CRÔNICAS

A Universidade sem cultura?

Em: 22 de Março de 1996 Visualizações: 945
A Universidade sem cultura?

A Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro –EDUERJ – realizou ontem o lançamento do livro “Universidade sem cultura?” de Bill Readings (1960-1994), traduzido ao português por Ivo Barbieri. O autor é professor associado no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Montreal, Canadá, falecido tragicamente em recente desastre de avião aos 34 anos. O tradutor é professor titular e ex-reitor da UERJ. Vivo e produzindo, felizmente.

“O texto de Readings pode servir de ponta de lança, capaz de cutucar distraídos e provocar os já antenados na premência da questão universitária. Texto ousado e inovador, está solidamente ancorado nos princípios instituidores da Universidade e no conhecimento de suas transformações históricas” - esclarece Ivo Barbieri em sua apresentação.

Barbieri chama a atenção para o fato de que “não obstante o seu enfoque se concentrar no âmbito das universidades norte-americanas, o leitor verá que as indagações levantadas e os problemas abordados fazem parte do nosso cotidiano acadêmico”.

O autor discute num primeiro momento o conceito de cultura e a relação do Estado com a Universidade. Aborda a noção de “excelência” sempre presente no discurso acadêmico. Reflete sobre a reavaliação do ensino e o papel da pesquisa no capítulo “Responsabilidade versus Contabilidade” e, finalmente, discorre sobre “O Papel das Humanidades”.

Segundo Readings, falar da Universidade e do Estado é contar a história da emergência da noção de “cultura” que “deve ser entendida como uma maneira particular de lidar com as tensões entre essas duas instituições da modernidade”. Para ele, o apelo da “cultura” está sendo substituído pelo discurso da “excelência” nas universidades norte-americanas.

Irônico e bem-humorado, o professor canadense afirma no capítulo seguinte que a noção de “excelência” relacionada às universidades é tão vaga e tão genérica, que pode ser aplicada para qualquer departamento e qualquer atividade. Exemplifica: “Os docentes da universidade americana têm sido definidos como uma negligente associação de pessoas unidas pelo interesse comum de uma vaga no estacionamento. Assim, é muito significativo que o serviço de estacionamento da Universidade de Cornell tenha recentemente recebido o prêmio de “excelência em estacionamento”, O significado disso é ter sido efetuada, com notável nível de eficiência, a restrição de acesso para veículos motorizados.

O autor esclarece que, no caso, “excelência” pode significar apenas maiores facilidades para as pessoas, mediante o aumento do número disponível de vagas de estacionamento para professores e pode funcionar como critério de avaliação para qualquer coisa, já que não possui nenhum conteúdo.

“A Universidade deve produzir “excelência” nos conhecimentos e como tal ficará enleada nos circuitos do capital global e nas políticas transnacionais sem dificuldade. Isso porque não há conteúdo para a noção de “excelência” – ele escreve, assinalando mais adiante:

“Temos de admitir que a Universidade é uma instituição arruinada ao mesmo tempo que temos de repensar o que significa morar nessas ruínas sem recorrer à nostalgia romântica”.

No momento em que o reitor da Universidade Federal do Amazonas, Nelson Fraiji, com coragem e lucidez ataca o populismo de certos segmentos da instituição, a leitura do texto de Bill Readings pode contribuir para alimentar o debate sobre o papel da universidade não apenas na Amazônia. O seu livro “The University in Ruins” já foi editado em várias línguas, além do português: russo, chinês, francês, alemão, polonês, coreano... É uma leitura instigante para quem está interessado em discutir nos destinos de nossas instituições de ensino superior.

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