CRÔNICAS

LÉVI-STRAUSS: TÃO PERTO DA AMAZÔNIA

Em: 30 de Novembro de 2008
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No auditório da Sorbonne não cabia mais uma agulha. Lotado até o tucupi. Renomados antropólogos em pé, sentados no chão, amontoados na porta, espalhados pelo corredor, disputando um lugar com os seus próprios alunos. Tinha gente pendurada no lustre. Eram assim os seminários de Claude Lévi-Strauss: um acontecimento, quase um espetáculo, para o qual era preciso chegar com duas horas de antecedência.

Assisti uma dessas aulas, em 1982, com Maurice Godelier – isso mesmo, Godelier, então com seus 50 anos – na platéia, sentado no chão. O antropólogo Patrice Bidou falou sobre os índios Tatuyo, do rio Vaupés e descreveu, com riqueza de detalhes, o trabalho duro e cansativo da roça e da fabricação de farinha de mandioca, exclusivo das mulheres. Foi quando Lévi-Strauss o interpelou:

- Se são as mulheres e não os homens que fazem o trabalho mais pesado, e se elas é que são as responsáveis por extrair a substância tóxica da mandioca, como é que você explica que não tenham ainda envenenado esses homens?

Foi essa provocação desconcertante e, aparentemente angelical, que permitiu discutir, naquela aula, a organização patriarcal dos Tatuyo, índios da Amazônia colombiana, cujos mitos legitimam o poder masculino. Mas a desigualdade de gênero, presente em narrativas míticas, já havia sido analisada por Lévi-Strauss em seus livros: Do mel às cinzas e A origem dos modos à mesa. Ele sugeriu que a divisão do trabalho por sexo constitui o embrião da sociedade de classes, ou seja, da exploração de homens por outros homens.

Lembrei-me dessa aula por causa da comemoração, anteontem, do aniversário de cem anos de Lévi-Strauss, que contou com leitura de trechos de sua obra por cem personalidades e com uma exposição de fotos de suas viagens, no Museu do Quai Branly, em Paris, aonde vive. No Brasil, jornais de circulação nacional, como O Globo e A Folha de SP, editaram cadernos especiais em sua homenagem, e a USP, aonde lecionou entre 1935-1938, festejou, promovendo um seminário sobre seu pensamento.

Pensamento selvagem

E na Amazônia? O que as universidades, os centros de pesquisa e a mídia fizeram para celebrar um dos maiores pensadores contemporâneos, que está tão perto de nós? Afinal, sua obra deu visibilidade à região. Ele estudou as culturas amazônicas, recolheu mais de 800 mitos ameríndios e equiparou os conhecimentos indígenas às mais altas reflexões da civilização ocidental, chamando atenção para a contribuição que os índios deram à humanidade com suas formas de pensar.

Seu grande mérito foi ‘abrir’ a cabeça dos índios para ‘ver’ o que tinha lá dentro. Gostou do que viu e comparou o pensamento indígena com o ocidental: “Uma das diferenças essenciais é a necessidade que temos de fragmentar. Dividimos a dificuldade para melhor resolvê-la. Já o pensamento indígena rejeita essa fragmentação: uma explicação só é válida desde que seja total. Quando queremos solucionar um problema, procuramos esta ou aquela disciplina científica, ou então o direito, a moral, a religião, a arte. Nos povos estudados pelos etnólogos, todos esses domínios estão ligados, constituindo um fato social total, que põe em questão, simultaneamente, todos esses aspectos”.

Lévi-Strauss desmontou os fundamentos metafísicos do colonialismo ocidental e, dessa forma, reinventou a antropologia – diz Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional. Acrescenta que com o livro O Pensamento Selvagem e os estudos sobre mitologias, seu autor “tirou o pensamento ameríndio do gueto em que jazia desde o século XVI e lhe deu carta de cidadania para ingressar com a cabeça erguida no futuro intelectual da espécie”.

A etnologia brasileira, avaliada por Lévi-Strauss como a melhor do mundo, confirma a atualidade do pensador francês, em livro recente - Lévi-Strauss: Leituras Brasileiras - organizado por Rubens Queiroz e Renarde Nobre, com a participação, entre outros, de Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha, Márcio Goldman e Tânia Stolze.

Sua importância aparece, ainda, no filme Lévi-Strauss auprès de l’Amazonie, de 52 minutos, realizado para a TV francesa por Marcelo Flores, um antropólogo brasileiro residente em Paris, que destaca o lado “profeta” do antropólogo, considerado um precursor dos ecologistas, por haver defendido, desde 1950, a diversidade, e por perceber que as terras indígenas constituem uma esperança para a Amazônia: “hoje, onde há índio, há floresta”.

Fofocas acadêmicas

Um bom livro para os não-iniciados conhecerem Lévi-Strauss - De Perto e de Longe – contém entrevistas feitas pelo jornalista Didier Eribon. Nele, o antropólogo, descontraído, fala de sua vida, da infância em Paris, do pai pintor, do bisavô violinista, de suas leituras de Dom Quixote por quem se apaixonou aos dez anos, da militância política, dos estudos, das viagens, dos amigos, dos alunos da USP, dos índios, das brigas, de suas andanças, de seu trabalho intelectual e das disputas acadêmicas: a tribo dos antropólogos vivia em guerra antropofágica, praticando o endocanibalismo. Ralph Linton e Ruth Benedict, por exemplo, se odiavam, um vivia falando mal do outro.

Pé-frio. Não sente com ele à mesma mesa. Quando residia em New York, em 1942, foi almoçar no restaurante com vários amigos. Sentou-se ao lado de Franz Boas - o grande mestre da antropologia americana. No meio da conversa, Boas caiu para trás, morto, em seus braços, na presença da própria filha. Outro antropólogo famoso, Alfred Kroeber, presidente da Associação Antropológica Americana, de passagem por Paris, em outubro de 1960, morreu no dia em que, acompanhado de sua mulher, ia jantar na casa dele, Lévi-Strauss, que conta isso com respeito, mas sem esconder certa dose de humor.

Merece destaque sua atitude em relação à ciência e à religião. Ele continua ateu, embora mais tolerante do que na juventude: “Mesmo continuando surdo às respostas religiosas, cada vez mais sou invadido pelo sentimento de que o cosmos e o lugar do homem no universo ultrapassam sempre nossa compreensão. Acontece que me dou melhor com os crentes do que com os racionalistas empedernidos. Pelo menos os que têm fé possuem o sentido do mistério. Um mistério que o pensamento parece incapaz de resolver. É preciso contentar-se com as mordidelas infatigáveis que o conhecimento científico dá em suas bordas”.

Narra, ainda, que fez concurso para o magistério. No dia em que soube o resultado, passou numa livraria e comprou um livro. De astrologia. Oh, surpresa! Um intelectual de seu porte lendo astrologia? Alguém imagina Einstein vendo telenovela? Lévi-Strauss estava se lixando. Ele explica: “Não que eu acreditasse em astrologia: peguei o livro, só para provar a mim mesmo que eu não havia perdido minha independência de espírito”. Confessou, em Tristes Trópicos, ter uma inteligência neolítica, que não se aproveita do saber adquirido: “Sou, antes, alguém que se desloca a uma fronteira sempre instável do conhecimento”.

Esse é Lévi-Strauss, o sábio mestre, provocador, instigante. Hoje, domingo, 30 de novembro, seu horóscopo diz: felicidade para os sagitarianos, sobretudo aqueles que, amantes de Dom Quixote, são antropólogos nos Andes ou em Paris. Escute sempre os conselhos de seu pai: flanando pelo Quartier Latin, plantando batatas em Sibayo ou bailando wititi em Chivay, reafirme sua vocação etnológica como um refúgio contra uma civilização e um século que querem nos roubar a esperança e nos emprenhar de melancolia.

P.S. – Um jornal do porte do Diário do Amazonas tinha de reverenciar, nessa data, um sábio tão importante para nós da Amazônia. Não tinha não?

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