CRÔNICAS

TEREZONA PEDINCHONA DE FARINHA

Em: 06 de Agosto de 2006 Visualizações: 3438
TEREZONA PEDINCHONA DE FARINHA
Eram os anos 50. O rio transbordou. As vítimas da enchente estavam passando fome. O Colégio Santa Dorotéia organizou uma campanha – ‘Farinha para os ribeirinhos’. Suas alunas iam de casa em casa, batiam nas portas e pediam alimentos. Os brotinhos das Dorotéias eram, nessa época, Eulália Martins, Izabel Magaldi, Rose Cabral, Edna Azize, Ruth Costa Novo, Wilma Abdala, Fátima Rabelo, Mirtes Rosas e Cândida Gonçalves.
 
Quem recolheu mais alimento e, por isso, recebeu prêmio das mãos da madre Gominhos foi a aluna Terezinha de Jesus Parente Salles, que morava na Sete de Setembro, perto do Palácio Rio Negro. No último dia da campanha, carregando vários pacotes de farinha, atravessou, fardada, a praça Heliodoro Balbi. Parou para ver o ensaio da banda da Polícia Militar, que tocava músicas patrióticas.
 
Quando a bandinha atacou o Hino da Independência, um estudante do Colégio Estadual - acompanhando a melodia de “Já podeis da Pátria, oh fi-ilhos, ver conteeente a mãe genti-il” - cantou:
 
- “Terezona pedinchona de fari-inha, pedinchooona de fari-inha”.  
 
Tereza deu o troco em cima da bucha, continuando a melodia:
 
- “É tua mã-ãe, essa galinha...”. Substituiu com esses versos o “já raiou-ou, a liberdade”. Rimou. O estudante, filho de um desembargador cujo nome começa com ´Oi´ e termina com 'ama', se ferrou. Bem feito!
 
Três cavalheiros
 
Terezinha de Jesus deu a queda e foi ao chão, mas nunca levou desaforo pra casa. Casou, separou e sustentou seus quatro filhos – duas mulheres e dois homens – dando aulas e cozinhando pra fora. Montou um restaurante caseiro e informal, em sua própria casa, no Parque Dez. Lá, muitos juizes, desembargadores e deputados lamberam os beiços e encheram a pança, ajoelhados comendo um jaraqui frito com jambu. Ela e sua irmã Aliete eram grandes doceiras, preparavam comida para festas de aniversário, casamento e banquetes.
 
De dia, Tereza dava aula particular pra filho de gente rica. A sua fama de competente se espalhou pela cidade. Seus alunos eram os mais bem preparados. De noite, trabalhava como professora concursada numa sala de educação integrada, com jovens e adultos, lá no Grupo Escolar Leonilla Marinho, no Parque Dez. Ela conseguiu a façanha de alfabetizar o Nego Candiru, mecânico do bairro.
 
Foi lá que a encontrei, na minha volta do exílio, em 1977. Amiga de minha irmã, ela repartiu a farinha comigo, me alugando sua casa da Cohab-Am, com tudo dentro, a preço de banana, sem contrato e sem nada. Numa época de inflação braba, nunca tomou a iniciativa de reajustar o aluguel. No final do mês, era uma briga. Eu, o inquilino, querendo pagar mais, e ela: - “Precisa não”.
 
A inocência da Bolota
 
Na defesa de sua família, Tereza virava fera. Um dia, sua filha, ainda garotinha, estava sentada na mureta da casa. Um moleque já meio taludinho passou na rua e disse:
 
- “Adelina, deixa eu botar meu pinto na tua priquita”.
 
Ele não viu dona Tereza, que estava agachada no canteiro, cuidando de suas flores. Ela se levantou e gritou, abrindo e fechando uma tesoura dessas de jardim:
 
- Vem cá, filho de uma égua. Bota teu pinto aqui, bota, que eu corto ele!
 
A tesoura castradora fechava e abria. Assustadíssimo, o moleque se pirulitou, descendo a rua 3 numa carreira desabalada. Tereza atrás, com o tesourão na mão, seguida por uma pequena multidão. Ele conseguiu entrar em sua casa. Tereza bateu na porta e, mui respeitosamente, chamou a mãe do menino pelo nome de batismo:
 
- Dona Olga Soares, tome providências. O seu filho disse que ia botar o pinto na priquita da minha filha.
 
Gordinha e baixotinha, Dona Olga era a própria imagem da inocência. Vivia no mundo da lua. Perguntou lesamente:
 
- “E o que é pinto, dona Tereza?”.
 
Ah, Margarida, pra quê! O tratamento mudou. Dona Tereza avacalhou, chamando dona Olga pelo apelido:
 
- “O que é pinto, Bolota? Santo Deus, você não sabe o que é pinto?”.
 
Dona Bolota confirmou sua ignorância movendo a cabeça. Então, Tereza desfiou uma ladainha de itens lexicais que a vizinhança nunca mais esqueceria:
 
- “É pau, é caralho, é colhão, é pica, é pomba, é cacete, é vara, é rola, é mandioca, é pau, é pedaço de toco”...
 
Ela pegou o embalo do ritmo, como se estivesse cantarolando as ‘águas de março’. Deu uma aula de erudição e cultura popular, que ecoou por todo o Parque Dez. Prosseguiu:
 
- “Ainda não sabe o que é pinto, Bolota? É manjuba, é pimba, é peru, é piroca, é pênis, é verga, é estrovenga, é mijador, é sulamba...”.
 
Até hoje, há controvérsias. Testemunhas comedidas juram que Tereza enumerou 258 sinônimos. Outros asseveram que foram mais de 300.
 
O medo do funcionário
 
Um dia, a Eletronorte mandou cortar a luz da dona Tereza por falta de pagamento. Educadamente, ela explicou que não podia pagar porque o Governo havia atrasado o salário dos professores. Mostrou a documentação. O funcionário, arrogante, esnobou, dizendo que estava lá para cumprir ordens da empresa. Naquela época, o cara trazia uma escada na camionete, subia no poste e desligava o fio lá em cima. Quando ele subiu, dona Tereza, com uma peixeira na mão, falou:
 
- “Se cortar, filho duma égua, eu te capo”.
 
Dizia isso, amolando e afiando o facão na calçada. Chega saía faísca. Juntou gente às pampas. Lá em cima, o cara tremia, porque sacou que não era brincadeira. Lá embaixo, a multidão aplaudia. Ele desceu e arrancou na camionete debaixo de vaias. A luz não foi cortada e, dessa forma, ele salvou seu pinto, sulamba, estrovenga etc e tal.
 
Não foi só a luz. Quando inauguraram a Cohab-Am, costumava faltar água nas ruas iniciais. Dona Tereza mobilizou as mulheres, numa passeata até a casa do funcionário responsável por abrir e fechar a passagem de água. Foi a porta-voz do grupo:
 
- “Seu Walter, o pessoal da Rua 3 precisa beber água, fazer comida e lavar a priquita. Abra a água”.
 
Não era um pedido. Era uma ordem. Ameaçadora. Seu Walter, que conhecia a história do facão, se cagou de medo e nunca mais fechou a água da Rua 3.
 
A vizinha dos fundos, dona Zuleide, vivia em dificuldades. Alugava bicicletas velhas. Um rapaz pegou uma bicicleta e desapareceu. Dias depois, dona Tereza viu o cara na Rua do Comércio. Agarrou o dito cujo pelo colarinho, prendeu-o dentro do banheiro da casa dela, chamou a polícia e recuperou a bicicleta. Confessou:
 
- “Aqui, já briguei com todo mundo, menos com a Helena, porque ela é uma pomba-lesa e não briga com ninguém”.
 
Essa era dona Tereza: uma mulher trabalhadora, honesta, generosa, valente, com senso de justiça. Soube exigir respeito e lutar pelo que era certo. Morreu há anos, mas nos deixou lições de vida e, sobretudo, de cidadania. Nesses tempos de fezes, alucinações, maus poemas, bush, bombas, sabinos e amazoninos, sanguessugas e mensalões, silêncios, omissões e covardias, a lembrança de seu heroísmo anônimo e de sua irreverência iconoclasta renova nossas esperanças em um mundo melhor.
 
Saudades da amiga querida Terezinha de Jesus Parente Salles, de quem seus filhos, um deles dono da Cachaçaria do Dedé no Manauara Shopping,sua irmã Aliete e seus amigos têm motivos para se orgulhar.
 
P.S. – Se dona Tereza estivesse viva, esculhambaria a Regina Botox Duarte, que como todo mundo sabe, nunca estudou medicina e não podia ter operado a Nanda. O que aconteceu na telenovela na última sexta-feira foi um homicídio.

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