CRÔNICAS

Manaus: cadê a mamãe?

Em: 27 de Outubro de 2019 Visualizações: 623
Manaus: cadê a mamãe?

“Just this old sweet song / keeps Georgia on my mind” (Ray Charles, Georgia, 1960)

Na semana, muita água rolou debaixo da ponte. Fabrício Queiroz, o corrupto de estimação da família Bolsonaro, continuou achincalhando o Poder Judiciário e a Polícia, consciente da impunidade que goza. A lama negra e as pelotas sólidas de óleo se espalharam pelas praias do Nordeste. O Senado aprovou a (mal) dita reforma da Previdência. Os chilenos enfrentaram a repressão e nos deram lição de civismo. Na Espanha, os restos mortais do ditador Franco receberam o tratamento merecido. Esses temas nacionais e internacionais, apesar de tão relevantes, serão trocados aqui por assunto bem provinciano: o aniversário de 350 anos de Manaus celebrado na quinta, 24 de outubro.

– Por que escolher algo tão local? – pode perguntar o raro e incauto leitor, que não nasceu em Manaus e nunca ouviu meu primo Agnaldo da Silva, filho da tia Cantinília, cantar “I can’t stop loving you”, entoando a frase seguinte “I’ve made up my mind” que, no meu inglês macarrônico, eu escutava como “cadê a mamãe”. Esta balada bombou na Rádio Baré de Manaus, em 1962, e daí alcançou o 1º lugar nas paradas musicais do mundo inteiro, já na voz de Ray Charles, que – acreditem – fazia uma imitação impecável do meu primo. É impressionante como as duas vozes se parecem.

Constatei isso na semana passada quando vi o filme “Ray”, que conta a vida do músico. Perguntei em salas de aula na Uerj e na Unirio, onde eu ganho o pão com o suor do meu pobre cérebro, quem conhecia o cantor americano. Os alunos, quase todos “millennials” da geração Y, nascidos no final do século XX, não sabiam quem foi Ray Charles. Uma honrosa exceção: Marcelo Valente, da Unirio, confessou sua admiração pelo cantor, especialmente pela música “Georgia on my mind” (a mamãe, outra vez).

O berço de Manaus

E é aqui que entra Manaus num paralelo com Georgia, estado onde nasceu o genial pianista e cantor norte-americano Ray Charles, que encantou o mundo com sua música: blues, jazz, baladas românticas, música gospel. Ele morreu em 2004, aos 73 anos, mas sua arte é imortal. Deixou entre seus maiores sucessos uma canção escrita em 1930 por Stuart Gorrell para Georgia, irmã do coautor da música. É, portanto, originalmente, uma canção de amor para uma mulher. O estado de Geórgia, berço de Ray Charles, se apropriou dela e a adotou como seu hino oficial.

Ray Charles ficou cego aos sete anos de idade. Se eu fosse cego como Ray Charles, capaz de ver aquilo que o comum dos mortais não consegue perceber, se eu fosse cantor como o meu primo, se eu fosse músico e pianista, eu comporia uma música para Manaus em inglês ou em Nheengatu. Como não sou nada disso, mas apenas um confesso plagiador, faço um plágio descarado da letra original de Georgia: Manaus on my mind.

– O que te faz, Manaus, permanecer no meu pensamento é uma canção amorosa, que me ilumina como a luz do luar filtrada através das árvores. Só alcançarei a paz, ouvindo essa antiga canção de amor que mantém você dentro de mim. Outros braços me enlaçaram, outras cidades me atraíram, outros olhos sorriem com ternura para mim, mas nos meus sonhos, eu vejo a estrada ou o rio que me leva até você, Manaus –  diz a letra da música cantada por Ray Charles e por mim clonada. Ou plagiando o poeta Felix de Athayde que cantou sua Olinda natal: “Quando eu quero Manaus / não é lá que eu vou / Busco-a em mim mesmo / Onde Manaus eu sou”. Qual Manaus?

Durante mais de mil anos, os moradores da margem esquerda do rio Negro, próximo a sua foz, reverenciaram como sagrado aquele pedaço de chão. Lá, sucessivas gerações de índios enterraram seus mortos, dentro de igaçabas – um pote feito de barro cheiroso, com boca larga e bojo grande. Era lá, nesse templo a céu aberto, que celebravam as cerimônias religiosas, os ritos e as pajelanças, tocando flautas, dançando, cantando e rezando.

Esse lugar sagrado foi profanado pela primeira vez em 1542 por Francisco de Orellana e seus soldados espanhóis. Eles desciam, famintos, pelo rio Amazonas, quando viram uma povoação, com malocas imponentes, amplas e arejadas, ao lado do cemitério. Invadiram a aldeia, incendiaram as malocas, mataram muitos de seus moradores, saquearam as roças, roubando os alimentos que encontraram. Depois foram embora, deixando os índios chorando seus mais recentes mortos. 

Porto de Lenha

Os europeus retornaram muitas vezes, transitando pela área em viagens exploratórias ou em expedições para escravizar índios. Numa delas, os portugueses decidiram ficar. Foi lá, justamente, em cima do cemitério indígena, que o capitão Francisco da Mota Falcão começou a construir, em 1669, o Forte de São José do Rio Negro, um prédio quadrangular, de barro, madeira e taipa socada, combinado com paredes grossas de pedra, erguidas graças ao trabalho compulsório dos Baniwa, Baré e Passé.

O barro usado na construção militar foi retirado, ironicamente, dos potes destruídos e das sepulturas violadas do cemitério indígena. Camadas de entulho soterraram outras igaçabas nas profundezas do subsolo, como uma tentativa de apagar definitivamente da memória dos índios, dos mestiços e de seus descendentes qualquer lembrança da existência daquele lugar sagrado.

O forte, mal equipado, com quatro canhões enferrujados de calibre 1/3, funcionava como um « curral de índios », que ficavam aí aprisionados, para depois serem levados a Belém, como escravos. Pouco a pouco, casas de palha foram sendo construídas ao redor dele, formando um pequeno núcleo populacional denominado ´Lugar da Barra´. Foi ali que nasceu Manaus, naquela mistureba de cemitério indígena com quartel lusitano. 

Como amar uma cidade cuja origem é um forte construído pelos colonizadores lusos sobre um cemitério indígena e que hoje toma como modelo Miami?

Uma cidade é uma ânfora repleta de memórias contraditórias, individuais e coletivas. Manaus é também uma cidade onde os índios resistiram e continuam resistindo. Foi nessa cidade que, nos anos 1920, os trabalhadores se cotizaram, tostão a tostão, para ajudar a pagar os advogados dos imigrantes Sacco e Vanzetti, os dois operários anarquistas condenados à morte nos Estados Unidos. Foi ela que mais recentemente acolheu refugiados haitianos e venezuelanos, numa mostra de solidariedade internacionalista.

Manaus é plural. São tantas Manaus. Tem a cidade cantada por Waldick Soriano – “Adeus, Manaus, Adeus meu paraíso, minha vida”. Tem o hino criticamente amoroso de Aldizio Filgueiras e Torrinho: “Porto de lenha, tu nunca serás Liverpool, com uma cara sardenta e olhos azuis”. Essa sim, a nossa Georgia, como “Los Zapatos Viejos”, um poema que o colombiano Luís Carlos Lopez escreveu para sua cidade natal, Cartagena: “Te quiero como a mis zapatos viejos”, que deu origem a um monumento em bronze atrás do Castelo de San Felipe.

É isso ai. A gente gosta de Manaus como de um sapato velho, carregado de histórias, que percorreu muitos caminhos e não maltrata mais o pé. Tomei uma decisão: I’ve made up my mind. Cadê a mamãe? Só ela para explicar porque I can’t stop loving you, Manaus. O amor passa justamente pelo vínculo materno, que costurou essa relação amorosa com a cidade, numa infância perdida, nas brincadeiras pelos becos de Aparecida, pelos banhos de igarapé, nessa Manaus que se vai ou que se esvai, como quer Aldizio.

P.S. O clube carioca Vasco da Gama celebrou, na sua página do Instagram, os 350 anos de Manaus, que abriga a maior torcida vascaína do Brasil depois do Rio, para inveja dos flamenguistas, cujo time ganha do Grêmio, mas não conquista o coração dos manauaras.

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1 Comentário(s)

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Isabella Thiago de Mello comentou:
27/04/2020
Assim você me mata do coração! Bessa, meu padrinho querido! Tu que me viste nascer no exílio chileno, conhece a minha dupla cidadania chilena e brasileira, e que eu brasileira sou manauara, filha da floresta, da Lourdinha e do poeta Thiago de Mello, herdeira da Nação Sateré Maué. Na volta do exílio em 1977, papai fez questão de me registrar em Manaus... Foi quando feliz da vida, pela primeira vez comi tucumã, açaí, bacaba, caldeirada de tambaqui, pacú frito, e pirarucú de casaca feito pela avó Maria. Papai emocionado me levou em todas as casas que morou na infância e juventude: nas ruas Joaquim Nabuco, José Paranaguá, Quintino Bocaiúva, Costa Azevedo e Tefé... Também me mostro onde estudou antes de ir para o Rio de Janeiro estudar medicina, o Ginásio Pedro II, me levou para conhecer seu Alfredo, dono do restaurante Galo Carijó, ballet no Teatro Amazonas e o Encontro das Águas do Rio Negro com o Rio Solimões... E foi ali naquele lugar sagrado dos nossos antepassados que papai me contou a história do líder Ajuricaba da tribo dos Manaós, neto de Caboquena, um dos mais respeitados tuxauas das nações indígenas do Rio Negro, que em 1720, conseguiu reunir nas cabeceiras do rio Cauabori, milhares de índios de várias etnias dispostos a lutar contra a invasão branca. Quando em 1727 Ajuricaba foi aprisionado pelos capitães portugueses, durante a viagem lutou contra os soldados e se jogou no Rio, desaparecendo nas águas. Nunca mais foi visto. Reza a lenda que ele sobreviveu e subiu a floresta no caminho dos Incas... Hoje, com a mesma perseverança de Ajuricaba, estamos na luta para tombar as casas do poeta Thiago de Mello ( processo 1799 do IPHAN) que ele construiu na volta do exílio, no interior do Amazonas, na cidade de Barreirinha, em frente ao rio Paraná do Ramos, pertinho de Bom Socorro onde nasceu na fazenda de cacau de seu avô Gaudêncio. As casas são as únicas obras do arquiteto e urbanista Lúcio Costa na Amazônia. ( Lucio projetou Brasília com Niemayer) E fazendo este trabalho, fiquei sabendo pela filha do ilustre, também arquiteta Elisa Costa, que a avó de Lúcio, Dona Libânia, é nome de rua na capital amazonense pois foi a primeira professora pública de Manaus. Igualmente, a mãe de Lúcio Costa também virou nome de rua: prof. Alina Fereira no bairro do Japiim. Dos livros permita-me citar dois: " Manaus, Amor e Memória" de Thiago de Mello e " Manaus, História e Arquitetura" de Otoni Mesquita, também aluno apaixonado do professor José Ribamar Bessa Freire, este meu padrinho. Viva a Nação dos Manaós! Saudade, Bessa! Saudade!
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