miguel, a comunidade indígena Itaxi, dona Ana Rosa e dona Benvinda, seu Lourenço, Deva Guarani (cozinheira da escola) e suas filhas; Maria Guarani (zeladora), os kyringue Kuery Iara, Micaela, Nhamandu e Pira e os participantes do curso, construtores do outro Brasil, que são os autores das fotos e vão aqui nomeados: Ivanildes P. da Silva, Neusa Mendonça, Algemiro da Silva, Waldir da Silva, Ronaldo Mariano Rodrigues, Cecílio Fernandes (orientador SIE), Flávia Ara’i da Silva, Priscila,  Alexandro K. Benite,  Genilson da Silva, Cleiton Karai, Daniel Karai da Silva, Edmilson Karai da Silva, Tupã Mirim e André da Silva Caetano (fotógrafo guarani do Espírito Santo, neto da Joana) formado pelo Cine Ostra.

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23 Comentário(s)

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basicregisters comentou:
19/02/2017
Um amigo de Água Boa disse como foi importante, através do domínio do uso da câmera (no caso vídeo), domínio da edição,uso do GPS, ter o equipamento necessário na aldeia, tomar posse da sua cultura. Ele cita, como exemplo: as produtoras (nacionais ou internacionais) devem submeter o roteiro da filmagem à aprovação e são acompanhados durante todo o processo, o que não acontecia antes. Com o GPS estão mapeando as aldeias. Por que comento sobre isso? Por que acho importante dar continuidade ao processo, participar de concursos.... Por que escrevo isso? Porque nos 40 anos que atuei no educativo, vi muitos processos perderem a continuidade. (alguém tem notícias sobre um famoso gibi ser traduzido para o Guaraní? Se tiverem me atualizem, por favor, a expectativa foi grande....). Não parem!!! Façam mais: foto tirada com lata de leite, tantas coisas! Abraços Ara Poty (recebi esse nome na aldeia da barragem em são paulo).
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Daniella Fernandes comentou:
15/02/2017
Parabéns! Texto incrível e lindas fotos! Tudo de melhor ao povo Guarani! Abraços! Daniella, médica da aldeia
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Carlos Zacquini (no blog Racismo Ambiental comentou:
13/02/2017
Será que não tem mais esperança para este pais? Para os indígenas parece ser sempre mais difícil entrever alguma. Obrigado por continuar a tentar dar alguma.
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Fernanda Garcia Camargo comentou:
13/02/2017
Bessa! Pensei o mesmo que você: a UERJ não para, mesmo que o governo queira, Dificilmente nos abatem os sonhos que sonhamos firmes na caminhada. Foi um sonho levar o Ripper e lá esteve ele, a ensinar a ver o outro com amor antes de fotografar, Que história de vida terá nosso fotografado? Ensina a ouvir, a ficar ali no centro da comunidade e das famílias para extrairmos o melhor delas, quando os queremos bem, nesse momento nos deixam ver o quanto se querem, e vem a foto! Na foto, a imagem humana que transparece o gozo de ser e de viver a vida. Entendo o trabalho do Ripper como uma obra de apropriação da beleza, de si, da visão do bem. Potente ação do Direito Humano. Uma feliz parceria que acontece pela coragem da Ana Silva. Vamos que vamos. O André Kwaray era felicidade só fotografando entre os parentes, tinha de ver.
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Reynaldo Iveraldo Fulni-ô (via FB) comentou:
13/02/2017
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Fernanda Muniz (via FB) comentou:
13/02/2017
Tenho várias fotos do professor Armando comigo, que gostaria de doar para o seu laboratório.
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Toni Lotar comentou:
12/02/2017
Olá Bessa Muito legal a oficina de fotografia para as aldeias Guarani das Costa Verde. Vai ser muito útil para os guarani..Parabéns a Proíndio pela iniciativa!
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Helena comentou:
12/02/2017
Que trabalho lindo Prof. Bessa e precisa mesmo ser divulgado,. Este olhar sensível de quem vê o mundo de outro lugar, de outra cultura nos faz aprender sempre mais. Há possibilidade de uma exposição das fotos, inclusive virtual, para aqueles que não podem ver ao vivo.? |Grande abraço Helena
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Luciene Jung de Campos (via FB) comentou:
12/02/2017
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Heliete Vaitsman comentou:
12/02/2017
Emocionou! Sei que é lugar-comum, mas falo: o país é maior que eles! Acho que uma pessoa como o Ancelmo Gois poderia replicar algo desse material. Muita gente nas redações gostaria de divulgar isso (só não sei se interessaria aos maiores interessados...)
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Eunice Maria Ferreira (via FB) comentou:
12/02/2017
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Tataxinã Maraguá (via FB) comentou:
12/02/2017
Ótimo! Treinar o olhar para a vida.
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Alexandro Kuaray Mirim comentou:
11/02/2017
Foi muito muito bom! Aprendi muito com todos vcs espero darmos continuidade deste curso maravilhoso que pode nos dar uma ferramenta que podemos mostrar os olhares diferentes que os outros olham com olhar apenas de negativos, através deste curso podemos mostrar as belezas e as riquezas de cada comunidades. Um grande abraço a todos que estiveram nestes dias na nossa comunidade!
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Ivone Andrade (via FB) comentou:
11/02/2017
Parabéns pelo belo trabalho. Venham expor essa brincadeira aqui em Manaus!
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Ana Chrystina Mignot (via FB) comentou:
11/02/2017
Tão bom encontrar uma notícia de um trabalho sensível como este!!!
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Thais Silveira (via FB) comentou:
11/02/2017
Poxa, que legal. Poderia criar também, a partir das fotos, materiais didáticos para os alunos das escolas não indígenas.
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Sula F Akuku Kamaiurá (via FB) comentou:
11/02/2017
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Veronica Aldé (via FB) comentou:
11/02/2017
Enquanto os corruptos tecem suas artimanhas rumo ao fundo do poço os Guarani tecem suas artes nas manhãs de outros mundos vivos...lindos!
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Sandra De Almeida Figueira (via FB) comentou:
11/02/2017
Excelente projeto José Bessa. O olhar sobre o que lhe é semelhante que é a marca da sua identidade sendo arquivado além da própria memória humana. Parabéns pelo projeto e iniciativa. Algumas instituições que desenvolvem ações com jovens em situação de risco social também têm criado projetos semelhantes, registrando memórias em imagens e depoimentos que servem para reflexões dos próprios jovens. Parabéns Ana Paula Silva pelo projeto e toda a equipe!!!! Paraty Mirim continua linda e fiquei feliz por saber que o sábio cacique Miguel, que também é o pajé ainda está entre nós, assim como sua mulher.
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Alessandra Marques (VIA FB) comentou:
11/02/2017
Bem interessante. É importante ações como essa de se ensinar atividades, geralmente, restritas a privilegiados. Sem contar a possibilidade do próprio guarani registrar o seu olhar em relação ao mundo.
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Ligia Aquino (via FB) comentou:
11/02/2017
Bessa, que tal agora fazer uma exposiç?o com as fotos?
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Aline Rodrigues (via FB) comentou:
11/02/2017
Há um projeto bem querer aqui em Belém do Pará.! Amei a iniciativa e essa oportunidade de eles contarem suas histórias pela foto!!!
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Ana Paula da Silva comentou:
11/02/2017
Professor Bessa, sim, o curso com os Guarani foi uma experiência incrível, linda e cheia de ludicidade. Os índios adoraram e nós ficamos maravilhados com a acolhida de toda a comunidade durante essa semana na aldeia. Agradeço a todos os Guarani, ao Ripper, Fernanda do Cineostra, Elisângela e Adriano. Foi realmente uma troca de saberes, olhares e de afetos \"Oma’? oayu akanhymba’ia re\"! Ha\'evete, obrigada, querido mestre,
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