CRÔNICAS

Manaus: cadê a mamãe?

Em: 27 de Outubro de 2019 Visualizações: 98
Manaus: cadê a mamãe?

“Just this old sweet song / keeps Georgia on my mind” (Ray Charles, Georgia, 1960)

Na semana, muita água rolou debaixo da ponte. Fabrício Queiroz, o corrupto de estimação da família Bolsonaro, continuou achincalhando o Poder Judiciário e a Polícia, consciente da impunidade que goza. A lama negra e as pelotas sólidas de óleo se espalharam pelas praias do Nordeste. O Senado aprovou a (mal) dita reforma da Previdência. Os chilenos enfrentaram a repressão e nos deram lição de civismo. Na Espanha, os restos mortais do ditador Franco receberam o tratamento merecido. Esses temas nacionais e internacionais, apesar de tão relevantes, serão trocados aqui por assunto bem provinciano: o aniversário de 350 anos de Manaus celebrado na quinta, 24 de outubro.

– Por que escolher algo tão local? – pode perguntar o raro e incauto leitor, que não nasceu em Manaus e nunca ouviu meu primo Agnaldo da Silva, filho da tia Cantinília, cantar “I can’t stop loving you”, entoando a frase seguinte “I’ve made up my mind” que, no meu inglês macarrônico, eu escutava como “cadê a mamãe”. Esta balada bombou na Rádio Baré de Manaus, em 1962, e daí alcançou o 1º lugar nas paradas musicais do mundo inteiro, já na voz de Ray Charles, que – acreditem – fazia uma imitação impecável do meu primo. É impressionante como as duas vozes se parecem.

Constatei isso na semana passada quando vi o filme “Ray”, que conta a vida do músico. Perguntei em salas de aula na Uerj e na Unirio, onde eu ganho o pão com o suor do meu pobre cérebro, quem conhecia o cantor americano. Os alunos, quase todos “millennials” da geração Y, nascidos no final do século XX, não sabiam quem foi Ray Charles. Uma honrosa exceção: Marcelo Valente, da Unirio, confessou sua admiração pelo cantor, especialmente pela música “Georgia on my mind” (a mamãe, outra vez).

O berço de Manaus

E é aqui que entra Manaus num paralelo com Georgia, estado onde nasceu o genial pianista e cantor norte-americano Ray Charles, que encantou o mundo com sua música: blues, jazz, baladas românticas, música gospel. Ele morreu em 2004, aos 73 anos, mas sua arte é imortal. Deixou entre seus maiores sucessos uma canção escrita em 1930 por Stuart Gorrell para Georgia, irmã do coautor da música. É, portanto, originalmente, uma canção de amor para uma mulher. O estado de Geórgia, berço de Ray Charles, se apropriou dela e a adotou como seu hino oficial.

Ray Charles ficou cego aos sete anos de idade. Se eu fosse cego como Ray Charles, capaz de ver aquilo que o comum dos mortais não consegue perceber, se eu fosse cantor como o meu primo, se eu fosse músico e pianista, eu comporia uma música para Manaus em inglês ou em Nheengatu. Como não sou nada disso, mas apenas um confesso plagiador, faço um plágio descarado da letra original de Georgia: Manaus on my mind.

– O que te faz, Manaus, permanecer no meu pensamento é uma canção amorosa, que me ilumina como a luz do luar filtrada através das árvores. Só alcançarei a paz, ouvindo essa antiga canção de amor que mantém você dentro de mim. Outros braços me enlaçaram, outras cidades me atraíram, outros olhos sorriem com ternura para mim, mas nos meus sonhos, eu vejo a estrada ou o rio que me leva até você, Manaus –  diz a letra da música cantada por Ray Charles e por mim clonada. Ou plagiando o poeta Felix de Athayde que cantou sua Olinda natal: “Quando eu quero Manaus / não é lá que eu vou / Busco-a em mim mesmo / Onde Manaus eu sou”. Qual Manaus?

Durante mais de mil anos, os moradores da margem esquerda do rio Negro, próximo a sua foz, reverenciaram como sagrado aquele pedaço de chão. Lá, sucessivas gerações de índios enterraram seus mortos, dentro de igaçabas – um pote feito de barro cheiroso, com boca larga e bojo grande. Era lá, nesse templo a céu aberto, que celebravam as cerimônias religiosas, os ritos e as pajelanças, tocando flautas, dançando, cantando e rezando.

Esse lugar sagrado foi profanado pela primeira vez em 1542 por Francisco de Orellana e seus soldados espanhóis. Eles desciam, famintos, pelo rio Amazonas, quando viram uma povoação, com malocas imponentes, amplas e arejadas, ao lado do cemitério. Invadiram a aldeia, incendiaram as malocas, mataram muitos de seus moradores, saquearam as roças, roubando os alimentos que encontraram. Depois foram embora, deixando os índios chorando seus mais recentes mortos. 

Porto de Lenha

Os europeus retornaram muitas vezes, transitando pela área em viagens exploratórias ou em expedições para escravizar índios. Numa delas, os portugueses decidiram ficar. Foi lá, justamente, em cima do cemitério indígena, que o capitão Francisco da Mota Falcão começou a construir, em 1669, o Forte de São José do Rio Negro, um prédio quadrangular, de barro, madeira e taipa socada, combinado com paredes grossas de pedra, erguidas graças ao trabalho compulsório dos Baniwa, Baré e Passé.

O barro usado na construção militar foi retirado, ironicamente, dos potes destruídos e das sepulturas violadas do cemitério indígena. Camadas de entulho soterraram outras igaçabas nas profundezas do subsolo, como uma tentativa de apagar definitivamente da memória dos índios, dos mestiços e de seus descendentes qualquer lembrança da existência daquele lugar sagrado.

O forte, mal equipado, com quatro canhões enferrujados de calibre 1/3, funcionava como um « curral de índios », que ficavam aí aprisionados, para depois serem levados a Belém, como escravos. Pouco a pouco, casas de palha foram sendo construídas ao redor dele, formando um pequeno núcleo populacional denominado ´Lugar da Barra´. Foi ali que nasceu Manaus, naquela mistureba de cemitério indígena com quartel lusitano. 

Como amar uma cidade cuja origem é um forte construído pelos colonizadores lusos sobre um cemitério indígena e que hoje toma como modelo Miami?

Uma cidade é uma ânfora repleta de memórias contraditórias, individuais e coletivas. Manaus é também uma cidade onde os índios resistiram e continuam resistindo. Foi nessa cidade que, nos anos 1920, os trabalhadores se cotizaram, tostão a tostão, para ajudar a pagar os advogados dos imigrantes Sacco e Vanzetti, os dois operários anarquistas condenados à morte nos Estados Unidos. Foi ela que mais recentemente acolheu refugiados haitianos e venezuelanos, numa mostra de solidariedade internacionalista.

Manaus é plural. São tantas Manaus. Tem a cidade cantada por Waldick Soriano – “Adeus, Manaus, Adeus meu paraíso, minha vida”. Tem o hino criticamente amoroso de Aldizio Filgueiras e Torrinho: “Porto de lenha, tu nunca serás Liverpool, com uma cara sardenta e olhos azuis”. Essa sim, a nossa Georgia, como “Los Zapatos Viejos”, um poema que o colombiano Luís Carlos Lopez escreveu para sua cidade natal, Cartagena: “Te quiero como a mis zapatos viejos”, que deu origem a um monumento em bronze atrás do Castelo de San Felipe.

É isso ai. A gente gosta de Manaus como de um sapato velho, carregado de histórias, que percorreu muitos caminhos e não maltrata mais o pé. Tomei uma decisão: I’ve made up my mind. Cadê a mamãe? Só ela para explicar porque I can’t stop loving you, Manaus. O amor passa justamente pelo vínculo materno, que costurou essa relação amorosa com a cidade, numa infância perdida, nas brincadeiras pelos becos de Aparecida, pelos banhos de igarapé, nessa Manaus que se vai ou que se esvai, como quer Aldizio.

P.S. O clube carioca Vasco da Gama celebrou, na sua página do Instagram, os 350 anos de Manaus, que abriga a maior torcida vascaína do Brasil depois do Rio, para inveja dos flamenguistas, cujo time ganha do Grêmio, mas não conquista o coração dos manauaras.

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