CRÔNICAS

O papa defuntos e a urna funerária

Em: 22 de Abril de 1996 Visualizações: 909
O papa defuntos e a urna funerária

"Nós que aqui estamos, por vós esperamos". 

Leitor@s possuem, felizmente, interesses variados, necessidades diversas. Entram num jornal como num supermercado, procurando seções, olhando prateleiras e escolhendo produtos. Muita gente pode até deixar de comer a feijoada ou a caldeirada do sábado, mas não perde o pão-pão queijo-queijo da coluna semanal da Beth Azize, que nos oferece sempre um quibe-quibe apimentado e explosivo.

Segunda-feira, há os que já vão direto para o texto de Ivânia Vieira, mergulhando nas águas do papo-cabeça-e-emoção da jornalista, comprometida com as lutas sociais. O último “O presidente é viril” vem impregnado de senso crítico.

Como é que vou saber porque o Paçoca foi expulso no jogo contra o Cliper, se não acompanho a “Bola ao Alto” do Marcos Santos, onde descubro, encantado, que o presidente do Princesa de Manacapuru se chama Holofernes e o técnico do Fast tem o apelido de Leguelé?  

Dizem-dizem, eu não sei, que certos leitores como a dama de preto e toda a Confraria do Quentinho procuram o Bazar do nosso Limongi, que de pura sacanagem, brincando, jura que “as paraenses tem canelas finas”, com um olho no leitor amazonense meio xenófobo e outro numa vizinha gostosona de Santarém.

Quer textos que te façam refletir sobre a vida, o mundo, o Amazonas, a política? Procura as colunas do José Seráfico, do Paulo Figueiredo, do Júlio Lopes, todos três martelo no prego, fio na agulha.

Quem precisar saber da piscina e da margarina opta – ora se! – pelo jornalismo no sangue, herdado do mestre Herculano Castro e Costa. As dondocas consumistas que se cuidem. Pode?

Aos domingos, uma unanimidade: a primeira coisa que o leitor amazonense faz é abrir o Baú Velho”, procurando encontrar lá dentro sua infância perdida povoada de heróis míticos ressuscitados semanalmente pela alquimia mágica do bruxo Carlos Zamith, com seus arquivos implacáveis.

Alguns raros leitor@s procuram correndinho o papaizinho aqui. Taquipra mim! Há gosto para tudo.

Requiescat in pace

Existe, no entanto, um leitor, cuja coluna predileta não é nenhuma das citadas. Quando ele abre este jornal, procura surpreendentemente, com uma mórbida sofreguidão, a página do obituário com as notas de falecimento. Esse se amarra num defunto.  Seu nome: Sildomar Abtibol, ex-jogador do Nacional, atualmente vereador na Câmara Municipal de Manaus.

Dizem-dizem não sei, que o Sildomar, pessoalmente, é gente boa. Fino no trato. Não faz mal a ninguém. Não pediu ressarcimentos médicos no recente escândalo. Não se locupletou com verbas públicas – me garante uma leitora. Portanto, as restrições a ele aqui assinaladas não são pessoais, nem éticas. São políticas. Ele é muito coerente no apoio irredutível e inarredável a qualquer prefeito, seja lá quem for o dito cujo. Quem estiver no poder - ontem Amazonino, hoje Eduardo Braga, amanhã Alfredo Nascimento? - pode contar com a fidelidade canina do Abtibol, ex-craque de futebol.

Além disso, seus métodos de abordar o eleitor não são – digamos assim – modernamente canônicos. Clientelismo puro. Alguns políticos, como Lupércio Ramos, distribuem cadeiras de roda e pererecas. O Joaquim Corado é capaz de fazer defunto votar. Outros vendem ilusões em sacolões. Para o nosso valente Sildomar sobrou, como estratégia para pescar votos, a distribuição de caixões, ataúdes, esquifes e féretros no Programa SOS FUNERAL. Daí seu interesse pela página do jornal que traz o registro de mortes.

Se desconfia que um eleitor em potencial está para bater o pacau e abotoar o paletó, Sildomar já começar a rondar a casa do enfermo, como um urubu pressentindo o cheiro de carniça. O futuro defunto treme, quando Sildomar, com um olhar agourento pergunta:

- Como vai a saúde?

Dizem que ele tem no computador uma lista com os nomes dos que estão com o pé-na-cova, prestes a subir o Boulevard Amazonas.

Na semana passada – me escreve um fiel leitor – morreu no bairro de São Francisco um cidadão chamado Cícero, pessoa humilde, desempregada, que não tinha onde cair vivo. Caiu morto no IML. A família, coitada, no maior desespero, baratinada, não sabia como fazer o enterro e ficou aliviada quando viu chegar o Sildomar. Ele deu os pêsames, enxugou uma lágrima furtiva e foi logo tirando do bolso uma fita métrica metálica, com a qual mediu o tamanho do defunto.

- É para adiantar os trabalhos. São as medidas para o caixão. Fique tranquilo, ouvi. Estou tratando de tudo, ouviu? Não se incomode, ouviu? – falou Sildomar, dando tapinhas no ombro de um membro da família enlutada que tinha idade para ser eleitor.

No velório, o cafezinho aguado que rolou, desacompanhado de bolachas, foi patrocínio do Abtibol. Com uma cara compungida, ele fazia seus cálculos: “Perdi um eleitor com o morto que vai, mas vou ganhar cinco com os familiares vivos que ficam”.

Papapinho vai, papapinho vem, o sobrinho do defunto comentou:

- Justiça seja feita! O Sildomar pode não fazer porra nenhuma na Câmara, mas caixão é com ele mesmo.

Clientela fúnebre

O sobrinho parece ter razão. Abtibol entende do riscado. Transformou o necrotério num palanque, a capela de velório numa tribuna, o cemitério num corpo-a-corpo com direito a comício e ainda misturou caixão com urna eleitoral, criando literalmente a urna funerária. Para todos os efeitos, familiares e amigos do falecido ficam acreditando que o enterro foi custeado pelo próprio bolso do Sildomar. A realidade, porém, é outra, segundo me escreveu o mesmo leitor:

- O Sildomar Abtibol tem um esquema montado com a funcionária da DELMUP, que libera grátis todo e qualquer enterro de indigente, mesmo que seja gente não-indigente.  Portanto, quem paga o enterro somos nós, os contribuintes, mas quem fatura é ele, que não gasta um centavo do seu bolso, nem para o cafezinho do velório. Em compensação, a tal funcionária já viajou seis vezes para Fortaleza com passagens doadas pela Prefeitura, conseguidas por intermediação do Sildomar.

A fúnebre clientela do nosso herói vem crescendo ultimamente, depois da nomeação do Alfredo Nascimento para a área de Saúde. O Cabo Pereira reduziu o número de servidoresnos Serviços de Pronto Atendimento (SPAs) dos bairros. Agora, lá, assistente social faz o papel de recepcionista, agente administrativo, trabalha como enfermeiro e sanitarista, limpa privada, etc. A diretora do SPA da Cidade Nova, Laíza Antonaccio, justificou tal aberração com esta pérola:

- “A meta é trabalhar com pouca gente para aumentar a remuneração, aproveitando as potencialidades em várias funções, uma espécie de rodízio”.

Laíza, Laíza! Bem que merecias um Taqui só pra ti, no qual eu me normearia Diretor do Rodízio no Amazonas e imaginaria as novas funções para ti, Laíza, e para alguns políticos manauaras.

P.S. Mudando de cal para capacete, comunico aos leitores dessa coluna que ela será interrompida por um espeço de tempo, que será o mais breve possível. Compromissos inadiáveis com duas universidades nas quais trabalho e a preparação de um doutorado, não me permitem continuar com a coluna, sob o risco de sofrer uma escoliose. Afinal, mereço – acho – umas férias. Os leitores também. Os corruptos e puxa-sacos de minha terra merecem uma trégua? Quem sabe? Mas não se rejubilem. Um dia, eu volto.

P.S. Que barbaridade! Foram 19 mortos, assassinados a sangue-frio pela Polícia Militar em Eldorado dos Carajás. Foi preciso esse crime para o boca-torta do Bamerindus, o banqueiro e pecuarista José Eduardo de Andrade Vieira deixar o Ministério da Agricultura. O MST instituiu o 17 de abril como Dia da Luta pela Reforma Agrária

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