CRÔNICAS

DE VOLTA DO EXÍLIO, A PRISÃO

Em: 20 de Maio de 1996
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DE VOLTA DO EXÍLIO, A PRISÃO

 

 

Depois de haver perambulado mais de sete anos por vários países, onde vivi como exilado - Uruguai, Chile, Bolívia, Peru e França - voltei ao Brasil, mais precisamente a Manaus. Fiquei hospedado algumas semanas na casa da minha mãe, acompanhado de minha filha.
Um dia.de janeiro de 1977, eu estava deitado no sofá da sala, jiboiando, depois de comer um baião-de-dois com pacu frito e pimenta murupi. Era uma hora da tarde. Um fusca azul claro entrou no Beco da Bosta, fazendo barulho, com o cano de escape furado. Parecia um motor de popa. "Deve ser o João Camilo", disse minha mãe, deitada no sofá ao lado. Não! Não era o táxi do vizinho! O carro tinha chapa branca. Parou em frente de casa. De dentro dele, saíram dois caras parrudos. Um deles, com um marcante sotaque caipira do interior de São Paulo, perguntou por meu nome. Dona Elisa, com orgulho materno, involuntariamente entregou o ouro aos bandidos, apontando pra mim:
- É ele. É meu filho.
- Você está preso. Nós somos da Polícia Federal, me disse um dos caras.
- Tem ordem judicial? -  Eu gaguejei sem muita convicção.
- Não precisa. É coisa rápida. Rotina. Todo mundo que volta ao Brasil, do exílio, é interrogado.
Avisei que ia lá dentro, no quarto, vestir a camisa. Lembrei do jornalista Wladimir Herzog, assassinado numa prisão em São Paulo em 1975 e, por um breve momento, pensei em pular o muro do quintal da casa do 'seo' Tracajá, fugindo pela rua Gustavo Sampaio, no Bairro de Aparecida. Olhei minha filha, de dois anos, que brincava com um primo, e dona Elisa, pálida, prestes a empunhar sua arma de combate: um rosário. Criei coragem. Peguei a escova, pasta de dente e uma muda de roupa. Pedi para avisarem meu tio, que era juiz, e acompanhei os dois meganhas. Era minha sétima prisão, todas elas por motivos políticos.
Na Polícia Federal
A Polícia Federal funcionava num casarão da Joaquim Nabuco, em frente à Beneficente Portuguesa, na entrada da Ipixuna. Minha chegada lá deixou os agentes superexcitados. Afinal, não era todo dia que em Manaus se pegava um subversivo.
Um delegado careca, de lábios grossos e dente de ouro, me submeteu a um primeiro interrogatório, com perguntas, no mínimo, defasadas: quanto tempo eu havia vivido na Rússia, quando havia entrado no Partido Comunista, quem financiava o jornal Opinião (de quem eu havia sido correspondente em Paris) e outras baboseiras. Em janeiro de 1977, a Polícia Federal no Amazonas vivia ainda o clima da guerra fria do início dos anos 50.
Respondi, gozando sutilmente a cara do Careca: "Nunca fui a Moscou, mas se ganhasse uma bolsa de estudo, teria ido. Qual o problema? O Brasil mantém relações com a União Soviética". O Careca não gostou: "O garoto é folgado" - comentou mais tarde com o meu tio, que, solidário, tentava influir para, pelo menos, preservar minha integridade física.
Na realidade, eu ainda não estava com medo. Não que o pacu frito da dona Elisa tivesse me dado super poderes, mas porque uma avaliação da conjuntura me permitia manter certa serenidade. Tentava não perder a lucidez. Era o final do governo Geisel, com a tal da abertura lenta e gradual. A anistia ainda não havia sido conquistada, mas se lutava por ela, conforme noticiavam os jornais brasileiros, que começaram a divulgar notícias antes censuradas. O presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, pressionava as ditaduras latinoamericanas com sua política de direitos humanos.
Há meses não se conhecia nenhum caso de tortura a presos políticos. Por isso, decidi voltar do exílio, constituindo um advogado em São Paulo, Idibal Piveta, que entrou com ação no Superior Tribunal Federal e ganhou, obrigando o Consulado brasileiro no Peru a conceder-me um passaporte. Voltei ao Brasil, sabendo que seria preso, o que ocorreu efetivamente duas semanas depois de minha chegada a Manaus.
O interrogatório, de rotina, que devia ser jogo rápido, prolongava-se. As horas se passavam e eu era conduzido de uma sala para outra. Num desses deslocamentos, topo no corredor com um amigo de infância que trabalhava na PF: Flávio Tribuzzi. Não nos falamos, mas um simples olhar de simpatia, naquele contexto, reconfortava.
Uma bomba na capela
Começou a anoitecer, e então chegaram as informações de Brasília por telex. Com a respiração ofegante, surgiu outro policial mais graduado, apontando o dedo na minha cara e dizendo:
- Você é um terrorista!.
Aí, dirigiu-se a seus colegas, me apontando:
- Ele é capaz de explodir uma bomba numa capela onde uma freira estiver orando.
Juro que eu teria rido, se o medo não começasse a me invadir. O cara era uma anta juramentada. Mas tinha poder: - "Você está preso, incomunicável, até que sua ficha seja remetida do Rio", ele disse. Pensei que logo-logo a Polícia Federal do Amazonas ficaria sabendo da minha militância no MNR - Movimento Nacional Revolucionário, organização que antes de minha filiação havia preparado a guerrilha de Caparaó.
Colocaram-me numa camionete Ford, equipada com aparelho de rádio, escoltado por quatro policiais armados. Levaram-me para o quartel da Polícia Militar, em Petrópolis, onde me trancafiaram numa cela comum. Nessa cela, sem cama, dormi três noites no chão, ao lado de um buraco que servia de vaso sanitário. Depois, fui transferido para uma sala especial, de onde retiraram outro preso: o trabalhador gráfico Costa Novo, que matara sua mulher, num crime que abalou Manaus. Botaram, então, um policial armado, dando guarda permanente na porta.
Diariamente, eu era conduzido na camionete do quartel da PM para a sede da Polícia Federal, depois de zanzar por meia Manaus, com a sirene tocando. Os policiais usavam o rádio, tentando me intimidar:
- Câmbio! Agente xis informa que operação zê está correndo dentro da normalidade. Câmbio!
Algemas & capuz
Na sede da PF, os interrogatórios. Ninguém mais podia ser prejudicado com o que eu falasse agora, depois de oito anos, mas mesmo assim eu tomei minhas precauções. Câmbio. Neguei tudo. Câmbio.
No final da primeira semana, enquanto ouvia da minha cela a banda da PM ensaiar marchinhas de Carnaval - Bilu-bilu-bilu, bilu tetéia - entrou um policial magro, de bigodinho, com algemas, um capuz, um rolo de algodão, um pano preto e um chapéu. Me algemou. Perguntei:
- O que vão fazer comigo?
Ele respondeu:
- Não sei, mano velho. Tou cumprindo ordens.
Senti em sua voz quase um pedido de desculpas. Colocou algodão nos meus olhos, e amarrou sobre ela uma faixa preta. Botou algodão no meu ouvido e perguntou:
- Está me escutando?
Eu ouvi a pergunta com absoluta clareza, mas intuindo que iria precisar de minha audição, respondi:
- O quê?
Então, me encapuzaram e me levaram para um carro, estacionado dentro do quartel. Pelos ruídos, me pareceu claro que além do motorista havia um co-piloto no banco da frente. No banco de trás, alguém me obrigou a deitar, pressionando sua mão sobre o meu peito para impedir que eu levantasse.
O carro rodou cerca de uma hora, a princípio dentro da cidade, pois parava nos sinais e eu podia distinguir o ruído dos ônibus. Depois, correu livremente por uma pista asfaltada. Os homens não trocavam uma só palavra. Pararam num lugar, onde ouvi alguém pedir os documentos. Creio que eles se identificaram, porque o carro prosseguiu, trafegando agora por uma estrada não asfaltada. Como Manaus, na época, só tinha duas estradas, uma delas só de barro, pensei: "Deve ser a barreira da Manaus-Caracaraí. Se me tirarem de Manaus, longe da minha família, estou frito".
O carro rodou uma eternidade. Aí, então, eles tentaram me confundir: o carro pára meio enviesado, o motorista troca de lugar com o co-piloto, parece. O carro volta a correr e tenho a impressão de que estávamos voltando, o que ficou confirmado quando senti de novo, aliviado, o asfalto.
O interrogatório
Depois de vários quilômetros no asfalto, o carro parou. Descemos todos. Num silêncio insuportável, rompido apenas pelo barulho de uma serra elétrica - havia uma serraria nas cercanias - fui colocado no centro de uma roda e comecei a ser empurrado e jogado de um lado para o outro, como no jogo da cabra-cega. Caí várias vezes. Em seguida, me agarraram, e me colocaram dentro de um buraco, cavado no solo. Meia hora depois me retiraram, arrancaram o capuz, o algodão do ouvido, mas deixaram as algemas e os olhos vendados. Simularam um fuzilamento. Eu sabia que era simulação. Mesmo assim estava com muito medo. Mas resolvi demonstrar mais medo do que efetivamente sentia. Parece que eles ficaram satisfeitos, porque começaram o interrogatório.
Durante um tempo impossível de medir, fui interrogado por quatro pessoas, a quem não via, pois continuava com os olhos vendados. O primeiro queria saber do meu amigo, o poeta Thiago de Mello, também do MNR, e das atividades da organização no final da década de 60. O segundo, o que eu havia feito no exterior. O terceiro sobre o movimento estudantil. O quarto queria saber dos meus planos de vida e da minha opinião sobre a situação do país. Entre outras perguntas, indagaram o que eu achava das "simonetas", que haviam acabado de sair. A "simoneta", criada pelo ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, estava ligada a um imposto extra, escorchante, pago por todo mundo que colocava gasolina em seu carro.
Entre pergunta e pergunta, ameaçaram seqüestrar minha filha e minha mãe e prender minha mulher, quando ela retornasse ao Brasil. No final, já de noite, levaram-me para uma sala e tiraram a venda. Um foco de luz sobre minha cara não me impediu de ver as paredes brancas recem-pintadas e o piso de cerâmica vermelha São Caetano. Diante de mim, um cara encapuzado me fotografava. Voltaram a colocar a venda. Outra vez, um silêncio eterno, insuportável. 
- Liquida esse puto!
Colocaram um cano de revólver na minha cabeça e um deles disse:
- Liquida logo esse puto!
Foi o único momento em que senti realmente medo. Eu estava esgotado, com as resistências minadas. Desconfio, hoje, que estive numa unidade do Exército, na área da Ponta Negra. Outra vez me colocaram dentro de um carro. Pensava, angustiado: "Para onde vão me levar agora"? Rodamos um bom bocado até chegar ao nosso destino, que eu não sabia qual era. "Se o carro entrar, dobrar à direita e estacionar, é porque estou voltando à prisão", pensei. "Se eu subir um lance de escada e depois outro lance, não há dúvida, estou mesmo voltando para a prisão no quartel de Petrópolis". O carro entrou e dobrou à direita. Descemos. Subi um lance e depois mais outro.
Que alegria! Estava mesmo voltando à prisão. Quando tiraram o capuz e a venda, encontrei-me no quadrilátero que compartilhara com o Costa Novo. Lar Doce Lar! Cinco minutos depois, o dono de um colégio de Manaus, Orígenes Martins, meu ex-professor e compadre, conseguiu furar o bloqueio, porque conhecia o coronel Lustosa, comandante da PM. Veio com sua mulher - Berenice, e uma de suas filhas - Valéria, trazendo carinho e conforto. Viu ainda a marca das algemas nos meus pulsos e presenciou meu choro. Como foi reconfortante vê-lo ali, solidário.
A última semana passei incomunicável, sem ver ninguém, nem sequer os policiais. O Costa Novo havia deixando um livro de palavras cruzadas, já usado, lápis e borracha. Apaguei tudo e voltei a preenchê-lo várias vezes.
Amargo sorvete
Vinte e dois dias depois, o delegado careca apareceu:
- Você está livre. Desculpe o vexame. Nós nos limitamos a cumprir ordens.
Na saída, encontrei o meu amigo de infância, o fiel Geraldão, lealdade canina, me esperando na porta da Polícia Federal desde o primeiro dia. Diariamente ele dava plantão em frente ao prédio da PF, acenando quando eu entrava e quando saía. De vez em quando, usando suas prerrogativas de oficial da reserva (CPOR), me fazia chegar uma carteira de cigarros ou uma penca de bananas.
Nessas três semanas, quando minha filha perguntava por mim, falando um espanhol nem sempre compreendido pela família, diziam: "ele foi comprar sorvete". Por isso, caminhando agora pela Ramos Ferreira, Geraldão aconselhou:
- Compra um sorvete!
Comprei. De graviola, que ela gostava. Quando cheguei, ela estava sentada na janela que dá para a rua. Entreguei o sorvete, em silêncio. Ela me olhou, com uns olhos andinos tristes. Passou a mão pela minha cabeça várias vezes. Parecia uma velha. De repente, a ditadura invertera os papéis, transformando-me no filho órfão de minha própria filha. Seu olhar, condensando o sofrimento vivido, e seu gesto maternal, me deram a certeza de que uma vida toda não seria suficiente para digerir aquele sorvete de graviola.
Algumas sequelas ficaram. Às vezes, me acordo no meio da noite, aos berros. As bestas conseguiram me aterrorizar. Mas não conseguiram matar dentro de mim a convicção de que é possível e é necessário repartir melhor o pão e a alegria entre os brasileiros, entre os seres humanos. Renovo diariamente esta convicção aos meus alunos, para quem tento transmitir o horror a qualquer tipo de ditadura e o amor pela democracia e pela liberdade, que deve ser reconquistado, cotidianamente.
Acabei falando só sobre minha prisão em Manaus. Talvez, porque continue sentimentalmente aprisionado à cidade onde nasci, onde vivem as pessoas que amo.
P.S - José Ribamar Bessa Freire 06/05/2004 - Diário do Amazonas
Esse depoimento foi publicado pela jornalista Miriam Malina no Jornal do Norte, numa série intitulada "Torturados". Miriam, nasceu no bairro de Aparecida. Éramos vizinhos. Filha de Berlamino Marreiro, um velho militante comunista amazonense, ela viajou para Moscou, onde viveu cinco anos, estudando. Casou-se com Thomaz Meirelles Netto. De volta ao Brasil, foi brutalmente torturada e seu marido, Tomazinho, foi assassinado na prisão, tornando-se o único amazonense que figura na lista dos desaparecidos políticos. Transcrevo aqui um pequeno trecho do texto escrito por ela, na abertura do meu depoimento:
"Na segunda entrevista da série "Torturados", o jornalista Ribamar Bessa Freire, ex-militante do Movimento Nacional Revolucionário (MNR), conta, pela primeira vez, o que passou nas mãos do regime militar. Babá, como é chamado por seus ex-alunos da Universidade do Amazonas, somente agora, aos 48 anos, fala publicamente sobre as torturas que sofreu. Dividiu o que passou pelos cárceres com poucas pessoas mais íntimas: a família e o círculo fechado de amigos. Por pudor, sempre lhe pareceu indecente alardear o seu próprio sofrimento, quando tantos dos seus companheiros foram irreversivelmente torturados. Alguns até assassinados como Tomazinho, cuja morte ainda o emociona. Em 1992, quando os arquivos do DOPS-RJ tornaram-se públicos, ele encontrou, no relatório de um policial, detalhes sobre sua participação em reuniões fechadíssimas, em 1966; o registro de suas prisões, duas delas no Regimento Caetano de Farias e o depoimento, quando foi preso e espancado pelo temido delegado Mário Borges, que o acusou de haver incendiado um jeep da PM numa passeata no Rio. "Esse processo foi forjado dentro das dependências do DOPS", afirma.
"Toda a militância de Bessa se deu no Rio de Janeiro, onde estudou Jornalismo e Direito, no período de grande efervescência política: de 1965 a 1969. Foi presidente do Centro Acadêmico da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trabalhou em vários jornais - O Sol, O Paiz, Correio da Manhã e na agência de notícias Asapress. Participou de passeatas estudantis contra a ditadura e do movimento sindical dos jornalistas. Foi preso várias vezes, até entrar no MNR. Atualmente vive no Rio de Janeiro, de onde escreve semanalmente uma coluna para um jornal de Manaus".

 

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2 Comentário(s)

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José Ribamar Bessa (resposta a Daniel) comentou:
02/08/2010
Prezado Daniel, agradeço sua solidariedade, a mim e ao João Borborema. Esclareço, no entanto, que não participei de audiência de anistia em Rio Branco, nem em qualquer outra cidade, porque me recuso a pedir qualquer tipo de reparação pecuniária. Não condeno aqueles que pedem essa reparação, caso de meu irmão (a quem você viu no Acre) e tantos outros. Tb. não me sinto melhor do que quem pediu. Questão de foro íntimo: pessoalmente, não me sentiria bem fazendo esse tipo de cobrança.
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Daniel da Silva Klein comentou:
02/08/2010
Hoje, lendo o que se passou, sinto as dores de quem apanhou pelas mãos, várias e de pessoas que podem ser plenamente identificadas; vejo o quão presente são as chagas da ditadura nesse país. Vi sua audiência de anistia aqui em Rio Branco, Acre. Fui lá prestigiar seu João Borborema, comunista convicto que morou em Rio Branco e morreu dia desses. Ele foi barbaramente torturado por um homem (talvez aoutros tomaram parte) que vive tranquilo, com uma aposentadoria felpuda e perambulando pelas colunas
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