CRÔNICAS

UM JOÃO CHAMADO BARBOSA

Em: 05 de Dezembro de 1995 Visualizações: 5011
UM JOÃO CHAMADO BARBOSA

Era um gozador, embora não tivesse motivos para achar a vida engraçada. Nascera no lugar errado: a Colônia Oliveira Machado, um viveiro de arigós pobres na periferia de Manaus. E no ano errado - 1914 - justamente quando o preço da borracha começou a despencar, aumentando a miséria nos seringais e cidades da Amazônia. A Primeira Guerra Mundial, prejudicando o seu abastecimento, trouxe mais fome para a região.

No final da guerra, a desnutrição e a gripe espanhola de 1919 mataram muitas pessoas em Manaus, entre as quais o agricultor Raymundo Barbosa. A viúva, dona Filomena, uma cearense de Quixeramobim, ficou na maior pindaíba. Comeu a mandioca que o diabo ralou. Alimentava os seus quatro filhos - João era o caçula - com chibé de farinha que, para não engasgar, era molhada com xarope de Bromil, distribuido gratuitamente pelo DNSP - Departamento Nacional de Saúde pública.

- Nunca uma propaganda foi tão verdadeira: Da horrivel tosse que me pôs febril, me salvei com um milagroso frasco de Bromil, filosofava ele, anos depois.

Dois irmãos não aguentaram. Morreram. Sobraram João e Raimundo. - "Onde pobre arma a rede, tem sempre uma goteira", dizia João, sem nenhuma amargura. Não era sequer uma queixa, apenas uma constatação. Logo depois, Dona Filó deixaria a Colônia para armar a sua rede e as dos órfãos, num casebre, localizado no terreno atrás do Colégio D. Bosco, propriedade do bispo de Manaus, que o cedeu em troca de serviços domésticos.

Neste período, João Barbosa, um dos sobreviventes, foi uma espécie de auxiliar de sacristão da igreja de São Sebastião, se é que sacristão tem auxiliar. O certo é que, com os padres capuchinhos, ele aprendeu o catecismo, o gosto pela literatura, um pouco de latim-de-missa e de italiano e a comer macarrão. Comida, para ele, era talharim. O resto era gororoba chinfrim.

Filho de viúva ficou, por isso, dispensado de servir o Exército. No início da década de 30, arranjou trabalho como balconista na Loja Leão, que ficava ali em frente ao Mercado Adolpho Lisboa. Como vendedor de tecidos, aprendeu a reconhecer um corte de casemira inglêsa, o linho HJ, o SS 120 irlandês e toda espécie de pano ou fazenda usada na confecção de roupa. Daí, foi ser vendedor na "Casa 22 Paulista", na rua da Instalação, onde continuou a desenvolver a arte da sedução.

Durante a Segunda Guerra Mundial, com a formação do "exército da borracha", gringos voltaram a passar por Manaus, reaquecendo o comércio local. O "turco" Jezini - uma figuraça - tinha uma loja de fazendas na rua Sete de Setembro, detrás da Matriz. Precisava de um vendedor experiente, bom de papo, que conhecesse tecidos e que dominasse línguas estrangeiras. João Barbosa apresentou-se como se fosse a personificação da própria ONU:

- Conheço o latim, falo o italiano, o espanhol e o francês e me viro em inglês.

Poliglota, foi contratado na hora. Dias depois, entra na loja o primeiro gringo. Era um francês. Chegara o momento do teste da verdade. O velho Jezini, esbaforido, chama:

- Minha bai do Céu! Babósa, Babósa, atende.

João Barbosa era capaz de ficar emitindo, durante dez minutos sem parar, um conjunto de sons parecidos com a língua francesa, com um impressionante sotaque de Jean Gabin. Não pensou duas vezes:

- Cachorrí, tré-jolí, gêné sépá, antandê-vu parlê françé, merci bôcu, népá dequá ...-  e continuou derramando um dicionário de palavras oxítonas, pronunciadas com muita segurança, impressionando a clientela.

O francês, embasbacado, é claro, retrucou qualquer coisa que Barbosa, é claro, decodificou a seu modo, respondendo no mesmo tom. Foi um tal de diga-lá, digo-eu, diga-você. O diálogo fantástico e surrealista prosseguiu por algum tempo, até que, visivelmente irritado, o francês vai embora, mas antes diz qualquer coisa do tipo:

- Merde, alors! Vous êtes complètement dingue!

O velho Jezini, que a tudo assistira, pergunta:

- O que é que ele queria, Babósa!

- Penico! Ele queria penico, seu Jezini! Merdaló em francês é penico. Eu expliquei que isso aqui era uma loja de tecidos. Que ele procurasse lá na Central de Ferragens.

Durante mais de dez anos, vendeu, em várias línguas, muito tecido para gringos na loja do Jezini, ninguém sabe como. Casou, teve filhos em série, anualmente, e no início da década de 1950 mudou de emprego, foi gastar o seu latim como cobrador do IAPC - o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários, onde também trabalhava seu irmão Raimundo. Numa das tantas greves, houve demissão em massa. Seu nome estava na lista. Desespero em casa. Ele, tranquilo:

- Isso não vai ficar assim não. O titio vai ficar furioso quando souber.

Ninguém sabia se falava sério, de gozação ou se estava delirando. De qualquer forma, escreveu mesmo uma carta a quem ele chamava de "titio": o senador Vitorino Freire, cacique político do Maranhão, com peso no cenário nacional. Queixou-se que havia sido demitido por perseguição política, pelo fato de ser sobrinho do senador. Assinou o nome completo: João Barbosa Freire. Recebeu resposta em papel timbrado do Senado, onde Vitorino informava que providências haviam sido tomadas, podia reassumir suas funções. Dito e feito. O alegado, porém controvertido parentesco, acabou funcionando. Ele foi reintegrado.

Morria de rir com essas coincidências. Quando a realidade era muito feia, injetava nela humor. Foi o que aconteceu na época dos longos períodos de carestia. Manaus dependia dos navios que atracavam no porto do Rodo. A cidade ficava, frequentemente, vários meses sem carne de gado e sem pão, deixando as donas de casa exasperadas. Uma tarde, ele estava jogando dominó, no bar do Armando, na esquina da Carolina com a Xavier, quando uma moradora nova do bairro - dona Bebé - se aproximou:

- Santo Deus! O que é que eu faço prá conseguir, pelo menos, um quilo de carne?

- Uns choram porque têm de menos, outros porque têm de mais, respondeu enigmático João Barbosa, enquanto embaralhava as pedras de dominó. Dona Bebé, curiosa, pediu mais explicações. Ele inventou na hora: seu filho mandara de Coari a metade de um boi. Sem geladeira, a carne poderia apodrecer. Que ela fosse lá, no número 38, e falasse com dona Elisa, sua mulher, para lhe vender uns quilos. Mas que gritasse, porque era um pouco surda.

Armou e ficou na esquina, com a curriola do dominó, vendo o circo pegar fogo. Pegou mesmo. Dona Elisa, coitada, num calor infernal, cuidando da casa e dos filhos, numa trabalheira doida, viu aquela mulher invadir sua casa como se fosse um açougue, pedindo aos berros carne, que ela - dona Elisa - não comia há meses. Quase sai porrada.

Eram brincadeiras ingênuas. A qualquer mulher jovem, cujo nome ele desconhecia, chamava de Beatriz, e engatilhava logo um versinho: "Beatriz, não foi feliz porque não quis". Um dia, vestiu a batina do seu cunhado padre e, para a alegria das moças, saiu pelo beco, confessando todas as beatrizes da rua. Foi uma festa. Às vêzes, convidava a comadre Sebastiana para um xaxado na Paraíba, e entrava no beco, cantando, com os filhos fazendo coro: "A, E, I, O, U, Ipisilone".

Nunca saiu de Manaus. Minto. Saiu uma única vez, quando conquistou o título de campeão de dominó do torneio do Apostolado da Oração. Ganhou uma passagem para Itacoatiara, onde deveria passar três dias, enfrentando os campeões locais. Chegando lá, não ficou nem duas horas. Pegou o primeiro barco de volta. Entrou em casa de madrugada, aos prantos, beijando filho por filho, em cada rede e dizendo:

- O papai nunca mais faz isso com vocês.

Parecia uma galinha chocando os seus pintinhos.Depois disso, só "viajou" através das leituras dos romances. Adorava "Os Miseráveis" de Victor Hugo, "O Ferreiro da Abadia" de Ponson du Terrail, e "Eurico, o Presbítero" de Herculano. Deixou como herança o gosto pela literatura e, sobretudo, a alegria de viver, que na verdade é mais do que um patrimônio familiar. É uma forma de resistência popular, contra o sofrimento cotidiano, do joão-ninguém, de tantos barbosas anônimos. Seu heroísmo está justamente na capacidade de arrancar o riso de qualquer situação, como barreira contra a infelicidade.

Ao contrário da Beatriz, João foi feliz, porque quis.

- Tou no lucro. Nasci nu e pobre, agora estou vestido e tenho 12 filhos - esse era o emblema singelo de sua felicidade. Eu sou um dos herdeiros, leitor (a) .

Walter Benjamin classifica os narradores em dois tipos: o "narrador marinheiro" que conta histórias daquilo que viu e viveu nas viagens que fez por mares nunca dantes navegados e o "narrador camponês", sedentário, que ganhou sua vida sem nunca sair do seu pequeno povoado, mas que conhece as histórias e tradições locais. João Barbosa era uma mistura dos dois tipos. Viajou muito através dos livros e da fantasia, sem se mexer do Bairro de Aparecida. Resolvi lembrá-lo porque hoje faz trinta anos que ele morreu num leito da Beneficente Portuguesa, em Manaus, contando para seu irmão Raimundo uma história engraçada, que ficou sem terminar. Morreu como viveu: narrando.

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3 Comentário(s)

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Lucinha comentou:
20/10/2014
Nossa...muito bom !!! Lembro demais do tio João e lembro ainda da vó Filó, acredita? Pois é, ele era muito brincalhão e sempre dava atenção para as crianças, coisa um pouco rara na época. Amei a crônica... A foto do Raymundo Barbosa está o próprio Tarcisio Meira
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Sigride henriques comentou:
27/02/2014
Li sua crônica José Bessa. Gostei muito!!! Mamãe vez em quando lembrava do tio João e falava mesmo q ele era muito brincalhão!!!! Bom conhecer um pouquinho da história na nossa família!!
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Augusto Jezini comentou:
19/03/2010
A história que menciona o Jezzini, por favor, teria como vc falar mais sobre ele, vc o conheceu, como ele era? desculpa eu esta fazendo estas perguntas mais ele era meu avô... muito grato.. e é uma bela obra literária... gostei muito de ler... Obrigado mesmo...
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