CRÔNICAS

A VOLTA DOS KABOKOVES

Em: 20 de Setembro de 2009
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Quinta-feira, 17 de setembro de 2009. Ás 10 horas em ponto, o avião tupolev aterrissa no aeroporto de Domedovo, em Moscou. Na área do desembarque, o detetive Tarass Chevchenko levanta um cartaz onde se lê em português: “Comitiva de Eduardo Braga”. De repente, ele vê aparecer uma pança conhecida, empurrando um carrinho com malas. Grita: “Pajalsta”. A cabeça encima da pança se vira. É o deputado Átila Lins (PMDB–vichivsky, vichivsky). Os dois se abraçam e se dão tapinhas nas costas.

Velhos conhecidos, Átila e Chevchenko compartilharam, em 1991, a Expedição Kabokov I. Depois, em maio de 1997, participaram da Kabokov II, chefiada pelo então governador Amazonino Mendes (PTB – merdiev, merdiev), que realizou seu sonho de disputar o Torneio Internacional de Dominó da Federação Balalaika. Na ocasião, Amazonino ensinou aos russos novas modalidades de “passar gato”. Por lebre.  A coluna Taquiprati cobriu os dois eventos (ver arquivos *).  

Agora, no outono de 2009, entra em ação a Expedição Kabokov III, comandada por Dudu, o Terrível (PMDB, bostaiev, bostaiev), com um itinerário intrigante. A comitiva visita três países: Rússia, Mônaco e Vaticano. O que é que os kabokoves foram fazer na Europa? Por que escolheram, de um lado, o maior país, e de outro, os dois menores? Quais os benefícios que tal missão diplomática trará para o Amazonas? Essas são as perguntas feitas pelos pobres contribuintes amazonenses que financiam a expedição.

“Os kabokoves estão voltando”, grita a manchete do Pravda, que exibiu, ontem, a foto do chefe da comitiva, governador Dudu Braga, ladeado pelo deputado federal Átila Lins e por seu irmão Belarmino Lins (PMDB – bundarenka, bundarenka!), presidente da Assembléia Legislativa do Amazonas, todos sorridentes e cúmplices. Nenhum deles desconfia que o detetive Chevchenko, agente infiltrado, foi contratado pela organização Transparência Brasil para descobrir o que os kabokoves estão fazendo com o dinheiro público.

Picaretov Korruptchev

O faro do detetive Chevchenko levou-o a pensar que se tratava de uma missão cultural. Afinal, Chevchenko sabe que os russos estão doidos para publicar, em seu país, o livro “A História da Polícia Militar no Amazonas”, escrito por Berinho Braga, secretário de cultura. O livro, cujo título em russo é ‘Pazdravliaïu Vas’(literalmente, ‘Puxo o teu saco’) tem tudo para bombar e ser um best-seller no Kazakistão, em Manakapurukistão e no Kudomundistão. No entanto, Berinho, que não perde uma boquinha, está ausente da comitiva. Descartado, portanto, o objetivo cultural.  

Teria, então, a Expedição Kabokov III um objetivo econômico? Essa foi a segunda pista seguida pelo detetive. O Amazonas, como se sabe, não tem qualquer comércio com a Rússia. Mas o governador Eduardo Braga quer exportar para lá um pacote de produtos regionais: farinha de mandioca, polpa de cupuaçu, vinho de buriti, tacacá e ova de tambaqui, que é matéria prima para o caviar, além das medalhinhas de Santa Etelvina. O primeiro ministro Vladimir Vladimirovitch Putin desde o ano passado rejeitou o pacote, alegando que os russos, embora religiosos, não são devotos de Santa Etelvina.   

Se o objetivo não é cultural, nem econômico – pensou Tarass Chevchenko – que diabos esses kabokoves vieram fazer aqui? Turismo com o dinheiro público? Como? Se os kabokoves não visitaram o Kremlin, não rezaram na Catedral de São Basílio, não deram um passeio de canoa pelo rio Volga, não curtiram o Jardim Alexandre, nada daquilo que os turistas costumam fazer em Moscou... Além disso, se fosse para passear, a comitiva escolheria Paris, Praga, ilhas gregas e não o Mônaco e o Vaticano.

O detetive Tarass Chevchenko, desesperado, não conseguia descobrir o motivo da viagem. Colocou, então, uma câmara filmadora dentro da suíte dos irmãos Lins, no Hotel Eirunepevsky. Dessa forma, conseguiu documentar o encontro reservado de Átila, Belão e Dudu com o banqueiro da Chechênia, Picaretov Vassilinovich Korruptchev, interessado em importar do Amazonas o know-how e as técnicas do Jedem das Pharinen, mir das Pirationen, que trocado em miúdos quer dizer: farinha pouca, meu pirão primeiro. Trata-se de uma operação casada no eixo Moscou-Mônaco-Vaticano-Atalaia do Norte. Daí a participação de Belão.

Ladrão de Casaca

Belarmino Lins, o Belão, odeia índios e cabocos. Ele é o único caboquinho do mundo que jura ter origem teutônica. Por isso, em Miami, aonde vai com freqüência, ele se apresenta como Big Beautiful. Na Alemanha, terra dos seus pretensos ancestrais, faz questão de ser chamado de Grosse-Schön. Já nas colunas sociais do Pravda e do Izvestia, onde é figurinha carimbada, ele é conhecido como Bolitch Krassivyï.

O detetive descobriu que Belão e a comitiva da Expedição Kabokov III foram vender aos russos software de técnicas contábeis que permitiram desviar R$ 29 milhões, incluindo os R$ 18 milhões pagos pelo Governo do Estado do Amazonas à Pampulha Construções e Montagens Ltda. por obras-fantasmas no Alto Solimões. De quebra, os Lins arrumaram ainda três empregos para seus sobrinhos no Consulado Brasileiro em Petrogrado.

E o Mônaco? Por que colocaram Mônaco no roteiro da Expedição Kabokov III? Tarass Chevtchenko esclareceu tudo. Acontece que o Principado do Mônaco, embora seja o segundo menor país da Europa, com menos de 2 quilômetros quadrados, é um paraíso fiscal, sede de poderosas instituições financeiras. Está cheio de cassinos por todos os lados. Por isso, foi lá que Hitchcock filmou em 1954 o “Ladrão de Casaca”, com Grace Kelly e Cary Grant.

Restava ao detetive descobrir apenas o último elo do roteiro da Kabokov III – o Vaticano. – “Elementar, meu caro Watson” – disse Tarass Chevchenko em seu relatório para o Transparência Brasil. Na verdade, depois de pegar a baba dos russos, de depositá-la em bancos do Mônaco, a comitiva foi ao Vaticano para pedir perdão ao papa pelos crimes cometidos contra a população amazonense. Serviço completo. Fechou o circuito.

O Papa, que falará com Belão em alemão, vai perdoá-los? Não sabemos ainda, porque como a viagem não terminou, o relatório de Chevchenko para o Transparência Brasil não foi concluído. De qualquer forma, para não ser mais enganado, (e) leitor, entre no site do Transparência Brasil (http://www.transparencia.org.br/index.html), que está denunciando a falta de informações e descontroles de gastos públicos nas Assembléias Legislativas do País. Lá, a Assembléia do Amazonas, presidida por Belão, ganha lugar de destaque. Da svidania, leitor.

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