CRÔNICAS

KARÉ, O ÚLTIMO DOS JUMA

Em: 02 de Fevereiro de 1993
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"No domingo, o vigário disse missa e as índias cantaram o Tantum Ergo com harmonia não vulgar".
Alexandre Rodrigues Ferreira, enviado ao Brasil pela Coroa Portuguesa para fazer pesquisas de campo, percorreu vastas áreas da Amazônia de 1785 a 1792. Quando passou pela vila de Ega, hoje Tefé, registrou em seu diário de viagem a participação de índias de várias nações no ritual católico, entre elas mulheres do povo Juma.
Denominados também Yuma ou Arara, os Juma falam uma língua do tronco tupi-guarani da família linguística Kagwahiva. Habitavam um território no rio Purus, que segundo Euclides da Cunha, era "talvez a maior estrada por onde passavam e repassavam, há muitos séculos, as tribos mais remotas dos extremos do continente".
No século XVIII, os Juma somavam 12 a 15 mil índios. Muitos deles foram aprisionados pelas tropas portuguesas e levados para os "currais de índios" localizados nos rios Solimões e Negro, de onde eram "repartidos" para os colonos, os missionários e para o serviço compulsório da própria Coroa Portuguesa. Outros resistiram, lutando.
Duzentos anos depois, as índias não cantam mais o Tantum Ergo. Hoje, desesperadas, as únicas Juma sobreviventes, duas velhas que respondem pelos nomes de "Baru" e "Inté", cumprem todas as noites um ritual de lamentos em que combinam choro e canto dramático.
Em matéria publicada neste jornal A CRITICA domingo passado (24/01/93) e no Jornal do Brasil, o repórter Orlando Faria conta que o ataque de uma onça pintada, numa noite de lua cheia, em janeiro de 1992, decretou a extinção dos Juma, ao matar o índio Karé, de 35 anos, o único homem em condição de reproduzir. Os Juma ficaram reduzidos a três meninas de oito, dez e doze anos e a dois casais de velhos.
O massacre
Quem exterminou os Jumas, no entanto, não foi a onça pintada. Foi um animal muito mais feroz, burro, perigoso e predador.
O colonizador português iniciou o processo no século XVIII e os brasileiros continuaram nos dois séculos seguintes. As falas e mensagens dos presidentes da Província do Amazonas e os relatórios da Diretoria Geral dos Índios registram os seguidos massacres contra os índios do Purus, entre os quais os Juma, que resistiram bravamente durante dois séculos. 
Nos anos 1960, algumas dezenas de índios Juma sobreviviam no Igarapé da Onça, próximo a Tapauá.
- Eu morei perto da maloca daqueles índios desde 1907 e eles nunca mexeram comigo, nem com o meu pessoal. Sempre foram mansos e pacíficos. Depois de muitos anos, conheci os índios que sempre tive vontade de conhecer e aí ficamos amigos; quando eu ia visitá-los, eles me tratavam muito bem. Várias vezes foram me deixar lá na minha barraca - diz o sr. Luiz Chagas, morador de Tapauá.
No início de 1964, o comerciante Orlando França, com dinheiro arrecadado com outros comerciantes, organizou uma expedição sob o pretexto de que iam extrair sorva e castanha. Armados até os dentes, ele, Antônio Craveiro, Antônio Branco, Chico Lúcio, Raimundo Guimarães, Noel, Bernardo, Valdemir, um tal de "Soldado" e alguns outros invadiram o território dos Juma.
Quando chegaram na maloca dos índios, não havia ninguém lá. Tiraram sorva à vontade. Lá pelas quatro da tarde, quando os índios voltaram, foram recebidos à bala. Chico Lúcio, um dos atiradores, falou que eles mataram "para mais de 60 índios", segundo depoimento publicado no jornal Porantim, prestado por Luís Chagas, em junho de 1979 em Manaus, à jornalista Conceição Derzi.
Os sobreviventes
Os poucos sobreviventes, entre os quais o menino Karé, com seis anos de idade, e as mulheres "Baru" e "Inté" se refugiaram no igarapé Joari, afluente do Içuá. Em 1979, alertada pela denúncia do Porantim, a Polícia Federal abriu inquérito de número 056 para apurar e identificar os responsáveis pela chacina, que adquiriu contornos de genocídio. Derzi ficou no pé da Polícia Federal, mas o inquérito acabou dando no que sempre dá nesses casos: em nada.
Considerados por Helene Clastres como "os teólogos da floresta" por haverem construído um metadiscurso sobre sua própria religiosidade, os índios do grupo tupi-guarani viviam em constantes migrações em busca da Terra Sem Males. Os seus cantos e melodias entrecortados de frases não cantadas anunciavam a nova terra da promissão, cujo acesso era facilitado pela dança, que tornava o corpo mais leve.
As provações morais e as longas peregrinações representavam o tempo necessário para uma lenta mutação do espírito e do corpo, o que os tornava dignos e merecedores da Terra Sem Males.
Segundo a matéria de Orlando Farias, para se reencontrar com seus parentes assassinados, os Juma passaram a criar pássaros de todos os tipos, acreditando terem incorporados os espíritos de seus entes queridos. Karé, hoje, pode ser um gavião rei, voando para a Terra Sem Males. Enquanto isso, nós ficamos mais pobres. E impotentes.

.Foto publicada no portal do ISA - Instituto Socioambiental

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