CRÔNICAS

DOROTI, A DOCE RADICAL

Em: 05 de Dezembro de 2010
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Quando eu a conheci, no final dos anos 70, em Manaus, ela já era uma militante das causas impossíveis e das sonhadas utopias. Foi num evento organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), na Casa Jordão. Estava cercada de índios de diversas etnias, com quem assinara um pacto de sangue, doando a eles suas energias, sua inteligência e uma vontade danada de viver e de lutar.
 
De onde é que aquela freirinha tão miudinha tirava tanta força e coragem? Naquela longa e tenebrosa noite, de censura e repressão, de medo e silêncio, eram poucas as vozes que se levantavam em defesa dos índios, das terras invadidas, das culturas sufocadas, das línguas proibidas e dos etnosaberes discriminados. Doroti entrou de cabeça na luta, com aquela radicalidade e aquela fé inabalável que só os profetas costumam ter, na melhor tradição que vem de Bartolomeu de Las Casas. Seu entusiasmo era contagiante.
 
Nesse processo de luta, encontrou Egídio Schwade, com quem se casou. Dois entusiasmos altamente explosivos, que incendiavam a todos nós que deles nos aproximávamos. Juntou-se a fome com a vontade de comer: Doroti e Egídio. Ficaram tão entrelaçados no compromisso inabalável de luta e de entrega total, que ninguém sabia mais onde é que um começava e onde o outro terminava.
 
Doroti, a eterna missionária, a doce radical, tinha aquela doçura do mel de abelha que o casal passou a cultivar num pequeno sitio no município de Presidente Figueiredo (AM). Os novos apicultores realizaram uma experiência no meio da capoeira, combinando criação de tambaqui, com criatório de aves e plantação de hortas, árvores frutíferas, mandioca, alface e feijão de corda. E cultivo de flores, é claro. Para as colmeias.
 
 No início da construção do PT, lá estavam os dois. De tempos em tempos, quando nossos caminhos se cruzavam, ela aparecia com mais um filho no colo: Adu, Ajuri, Maiká, Maiá, Luiz. Agora, ela se foi, levada por um AVC traiçoeiro, mas tenho a impressão de que vou encontrá-la em qualquer lugar, ali onde houver alguém brigando por uma boa causa.
 
As sementes de Doroti
 
A notícia da partida de Doroti me foi dada pela bióloga, militante ambientalista e pesquisadora da Embrapa, Elisa Wandelli, que assina o belo artigo abaixo reproduzido, intitulado “As sementes de Doroti Mueler Schwade”. Diz Elisa:
 
 A indigenista, agroecologista e militante socioambiental Doroti Alice  Mueler Schwade com sua sensibilidade e determinação é uma das grandes construtoras de conhecimento para a sustentabilidade da Amazônia. “A índia-branca” Doroti, nasceu em Blumenau, SC, e veio para a Amazônia nos anos 60 como uma jovem e idealista freira para lutar pela emancipação dos povos indígenas. Posteriormente, casou-se com o também idealista  indigenista Egídio Schwade e juntos semeiam alternativas para a soberania dos povos e para o respeito a todas as formas de vida da Amazônia.
 
As sementes de amor e de sustentabilidade de Doroti Schwade não são contaminadas com agrotóxicos, herbicidas, inseticidas, não são transgênicas e nem precisam ser semeadas com adubos químicos. As sementes de Doroti valorizam a vida, a soberania econômica e política dos povos, a força das mulheres e o meio ambiente e são regadas com a integração da sabedoria tradicional e popular e do conhecimento cientifico e muito amor.
 
Doroti transita com completo domínio entre o saber científico e o popular, sabe fazer uma inteligente integração entre a ciência libertadora e as práticas tradicionais dos povos da Amazônia e é uma incansável educadora e construtora participativa de conhecimentos para a sustentabilidade. Grande experimentadora agroecóloga, compartilha seus conhecimentos com as comunidades amazônidas, com os movimentos sociais e com todos os órgãos de pesquisa, extensão e ensino que buscam a sustentabilidade.
 
Sua filosofia de uso dos recursos naturais, de organização social e comunitária e de economia solidária e suas práticas agroecológicas e de criação de abelhas nativas no sítio da família em Presidente Figueiredo fazem parte de todos os cursos da Embrapa, do INPA, UFAM, IFAM e UEA que tratam da sustentabilidade rural. Doroti nos ensina que a agricultura deve produzir vida e não a morte dos igarapés, a infertilidade do solo, o desmatamento das florestas, a perda do conhecimento tradicional e alimentos que degradam a saúde humana. Ensina-nos que a verdadeira economia solidária começa com a mesa farta, diversa e saudável de nossas famílias e de nossos vizinhos.
 
Doroti nos alerta que povos soberanos se alimentam de seus produtos regionais, realizam agricultura sem dependência de agrotóxicos e adubos químicos, usam sementes que não perderam a capacidade de se multiplicar anualmente para enriquecer a indústria agroquímica e integram conhecimentos científicos e tradicionais em prol da qualidade de vida. Doroti demonstra que apesar de sua dedicada militância e magistério em prol de um mundo melhor, o principal papel social que homens e mulheres podem desempenhar para este fim é formar crianças éticas, humanitárias que valorizem a diversidade social e todas as formas de vida.
 
Doroti e Egídio Schwade constituíram uma família com cinco maravilhosos filhos, todos eles cidadãos que sabem amar e respeitar e que constituem um exemplo de vida para a transformação social e a qualidade de vida para sua comunidade e para a Amazônia.
 
 Hoje, membros de movimentos socioambientais, indígenas, feministas, agroecologistas, das pastorais sociais, os que constroem uma ciência libertadora e os cidadãos éticos estão de luto pela passagem de Doroti Schwade. No entanto, todos temos muito a saudar e a agradecer pelo seu exemplo de vida e pela constante luta em prol de um mundo  melhor.
 
 As homenagens estão sendo realizadas na Igreja de sua comunidade em Presidente Figueiredo, cujo altar consiste de uma enorme pintura do rosto do lendário cacique Maroaga com lágrimas escorrendo devido à construção da BR 174 e da hidrelétrica de Balbina dentro do território Waimiri-Atroari, o que quase causou a extinção do combativo povo Kiña. Os Waimiri-Atroari e os demais povos da Amazônia perderam hoje uma grande aliada contra os impactos de obras faraônicas como a BR 174, BR 319, a hidrelétrica de Balbina, as hidrelétricas do Madeira e as do Xingu.
 
Consola-nos saber que entre as mais belas sementes de Doroti continuará frutificando entre nós sua maravilhosa família cujos filhos, Adu, Ajuri, Maiká, Maiá, Luiz e o queridíssimo companheiro Egídio Schwade continuaram exercendo dignamente suas cidadanias e nos mostrando que outra Amazônia é possível.

 

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20 Comentário(s)

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maricarmen comentou:
11/04/2015
Doroti no se irà nunca, sus semillas estàn sembradas y hay muchas manos que quieren ocuparse del cultivo. Bella familia!!! Siguen semmbrando...
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JOÃO BOSCO CAMURÇA comentou:
09/03/2011
Como você distingue nos nomes próprios indígenas - Adu, Ajuri, Maiká, Maiá - quem é masculino ou feminino? Há regra? Você conseguiu localizar o mjotorista de praça apelidado de Bombom de Onça? Em 1968, ele trabalhava na Praça. Cel Camurça, de Fortaleza.
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Paulo Lucena comentou:
19/12/2010
Parabens Babá. Tua Crônica sobre a Diva Doroti Shwade não só me trouxe reminiscências do Amazonas de nosso contemporâneo conviver socioambiental dos Anos 1960/70 malgrado os percalços furibundos dos "Anos de Chumbo", trouxe lembranças do nosso Épico e Heróico Egídio e sua faina nativista naquele Lugar que não deveria ter o sinistro nome de "Presidente Figueiredo" mas sim de "Município de Maroaga" em homenagem ao Grande Herói Nativista Atroari/Wamiri contemporâneo de Doroti e Egídio.
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Paulo Lucena comentou:
19/12/2010
Parabens Babá. Tua Crônica sobre a Diva Doroti Shwade não só me trouxe reminiscências do Amazonas de nosso contemporâneo conviver socioambiental dos Anos 1960/70 malgrado os percalços furibundos dos "Anos de Chumbo", meu, teu, do mano teu Doutor Ricardo Bessa, como também me trouxe lembranças do nosso Épico e Heróico Egídio Shwade e sua faina nativista naquele Lugar que não deveria ter o sinistro nme de "Presidente Figueiredo" mas sim de "Município de Maroaga" - aqui a sugestão para os atuais Le
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Ana comentou:
09/12/2010
Não conheci a Doroti, mas o pouco que li sobre a sua vida e sua dedicação aos indígenas, nos serve de exemplo e nos permite acreditar que um dia, quem sabe, esse país mudará a forma de compreender e tratar os grupos indígenas brasileiros. Onde quer que você esteja, Doroti, parabéns por seu trabalho, por sua dedicação.
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jacinto pinto comentou:
09/12/2010
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Elaine Ramos Silva comentou:
07/12/2010
Você é motivo de conforto , admiração e orgulho da minha terra diante da vastidão de sujeira e hipocresia que destrói o nosso estado,por isso, gostaria de saber se você tem publicado um livro de crônicas que me auxilie a não esquecer e ainda mais, divulgar a verdade sobre essa "gente respeitosa e digna" que infelizmente ainda nos governam, por favor.Abraços. Elaine.
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Zeni Soares (1) comentou:
07/12/2010
Doroti, um sonho em tempo real. É assim que a defino, conheci Doroti no inicio de minha adolescência, na cidade de Itacoatiara, quando junto a Egydio e Adu chegou como missionários. Por muitos anos nos ajudou nas comunidades eclesiais de base e no movimento indígena. Junto com um grupo de jovens e adolescentes do qual eu fazia parte, criamos inúmeras musicas e peças teatrais em defesa dos indios Waimiri e Atroari na Prelazia de Itacoatiara, bem como em nossa comunidade cristã de São José,
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Zeni Soares (2) comentou:
07/12/2010
Doroti ajudou na organização das mulheres e com elas criou a primeira Associação de Mulheres de Itacoatiara, a ACCM, que até hoje continua a luta pela vida e pelos direitos da mulher. Como diz Jesus "todo aquele que vive e crê em mim, ainda que esteja morto viverá e quem vive e crê em mim não morrerá", essa é uma certeza que Doro, como carinhosamente a chamávamos, tinha, por isso Doro vive e vamos continuar seu sonho.
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Zeni Soares comentou:
07/12/2010
Doroti, um sonho em tempo real. É assim que a defino, conheci Doroti no inicio de minha adolescencia, na cidae de Itacoatiara, quando junto a Egydio e Adu chegou como missionários. Por muitos anos nos ajudou nas comuidades eclesiais de base e no movimento indigena. Junto com um grupo de jovens e adolescentes do qual eu fazia parte, criamos inumeras musicas e peças teatrais em defesa dos indios Waimiri e Atroari na Prelazia de Itacoatiara, bem como em nossa comunidade cristã de São José, Doroti a
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Aurelio Michilles comentou:
06/12/2010
Babá,Bela crônica sobre uma triste notícia, agora somada a esta que leio sobressaltado no jornal Folha de SP, a partida eterna do "Quique" (Enrique Svirsky) / ISA - Instituto Socioambiental. Depois de muitas horas de viagem desde Cancún (COP16) estas duas noticias espelham nas expectativas sobre as "mudanças climaticas" do planeta, aonde a Amazonia tem protagonismo, cujos resultados resvalam, mas ao menos temos a certeza do exemplo deixado por Doroti e Enrique.Soldações
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Ana Paula Caldeira Souto Maior comentou:
06/12/2010
ao Egidio e sua familia um enorme abraço.
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Pe. Geraldo Ferreira comentou:
06/12/2010
Estive muitas vezes em sua casa. Sempre com afeto e carinho recebia as pessoas. A Doroti as minhas orações. Ela vive e a luta vai continuar ! Ao amigo Egídio o nosso apoio e também orações.
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André de Moraes comentou:
05/12/2010
Doroti Schwade, uma imprescindível...
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Vanessa Marruche (1) comentou:
05/12/2010
Tive o prazer de conhecer a Dona Doroti numa visita a Figueiredo com minha amiga Michéli, noiva do Maiká. Ainda estou muito triste com a partida dela, porque, entre tantas razões, ela era essa pessoa que você muito bem descreveu. Uma mulher ímpar, sem sombra de dúvida. Também me comoveu este momento em que ela partiu, deixando filhos, netos e um filho prestes a casar, com cujo casamento ela tanto sonhou e estava preparando com tanto zelo.
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Vanessa Marruche (2) comentou:
05/12/2010
Uma mulher como Doroti, que sempre recebia quem quer que fosse em sua residência com muito amor e carinho e que tinha uma sabedoria que nem dá para precisar. Que Deus a tenha e conforte seu Egídio, que perdeu sua metade, ou mais que sua metade talvez, e sua família, que sentirá demais a sua falta.
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Vanessa Marruche comentou:
05/12/2010
Tive o prazer de conhecer a Dona Doroti numa visita a Figueiredo com minha amiga Michéli, noiva do Maiká. Ainda estou muito triste com a partida dela, porque, entre tantas razões, ela era essa pessoa que você muito bem descreveu. Uma mulher ímpar, sem sombra de dúvida. Também me comoveu este momento em que ela partiu, deixando filhos, netos e um filho prestes a casar, com cujo casamento ela tanto sonhou e estava preparando com tanto zelo. Uma mulher como ela, que sempre recebia quem quer que fos
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Paulo Bezerra comentou:
05/12/2010
Conheci o casal Schwade no Ato público em Defesa da Floresta Amazônica realizado na praça da Matriz ao lado da estação dos onibus em 14 março de 1980. O Egídio discursava pelo CIMI, quando informaram ao público: Mataram o bispo de El Salvador D. Oscar Ranulfo Romero. A Paranapanema também foi alvo de denúncias do casal por provocar a morte de peixes através da poluição do rio com mercúrio e outros produtos quimícos.
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Anne-Marie comentou:
04/12/2010
Não conheci o Doroti, mas conheci outras freirinhas e padres, sobretudo quando morei no Nordeste. Eram cheios de coragem naquela tenebrosa época em que eram perseguidos até pelo bispo local. Ficaram em nossas vidas, sementes enraízadas no nosso coração.
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Vânia Novoa Tadros comentou:
04/12/2010
EU CONHECI A DOROTI E O EGÍDIO APRESENTADOS A NOSSA TURMA DE HISTÓRIA PELO BESSA AINDA NO ICHL VELHO. SÃO DE UMA SABEDORIA INTENSA. SEMPRE DOCES, OS DOIS! QUE DEUS AJUDE O EGÍDIO VIVER SEM A DOROTI. VALEU DOROTI !VC VIVEU INTENSAMENTE E MARCOU A VIDA DE MUITAS PESSOAS COM AÇÕES DE QUALIDADE. DEUS TE RECEBERÁ PARA CUIDAR DO SEU JARDIM!
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