CRÔNICAS

ME BANCA QUE EU VOU: O MEU FACE NO TEU BOOK

Em: 02 de Março de 2014 Visualizações: 4739
ME BANCA QUE EU VOU: O MEU FACE NO TEU BOOK

No carnaval, quem é que lê jornal? Esta pergunta atormenta colunistas em busca de um tema que possa atrair o leitor, cuja cabeça está em outro lugar, já que o corpo desfila pelas ruas das principais cidades do Brasil ao som de cuícas, surdos, reco-recos, pandeiros, tamborins. São milhares de blocos com nomes sugestivos, prenhes de humor e de sabedoria popular, com duplo significado, jogos de palavras, recursos fônicos. Uma simples lista deles já constitui um poema.

"Aí Dentro, Excelência" e "Unidos da Cachorra" (Fortaleza-CE); "o Baiacu de Alguém" (Floripa-SC); "Alcova Libertina" (Belo Horizonte - MG); "Cansei de ser profunda" e "Mamãe, virei bicha" (Olinda-PE);  "O Galo da Madrugada", em Recife, que pariu o bloco infantil "O Pinto da Madrugada"; "Nem Freud nem sai de cima" e "Dê para quem tem fome" (São Paulo). Sem contar o "Tô cagando e andando" de Niterói e a Banda da Bica, cujo lema é "Amor de Bica, onde bate, fica" (Manaus-AM).

No Rio de Janeiro, até os postes e as estátuas remexem o esqueleto. O Cristo Redentor levanta os dedinhos, o Pão de Açúcar rebola e a igreja da Penha cai na gandaia. São mais de 500 blocos em todos os bairros. No Leblon, o "Imaginô? Agora Amassa"; em Copacabana o "Fogo na Cueca", o "Broxadão" e "Galinha do Meio-Dia"; em Ipanema o tradicional "Que Merda É Essa?", que teve um filhote, o bloco infantil da Rua Garcia D'Ávila "Que Caquinha É Essa?"; em Botafogo, o "Pela Saco" e o "Cordão Umbilical" para crianças;  na Gávea o "Me Beija que eu Sou Cineasta" e no Leme "Meu Bem, volto já".

O "Xupa, mas não Baba" desfila em Laranjeiras. Na Urca, "Só o Cume interessa". Em Vista Alegre, o "Encosta que ele cresce". A Tijuca ganhou blocos novos: "Já Comi Pior, Pagando", "Quero exibir o meu longa", "Deixa a Língua no Varal" e o "Se me der, eu como", além do "Lavou, tá Limpo" (Praça Seca), "Se Deixar eu Boto" (Pavuna), "Ou Vai ou Mama" (Piedade); "É Mole, mas é Meu" (Irajá), "Buraco do Pau" (Recreio). No Grajaú, "O Meu Face no Seu Book" e "Vai tomar no Grajaú"; na Freguesia "Empurra que eu entro" e no Engenho Novo "É Mole mas estica".

Mostra o fundo

Novos blocos foram criados também na Lapa: o "Enxota que eu vou" e a "Banda das Quengas". No Santo Cristo, o "Pinto Sarado" e o "É Pequeno, mas Vai Crescer". No Centro, na quinta-feira, dia 27, saiu na Rua da Quitanda o bloco organizado pelos bancários que trabalham com fundos de investimento: "Mostra o Fundo, que eu Libero o Benefício". Ninguém fica de fora, nem quem é doente do pé.

Os cadeirantes organizados no Instituto Brasileiro dos Direitos das Pessoas com Deficiência criaram, em 2007, o “Senta que eu empurro”, que desfila pelas ruas do Catete e dialoga com outro bloco, o “Empurra que pega”.

 O “Gargalhada” desfila neste domingo de carnaval em Vila Isabel, com um intérprete de LIBRAS, a língua brasileira de sinais. Na realidade, dois intérpretes que traduzem todo o evento para os surdos e ensinam aos ouvintes presentes algumas palavras incluindo, entre os alunos, o próprio Rei Momo que todo ano cumprimenta os surdos em LIBRAS.

Criado há sete anos para promover a inclusão dos surdos no carnaval, o “Gargalhada” fez uma parceria com os grupos “Instituto Interdisciplinar Rio Carioca” e “Anjos de Visão”, que congrega deficientes cegos, surdos cadeirantes, anões, portadores de síndrome de Down, amazonenses e baianos deslocados no Rio e quem mais quiser. Por favor, quero que me excluam DENTRO dessa, se é que me faço entender.

Quem cai no samba todo ano, além dos doentes do pé, cadeirantes, surdos e deficientes visuais são os considerados “doentes da cabeça”, no bloco “Tá pirando, pirado, pirou”, criado em 2005 pelos portadores de sofrimento psíquico do Instituto Pinel, seus familiares, funcionários de instituições de saúde mental, simpatizantes e alguns bichos da fronteira, como nós, com um pé lá e outro cá. Concentra na Rua Lauro Muller e desfila na Avenida Pasteur, na Urca - sede do primeiro hospício da América Latina, o Pedro II. Dispersa na pracinha do Pão de Açúcar. Neste ano, eu perdi o desfile. 

Loucura suburbana

Na mesma linha, o “Loucura Suburbana”, formado por pacientes, funcionários e familiares do Instituto Municipal Nise da Silveira. Desfilou pelas ruas do Engenho de Dentro, na Zona Norte nesta quinta-feira, comemorado os seus 14 anos de existência, com uma ala só de crianças, em torno do tema "Manifeste-se". Mesmo no carnaval, não cessa a luta contra o estigma da doença mental e pelo resgate da cidadania.

O carnaval acaba sendo também um espaço democrático e solidário do país. Simboliza, neste caso, o que existe de melhor e de mais sadio na sociedade brasileira. Constitui uma esperança saber que os excluídos estão se organizando e reivindicando um lugar na sociedade e que existe muita gente que se solidariza com eles. Com humor, os excluídos estão conquistando a cidadania. Um país em que o doente do pé e o ruim da cabeça sambam com alegria tem que dar certo.

Quando o "Loucura Suburbana" desfilava no Rio, eu me encontrava em Belo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais, numa banca de doutorado sobre o bakaru, o corpo de narrativas que contém a sabedoria dos índios Bororo. A tese é tão boa que merece ser compartilhada. Pensei até em escrever sobre o tema, como aconteceu em situações similares, mas não é o momento apropriado. No carnaval, quem lê jornal? 

P.S. De qualquer forma, fica aqui o registro. Leila Aparecida de Souza: "Bakaru na comunidade indígena Bororo da Aldeia Central de Tadarimana, em Rondonópolis - Mato Grosso: conceitos e manifestações". Programa de Pós-Graduação em Educação. UFMG. 27 de fevereiro de 2014. Banca: Ana Maria R. Gomes (orientadora), Maria Gorete Neto (co-orientadora), Karenina Vieira Andrade, Ana Maria de O. Galvão, Paulo Isaac e José R. Bessa.

 

 

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8 Comentário(s)

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Caio Nduzi comentou:
04/03/2014
Pô professor Bessa sempre leio o Taqui pra ti.. ahshahhsahshas e agora ficamos curiosos sobre o bakaru, narrativas da sabedoria dos parente Bororo e o que você tem a dizer... e se me bancar também to envolvido.
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Jandir Ipiranga Jr comentou:
04/03/2014
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Joaquim Santiago comentou:
03/03/2014
Veja só o que o meu xará Joaquim Ferreira dos Santos escreveu no Globo de segunda-feira (3/3/2014), vai na mesma direção, diz que jornalista de segunda-feira de carnaval é o Bloco do Eu Sozinho. ALGUEM AI? ele pergunta no titulo. "Ninguém nos lê, só o eco é companheiro e testemunha". Os jornais não deviam circular no carnaval, para permitir que os jornalistas caiam no samba.
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Socorro Pereira comentou:
02/03/2014
Rindo litros !!! Impossivel não desopilar o fígado, lendo tua cronica. Uma delicia essa de hoje ! O humor escrachado evidenciado pelos nossos blocos carnavalescos, faz-nos esquecer temporariamente o que de tão ruim o Brasil ainda tem. Nem tudo está perdido. Ai, de nós, amazonenses, sem a coluna do Bessa. É o que hoje, fez o meu domingo ficar mais gordo de carnaval.
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Socorro Pereira comentou:
02/03/2014
Ganhei meu domingo gordo de carnaval, lendo tua cronica. O humor e o escracho tão evidentes em épocas carnavalescas, resgatados aqui, é uma delicia ! Impossivel não rir e desintixicar o fígado, lendo as cronicas domingueiras do Bessa... Vou esperar que escrevas sobre o tema objeto da tese em que participaste da Banca. Tenho interesse no assunto.
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Socorro Pereira comentou:
02/03/2014
Ganhei meu domingo gordo de carnaval, lendo tua cronica. O humor e o escracho tão evidentes em épocas carnavalescas, resgatados aqui, é uma delicia ! Impossivel não rir e desintixicar o fígado, lendo as cronicas domingueiras do Bessa... Vou esperar que escrevas sobre o tema objeto da tese em que participaste da Banca. Tenho interesse no assunto.
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Fernando Soares Campos comentou:
02/03/2014
Muito oportuna a pergunta, professor: "No carnaval, quem é que lê jornal?" (até rima). Esta própria coluna, de certa forma, responde, pois eu estou acostumado acessá-la e encontrar vários comentários, porém hoje, muitas horas depois de atualizada, encontro uma solitária mensagem de leitor. Das duas, uma: ou não leram e, portanto, não comentaram, ou o responsável pela liberação das mensagens caiu na folia.
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Ana Stanislaw comentou:
01/03/2014
kkkkkkk Adorei! Texto bom "a Bessa"! Aliás, o título diz tudo. Não é que é isso mesmo!!!! rs
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