CRÔNICAS

TEMER: BANDEIRA BRANCA, AMOR

Em: 04 de Setembro de 2016 Visualizações: 4479
TEMER: BANDEIRA BRANCA, AMOR

"Catraieiro / vai buscar / vai buscar o meu amor /

que está do lado de lá". (Carimbó do Pinduca).

Antes de ir pra China, Michel Temer fez seu primeiro pronunciamento como presidente em cadeia de rádio e TV. Não deu um pio sobre o combate à corrupção, nem mencionou as razões que o levaram a cancelar o pedido de regime de urgência da presidenta Dilma Rousseff para os três projetos que tramitam na Câmara criminalizando o caixa 2 e o enriquecimento ilícito de funcionários públicos. Silenciou sobre esse câncer que corrói o país, mas pediu paz:

- "Agora é hora de unir o país e colocar os interesses nacionais acima dos interesses de grupos".

É bebé? Mas os interesses nacionais não devem prevalecer SEMPRE? Por que só agora e não antes? Quem define o que é o interesse nacional? Mistério que uns velhos de Manaus desvendaram comparando Temer a Lezarrão, o "general" da guerra das catraias dos anos 1950, o que comprova uma vez mais de que tudo que sucede no país já aconteceu no bairro de Aparecida.

Reunidos para um dedo de prosa na praça da Bandeira Branca, em frente à casa onde um dia morou o Bosco Piu-piu, os velhos recordaram como a travessia do igarapé que separa São Raimundo do bairro de Aparecida era feita, antes da construção da ponte Fábio Lucena, em 1987,  por canoas de duas proas, quase sempre cobertas por toldos, cada uma com capacidade para 15 passageiros, batizadas com sugestivos nomes de Pinta, Nina, Santa Maria e tantos outros. A frota de catraias, monopólio de Lezarrão, transportava diariamente passageiros e suas histórias: domésticas, operários do Matadouro, das serrarias, das fábricas de cerveja e de gelo.

O monopólio só foi quebrado em 1956 quando Gilberto Mestrinho (PTB), que morava na rua Alexandre Amorim, assumiu a Prefeitura de Manaus e entregou a seus vizinhos de Aparecida o controle do porto das catraias, na antiga Serraria Hore. O preço da travessia continuou o mesmo - 50 centavos - mas as catraias, com novos donos, eram outras: Rumo Certo, Novo Amazonas, Salve Prinho, Petebê, Sertaneja, Voadora, Flor do rio, Lady Elisa. Inconformado com a perda da concessão, Lezarrão declarou guerra total aos catraieiros de Aparecida.

A guerra

- Fá-los-emos pagar caro cada centavo que nos foi subtraído. As vidas deles? Transformá-las-emos num inferno. Assim, mostrar-vos-emos que o pessoal de Aparecida não é capaz de oferecer serviço de transporte decente - disse Lezarrão no encontro realizado no Cine Ideal, na rua 5 de Setembro, com moradores de São Raimundo, conhecidos ainda hoje como "bucheiros", porque as mulheres de lá lavavam em água de limão o bucho recolhido no Matadouro que era vendido no outro lado do igarapé. O orador foi aplaudido por bucheiros embasbacados com o uso da mesóclise.

A promessa foi cumprida ao pé da letra. Lezarrão usou todas as armas no jogo sujo e pesado. Envenenou a água da cacimba usada por catraieiros de Aparecida; sabotou canoas retirando-lhes, na calada da noite, a calafetagem de breu e estopa; promoveu naufrágios de catraias; com faca na cintura agrediu remadores e passageiros que eram recebidos com pedras na hora de atracar; criou medo nas pessoas, obstaculizando o serviço de transporte, que cada dia ficava mais precário.

- Eles são incompetentes, estão prejudicando os passageiros - repetia Lezarrão.

Os usuários das catraias, incomodados com a insegurança e com a precariedade do transporte, endossaram o coro de descontentes, exigindo a volta da frota de Lezarrão. O novo prefeito, Loris Cordovil, em 1959 atendeu esse apelo e fez que tudo voltasse a ser como dantes no quartel de Abrantes, sob os protestos revoltados dos catraieiros de Aparecida, que do dia para a noite ficaram no olho da rua.

Pedindo penico

Os catraieiros de Aparecida passaram, então, a usar os mesmos métodos para infernizar a vida de Lezarrão, que aumentou o preço da passagem para recuperar o que achava que havia perdido. Denunciaram a manobra: "Não dá pé. Um Tamandaré para atravessar o igarapé" - diziam, numa alusão à cédula de hum cruzeiro ilustrada com o Marquês de Tamandaré.

Foi aí que Lezarrão pediu penico: "Vamos esquecer as brigas, a hora é de paz e concórdia". Conclamou todos os usuários e moradores dos dois bairros a se unirem e a colocarem os interesses coletivos acima dos interesses pessoais ou de grupos. Como Temer, que quer nos fazer acreditar que seus interesses pessoais e partidários são os "interesses nacionais",  Lezarrão pregou a união, mas em torno do monopólio das catraias. 

Na oposição, se bate panela e se tenta inviabilizar os governantes de turno. Uma vez no poder - e só então - o discurso passa a ser de "união nacional". As panelas emudecem. A bandeira branca é levantada.

Mas os moradores de Aparecida seguiram a receita dada por Lezarrão, antes de reassumir o monopólio, que pode ser sintetizada nas palavras atribuídas a Aécio Neves (PSDB, vixe, vixe), logo após ser derrotado nas eleições presidenciais e publicadas no blog do economista Carlos Augusto Dória:

- "Vamos obstruir todo os trabalhos legislativos, até o país "quebrar" e a Presidenta Dilma ficar incapacitada de governar, sem apoio parlamentar, aí reergueremos o país que nós queremos, independente dos acontecimentos que envolvem o ex-presidente Lula e as ações do Judiciário. Sem o Poder Legislativo, nenhum governo se sustenta".

Pela primeira vez na vida, concordo com o Aócio, que nos indica o caminho certo que devemos seguir na oposição. Basta trocar, no discurso dele, Dilma por Temer. É isso aí. Vamos lutar para reerguer o país que nós queremos: Aux armes, citoyens! Fora Temer! Eleições já!

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12 Comentário(s)

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Anne comentou:
06/09/2016
Infelizmente, a maioria do nosso povo se (des)informa ainda pela organizações Tabajara, perdão! Globo. Muita gente bateu panela de boa fé, sem perceber que o \"buraco estava mais em baixo\", que os objetivos do \"impitment\" (muito mais chique que \"destituição\") eram outros e que a corrupção, altamente funcional a este sistema econômico, continua e continuará grassando mais forte do que nunca. A Dilma quiz barrar, ela tinha que cair. Mas a resistência está crescendo, criativa. Além do escracho do ministro da cultura, espaços surgem espontâneamente. Fui ver o (imperdível) filme Aquarius. .No final todos batemos palmas e aí surgiu o coro: \"Golpista\",! \"Golpista\"! \"Fora Temer\". Dizem que nas outras sessões foi a mesma coisa. Lembrei de um fato vivido durante a ditadura: No Tablado estava sendo representada. a peça \"Os Saltimbancos\", ... teatro infantil. Além dos papais e da mamães, a sala estava cheia de \"adultos desacompanhados\", isto é sem crianças. Todos cantávamos com ardor aqueles versos inesquecíveis do Chico Buarque: \"todos juntos somos fortes, / Somos flecha, somos arco. /Todos nós no mesmo barco / Não há nada p´ra temer /Ao meu lado há um amigo / Que é preciso proteger / Todos juntos somos fortes / Não há nada pr´a temer. NÃO HÁ NADA PRA TEMER!
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Mara Vanessa Fonseca Dutra (via FB) comentou:
04/09/2016
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Venize Ramos Rodrigues (via FB) comentou:
04/09/2016
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Eliza Portugal (via FB) comentou:
04/09/2016
Talvez seja interessante escrever sobre a chegada dos evangélicos na praça Bandeira Branca da Aparecida. Nesta sexta-feira eles estavam lá: um homem com o microfone e o carro de som e umas mulheres sentadas no banco em que os jovens costumam ficar. Dizem que ali ficam os rapazes envolvidos com drogas, mas os evangélicos os expulsaram do local, com aquelas baboseiras de falar sobre o demônio. Eles assediam mesmo, vão pra cima. Em outros lugares como a praça da Saudade, há um evangélico que fica com uma caixa de som em volume alto, atacando os ouvidos das pessoas ainda cedo pela manhã. No ponto de ônibus do Colégio Militar fica outro com outra caixa de som e a Bíblia na mão, gritando o que juram ser a palavra de Deus. Todos eles se fazem de pastores e querem obrigar as pessoas a ouvir aquilo que ouviriam se estivessem dentro das igrejas. Impõem esse discurso às pessoas na rua, desrespeitando a liberdade religiosa. E lá no Congresso Nacional fazem o mesmo.
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Janete Duarte (via FB) comentou:
03/09/2016
Noticia fresquinha: Hoje o Ministro da Cultura do governo GOLPISTA, Marcelo Calero, esteve em Petrópolis para um debate da abertura do Festival de Cinema de Petrópolis na Concha Acústica do Museu Imperial e foi escrachado pela UJS e por outras pessoas que se encontravam no local. Será assim daqui por diante. A cultura não compactua com quem fere a democracia!\", diz o texto publicado.
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Ana Stanislaw comentou:
03/09/2016
Adorei Bessa!!! Boas reflexões sobre esse golpista, traidor, obscuro. Belo texto.
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03/09/2016
José Bessa,estás precisando de uma chargista que faça tipo Caruso porque eu acho que precisas desenhar no Taquiprati.rs
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ARMINDHA FREIRE comentou:
03/09/2016
Professor Bessa, obrigada pela clareza e por essa comparação, admirável, que poderá facilitar vários entendimentos. Vou compartilhar o texto. ELEIÇÕES DIRETAS JÁ. E olhando os comentários abaixo desejo, sinceramente, que o nosso sistema de comunicações não seja somente o Sistema Globo; que o nosso povo possa ser mais bem informado e não repita tudo que diz o Jornal Nacional, vivendo isso como uma religião, uma verdade absoluta. DIRETAS JÁ! Armindha Freire. (atriz, produtora cultural, contadora de histórias.Aprendiz da CULTURA INDÍGENA do nosso país)
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Claudio Nogueira (via FB) comentou:
03/09/2016
É isso mesmo. Só quando se chega ao poder que pede união. Ou seja, eu mando, vocês obedecem, e ninguém faz oposição a mim. União nacional. Bobinho o Temer.
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Neto reis comentou:
03/09/2016
O cronista tem o direito como cidadão de defender o governo e o partido que quiser, mas não tem que escamotear informações, uma vez que o livrinho foi cumprido para seguir o ritual do impeachma e o vice assumir a presidência. O mesmo ocorreu com o Collor impichimado e assumindo o itamar. Valha com dieus, eleições para presidente em 2018.
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Neto reis comentou:
03/09/2016
O governo da impechimada e o do molusco surrupiaram 100 bilhões da Petrobras e outros 100 bilhões de estatais como Eletrobrás, Correios e de obras como a do rio são Francisco para financiar o pt vixe e os camaradas presos na lava jato.
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Neto reis comentou:
03/09/2016
Quem e Dilma pasadina odebresht para criminalizar caixa 2 e enriquecimento ilicito?
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