CRÔNICAS

Euler, o enxerido

Em: 22 de Janeiro de 1996 Visualizações: 881
Euler, o enxerido

O governador Gilberto Mestrinho não conseguia respirar direito. Entrou numa crise braba. O seu pulmão apitava como um fole. O fiel Pachequinho, seu secretário particular, saiu correndo alucinado pela rua e invadiu a primeira clínica que encontrou, ali pertinho, detrás do Palácio Rio Negro, denominada Prontoasma. Lá dentro, espantando moscas, um obscuro médico bocejava.

- Pelo amor de Deus!!! É uma emergência!!! O governador está se afogando!!! – gritou o leal Pachequinho, pingando nove pontos de exclamação.

Em menos de cinco minutos, o desconhecido médico enxeriu-se no Palácio e colocou o estetoscópio sobre o peito do ilustre doente:

- Diga trinta e três!

O governador resfolegou, produzindo no pulmão de fumante inveterado um eco que soou multiplicado por dois:

- Sessenta e seis!

O médico, então, diagnosticou doutoralmente:

- Dispnéia!

- Pinéia – disse o governador, ainda no embalo do diga lá, digo eu, diga você.

O doutor, que era competente, receitou umas nebulizações e aproveitou para vender umas doses de ar engarrafado, como fazia com todos os asmáticos. Desta forma, ele tornou-se o médico particular do governador. Daí, para ser Secretário de Saúde custou apenas algumas puxadas de saco. Sua nomeação saiu no Diário Oficial. Historicamente, Gilberto, o Boto, havia acabado de inventar o político Euler Ribeiro.

Superfaturamento

O diabo é que Euler acreditou na invenção e passou a agir como se ele, efetivamente, existisse. Como as outras pessoas também acreditaram, ele passou hegelianamente a existir. Mudou de vida. Leia no próximo parágrafo o que ele fez, segundo denúncia do seu colega médico Cláudio Chaves, publicadas em A Crítica (21/01/96):

“Euler vendeu para o Estado do Amazonas, superfaturada, uma casa em ruínas de sua propriedade, para que a Polícia Militar instalasse lá seu hospital pelo preço que daria para construir um moderno hospital de médio porte”.

Chaves, infelizmente, não apresentou cifras. Mas o fato efetivamente ocorreu. No final do seu segundo governo, Mestrinho adquiriu a clínica Prontoasma do Euler, que já era seu secretário de Saúde. A ex-deputada Beth Azize, que é uma fonte confiável, confirma:

Foi a maior malandragem que o Euler praticou em sua gestão”.

Na verdade, teríamos que fazer um concurso para avaliar qual foi mesmo a maior malandragem. Nomeado secretário de Saúde também no governo Amazonino Mendes – outra invenção fabricada do Mestrinho – Euler passou pau no dinheiro da saúde, construiu muros invisíveis, calçadas fantasmas e leitos que os hospitais jamais viram.

Seu colega Cláudio Chaves informa que “pelo mau uso do dinheiro do SUS, Euler Ribeiro teve suas contas rejeitadas pela auditoria do Ministério da Saúde e do Tribunal de Contas da União”.

No entanto, a maior irregularidade cometida pelo ex-vendedor de ar engarrafado foi aumentar de 3,5 mil para mais de dez mil o número de servidores da SESAU, contratando em massa cabos eleitorais, a maioria não entendia bulhufas de saúde, conforme denúncias da enfermeira Margarida Campos. Começou aí o desmantelamento do setor saúde, submetido a um processo tão violento quanto uma endoscopia feita pelo médico Edson Ritta Honorato Bernardino.

Com a ajuda e os votos dos cabos eleitorais pago com verbas desviadas da Saúde, Euler conseguiu eleger-se deputado federal em 1990 e reeleger-se em 1994, depois de conseguir mamata no Tribulins – denunciou Cláudio:

: Uma polpuda aposentadoria com tempo de serviço fraudulento, contado na cidade de Parintins (AM) quando residia em Belém (PA). Isso sem interstício no cargo, onde passou menos de um ano, quando o mínimo é cinco anos”.

Cláudio Chaves, que é oftalmologista e, portanto, enxerga longe, fala do que ele chama de “gang do Euler”, atuante na recente falcatrua envolvendo 114 prefeitos de cidades do interior. O deputado Belarmino Lins (PFL vixe vixe), que entende pra cacete dessas coisas, como usuário que é, engrossou a denúncia na maior moral:

- “Essa quadrilha terá de devolver aos prefeitos o dinheiro arrecadado”. (Tudo bem, Belão, neste caso estamos na mesma trincheira. Concordamos e abrimos um parêntese para cobrar: e os Lins, quando é que vão repor toda aquela grana aplicada irregularmente pelo Tribulins?).

Ministro da Saúde

Em sua conturbada trajetória, Euler Ribeiro descobriu que, mais lucrativo do que o fornecimento de ar engarrafado para asmáticos, era vender o próprio ar fora da garrafa para milhares de amazonenses. Por isso, ele saiu por aí com um ar de futuro ministro da Saúde, vendendo o ar para incautos compradores.

Nos governos Sarney, Collor e Itamar, o enxerido Euler desovou notinhas nos jornais de Manaus, competindo pelo espaço com Pauderney Avelino, anunciando que seu nome era cotadíssimo para ministro da Saúde, apesar de ter um currículo mais podre do que a carne apreendida na Feira do Bagaço. O próprio Mestrinho em algum momento acreditou ou fingiu acreditar que sua invenção amazonense podia ter projeção nacional. Euler chegou a dar entrevistas como futuro ministro da Saúde. Várias vezes foi dormir ministro e acordou suado-suado.

Qualquer outro se mancaria. Mas Euler é obstinado. Não desiste. Seu grande sonho é ser ministro. É uma obsessão compulsiva. Ele transfigura-se quando fala do tema. Agora mesmo está usando o cargo de relator da Reforma da Previdência como uma alavanca para derrubar Adib Jatene e ocupar o seu lugar.

-  O senhor está mesmo cotado para ministro da Saúde? - perguntou o repórter do Jornal Nacional com ar de gozador.

O deputado relator fez cara de estadista. Com a respiração ofegante, os olhos vidrados, Euler, o enxerido, confirmou escandalosamente:

- Tenho todas as qualificações para o cargo.

Ele está torcendo para Fernando Henrique Cardoso ter uma crise de asma. Mas Euler Ribeiro, o desconhecido vizinho do Palácio Rio Negro, será ministro da Saúde no dia em que o Penarol de Itacoatiara for campeão brasileiro de futebol. O resto é, como escreveu Beth Azize, puro enxerimento.

P.S. 1 – Este roteiro está baseado em ideia apresentada na coluna de Beth Azize, com argumentos de Rogélio Casado e Margarida Campos – ambos da área médica – recolhidos pelo jornalista Orlando Farias. Agradecemos a participação especial de Cláudio Chaves e do combativo companheiro de lutas, Belarmino Lins (PFL – vixe vixe).

P.S. 2 – Esta crônica, com publicação impressa em 1996, só foi digitada e postada no blog em março de 2020. A bem da verdade, é preciso dizer que Euler abandonou a política e hoje faz um trabalho sério na Universidade da Terceira Idade – segundo me informou o médico Renato Veras, da Uerj, em quem confio.  A crônica fica aqui como memória.

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