CRÔNICAS

DONA DADÁ DA JACA

Em: 06 de Junho de 2010
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No bairro de Aparecida, em Manaus, o apelido é uma instituição. Lá, ninguém tem nome. Só apelido, que é sempre cortante como um bisturi. Perguntem quem é dona Darcicleide, mãe do Thomáz Augusto, ninguém sabe; mas dona Dadá, a mãe do Fon-Fon, todo mundo conhece. Conhecia. Ela morava na Rua Coronel Salgado, na beira de uma enorme cratera, chamada de ‘Covão’, depois aterrada e, hoje, ocupada, às terças-feiras, pela feirinha livre. Sua casa ficava nos fundos do terreno baldio que, no mês de setembro, abrigava o Bingo da Quermesse da Paróquia.

No final dos anos 50, quando os padres redentoristas construíram a igreja, a casa foi demolida. Mas antes disso, durante anos, dona Dadá, que era viúva, manteve no quintal um pequeno pomar doméstico, com várias árvores frutíferas, entre as quais se destacava uma jaqueira, enorme e troncuda, que dava umas senhoras jacas, respeitáveis, de até dez quilos, com bagos carnosos, doces, de cheiro forte e inebriante. Era a famosa jaca-mole-manteiga, anunciada no pregão do seu Messias pelas ruas da cidade.

Quando chegava o fim do ano, a jaqueira ficava coalhada com dezenas de jacas. Dona Dadá aproveitava tudo. Cortava a fruta - e aí a gente sentia o perfume em todos os becos do bairro. Selecionava os bagos, retirando aquela camada grudenta. Com a polpa, preparava um doce tão delicioso, mas tão delicioso que nem militante do PSOL botaria defeito. Do caroço assado, fazia castanha saborosa. Das folhas, remédio caseiro: um xarope expectorante bastante eficaz. Tosse, pelo menos, o Fon-Fon nunca teve.

Por essa razão, dona Dadá ganhou um – digamos assim – sobrenome: Dadá da Jaca. Na Aparecida, apelido é tão importante que tem até sobrenome. Em conseqüência, Fon-Fon herdou o da mãe e ficou conhecido, para sempre, como Fon-Fon da Jaca.


Dadá? Tudo bem! Fon-Fon? Vá lá que seja! Afinal, ele tinha o lábio ligeiramente leporino. Mas ‘da Jaca’? Sabe-se lá por qual razão a família implicou com esse ‘sobrenome’. A jaqueira dava sombra, dava fruto, dava alimento, dava compota, dava remédio, mas dona Dadá também dava - comentavam as más línguas, infernizando a vida do Fon-Fon. A maledicência não tinha limites. Diziam que Fon-Fon era assim, amarelão empombado, porque seu Osvaldo – o Merisvaldo, caseiro dos padres – comeu muito a jaca da senhora sua mãe e costumava consolar a viúva nas noites chuvosas de Manaus.

Foi justamente num daqueles temporais amazônicos que uma jaca pesadona despencou, na madrugada, fazendo um rombo no telhado de zinco, caindo em cima da cama da Dona Dadá onde – dizem, dizem, eu não sei – Merisvaldo sonhava que comia compota de jaca. Esse foi o pretexto de dona Dadá pra se livrar do apelido que tanto desgosto lhe causava. Mandou o Merisvaldo derrubar a jaqueira, achando que assim resolveria três problemas: o do telhado, o do apelido e o de sua reputação. Com a jaqueira cortada, acreditava que o ‘da Jaca’ seria extirpado de sua identidade e voltaria a ser simplesmente Dadá.

Mas o homem põe e Deus diz: “põe”. Merisvaldo botou. Botou no toco. Levou vários dias para derrubar a jaqueira, que tinha mais de vinte metros. Cortou na base, deixando apenas a parte inferior do tronco, de um metro mais ou menos. Dona Dadá se arrependeu, porque com aquele toco assim exposto, os seus vizinhos passaram a identificá-la como Dadá do Toco do Merisvaldo. A emenda foi pior do que o soneto.

Antes que o apelido se consolidasse e seu filho fosse chamado de Fon-Fon do Toco do Merisvaldo, dona Dadá pediu, por amor de Deus, que arrancassem aquele mondrongo. As raízes estavam tão profundamente enterradas, que o caseiro pediu ajuda do Rodolfinho, o sacristão. Depois de quinze dias, o toco foi extraído, deixando um enorme buraco. A canalha do bairro não duvidou em mudar o codinome pra Dadá do Buraco.

– Tapa o buraco – implorou ela ao Merisvaldo. Com seus dentes de jacaré expostos, ele trouxe carradas de entulho de umas reformas lá na Fábrica de Cerveja XPTO e fechou tudo direitinho. Os vizinhos, então, que nunca aceitaram a derrubada da jaqueira, passaram a chamá-la de Dadá do Buraco Tapado. Ela não podia nem freqüentar a banca de tacacá da dona Alvina, que gritavam seu apelido, deixando saudades dos tempos em que era apenas Dadá da Jaca.

Carequinha querido

Por que me lembrei disso? A memória é caprichosa, tem lá suas armadilhas, permitindo associações inimagináveis. Nesse feriado, quando vi a procissão na TV, a imagem da dona Dadá ficou bubuiando em minha cabeça. Juro que cheguei até sentir o cheiro da jaca. E isso porque na festa de Corpus Christi, durante muitos anos, era ela que colocava velas e flores no altar da igreja de Aparecida, enfeitava o tabernáculo e puxava o hino com sua voz gasguita: “Criaturas todas, a Jesus saudemos / Deus sacramentado / vinde e adore-emos”.

Dai recordei poema de Bertold Brecht. Um prisioneiro socialista com uma faca riscou letras enormes na parede da cela: VIVA LENIN! Guardas viram e mandaram um pintor apagar aquilo. Com um pincel o cara cobriu letra por letra com cal, o que destacou ainda mais as palavras. Aí mandaram um segundo pintor, que cobriu tudo com tinta escura, mas horas depois, quando secou, as letras teimosas apareceram em relevo. Chamaram então um pedreiro que, com uma talhadeira, cavou letra por letra, deixando gravada a inscrição invencível. “Agora, derrubem a parede” – disse o preso socialista.

O poema, hoje, ficaria ainda melhor se Brecht tivesse usado a palavra ‘Liberdade’ no lugar de ‘Lenin’. Mas olha só como a memória faz suas piruetas, permitindo que José Melo entre nessa história como Pilatos no Credo. É que me enviaram pela internet o recorte de um jornal de Humaitá (AM) dizendo que José Melo, ex-secretario do Eduardo Braga (PMDB – vixe, vixe!) estava sendo disputado para ser candidato a vice-governador na chapa de todos os prováveis candidatos. “Ele é o carequinha mais querido do Amazonas” – bajulava o jornal.

Ora, uma consulta ao Diário Oficial da União (p.124, 11/04/2002) mostra que houve desvio dos recursos da merenda escolar e que os recibos apresentados pelo Carequinha, referente à entrega de ovos para as escolas, em 1995, quando ele era secretário de educação, “apresentam fortes indícios de falsificação”. Por isso, José Melo ficou conhecido em todo o Amazonas como José Melo Merenda.

Ele, que na época da ditadura, trabalhou para a AESI e o SNI, agora está querendo derrubar a jaqueira, arrancar o toco, tapar o buraco e, se preciso, derrubar a parede para que esqueçam que ele é o José Melo Merenda. Inutilmente. A gente carrega a memória e a história da gente no próprio corpo, na nossa identidade. Cada tentativa de esconder, revela ainda mais. Eis o que eu queria dizer: José Melo Merenda é, sem dúvida alguma, a Dadá da Jaca da política amazonense

P.S. Ler também: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=434 (Zé Melo e outros bichos)

http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=372 (Os ovos do Melo: o omelete)

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11 Comentário(s)

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Beto Tadros comentou:
28/06/2010
Caro Babá, Como era boa a vida naquela época. Se fosse hoje, diriam que era BULLYING ( palavra inglesa que por mais que se queira não há tradução) Então a dona Dadá e o Fon-Fon seriam vítimas, os inventores dos apelidos, criminosos, os propagadores comparsas... Não podemos nos apavorar! o HOMEN está em busca da sociedade ideal. Corta a jaqueira, mata a raiz, tampa o buraco com entulho, fica sem o chá, o xaropé, a jaca. Então compra poupa de jaca congelada, xaropé manipulado e reforçado sintéti
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EDNEIDE QUEIROZ comentou:
16/06/2010
OI BABÁ TUDO BEM? SOU TUA FÃ SEMPRE QUE POSSO EU LEIO TUAS CRÕNICAS. SÓ PARA LEMBRAR TAMBÉM SOU FILHA DA DADA, MAIS Ñ É A DADA DA JACA E SIM A DADA QUEIROZ .
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Rachimbal comentou:
13/06/2010
Queira receber minhas felicitações pela acertada atualização do site. O Diário-Am, também,entrou com novo visual, facilitando a vida dos internautas. Espero que a máquina de escrever que deixei na portaria, quando estive no Rio, há dois mêses, tenha chegado em suas mãos em boas condições porque deixei de embalar, corretamente, para o transporte aéreo. Não encontrei fita (preto/verm.) nas papelarias
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Helena comentou:
09/06/2010
Lindo texto.Obrigada pela aula sobre o PUTCHIPU´U. Não sabemos nada sobre crenças, mitologia e práticas sóciopolíticas dos povos indígenas.Apesar da decepção que tem sido o Lula (não votarei nele, nem no PT) é inegável que ele tem um talento nato e intransferível para negociador.
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Clayton Luiz comentou:
08/06/2010
Seo JR. A nossa gente do Amazonas é como um coração de mãe. Sempre releva, perdoa e esquece as traquinagem dos "seos". Como tu mesmo diz: Vixe-vixe!! para o zé merenda, que alias te lembro, é fixinha na frente da assaltante de banco: Dilma Rousseff.
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Vania Tadros 2 comentou:
06/06/2010
(continuação) Por isso, no Amazonas, parece ser pré requisito para a escolha do vice o fato do político ter gastado inúmeras solas de sapato indo fazer denuncias no SNI. É como se os governadores precisasssem de um Cardeal Richelieu particular.
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Vania Tadros 2 comentou:
06/06/2010
(continuação) Por isso, no Amazonas, parece ser pré requisito para a escolha do vice o fato do político ter gastado inúmeras solas de sapato indo fazer denuncias no SNI. É como se os governadores precisasssem de um Cardeal Richelieu particular.
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Vânia Novoa Tadros 2 comentou:
06/06/2010
(continuação) Por isso, no Amazonas, parece ser pré requisito para a escolha do vice o fato do político ter gastado inúmeras solas de sapato indo fazer denuncias no SNI. É como se os governadores precisasssem de um Cardeal Richelieu particular.
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Anbonio Eduardo Maia de Souza comentou:
06/06/2010
Prezado Bessa, Parabéns mais uma vez pela crônica...,e quando sairá a do Aziz, comunista até a medula, digo, quando lhe convém, afinal o "home" gosta de comer criancinha.
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Ana comentou:
06/06/2010
Humm!! Deu água na boca!! Também senti um cheirinho de jaca que me levou ao passado. Um tempo que não volta, mas que está guardado na memória. Espero que os amazonenses não esqueçam os feitos do sr. Merenda!! Rsrsrs
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VÂNIA NOVOA TADROS comentou:
05/06/2010
BABÁ EU ESTAVA LENDO O TEU ARTIGO E PENSANDO: COMO ERA FORTE O PODER DA PRESSÃO SOCIAL SOBRE UMA PESSOA ÉM DÉCADAS PASSADAS! QUANTAS COISAS BOAS A DADÁ PERDEU SÓ PORQUE QUERIA AMAR O SENHOR OSVALDO. MAS SE ELA RESISTIU E CONTINUOU SE ENCONTRANDO COM O AMADO VALEU A PENA. ATUALMENTE, AS MULHERES AVANÇADAS LEVAM PARA CASA O HOMEM QUE QUEREM E NINGUÉM SE IMPORTA. DA MESMA MANEIRA, INFELIZMENTE, POUCAS PESSOAS AINDA CONDENAM QUEM FOI INFORMANTE DO SNI, É LAMENTÁVEL MAIS É VERDADE. POR ISSO, NO AMA
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