CRÔNICAS

SAMUEL BENCHIMOL: UM POUCO-ANTES, ALÉM-DEPOIS

Em: 08 de Julho de 2002 Visualizações: 3658

.Numa crônica divertida, Nelson Rodrigues afirma que os ingleses não existem. A Inglaterra é, portanto, uma paisagem sem ingleses. O inglês, tal como o imaginamos - o gentleman de porte altivo, maneiras elegantes, dotado de sense of humour - é produto da nossa fantasia. Quem, então, mora na Inglaterra? São pessoas como os hooligans, aqueles torcedores violentos, estúpidos e bárbaros. Nelson Rodrigues abre uma exceção:

-  O único inglês da vida real, de fala mansa e sentimentos nobres, vive no Rio de Janeiro, é o escritor brasileiro Antônio Callado.

As exceções certamente seriam duas, se o cronista tivesse conhecido Samuel Benchimol, nascido ali, na rua Quintino Bocaiúva, em Manaus, no dia 13 de julho de 1923. Paraense por parte do pai, Isaac, cujo berço foi o barranco do rio Tapajós, e amazonense por parte da mãe, Nina, nascida em Tefé, esse canceriano honrou sua dupla identidade amazônica. Mas, apesar disso, continuou sendo um inglês legítimo, porque sóbrio, discreto, elegante, transpirando serenidade, polidez, delicadeza. Enfim, um lorde, de fino trato, com o seu "perfil de medalha, de moeda".

Essa imagem do professor Samuel Benchimol, que acaba de nos dar seu último adeus, ficou registrada em minha memória, desde a primeira vez que o vi, em 1977, quando voltei do exílio. Naquele momento, a Faculdade de Economia da Universidade do Amazonas organizava um ciclo de debates sobre a re-divisão territorial da Amazônia Legal. Compareci à palestra dele, crente que iria encontrar um "coronel de barranco". Surpreendi-me com um conferencista charmoso, dono de um estilo requintado que cativava a todos com um discurso fluente, idéias claras, argumentos sólidos, apoiados numa lógica cartesiana, bem costurada.

Nos mapas que usou na palestra, percorria cada paraná, cada igarapé, com a mesma facilidade com que descia o rio Abunã, onde passou sua infância. O público ficou hipnotizado. No final, mesmo discordando de algumas conclusões, saí com as convicções abaladas e com uma vontade danada de ler sobre a Amazônia. Aliás, essa foi uma de suas funções: provocar a vontade de saber, estimular a fome do conhecimento, desafiar a inteligência a decifrar os enigmas tropicais.

Ninguém pode entender, hoje, a Amazônia, desconhecendo a vasta obra do professor Samuel Benchimol. Apaixonado pela região, ele estudou a sua formação econômica, com destaque para o período histórico da borracha: o seringal, o seringueiro, o migrante nordestino, a geografia, o contexto cultural, além de discorrer sobre os polos de crescimento, a zona franca de Manaus, a política florestal e as estratégias de integração.

Os seus livros refletem uma formação acadêmica sólida, primeiro a graduação na Faculdade de Direito do Amazonas, em 1945, seguida de um mestrado em Ciências Sociais, numa universidade americana, em Oxford, no Estado de Ohio, onde ele conquistou uma bolsa de estudo. Mas revelam também sua experiência de vida, especialmente depois da crise da borracha, que arruinou a empresa de seu pai, até então um bem sucedido empresário, aviador de estivas, ligado aos seringais. É o próprio Benchimol quem conta, no primeiro capítulo de seu livro "Amazônia: um pouco-antes e além-depois":

"Foram anos de luta, de pobreza de miséria e de doença, que trouxeram para todos nós as marcas indeléveis da penúria. (...) Eu próprio, na minha infância, conheci a penúria e a doença".

Benchimol custeou seu curso de direito, trabalhando como despachante de bagagens da Panair do Brasil, no expediente da madrugada, de 3:00 às 6:00 horas. Foi aí que ele entrou em contato com os imigrantes nordestinos, que acabaram se transformando em tema do seu primeiro trabalho de pesquisa. Ele escreveu "O Cearense na Amazônia", em 1942/43, depois de realizar centenas de entrevistas, a bordo de gaiolas, chatas e motores, nos armazéns do Porto de Manaus, na hospedaria de Flores e até no Leprosário do Aleixo. Documentou histórias de vida e o drama dos nordestinos, "só comparável com o dos judeus, no seu êxodo, diáspora e perseguição milenária". 

Ele sabia do que estava falando. Conhecido e respeitado fora do Amazonas, Samuel Benchimol participou recentemente como co-autor de um livro organizado por Helena Lewin e editado pela UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, intitulado "Judaismo, Memória e Identidade". Seu artigo, bastante original, discute a situação dos "Judeus no Ciclo da Borracha".

A sua preocupação sempre foi desvendar a Amazônia, mesmo estando distanciado geograficamente dela. Sua dissertação de mestrado, escrita em inglês e defendida na universidade norte-americana em 1947, analisa o crescimento da cidade de Manaus no período pós-guerra, com um enfoque sociológico, ecológico e demográfico. Posteriormente, em 1953, escreveu a tese de doutorado "Ciclos de Negócios e Estabilidade Econômica - Contribuição ao Estudo da Conjuntura". Os gringos não pouparam elogios. "Ele possui uma mente analítica muito bem treinada", escreveu W. Cotrell, seu professor de Política e Sociologia.

Samuel Benchimol, empresário bem sucedido, professor universitário muito querido e admirado, foi, sobretudo, um organizador do conhecimento. Criou a Comissão de Documentação e Estudos da Amazônia (CEDEAM), da Universidade do Amazonas, da qual foi o primeiro coordenador. Mandou trazer de Portugal microfilmes de documentos de interesse para a história regional, existentes em arquivos de Lisboa, Porto, Évora e Coimbra, estimulando desta forma a pesquisa histórica. Contribuiu com recursos do próprio bolso para a realização desta tarefa, e isso numa época em que não havia leis permitindo abater do imposto de renda investimentos na cultura.

A notícia de sua morte nos chega pelo telefonema de um sobrinho, Amaro Júnior. Apesar de não ter tido o prazer de conviver com ele, nem de conhecer sua família, dói como se fosse uma perda pessoal. Não fui sequer seu aluno. Mas sou um permanente usuário de seus livros, com os quais estou em constante diálogo. Por isso, peço licença aos seus familiares para compartilhar com eles esse sentimento de luto. É que Benchimol já era um patrimônio da intelligentzia brasileira.

Decido interromper minhas atividades para prestar uma última homenagem ao mestre, formador de tantos discípulos. Sua partida não pode passar assim, em branco. Sua contribuição tem que ser lembrada pelas novas gerações. Infeliz do povo que não cultua a memória daqueles que souberam tão bem penetrar na alma coletiva para revelar sua identidade.

Ali onde existir um estudioso interessado na Amazônia, onde houver um leitor preocupado em pesquisá-la e entendê-la, ali o amazonense Samuel Benchimol - o "último inglês" - estará presente com seu largo sorriso, fertilizando o saber, um pouco-antes e além-depois, com suas idéias, seu charme, seu talento e sua paixão pelos estudos regionais.

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1 Comentário(s)

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elias salgado comentou:
23/11/2010
Caro Bessa, parabéns pelo brilhante artigo. Sou suspeito, pois, me considero uma espécie de discipulo aficcionado do saudoso Profº Benchimol. Te seremos eternamente gratos pela singela homenagem. Abs. Elias Salgado - Amazônia Judaica
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